Abre o teu processo kármico e descobre que história esquecida pode ter importância para a tua vida de hoje.
Recebes uma carta enviada há mais de duzentos anos. O envelope amareleceu, o selo de lacre está quase intacto e o mais estranho é que nele estão escritos o teu nome e a data de hoje. Abre-la e encontras uma mensagem curta: «O seu processo kármico foi encontrado. Foram conservadas doze marcas. Uma delas espera ser reconhecida.»
Confesso que uma correspondência assim despertaria de imediato a minha curiosidade. Sobretudo se o remetente se revelasse um amado de há três séculos que finalmente decidiu explicar porque desapareceu sem se despedir. Embora, pensando bem, duzentos anos para responder a uma carta sejam um atraso bastante sério, mesmo para o homem mais indeciso.
Já te perguntaste porque certos lugares, pessoas ou objetos despertam em ti sentimentos que tens dificuldade em explicar? Podes visitar uma cidade desconhecida e, logo no primeiro passeio, sentir a estranha sensação de que já lá viveste. Encontrar uma pessoa com quem a conversa flui de forma tão natural que parece que estão simplesmente a continuar algo começado há muito tempo. Ou sonhar com a mesma casa, a mesma rua ou um rosto desconhecido que, depois de acordares, continua a ocupar os teus pensamentos.
No artigo «O processo kármico — as sete pastas da alma» espreitámos um arquivo imaginário onde se guardam histórias de velhas promessas, encontros inexplicáveis, enredos de vida que se repetem e capacidades que parecem esperar que nos lembremos delas. Vimos como as ideias sobre a reencarnação ligam experiências deste tipo às vidas passadas e como as mesmas perguntas nos podem ajudar a compreender melhor os nossos sentimentos e as nossas escolhas de hoje. E agora quero convidar-te a abrir o teu próprio processo, porque tenho curiosidade em saber que marca vai chamar a tua atenção e que história vais descobrir por trás dela.
Ler o artigo «O processo kármico»
Preparei doze imagens misteriosas, inspiradas em diferentes épocas, destinos humanos e símbolos. Cada imagem esconde a sua própria história, mas só vais conhecer o seu significado depois de a escolheres. Pode ser que o teu olhar pouse logo numa delas, que outra desperte uma emoção inexplicável e que uma terceira te pareça tão familiar que queiras saber mais. Deixa que a curiosidade te guie e repara em que imagem te atrai com mais força, porque a razão provavelmente vai querer primeiro examinar todos os documentos, verificar a autenticidade dos selos e interrogar pelo menos três testemunhas.
Depois da tua escolha vamos abrir a página correspondente do teu processo kármico simbólico. Vou levar-te a uma história de outra época, vamos conhecer a pessoa cujo destino está ligado à imagem escolhida e vamos acompanhar os sentimentos, as decisões e as experiências que se revelam através dela. Vamos procurar também os seus possíveis reflexos no presente, porque o mais fascinante numa viagem assim é a forma como uma história que está a séculos de distância de nós nos pode levar a olhar de um modo novo para as nossas próprias relações, desejos e escolhas.
O teste foi criado como uma experiência intuitiva e simbólica, inspirada nas ideias sobre as vidas passadas e a regressão. As imagens podem despertar associações pessoais, memórias e cenas imaginárias, que vamos usar como ponto de partida para a reflexão. A veracidade histórica de experiências deste tipo não está comprovada, mas os sentimentos e as perguntas que surgem podem ajudar-nos a conhecer-nos melhor.
E depois de leres a tua história, podes continuar a investigação no Jogo da Alma, no FatedWays. Se a imagem escolhida te levar à relação com uma pessoa concreta, podes visitar as salas Amor e Compatibilidade. Se reconheceres um enredo de vida que se repete ou uma crença de família, vão interessar-te Karma e A Linhagem. Para as velhas promessas que continuam a influenciar as tuas decisões, podes explorar as tuas perguntas em Deixar ir, e se a história despertar em ti o desejo de descobrir ou desenvolver uma capacidade tua, espera-te a sala Dons. Quando a experiência te puser perante uma escolha pessoal importante, podes continuar em A Encruzilhada.
A próxima parte da nossa viagem já está à tua espera — a regressão simbólica guiada «A porta para uma vida esquecida», com a qual podes entrar mais fundo nas tuas próprias imagens e sensações. E com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado» já podes abrir mais um processo, dedicado aos encontros kármicos, aos velhos votos, aos dons esquecidos e às histórias que estamos prontos para encerrar.
E agora tens diante de ti doze imagens, doze enigmas e doze caminhos possíveis para uma história esquecida. Olha para elas, escolhe apenas uma e guarda o primeiro sentimento que ela despertou em ti. Depois de leres o resultado, gostava muito que partilhasses comigo se reconheceste algo da tua própria vida e se a história te surpreendeu.
Quem sabe, talvez a marca mais interessante do teu processo kármico venha a revelar-se ligada a uma pergunta que fazes a ti próprio(a) há muito tempo. E se vais encontrar a resposta, só o saberás depois de fazeres a tua escolha.
Que sonho continua a atrair-te, embora há muito tenhas encontrado razões suficientes para o adiar? E se voltares a ter a oportunidade de o realizar, reconhecerás o momento em que a decisão está nas tuas mãos?
Durante as obras de renovação de uma antiga casa comercial no sul da Alemanha, os operários descobrem uma maciça porta de madeira, escondida atrás de uma parede de alvenaria. As tábuas de carvalho escureceram, as ferragens estão cobertas de ferrugem e a soleira de pedra está gasta pelas rodas das carroças que outrora atravessavam o pátio. Num nicho junto à porta, os mestres de obras encontram uma arca com uma mala de viagem de couro, um mapa antigo e uma carta dirigida a um jovem.
A própria porta guarda uma marca ainda mais curiosa. Do lado de dentro, alguém gravou duas datas, separadas por mais de quarenta anos. Junto à primeira lê-se: «Podia ter partido.» Junto à segunda foi acrescentado: «Agora compreendo por que fiquei.»
Por que razão guardaria alguém, a vida inteira, a bagagem de uma viagem que nunca chegou a fazer? O que aconteceu durante esses quarenta anos e por que sentiu, por fim, necessidade de voltar à mesma porta?
Confesso que uma descoberta destas despertaria de imediato a minha curiosidade. Sobretudo a mala de viagem. Se estava pronta para partir há cinco séculos, vale a pena descobrir o que deteve o seu dono durante tanto tempo. Desconfio que até o cocheiro mais paciente pediria uma explicação.
