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FatedWays · Artigo

Como as nossas mágoas afetam a nossa saúde

O corpo lembra-se do que a mente tenta esquecer. Onde vive uma velha mágoa e sete dias para a deixar ir.

Antes de começares a ler, quero falar-te de um baralho que muitas vezes me lembra o quão profundas podem ser as feridas humanas. «O Oráculo do Mistério do Amor» fala do amor entre duas pessoas e também das desilusões, das palavras que ficaram por dizer, das velhas promessas e das cicatrizes que por vezes ficam no coração durante anos. Enquanto preparava este texto, voltei vezes sem conta às mensagens deste baralho, porque ele nos lembra constantemente que as maiores batalhas se travam muitas vezes com as memórias que guardamos.

Há muitos anos conheci uma senhora idosa que parecia carregar uma vida inteira aos ombros. Estava doente de uma forma que nenhum médico descreveria. Andava sem coxear, não tossia, raramente se queixava da saúde. E, ainda assim, algo nela parecia cansado. Os seus olhos eram bonitos, mas pareciam ter deixado há muito de esperar algo de bom do mundo. Sorria com delicadeza, falava com calma, mas quando a conversa se desviava por acaso para o passado, surgia-lhe na voz uma sombra quase impercetível.

Começou a contar-me a sua vida. Os amores que vieram e se foram. As amizades que o tempo espalhou. As pessoas que amou e em quem confiou. E enquanto a ouvia, fui reparando pouco a pouco em algo estranho. Fosse qual fosse o período da vida de que falava, voltava sempre a alguns momentos concretos: aqueles em que tinha sido magoada.

Lembrava-se das palavras com tanta nitidez que pareciam ainda ecoar à sua volta. Lembrava-se dos olhares que a tinham feito sentir-se pequena, dos silêncios que tinham doído mais do que qualquer insulto e das traições que um dia abalaram o seu mundo inteiro. Os anos tinham passado, as pessoas tinham envelhecido, algumas já tinham seguido o seu caminho, mas as memórias continuavam intactas. Na sua voz ouvia-se apenas o cansaço sereno de quem carregou algo pesado durante demasiado tempo, sem censura para com ninguém. Depois sorriu levemente, olhou pela janela para a rua e disse:

«Sabes, durante muito tempo acreditei que o tempo cura tudo. Depois percebi que o tempo só cura aquilo que estamos prontos para deixar ir.»

Estas palavras ficaram comigo muito tempo depois do nosso encontro. Porque todos temos histórias parecidas. Algures no fundo da memória guardamos a voz de alguém, a decisão de alguém, a ausência de alguém ou a injustiça de alguém. Às vezes julgamos tê-las esquecido. Seguimos em frente, construímos uma vida nova, conhecemos pessoas novas e enchemos os dias de incontáveis tarefas. Só que, algures por baixo da superfície, a mágoa continua a viver a sua própria vida. É silenciosa e paciente. Enroscou-se num canto da alma e espera pelo seu momento para se fazer lembrar.

Com os anos começa a acontecer algo ainda mais estranho. O que um dia foi apenas uma emoção torna-se, pouco a pouco, parte de nós. Algumas pessoas passam a viver com um peso constante no peito. Outras sentem tensão no estômago. Outras acordam cansadas sem saber porquê. Os medicamentos às vezes ajudam. Às vezes ajudam pouco. Porque há dores que começam muito mais fundo do que o corpo.

A mágoa é uma das formas de dor interior mais comuns e menos notadas. À primeira vista parece pequena: uma palavra, um olhar, um gesto que engolimos. Muitas vezes subestimamo-la e dizemos a nós mesmos que é só um sentimento que o tempo vai levar. E, no entanto, a mágoa é como um hóspede que nunca se vai embora: uma sombra que fica na alma e espera.

A ligação entre a mágoa e o corpo

Há anos eu acreditava que as mágoas viviam apenas na memória. Que ficavam algures entre as recordações e que, mais cedo ou mais tarde, o tempo as cobria como o pó cobre um livro velho. Depois comecei a observar as pessoas com mais atenção e percebi, pouco a pouco, que muitas das nossas dores vivem num lugar completamente diferente, longe de onde as procuramos.