O teu processo kármico simbólico está ligado às escolhas que adiamos por medo de desiludir as pessoas que amamos. Talvez sejas alguém que assume responsabilidades, cuida dos seus e encontra sempre argumentos sensatos contra as decisões arriscadas. Provavelmente, isso ajudou-te a construir muitas coisas boas. Mas se um certo sonho continua a voltar aos teus pensamentos, apesar dos anos que passaram, vale a pena perceberes o que realmente te detém.
É possível que desejes viver noutro país, abraçar uma nova profissão, lançar um projeto próprio ou viver uma relação pela qual terias de mudar o teu quotidiano conhecido. Já ponderaste as dificuldades e certamente conseguirias dar uma palestra bastante convincente sobre por que razão o momento não é o adequado. Resta apenas esclarecer o que tu desejas.
A história por detrás da velha porta vai levar-nos ao século XV, quando uma proposta de viagem muda a vida de um jovem mercador e de várias gerações depois dele.
Antes de leres a história, convido-te para uma breve viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Pode ajudar-te a observar os teus próprios desejos e hesitações através de imagens. A experiência não estabelece memórias reais de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Instala-te confortavelmente e imagina uma rua antiga com lajes de pedra. Das oficinas abertas ouvem-se conversas, cheira a pão e a fumo de lenha, e algures ali perto as rodas de uma carroça passam pelo caminho irregular. Ao fundo da rua ergue-se um arco de pedra. Atrás dele há um pátio e uma grande porta de madeira.
O primeiro limiar — a pessoa com o sonho. Junto à porta espera uma pessoa de outra época. Observa-lhe a roupa, o rosto e o objeto que traz consigo. Pode ser uma mala de viagem, uma carta ou um mapa. O que deseja esta pessoa? Para onde quer partir e há quanto tempo sonha com isso?
O segundo limiar — as pessoas que ama. Imagina que a vês em sua casa, rodeada pelos seus. Um preocupa-se com o futuro, outro tem medo da separação, um terceiro tem as suas próprias expectativas. O que gostaria esta pessoa de lhes dizer? Quais dos seus receios têm fundamento e quais nascem do medo do desconhecido?
O terceiro limiar — o instante da escolha. Volta à porta. Lá fora ouvem-se as vozes de viajantes que se preparam para partir. A pessoa já pegou na bagagem. O que sente quando toca no puxador? O que mudaria se pudesse falar abertamente dos seus desejos?
O quarto limiar — as duas vidas possíveis. Imagina dois quadros. Num deles, a pessoa partiu e está a descobrir um mundo novo. No outro, ficou e construiu uma vida entre os seus. Em ambos há alegrias, perdas e acontecimentos imprevistos. Que quadro te atrai e porquê? Tenta observá-lo sem decidires de antemão qual é a escolha certa.
O quinto limiar — o reencontro muitos anos depois. Agora a pessoa já é idosa e está de novo diante da porta. Pergunta-lhe qual foi a coisa mais valiosa que recebeu da vida e de que se arrepende. Talvez te responda com palavras, com um sentimento ou com uma imagem.
O sexto limiar — a tua porta. A porta de madeira vai mudando aos poucos. Nela surge um sinal ligado à tua vida atual — uma cidade, uma profissão, uma pessoa ou um desejo. De que precisas para considerar esta possibilidade? Podes abrir a porta, entreabri-la ou ficar no limiar até reunires mais informação. A escolha é tua.
Antes de terminares, leva mentalmente contigo um objeto da viagem — uma chave, um mapa ou outra coisa que te tenha chamado a atenção. Depois, volta o olhar para os objetos à tua volta e anota o momento que mais te comoveu.
A pergunta que fica: «Que desejo meu estou a adiar por medo de desiludir alguém, e o que posso fazer para perceber se ainda o quero realizar?»
Sul da Alemanha, segunda metade do século XV. Por detrás das muralhas de uma rica cidade comercial, a vida começava muito antes do nascer do sol. Pelas portas da cidade chegavam carroças com tecidos, especiarias e peles, os artesãos abriam as suas oficinas e os mercadores trocavam notícias sobre os preços, os caminhos e os perigos que esperavam os viajantes. Numa cidade assim, podia aprender-se muito sobre o mundo sem sair da terra natal. O problema era que, quanto mais se aprendia, mais forte se tornava a vontade de ver tudo com os próprios olhos.
Matthias Falk, de vinte e quatro anos, conhecia bem esse sentimento. O pai, Konrad, era um respeitado mercador de tecidos e especiarias, que tinha armazéns e trabalhava com sócios em várias cidades. A mãe, Agnes, cuidava da casa, e o irmão mais novo, Johann, ia aprendendo aos poucos o ofício da família.
Matthias era capaz, curioso e tinha uma memória espantosa para palavras estrangeiras, nomes e itinerários. Ainda em rapaz, ouvia as histórias dos mercadores viajantes com tamanha atenção que o pai muitas vezes o mandava verificar os armazéns antes que os visitantes fossem sujeitos a mais uma hora de perguntas. O que mais o atraía eram os portos italianos, onde, segundo se contava, se cruzavam navios, mercadorias e gentes de terras que ele só conhecia pelos mapas.
Konrad orgulhava-se do filho e havia muito que decidira que seria ele a herdar o negócio da família. Para o pai, era a continuação natural de décadas de trabalho. Tinha passado por viagens perigosas, negócios falhados e anos de incerteza para garantir à família uma casa respeitada e uma vida boa. Queria que os filhos tivessem aquilo que ele próprio alcançara com tanta dificuldade.
Ninguém, porém, tinha perguntado a Matthias se ele imaginava o futuro da mesma maneira.
Também Johann tinha os seus desejos. Embora se saísse bem no comércio, sentia-se muito mais atraído pela carpintaria. Gostava de observar como os mestres transformavam tábuas toscas em belos móveis. Konrad via esse interesse como um passatempo agradável para as horas livres, mas esperava que os dois irmãos trabalhassem juntos. Aos seus olhos, o futuro já estava garantido e bem planeado.
Numa primavera, chegou à cidade Albrecht, um mercador experiente de quem Matthias se tornara amigo em visitas anteriores. O homem tinha ligações aos portos do sul e preparava-se para uma nova e longa viagem. Quando soube como Matthias conhecia bem os livros comerciais e as línguas estrangeiras, propôs-lhe que o acompanhasse como ajudante e futuro sócio.
A proposta era séria. Albrecht explicou as condições, os custos e as oportunidades de trabalho, e Matthias fez cuidadosamente as contas às suas próprias poupanças. Sabia que o caminho seria difícil, mas, pela primeira vez, o seu sonho tinha uma data marcada e alguém que acreditava verdadeiramente nas suas capacidades.
A caravana partiria dali a três dias.
Nessa mesma noite, Matthias preparou a sua mala de couro. Meteu lá dentro algumas roupas, dinheiro, o seu livro preferido e o mapa no qual tantas vezes seguira o caminho até às cidades do sul. Enquanto arrumava as coisas, sentia uma excitação que não conseguia esconder. Mas quando ouviu os passos do pai no corredor, a alegria foi dando lugar à inquietação.
Na manhã seguinte, Konrad soube da proposta.
— E porque hás de deixar tudo o que já tens? — perguntou ele. — Daqui a uns anos vais gerir o negócio. Tens casa, trabalho e futuro. Que mais procuras?
Matthias explicou que desejava ganhar experiência em cidades estrangeiras e, um dia, desenvolver uma atividade própria. Garantiu ao pai que não tinha intenção de abandonar a família e que aquilo que aprendesse poderia ser útil também para o negócio deles.
Konrad, porém, ouviu outra coisa nas suas palavras. Depois de tantos anos de trabalho, o filho queria deixar tudo o que ele construíra.
— Achas que eu não tive outros desejos? — perguntou o pai. — Muitas vezes escolhi as minhas obrigações em vez daquilo que me apetecia. Graças a isso, hoje vivemos todos bem.
— Sei bem o quanto fizeste por nós — respondeu Matthias. — Mas foram precisamente as tuas histórias que me fizeram querer conhecer o mundo.
Konrad tomou a resposta como uma censura. A conversa tornou-se pesada, e Agnes tentou reconciliar os dois. Não queria impedir o filho, mas tinha medo das doenças, dos salteadores e dos meses sem notícias.
— Espera mais um ano — pediu-lhe ela. — Talvez então seja mais fácil.
Matthias sabia que a mãe falava por amor, mas já tinha ouvido uma proposta semelhante. Todos os anos surgia uma nova razão para adiar o seu sonho.
Mais tarde, Johann procurou-o a sós.
— Se partires, o trabalho todo fica para mim — disse ele. — E eu nem sei se quero dedicar-me ao comércio a vida inteira.
Matthias percebeu pela primeira vez que também o irmão se sentia pressionado pelas expectativas da família. Mas, em vez de procurarem juntos uma solução, os dois começaram a preocupar-se com a forma como todos se iriam arranjar se um deles escolhesse um caminho diferente.
À noite, Konrad voltou a entrar no quarto do filho. Desta vez falava mais baixo.
— Não te vou impedir à força. Mas, se partires, terás de arcar sozinho com as consequências. Não esperes que tudo esteja à tua espera, inalterado, quando decidires voltar.
Depois de o pai sair, Matthias ficou muito tempo à janela. Em cima da mesa estavam o mapa e a mala preparada. Sabia que tinha meios suficientes para começar a viagem e alguém com quem podia contar. Mas temia cada vez mais que a partida mudasse para sempre a sua relação com os seus.
Ao romper do dia, saiu para o corredor com a mala na mão. Do pátio chegavam vozes, o tropel de cascos e o chiar de rodas. A caravana preparava-se para partir. Matthias aproximou-se da velha porta de madeira e pousou a mão no pesado puxador.
Ficou assim muito tempo, como se esperasse que outra pessoa tomasse a decisão por ele.
Depois, voltou devagar para o quarto e deixou a mala em cima da mesa.
Quando Albrecht veio procurá-lo, Matthias explicou-lhe que ficava por causa da família.
— É mesmo isto que queres? — perguntou o amigo.
— Provavelmente é o mais sensato — respondeu Matthias.
Albrecht olhou-o com atenção. Não insistiu, porque sabia que uma decisão destas não pode ser tomada no lugar de outra pessoa.
— O mundo é grande — disse ao despedir-se. — Espero que encontres a tua maneira de o conhecer.
Depois saiu pela velha porta, e Matthias ficou no pátio a ver a caravana afastar-se pouco a pouco.
Nos anos seguintes, a vida continuou. Matthias trabalhava com afinco, assumia cada vez mais responsabilidades e foi-se tornando um mercador competente. Konrad estava satisfeito com o filho, Agnes alegrava-se por a família estar unida e Johann continuava a ajudar nos armazéns.
Com o tempo, Matthias casou com Elisabeth, uma mulher inteligente e observadora, com um maravilhoso sentido de humor. Os dois formaram família, tiveram filhos e viveram muitos anos felizes. Matthias amava a mulher e encontrava satisfação no seu trabalho. A sua vida era rica em relações e conquistas que ele verdadeiramente valorizava.
A curiosidade pelas terras distantes, no entanto, não desapareceu. Quando chegavam a casa visitantes de outras cidades, convidava-os para jantar, fazia-lhes perguntas sobre os mercados e os portos e, depois, assinalava cuidadosamente as novas informações nos seus mapas.
— Se continuas assim, em breve vais escrever um livro sobre a Europa inteira sem teres saído de casa — brincava Elisabeth.
Matthias ria-se, mas a mulher reparava no modo especial como o olhar dele se animava sempre que a conversa se voltava para viagens.
Com os anos, começou a acontecer na família algo que, a princípio, o próprio Matthias não notava. Quando o filho mostrou interesse pela música, ele explicou-lhe de imediato quão mais seguro era o futuro que o comércio oferecia. Quando a filha quis estudar uma língua estrangeira e visitar uns parentes noutra cidade, Matthias começou a enumerar todos os perigos e inconvenientes.
Uma noite, Elisabeth perguntou-lhe:
— Queres que os nossos filhos vivam bem ou queres que vivam exatamente como tu decidiste?
A pergunta magoou-o. Respondeu que desejava protegê-los de erros, mas as palavras dela ficaram-lhe na cabeça. Pela primeira vez, reconheceu nos seus próprios conselhos a voz de Konrad.
A verdadeira prova chegou quando Johann anunciou que queria abrir uma oficina de carpintaria com as suas poupanças. Matthias reagiu quase da mesma forma como o pai deles, em tempos, recebera a proposta de Albrecht. Começou a enumerar os custos, os perigos e as vantagens do seguro negócio da família.