Conheci mulheres que há anos tentam pôr a vida em ordem e cujo estômago continua a apertar-se sempre que ouvem um certo nome. Conheci homens que garantem ter perdoado há muito, mas cujo maxilar se contrai mal a conversa se aproxima por acaso da velha história. Conheci pessoas que dizem com segurança que o passado ficou para trás e depois passam noites em claro a conversar com sombras que há muito saíram da sua vida.

Foi então que comecei a perguntar-me se o corpo não saberá coisas que a mente tenta desesperadamente esquecer.

Porque a mágoa tem um hábito estranho. Raramente fica onde nasceu. Primeiro entra nos pensamentos. Depois começa a instalar-se nos sentimentos. E quando se demora o suficiente, começa a procurar casa também no corpo.

Algumas pessoas trazem-na no estômago. Vi como uma única história pode continuar durante anos a amargar por dentro. Como se a pessoa engolisse sem parar algo que nunca conseguiu digerir até ao fim. Cada injustiça, cada palavra calada e cada humilhação acumulam-se como pedrinhas pesadas no fundo de um poço. Um dia o poço começa a transbordar, e então o corpo começa a falar no lugar da alma.

Noutras pessoas a mágoa instala-se à volta do coração e, com o tempo, parece-se com aquele cansaço invisível que chega depois de anos de desilusões. Falo das pessoas que pouco a pouco deixam de acreditar no que há de bom nos outros, que se tornam mais cautelosas em cada nova relação e a quem confiar custa cada vez mais. Por fora parecem calmas e seguras, às vezes até frias, mas lá no fundo continuam a guardar velhas feridas. Raramente falam delas. Raramente as mostram. Com o tempo, essas feridas transformam-se em muros invisíveis entre elas e o mundo. De fora parece que escolheram a solidão ou a distância, e a verdade costuma ser muito mais simples: viveram demasiado tempo com uma dor que não conseguiram deixar para trás. Por trás dessa armadura bate muitas vezes um coração que carregou durante demasiado tempo as palavras e os atos dos outros.

Às vezes a mágoa esconde-se na garganta. É lá que vivem todas as conversas que nunca aconteceram. Todas as palavras que ensaiámos na cabeça durante anos. Todas as verdades que calámos para não magoar ninguém, para evitar um conflito ou simplesmente porque tínhamos medo. E quanto mais sentimentos por exprimir se juntam ali, mais a pessoa sente que carrega um fardo invisível.

As mágoas mais pesadas, porém, continuam a ser as que vêm das pessoas que mais amámos. Dos pais, dos companheiros, dos amigos e daqueles a quem confiámos as partes mais frágeis de nós. São precisamente estas as feridas que mais custam a sarar. Doem pelo que aconteceu, e ainda mais pela confiança que demos, pelas expectativas que tínhamos e pela sensação de que alguém chegou a um lugar da nossa alma onde muito poucos tinham entrado. Estas mágoas vão-se embora com dificuldade. Criam raízes. Entrelaçam-se na forma como olhamos o mundo. Na forma como confiamos. Na forma como amamos.

E talvez seja exatamente por isso que tantos ensinamentos antigos afirmam que toda a dor não perdoada acaba, mais cedo ou mais tarde, por procurar expressão através do corpo. O corpo tenta simplesmente mostrar-nos aquilo que há muito nos recusamos a ver. Às vezes uma dor persiste porque ainda não foi ouvida. Às vezes uma tensão fica porque continuamos a guardar uma história que terminou há muito lá fora, mas que ainda vive dentro de nós.

Se quiseres ouvir o que o teu corpo te está a tentar dizer, na sala «O Corpo» podes perguntar pelo lugar onde sentes aperto ou dor e ver a que história está ligado.

A mágoa e os centros energéticos

Os curandeiros de outros tempos acreditavam que o ser humano é muito mais do que um corpo. Viam nele uma rede delicada de correntes, memórias, sentimentos e forças que fluem sem parar umas através das outras, como rios subterrâneos. Para eles, cada alegria alarga essas correntes e cada dor estreita-as. Por isso viam a mágoa como um acontecimento que muda o movimento da energia na pessoa inteira.