Johann ouviu-o e depois disse:
— Toda a vida ajudei no nosso negócio. Sei o que devo à família. Mas também eu gostaria de perceber se sou capaz de fazer algo meu.
Matthias calou-se. Por um instante, voltou a ver a velha porta, a mala preparada e o rosto do pai. As palavras de Johann eram quase as mesmas que ele próprio, outrora, tentara dizer.
Passados alguns dias, os dois voltaram a conversar. Desta vez analisaram os custos e as possibilidades sem rejeitarem a ideia à partida. Encontraram uma forma de Johann abrir uma pequena oficina, mantendo parte das ligações ao negócio da família.
A oficina foi crescendo aos poucos. Os móveis de Johann começaram a atrair clientes, e Matthias sentia um orgulho sincero do irmão. Com esse orgulho surgiu também um pesar peculiar: se os dois tivessem conversado assim anos antes, talvez tivessem encontrado uma solução também para a sua viagem.
Depois da morte de Konrad, Matthias assumiu definitivamente o negócio da família. Um dia, enquanto arrumava os documentos antigos, encontrou a mala de couro e o mapa da sua juventude. Elisabeth foi dar com ele à janela, perdido em pensamentos.
— Ainda pensas naquela viagem? — perguntou ela.
Matthias acenou com a cabeça e, finalmente, contou-lhe em pormenor a manhã em que a caravana partira sem ele.
Elisabeth ouviu-o e depois fez-lhe uma pergunta para a qual ele nunca encontrara resposta:
— E porque não partiste mais tarde? Duvido que o mundo tenha fechado todos os portos só porque tu ficaste em casa.
Matthias começou a enumerar as obrigações que o tinham travado ao longo dos anos. Mas, enquanto falava, percebeu que parte delas tinha mudado havia muito. Habituara-se a ver a viagem como uma oportunidade perdida e nem sequer reparava nas novas oportunidades.
Alguns meses depois, ele e Elisabeth partiram para uma cidade comercial do sul. A viagem foi cansativa, os caminhos não se pareciam nada com as linhas bonitas do mapa e as camas das estalagens revelaram-se uma séria prova para as costas de ambos. Elisabeth comentou que o amor pela aventura exigia, pelos vistos, também uma certa tolerância para com almofadas desconfortáveis.
Matthias ria-se, mas quando finalmente viu a cidade desconhecida, o porto e os mercados animados, sentiu uma alegria que havia muito não conhecia. Percebeu que continuava a adorar viajar. Ao mesmo tempo, deu-se conta de quanto valorizava a casa, a mulher, os filhos e tudo o que tinha construído. O seu sonho tinha agora um sentido diferente.
Anos mais tarde, recebeu uma carta de Albrecht. O velho amigo falava das terras distantes, dos negócios bem-sucedidos, das mercadorias perdidas, dos caminhos perigosos e dos meses passados longe da família. No fim, mencionava que ainda se lembrava da proposta que um dia fizera a Matthias.
O mercador leu a carta várias vezes. Pela primeira vez, compreendeu com tanta clareza que a outra vida que imaginara ao longo dos anos também teria trazido dificuldades e perdas. Não havia forma de saber que caminho lhe teria dado mais felicidade. Mas agora já sabia o que mais o ferira na juventude: a sensação de não ter o direito de decidir por si próprio.
Uma noite, pegou numa pequena faca e foi até à velha porta de madeira. Do lado de dentro gravou a data em que ficara com a mala na mão e escreveu: «Podia ter partido.»
Depois acrescentou a data desse dia e mais uma frase: «Agora compreendo por que fiquei.»
Olhou para as duas datas e, pela primeira vez, sentiu que podia aceitar a sua vida sem castigar o jovem que, em tempos, tivera medo de desiludir a família. O mais importante era que agora podia ajudar os próprios filhos e netos a fazerem as suas escolhas com mais liberdade.
A marca simbólica mais profunda desta história é uma promessa nascida do medo de que uma escolha pessoal possa levar à perda do afeto e da pertença:
«Se seguir o meu próprio caminho, vou desiludir as pessoas que amo e perder o meu lugar entre elas.»
Uma convicção destas pode surgir na vida atual quando alguém, desde cedo, se habituou a ser o responsável, o sensato, aquele que tem sempre os outros em conta. O cuidado com os seus vai-se transformando numa regra segundo a qual os próprios desejos devem ficar para uma altura mais oportuna.
Talvez sintas culpa quando queres algo diferente daquilo que a tua família aprova. Custa-te recusar pedidos, porque tens medo de parecer egoísta. Ou estás a ponderar uma mudança importante, mas, antes mesmo de a discutires com os teus, já estás convencido(a) de que serão contra.
O voto simbólico pode ser substituído por uma nova promessa pessoal:
«Posso amar os meus, respeitar as suas necessidades e, ao mesmo tempo, tomar decisões responsáveis sobre a minha vida.»
O amor e a responsabilidade merecem atenção. O mesmo vale para os teus próprios desejos.
Imagina uma mulher que se apaixona por um homem de outro país. Os dois falam de um futuro em comum, mas cada passo mais concreto desperta inquietações. Ela tem trabalho, família e uma vida conhecida, e partir significaria mudar muita coisa. Em vez de discutirem onde poderiam viver, como irão trabalhar e como vão manter a ligação aos seus, a mulher começa a adiar as conversas, porque está convencida de antemão de que a família não aprovará semelhante escolha.
Noutra pessoa, a velha porta pode lembrar um amor terminado sob a pressão da opinião alheia. Anos depois, essa pessoa continua a perguntar-se o que teria acontecido se tivesse defendido a relação. Mas a memória da história não vivida transforma-se facilmente numa bela fantasia, da qual estão ausentes as dificuldades quotidianas de uma relação verdadeira.
Se reconheces uma situação assim, pergunta-te se conheces a opinião real das pessoas à tua volta ou se tens medo de uma reação que já imaginaste. E quando a decisão diz respeito a duas pessoas, é importante que ambas digam o que desejam e o que podem oferecer.
É possível que os teus pais tenham feito um enorme esforço para que tivesses estudos, uma profissão ou uma vida segura. Ama-los e estás grato(a), mas com os anos descobres que os teus interesses são outros. Por exemplo, tiraste um curso por insistência deles, tens um bom emprego, mas sonhas com outra profissão. A simples ideia de a mudar enche-te de culpa, como se fosses desvalorizar tudo o que fizeram por ti.
Outra pessoa pode estar a adiar uma partida ou uma vida independente porque os seus contam com ela. Parte das obrigações pode ser bem real e exigir decisões concretas. Mas quando ninguém fala abertamente das possibilidades, cria-se facilmente a sensação de que qualquer mudança é proibida.
A história de Johann mostra o quanto pode mudar depois de uma conversa honesta. Por vezes, a família precisa de uma nova forma de partilhar as responsabilidades, para que cada um tenha a possibilidade de desenvolver as suas capacidades.
Talvez trabalhes numa grande empresa, recebas um salário regular e tenhas boa reputação, mas sonhes com um ateliê próprio ou um pequeno negócio. Tens as competências necessárias, até já recebeste as primeiras propostas de clientes, e mesmo assim continuas a adiar, porque tens medo de deixar o emprego seguro.
A velha porta não te convida a uma decisão precipitada. Podes estudar o mercado, calcular os meios necessários, começar com algumas encomendas e só depois avaliar como continuar. Desta forma, verificarás se o sonho se pode transformar numa possibilidade real.
Noutra pessoa, o principal obstáculo pode ser o medo do julgamento alheio. A profissão prestigiada há muito que não lhe traz satisfação, mas preocupa-a que a família e os amigos vejam a mudança como um fracasso.
Se uma situação destas te é familiar, analisa separadamente os riscos financeiros e as expectativas dos outros. Os primeiros exigem cálculos, e as segundas, uma conversa aberta e uma decisão pessoal.
Imagina que um amigo da tua juventude foi viver para o estrangeiro, começou uma atividade própria ou escolheu uma profissão que outrora também te atraía. Alegras-te por ele, mas as suas histórias despertam-te tristeza. Pouco a pouco, começas a comparar a tua vida com a dele e a ver sobretudo as oportunidades que deixaste escapar.
A vida dos outros, porém, também tem dificuldades que raramente cabem nas fotografias bonitas e nas histórias de sucesso. Em vez de te comparares, tenta perceber o que exatamente te atrai — a liberdade, as viagens, a profissão ou a coragem de recomeçar. É possível que alguma parte do velho sonho ainda seja realizável.
Uma das perguntas mais interessantes da história de Matthias é se uma pessoa pode ser feliz com a vida que construiu e, ao mesmo tempo, lamentar uma oportunidade que perdeu. A resposta não tem de ser unívoca.
É possível amares a tua família, valorizares o teu trabalho e os teus amigos e, mesmo assim, trazeres contigo um desejo que nunca realizaste. Isso não desvaloriza o que alcançaste. Talvez o sonho já tenha ganhado uma nova forma, que merece ser observada.
A velha porta convida-te a distinguir as obrigações reais dos medos que herdaste ou criaste ao longo dos anos. Se hoje voltares a ter a oportunidade de fazer uma escolha importante, tens o direito de a discutir, de a ponderar e de procurar a tua própria decisão.
Proponho-te uma prática de sete dias, «A porta que vou abrir». Vais precisar de uma folha ou de um caderno onde anotar as tuas observações.
Primeiro dia — dá nome à tua porta. Escreve um desejo que adias há muito tempo. Formula-o de forma concreta: «Quero estudar a possibilidade de trabalhar noutro país», «Quero começar uma atividade própria» ou «Quero ter uma conversa que adio há meses». Pensa há quanto tempo trazes este sonho contigo e porque é que ainda te atrai.
Segundo dia — as pessoas do outro lado. Escreve que pessoas seriam afetadas pela tua decisão e que obrigações reais tens para com elas. Depois, assinala aquilo que apenas supões sobre as reações delas. É possível que descubras que parte das tuas preocupações vem de conversas que nunca chegaram a ter.
Terceiro dia — a velha promessa. Pensa se cresceste com a regra de que tens de ser sempre a pessoa sensata, a responsável ou aquela que põe os outros em primeiro lugar. Como é que essa convicção te ajudou e quando começou a limitar-te? Escreve como gostarias de a mudar hoje.
Quarto dia — o mapa das possibilidades. Encontra três formas de explorar o teu desejo. Podes informar-te sobre condições de trabalho, os custos de uma mudança para fora, possibilidades de formação ou uma maneira de começar um pequeno projeto. O objetivo é reunir informação real.
Quinto dia — o preço da escolha. Calcula os meios, o tempo e o esforço que serão necessários. Que riscos podes limitar e que obrigações tens de organizar? Quando substituímos as suposições por dados concretos, muitas vezes começamos a ver mais do que uma possibilidade.
Sexto dia — o primeiro passo. Faz uma pequena ação: envia um pedido de informação, inscreve-te numa formação, prepara um orçamento ou fala com alguém que tenha experiência. Depois, anota o que aprendeste.
Sétimo dia — a decisão no limiar. Lê as tuas notas e avalia o que realmente queres fazer. Podes definir um próximo passo, um prazo de preparação ou decidir que o sonho já não tem o mesmo significado. O mais importante é que a escolha reflita os teus desejos e as tuas possibilidades atuais.
Para esta variante, proponho-te dois símbolos — uma chave antiga e um pequeno mapa. A chave vai lembrar-te que a decisão sobre a tua vida também te pertence, e o mapa será um sinal de que podes considerar mais do que um caminho.
Desenha numa folha o lugar onde te encontras agora e assinala uma possibilidade que desejas explorar. Entre os dois, escreve três ações concretas com que te podes aproximar da tua decisão.
Quando olhares para o mapa, faz-te uma pergunta: «Estou à espera da oportunidade certa ou ainda estou à espera de que alguém me dê licença para querer uma vida diferente?»
Imagina o velho mercador sentado à janela da casa da família. A luz da tarde cai sobre o mapa antigo, e ao lado está a mala de couro da sua juventude. Matthias pega numa folha de papel e começa uma carta ao homem que, um dia, recuou da porta em vez de atravessar o limiar.
«Querido Matthias,
Escrevo-te passados tantos anos, porque finalmente compreendi algo que ninguém conseguiu dizer-te naquela manhã de primavera. Tinhas o direito de querer uma vida diferente. Tinhas também o direito de ter medo. O facto de amares a nossa família não significava que cada desejo teu tivesse de esperar pela aprovação dela.