Pensa no que acontece quando alguém te magoa profundamente. No primeiro instante, algo parece contrair-se no peito. A respiração muda. O olhar muda. O mundo perde por um momento as suas cores. Chamamos a isto emoção, mas os antigos diriam que nesse instante uma das portas interiores começou a fechar-se.

Na maioria das vezes, a primeira a reagir é a zona do coração. Não é por acaso que se diz: «Partiu-me o coração», «Tenho o coração pesado», «Não consigo ultrapassar isto». Estas expressões descrevem uma sensação interior muito real. Quando carregamos velhas mágoas, sobretudo em relação a pessoas que amámos, começamos pouco a pouco a proteger o coração. Tornamo-nos mais cautelosos. Mais desconfiados. Damos menos de nós. Esperamos menos dos outros. E, sem darmos por isso, passamos a viver atrás de muros que nós próprios construímos.

Com o tempo, a mágoa chega também à nossa voz. Quantas pessoas conheces que durante anos não disseram o que realmente sentem? Quantas vezes engolimos a nossa verdade para manter a paz, uma relação ou a aprovação de alguém? Todas essas palavras por dizer ficam algures dentro de nós. Simplesmente esperam. E às vezes a pessoa começa a perder a confiança para se afirmar, para se defender ou até para pedir aquilo que merece.

Mais fundo ainda, a mágoa toca o lugar que os antigos associavam à força pessoal. Primeiro, a pessoa zanga-se. Depois desilude-se. Depois começa a perguntar-se se ainda vale a pena lutar. Assim, pouco a pouco, perde parte do seu fogo interior. Deixa de acreditar em si como antes. Começa a ceder onde antes se teria mantido firme. E uma única ferida antiga começa, aos poucos, a decidir as suas escolhas durante anos.

As mágoas que vêm de uma pessoa amada são especialmente fortes. Entram nas camadas mais profundas da alma e começam a mudar a nossa capacidade de sentir alegria. A pessoa pode continuar a sorrir, a trabalhar, a ver os amigos, mas algures por dentro instala-se uma frieza. Uma parte dela ainda guarda a memória da dor.

Quando a ferida vem de alguém que amaste, na sala «Amor» podes ver o que dessa história ainda vive na forma como amas hoje.

As feridas mais fundas, no entanto, vêm da família. Dos pais. Da linhagem. Das pessoas que deviam ter sido o nosso porto seguro. Estas mágoas ficam muitas vezes escondidas durante décadas. A pessoa pode nem sequer falar delas. Mas continuam a viver dentro de si sob a forma de medos, insegurança e aquela sensação inexplicável de que o mundo não é um lugar totalmente seguro.

Para estas feridas há uma sala à parte: em «A Linhagem» podes ver o que te chegou da tua mãe, do teu pai e de quem veio antes deles.

Por isso os ensinamentos antigos sempre ligaram o perdão à cura. O perdão deixa ao outro a sua responsabilidade, e ao que aconteceu o seu peso. Limita-se a abrir de novo as portas interiores: no instante em que deixamos ir uma velha mágoa, a energia regressa onde há muito faltava. O coração começa a respirar mais livremente. A alma fica mais leve. E, pouco a pouco, a pessoa lembra-se de como é viver sem o peso constante do passado aos ombros.

A mágoa como laço energético

Às vezes as pessoas julgam ter deixado alguém para trás só porque não o veem há anos. A vida seguiu em frente. As moradas mudaram. Os números foram apagados. As fotografias foram arrumadas em caixas ou desapareceram há muito dos velhos álbuns. E, ainda assim, há momentos em que basta um nome para mudar o humor de um dia inteiro. Basta uma recordação casual para trazer de volta velhos sentimentos. Basta uma palavra para abrir a porta a uma dor que se julgava muito para trás.

Então começas a perceber que certas pessoas saem da nossa vida com muito mais dificuldade do que parece.

Porque os corpos podem separar-se. Os caminhos podem separar-se. Os anos podem amontoar-se entre duas pessoas como uma montanha inteira. Mas quando uma mágoa continua viva, entre elas continua a existir algo invisível.

Os ensinamentos antigos chamam a isto laço energético.