Durante muito tempo estive zangado contigo. Imaginava o que poderia ter sido se tivesses partido e atribuía-te todas as aventuras que nunca vivi. Era-me mais fácil culpar-me pelo que perdi do que admitir o quanto também valorizo a vida que recebi.
Agora tenho filhos, netos e uma mulher com quem voltaria a pôr-me a caminho, embora provavelmente voltássemos a discutir o conforto das estalagens. Tenho um trabalho que me deu satisfação e um irmão cujos belos móveis me lembram que uma pessoa pode encontrar o seu caminho mesmo quando os outros, ao princípio, não a compreendem.
Se pudesse dar-te um conselho, pedir-te-ia que falasses mais uma vez com o nosso pai. Diz-lhe o quanto valorizas o trabalho dele e porque desejas partir. Ouve a nossa mãe, fala com o Johann e analisem juntos as possibilidades. Depois, toma a tua própria decisão.
Não sei se te aconselharia a partir. Sei apenas que mereces perceber o que escolhes e porquê.
E mais uma coisa. Se, ainda assim, ficares, não acredites que todas as portas se fecharam para sempre. A vida tem o espantoso hábito de oferecer novos caminhos a pessoas que já guardaram os seus mapas na arca.
Com amor e compreensão,
Matthias.»
Se a velha porta despertou perguntas sobre as tuas próprias decisões, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala A Encruzilhada podes perguntar: «Qual das possibilidades que tenho à minha frente corresponde melhor aos meus desejos e às minhas circunstâncias de hoje?» Se sentes culpa quando pensas numa mudança, as salas Karma e A Linhagem podem ajudar-te a explorar as velhas convicções e as expectativas da família. Em Deixar ir podes dedicar atenção ao medo da desaprovação.
Se a tua escolha está ligada a uma pessoa concreta, visita Amor ou Compatibilidade. Para as possibilidades profissionais e os talentos, podes continuar em Dinheiro, Dons e A Encruzilhada, e na sala Amigo podes explorar a relação com alguém cuja vida te lembra um velho sonho teu.
Podes continuar a exploração simbólica com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com «A porta para uma vida esquecida».
Muitos anos depois daquela manhã de primavera, o velho Matthias estava sentado no seu gabinete quando o neto de dezassete anos veio ter com ele. O rapaz trazia uma carta de um parente que vivia noutra cidade e que lhe oferecia a oportunidade de continuar os estudos e ganhar experiência num escritório comercial.
O jovem estava entusiasmado, mas tinha medo de que os pais vissem a partida como uma renúncia ao negócio da família.
Matthias examinou a carta e perguntou:
— E tu, o que queres?
O neto hesitou. Esperava um conselho sobre os perigos do caminho ou uma explicação de por que razão o negócio da família oferecia um futuro mais seguro. Em vez disso, o avô ouviu-o enquanto o rapaz falava das línguas estrangeiras, das cidades desconhecidas e da vontade de aprender mais sobre o comércio.
— E tu, partirias, se voltasses a ser novo? — perguntou por fim o neto.
Matthias olhou para o velho mapa em cima da secretária.
— Não sei. Mas gostaria de ter a coragem de falar abertamente da minha decisão. E de não ter tanto medo de perder o amor das pessoas se escolhesse um caminho diferente.
Nos dias seguintes, os dois analisaram as condições de estudo, os meios necessários e as oportunidades de trabalho. Depois falaram com a família. Os pais do rapaz tinham os seus receios, mas desta vez ninguém tomou as preocupações como uma proibição definitiva. Pouco a pouco, encontraram uma forma de o jovem partir por um período determinado e avaliar depois como queria continuar.
No dia da partida, Matthias saiu para o pátio ainda antes do nascer do sol. A carroça esperava junto à velha porta de madeira, e o neto despedia-se dos seus.
O velho mercador estendeu-lhe o mapa que guardara durante mais de quarenta anos.
— Leva-o. Nele há caminhos que não consegui percorrer. Tenho a certeza de que vais descobrir também outros que ainda não estão assinalados.
O rapaz abraçou-o, guardou o mapa e subiu para a carroça. Pouco depois, as rodas estrondearam sobre a soleira de pedra e os viajantes desapareceram na curva.
Matthias ficou diante da porta. De um dos lados ainda se viam as palavras «Podia ter partido» e, por baixo, «Agora compreendo por que fiquei».
Tocou nas inscrições, olhou para o caminho e sorriu. Muitos anos antes, deixara a mala de couro em cima da mesa, porque tinha medo de desiludir os seus. Hoje sentia a tristeza da despedida, mas sabia que ajudara um jovem a escolher com o seu próprio coração e a sua própria razão.
E o velho mapa já viajava rumo a uma cidade desconhecida.
Se escolheste a velha porta, desejo-te que descubras que sonhos ainda merecem um lugar na tua vida e quais podes deixar no passado com gratidão. Que encontres pessoas que respeitem as tuas decisões e que tu próprio(a) mostres a mesma compreensão pelos desejos delas. E quando, da próxima vez, estiveres diante de uma porta que há muito te atrai, verifica primeiro se não está destrancada. Pode acontecer que tenhas passado anos à procura de autorização, quando, afinal, bastava simplesmente carregar no puxador.
Até que altura precisas de subir para sentires que já alcançaste o suficiente? E se um dia receberes o reconhecimento pelo qual trabalhaste a vida inteira, com quem vais querer partilhar a tua alegria?
Durante o restauro de um antigo palácio florentino, os restauradores descobrem um sinal invulgar num dos degraus da larga escadaria de pedra. Entre dois riscos profundos está gravado um círculo aberto na parte de cima. A princípio, os mestres tomam-no por uma marca deixada pelo trabalho de um canteiro, mas entre os documentos antigos do edifício deparam com uma história curiosa.
Há mais de quatrocentos anos, um rapaz pobre foi expulso daquela mesma escadaria por se ter atrevido a subir a um lugar destinado aos senhores e aos seus convidados. Anos mais tarde, o rapaz tornou-se um mercador influente, cujo nome figurava nos mais importantes documentos comerciais de Florença. Já podia entrar pela porta principal, e os criados abriam-lhe as portas com respeito.
Entre os seus papéis guardados, porém, foi encontrada uma carta nunca enviada, com algumas frases: «Alcancei o degrau para o qual caminhei a vida inteira. Hoje todos me felicitaram. Esta noite não tenho a quem contar o quão feliz deveria ter sido.»