Imagina alguém que há anos carrega uma velha ferida. À primeira vista vive normalmente. Trabalha. Encontra-se com os amigos. Viaja. Ri-se. Mas algures dentro de si continua uma conversa que nunca terminou. Continua viva uma pergunta que nunca teve resposta. Continua a doer uma injustiça que nunca sarou. E sempre que os seus pensamentos voltam lá, recomeça sem dar por isso a reviver a mesma história.

Como se uma parte da sua alma tivesse ficado naquele dia antigo.

Como se o tempo tivesse passado para tudo o resto, menos para esta ferida.

Talvez seja por isso que quem carrega mágoas profundas se sente tantas vezes cansado sem perceber porquê. Põe energia no presente e, ao mesmo tempo, continua a alimentar o passado. Parte da sua força escoa-se sem parar para as velhas histórias, os velhos conflitos e as velhas dores. E quanto mais pensa nelas, mais vivo se torna o laço.

Vi pessoas passarem décadas a lutar contra alguém que há muito tinha saído da sua vida. Essa pessoa estava a centenas de quilómetros. Às vezes já tinha até morrido. Mas a mágoa continuava viva. E com ela continuava vivo também o laço.

É um dos poderes mais estranhos daquilo que não foi perdoado. Transforma o passado num companheiro constante. Faz-nos carregar pessoas que partiram há muito. Faz-nos travar batalhas que terminaram há muito. Faz-nos pagar com a energia de hoje acontecimentos que já não podem ser mudados.

Pouco a pouco a pessoa começa a sentir-se estagnada. As possibilidades estão lá e o caminho está aberto, só que uma parte demasiado grande da sua força ficou fechada naquilo que não conseguiu deixar ir.

E talvez seja exatamente por isso que o perdão é tão importante. O passado continua a ser o mesmo e os atos dos outros continuam a ser deles. O perdão corta o fio por onde, durante anos, a nossa força se foi escoando. No instante em que deixamos ir de verdade uma velha mágoa, libertamo-nos antes de mais a nós próprios. Recuperamos a parte da alma que viveu demasiado tempo no passado e deixamo-la, finalmente, voltar para casa.

Se sentes que te liga a alguém um fio que há anos não se rompe, na sala «O Karma» podes ver que laço é esse e o que ainda espera de ti.

O que podemos fazer

Depois de tudo isto, surge naturalmente uma pergunta.

Se a mágoa pode realmente ficar tanto tempo em nós, se pode tornar-se um fardo para o corpo, para a alma e para toda a nossa vida, o que fazemos com ela?

A verdade é que não existe nenhuma palavra mágica que apague de repente todas as feridas. Não há nenhuma manhã em que a pessoa simplesmente acorda e descobre que tudo desapareceu. Libertarmo-nos da mágoa é mais parecido com um regresso a nós próprios. Com uma conversa lenta com a parte de nós que esteve muito tempo sozinha com a sua dor.

O primeiro passo começa sempre pela honestidade.

Por estranho que pareça, muitas pessoas passam anos a tentar convencer-se de que não foram magoadas. Dizem a si mesmas que já não lhes importa. Que esqueceram. Que seguiram em frente. Mas toda a ferida que não é reconhecida continua a viver no escuro. Por isso a cura começa no momento em que a pessoa se atreve a dizer: «Sim, isto magoou-me. Sim, isto deixou uma marca em mim.»

Nesse instante acontece algo importante. A dor deixa de ser um inimigo que perseguimos ou de quem fugimos. Torna-se algo que estamos finalmente prontos para olhar nos olhos.

Depois vem a necessidade de a exprimir.

O que ficou por dizer procura sempre uma forma de ser ouvido. Às vezes isso acontece numa conversa com alguém em quem confiamos. Às vezes nas páginas de um velho caderno. Às vezes numa carta que nunca será enviada. A forma pouco importa. O importante é que os sentimentos deixem de viver fechados dentro de nós.

Muitas pessoas temem este momento. Temem que, se abrirem a velha ferida, ela as engula. A verdade é que uma dor para a qual olhámos deixa de governar a nossa vida a partir das sombras.

Com o tempo chega a parte mais difícil. O perdão.

O perdão verdadeiro, mais silencioso do que o perdão bonito e fácil de que às vezes lemos nos livros, chega muitas vezes devagar. Às vezes precisa de meses. Às vezes de anos. Porque é um presente para nós próprios.

Um dia percebemos que estamos cansados de carregar esta história. Cansados de pagar com a paz de hoje a dor de ontem. Cansados de dar espaço no coração a algo que terminou há muito.

Então começamos a deixar ir. Pouco a pouco.

Como quem apertou durante muito tempo uma pedra pesada na mão e decide, finalmente, pousá-la no chão.

O corpo também precisa desta libertação. Carregou a tensão durante tanto tempo que às vezes esqueceu o que é a leveza. Por isso o movimento é importante. Um passeio. A dança. A respiração profunda. O tempo na natureza. Tudo o que nos traz de volta ao momento presente e lembra ao corpo que a batalha terminou.

E às vezes a alma precisa também de um fim simbólico. Precisa de um momento para fechar a porta atrás de si.

Podemos então escrever numa folha tudo o que ainda pesa no coração. Todas as palavras. Todas as desilusões. Todos os nomes. Depois acender uma vela e deixar que o fogo leve o que está escrito. Às vezes a alma humana precisa de um sinal visível de que está pronta para seguir em frente, e a chama dá-lho.

Para este momento há no Jogo uma sala própria: em «Deixar ir» dás nome ao que deixas para trás e ouves o que as cartas dizem sobre isso.

E talvez seja esta a coisa mais importante a lembrar. Libertarmo-nos da mágoa é um caminho. Às vezes vai parecer-nos que chegámos ao fim, e depois vamos encontrar uma nova camada de dor à espera de ser curada. Mas a cada passo o fardo fica mais leve. A respiração, mais livre. O coração começa a abrir-se de novo.

E um dia olhamos para trás e percebemos que a história ainda existe, mas dói de uma forma completamente diferente. Então sabemos que a parte mais difícil ficou para trás e que a vida voltou a fluir.

Prática

Sete dias rumo à libertação

Se leste até aqui, provavelmente já percebeste algo importante. A mágoa é muito mais do que uma memória ou um mau dia do passado que um dia se apagará sozinho. É como um hóspede que convidámos por pouco tempo e que, anos depois, descobrimos ainda a viver em nossa casa. Às vezes habituámo-nos tanto à sua presença que deixamos de a notar. Torna-se parte do nosso dia a dia, das nossas reações, da forma como olhamos as pessoas e o mundo. É justamente por isso que libertarmo-nos dela raramente acontece num só dia. É um processo. Às vezes lento, às vezes difícil, mas que vale sempre a pena.

Primeiro dia

A honestidade

No primeiro dia, permite-te simplesmente ser honesto(a) contigo. Procura um lugar tranquilo, pega numa folha e faz a ti mesmo(a) uma única pergunta: «Quem continua a viver nos meus pensamentos através da dor que me causou?» Não precisas de procurar a resposta certa. Não precisas de soar espiritual, sábio(a) ou forte. Escreve apenas os nomes, os rostos ou as memórias que vierem à tona. Muitas pessoas passam anos a convencer-se de que perdoaram, enquanto lá no fundo continuam a guardar a mesma ferida. A verdadeira cura começa no instante em que somos honestos.

Segundo dia

O corpo

No dia seguinte, presta atenção ao teu corpo. É curioso como a alma fala tantas vezes através dele. Há quem sinta a mágoa como um peso no peito. Outros como um nó na garganta. Outros como tensão no estômago. Observa-te ao longo do dia e, sempre que surgir o pensamento da velha dor, repara em como o teu corpo reage. À noite, senta-te com calma, fecha os olhos e fica simplesmente com essa sensação. Deixa-a como está. Deixa-a estar ali. Apenas observa. Às vezes o primeiro passo para a libertação é deixar de fugir.

Se quiseres ir mais longe, em «O Tapping» dás as tuas próprias palavras a esta sensação, marcas a sua força de 0 a 10 e, depois da ronda, vês como o número muda.

Terceiro dia

As palavras por dizer

O terceiro dia é o dia das palavras por dizer. Ao longo dos anos, muitos de nós tivemos inúmeras conversas dentro da própria cabeça. Dissemos a nós mesmos o que devíamos ter dito. Como nos devíamos ter defendido. Como devíamos ter respondido. Pega numa folha e escreve tudo isso. Esquece a gramática, o estilo e a pergunta sobre se está certo. Escreve como fala o teu coração. Ninguém precisa de ler. Só importa que aquilo que viveu tanto tempo dentro de ti encontre, finalmente, uma saída.