Pouco antes de morrer, esse mesmo homem fez uma doação para a educação de crianças pobres de famílias de artesãos. No último documento deixou as palavras: «É no primeiro degrau que tudo começa.»
Porque terá um homem que alcançou tanto sentido que o mais valioso ficara algures pelo caminho? E o que descobriu no fim da vida para querer abrir essa mesma escadaria àqueles que, em tempos, eram expulsos dela?
Confesso que as escadarias sempre me pareceram um símbolo magnífico da ambição humana. Sobes convencido de que no patamar seguinte te espera uma vista maravilhosa, chegas lá e descobres mais degraus. Se alguém for particularmente teimoso, pode passar a vida inteira a trepar, enquanto os outros já organizaram um jantar maravilhoso no terraço.
O teu processo kármico simbólico está ligado à ambição, ao sucesso e ao desejo de provar o teu próprio valor. Talvez trabalhes mais do que é realmente necessário, tenhas dificuldade em aceitar elogios e, mesmo depois de uma conquista significativa, comeces quase de imediato a pensar no objetivo seguinte. É possível que te tenhas habituado a sair-te tão bem que as pessoas à tua volta já tomam os teus esforços como garantidos. E quando alguém te pergunta se estás satisfeito(a) com o que alcançaste, já estás a enumerar o que ainda tens de fazer.
A antiga escadaria de pedra vai levar-nos à Florença do século XVI, onde uma humilhação marca o início de uma subida extraordinária. Vamos conhecer um homem que consegue obter tudo aquilo a que aspirou, mas que só depois de uma perda dolorosa compreende o preço elevado que pagou pelo reconhecimento.
Antes de abrires o processo histórico, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Vamos usar a velha escadaria para observares a tua relação com o sucesso, com a comparação com os outros e com as tuas próprias conquistas. As imagens que surgirem são associações pessoais da imaginação e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Instala-te confortavelmente e imagina que caminhas por uma rua de uma antiga cidade italiana. Os edifícios de pedra estão banhados pelo sol da tarde, das oficinas ouvem-se as pancadas das ferramentas e o ar cheira a cera, a madeira e a pão acabado de cozer. À tua frente surge um grande portão. Atravessas o portão e entras num pátio interior com colunas e uma larga escadaria de pedra.
O primeiro degrau — a promessa da criança. Ao fundo da escadaria vês uma criança com roupas gastas, que observa os degraus com curiosidade. Quando tenta subir, alguém lhe ordena que fique lá em baixo. Como reage? Sente vergonha, raiva ou vontade de provar alguma coisa? Aproxima-te mentalmente dela e tenta perceber que promessa faz a si mesma nesse momento.
O segundo degrau — a pessoa que vence. O tempo avança e a criança é agora um adulto que todos cumprimentam. Alcançou um objetivo pelo qual trabalhou durante muito tempo. Observa-lhe o rosto. Está feliz? Com quem quer partilhar a conquista? Quanto tempo se permite sentir satisfação antes de pensar no objetivo seguinte?
O terceiro degrau — as pessoas que ficaram pelo caminho. De um amplo patamar, essa pessoa olha para trás e vê alguns rostos conhecidos. Pode ser um amigo, um companheiro, um filho ou um pai. Quem gostaria de voltar a encontrar? Há palavras que há muito adia dizer?
O quarto degrau — o espelho. No patamar surge um grande espelho. Nele, a pessoa vê, uma após outra, a criança que teve medo da humilhação, o jovem que trabalhou sem descanso e a si mesma hoje. Pergunta-lhe: «Quando começaste a acreditar que tinhas de alcançar algo grandioso para mereceres respeito?»
O quinto degrau — o lugar para a alegria. Mais acima abre-se um terraço com uma bela vista. Há um banco e um jardim onde as pessoas conversam. Imagina que podes passar ali algum tempo, sem pressa de correr para o objetivo seguinte. Recorda três conquistas que realmente valorizas e uma pessoa com quem gostarias de as partilhar.
O sexto degrau — a nova promessa. Volta mentalmente à criança do início. Agora ela vê o adulto em que se tornou. O que gostaria este adulto de lhe contar sobre os anos vividos? Que sucessos o alegram e o que faria de outra maneira? Imagina que lhe propõe uma nova promessa, na qual há lugar para conquistas, amor, amizades e satisfação pessoal.
Traz pouco a pouco a tua atenção de volta ao presente e anota que imagens te comoveram. Depois, faz-te a pergunta: «Se ainda hoje receber o reconhecimento que procuro há tanto tempo, o que mudará realmente na relação que tenho comigo?»
Florença, ano de 1568. Pelas ruas estreitas passavam carroças com tecidos e peles, das oficinas vinham as pancadas dos martelos e, por detrás das belas fachadas dos palácios ricos, falava-se de comércio, de dinheiro e de influência social. A cidade oferecia não poucas oportunidades às pessoas talentosas e persistentes, mas a origem continuava a determinar que portas se lhes abriam e por que entradas deviam passar.
Lorenzo Benedetti, de onze anos, vivia com a família numa casa modesta perto de uma das portas da cidade. O pai, Giovanni, era sapateiro, a mãe, Caterina, costurava roupa para famílias abastadas, e o rapaz ajudava na oficina quando não estava ocupado com as lições.
Lorenzo era curioso, de inteligência rápida e memória espantosa. Gostava de ouvir as conversas dos mercadores, de aprender os nomes das famílias influentes e de observar as belas casas por onde passava. Impressionava-o a forma como as pessoas abriam caminho aos senhores ricos, como os criados se apressavam a satisfazer-lhes os desejos e como a sua opinião era recebida com respeito.
O pai via as coisas de outra maneira.
— O importante é fazeres bem o teu trabalho — explicava Giovanni. — Se as pessoas puderem contar contigo, terás o respeito delas.
O rapaz ouvia, mas desejava cada vez mais tornar-se um dia alguém a quem ninguém pudesse fechar portas.
Numa manhã de primavera, Giovanni mandou-o levar um par de sapatos arranjados a casa de um mercador rico. Lorenzo embrulhou cuidadosamente os sapatos num pano e dirigiu-se a um imponente edifício de pedra perto da praça central.
Quando atravessou o portão, ficou deslumbrado. O pátio interior estava rodeado de altas colunas e, num dos seus extremos, começava uma bela escadaria de pedra, com ornamentos nas paredes. Por ela desciam senhores ricamente vestidos, que conversavam sobre negócios e assuntos públicos.