Quarto dia

O perdão

O quarto dia é dedicado ao perdão. Ao verdadeiro, ao silencioso, longe da versão idealizada de que tanto se fala. O perdão verdadeiro raramente chega como uma revelação súbita. Mais vezes parece-se com uma decisão que tomamos uma e outra vez. A decisão de deixar que a velha dor deixe de conduzir a nossa vida de hoje. A decisão de deixar de pagar com o presente aquilo que aconteceu no passado. Às vezes esta decisão chega em silêncio, quase sem darmos por ela, e é precisamente ela que começa a soltar as correntes que carregámos durante tanto tempo.

E se uma memória volta uma e outra vez, em «A Cena» podes entrar de novo naquele dia e escrever-lhe outro final.

Quinto dia

O movimento

No quinto dia, oferece movimento ao teu corpo. Sai para um passeio longo. Caminha entre árvores. Dança, se te apetecer. Faz exercício ou caminha simplesmente até sentires a tensão começar a dissolver-se aos poucos. O corpo foi feito para se mover, respirar e viver. Quanto mais movimento há em nós, mais difícil é para uma emoção estagnada ficar no mesmo lugar.

Sexto dia

O fogo

O sexto dia pode tornar-se um pequeno ritual de libertação. Escreve numa folha tudo o que já não queres levar contigo. Todas as desilusões, todas as palavras que ainda doem, todas as memórias que continuam a roubar-te força. Depois queima a folha e fica alguns minutos junto à chama. A alma humana precisa de símbolos, e às vezes é precisamente um símbolo assim que ajuda a consciência a perceber que chegou a hora de fechar uma porta.

Sétimo dia

O regresso

O sétimo dia é o dia do regresso a ti. Senta-te num lugar tranquilo e imagina todas as partes de ti que ficaram tanto tempo fechadas no passado a começarem a voltar. Imagina a força que deste às velhas histórias a voltar a ser tua. Imagina o espaço ocupado pela mágoa a encher-se, pouco a pouco, de paz. Depois escreve algumas coisas pelas quais sentes gratidão. A gratidão tem a curiosa capacidade de trazer a nossa atenção de volta à vida que está a acontecer aqui e agora.

Depois destes sete dias, talvez não tenhas esquecido tudo. Provavelmente algumas feridas ainda vão precisar de tempo. Mas vais reparar em algo importante. A mágoa terá saído do centro da tua vida: apenas um capítulo da tua história, enquanto a vida continua a escrever-se.

Com o tempo, a pessoa começa a reparar em algo curioso. A história não desapareceu. A memória também não. Se voltar a ela, ainda pode sentir tristeza ou pena. Mas já não tem aquela sensação de viver dentro do que aconteceu. O passado ficou onde é o seu lugar: para trás. E talvez seja precisamente então que percebe que o perdão foi uma forma de seguir, finalmente, o seu próprio caminho, sem o fardo que carregou durante tanto tempo.

O que vem a seguir

Para onde ir agora

Cada passo deste artigo tem a sua própria sala no Jogo da Alma. Entra onde te leva a dor de hoje:

Se quiseres ver a tua mágoa através das cartas, a tiragem já está pronta:

Tiragem de Tarô «Como deixar ir uma mágoa»

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Este artigo fala do mundo interior. Quando o corpo dói, a consulta com um médico anda de mãos dadas com o trabalho interior.

✦ Troca de energia ✦

O Universo ouve o que dás

Tudo o que fazes de coração — uma palavra, um gesto, uma doação — volta. Não amanhã, não na próxima semana, mas no momento em que se tiver acumulado o suficiente. Se estas palavras chegaram até ti, se algo nelas reconheceu algo em ti, não é por acaso. E se sentires vontade de devolver um pouco desta energia, qualquer quantia é recebida com gratidão e transforma-se em novos conteúdos, novas tiragens, novas palavras que vão chegar a alguém que precisa delas mesmo na hora certa. É assim que o círculo continua a girar.

✦ Doar com gratidão ✦

A conversa

Escrito por

Vanya Vuchkova

taróloga e quiromante, criadora do FatedWays

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