Lorenzo aproximou-se para observar as figuras de pedra e pousou o pé no primeiro degrau.
— Aonde é que vais? — gritou o criado.
O rapaz virou-se, sobressaltado.
— Trago uns sapatos para o senhor. O meu pai arranjou-os.
— Então espera cá em baixo. Esta escadaria é para os senhores e os seus convidados.
Várias pessoas voltaram-se para ele. Um jovem no patamar de cima sorriu com desdém ao ver os seus sapatos gastos e a roupa grosseira. Lorenzo sentiu o rosto a arder. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras atropelaram-se.
Voltou para o pátio e apertou o embrulho com tanta força que o pano ficou amarrotado.
Enquanto esperava, ouviam-se lá de cima risos e conversas. O rapaz estava convencido de que todos troçavam dele, embora não distinguisse o que diziam. A vergonha foi-se transformando em raiva. Olhou para os degraus e fez a si mesmo uma promessa que haveria de determinar grande parte da sua vida:
«Um dia hei de subir tão alto que ninguém mais poderá olhar-me de cima.»
Quando chegou a casa, entregou o dinheiro ao pai e calou o que tinha acontecido. Giovanni reparou no seu silêncio invulgar, mas o rapaz garantiu-lhe que estava tudo bem. Não queria que ninguém soubesse como se tinha sentido, porque até a lembrança do episódio despertava nele uma nova vergonha.
A partir desse dia, Lorenzo começou a estudar com um empenho especial. Um velho padre do bairro reparou nas suas capacidades e ofereceu-se para lhe ensinar a ler, a escrever e a fazer contas. O rapaz saía-se lindamente, mas vivia cada erro de forma tão dolorosa como se um único exercício mal resolvido o pudesse devolver para sempre ao pátio do mercador rico.
— Lorenzo, os erros fazem parte da aprendizagem — dizia o professor.
— Eu sei, padre. Mas quero ser tão bom que ninguém tenha motivo para se rir de mim.
O padre observava-o, pensativo. Via uma criança talentosa, ávida de saber, mas que mal suportava a ideia de poder não ser a melhor.
Aos dezassete anos, Lorenzo começou a trabalhar num pequeno escritório comercial. Depressa dominou a contabilidade, mostrou faro para os contratos e em pouco tempo o patrão começou a confiar-lhe tarefas cada vez mais complexas. O jovem era o primeiro a chegar e o último a sair. Os elogios alegravam-no, mas por pouco tempo. Quase de imediato começava a pensar em como merecer o reconhecimento seguinte.
Nesses anos, o seu amigo mais próximo era Marco, filho de um carpinteiro, com quem crescera na mesma rua. Em crianças, os dois partilhavam o pão e sonhavam com o futuro. Marco adorava a madeira, as ferramentas e os belos móveis que os mestres faziam para as casas ricas. Lorenzo sonhava com um escritório comercial próprio e com uma grande influência na sociedade.
Quando se encontravam depois do trabalho, Marco falava das novas peças que queria criar, e Lorenzo dos negócios seguintes e das oportunidades de subir na vida.
— Quando for suficientemente rico, terei tempo para tudo — garantia Lorenzo ao amigo. — Para viagens, jantares e longas conversas.
— Então vais ter de viver pelo menos duzentos anos — ria-se Marco. — Porque tu encontras sempre um trabalho novo que tens de acabar antes do jantar.
Lorenzo ria-se com ele. Acreditava que Marco exagerava e que em breve poderia permitir-se mais tempo livre.
Os anos foram passando. Aos vinte e oito, Lorenzo já geria negócios importantes e, aos trinta e cinco, tinha o seu próprio escritório e uma posição respeitada. Deu aos pais uma boa casa, ajudou o pai a trabalhar menos e orgulhava-se de a mãe já não ter de coser até tarde da noite.
Mas assim que alcançava um objetivo, surgia-lhe outro à frente. Depois do escritório próprio vieram os negócios maiores, depois os convites das famílias influentes e, a seguir, o desejo de participar nas decisões públicas importantes da cidade.
Nesse período conheceu Elena, uma jovem culta de uma família de mercadores, que adorava música e livros. Ela gostava da inteligência, da energia e da perseverança dele. Lorenzo ficou encantado com o sentido de humor dela e com a sua habilidade para fazer perguntas para as quais ele raramente encontrava respostas rápidas.
Quando a pediu em casamento, prometeu-lhe uma casa bonita, viagens e uma vida feliz. Elena aceitou. Os primeiros anos foram cheios de alegria e, quando os filhos nasceram, Lorenzo sentiu um enorme orgulho por lhes poder dar tudo aquilo que ele próprio não tivera.
Pouco a pouco, porém, começou a chegar a casa cada vez mais tarde. O escritório crescia, surgiam novos clientes e ele andava sempre à procura de oportunidades de expansão.
— Prometeste que este domingo íamos estar juntos — lembrou-lhe Elena certa vez.
— Eu sei. Mas tenho de fechar um negócio importante. Depois disso terei mais tempo.
— Lorenzo, ouço essa promessa há anos.
Ele abraçou-a, garantiu-lhe que trabalhava para o futuro deles e, na manhã seguinte, voltou a sair antes do nascer do sol.
Elena amava o marido e orgulhava-se das suas conquistas. Mas, com o tempo, começou a sentir-se só. Os filhos cresciam, aprendiam coisas novas, faziam perguntas, e o pai estava muitas vezes presente na vida deles apenas através de presentes e de promessas de futuros dias passados juntos.
Entretanto, Marco tinha aberto a sua própria oficina de carpintaria. Casara, tinha dois filhos e foi ganhando bom nome entre os clientes. Trabalhava com afinco, mas não queria expandir o negócio para lá daquilo que conseguia gerir.
— Podes contratar mais gente e aceitar encomendas de clientes mais ricos — tentava convencê-lo Lorenzo.
— Posso — respondia Marco. — Mas gosto do meu trabalho tal como é. À noite quero ver os meus filhos enquanto ainda estão acordados.
Lorenzo não percebia porque haveria alguém de abdicar voluntariamente da possibilidade de ganhar mais. Aos seus olhos, uma decisão dessas significava que Marco não aproveitava todas as suas capacidades.
Num outono, vários clientes atrasaram os pagamentos à oficina de Marco, uma grande encomenda foi cancelada e os materiais já comprados tinham consumido uma parte considerável dos seus meios. Pela primeira vez, viu-se em sérias dificuldades financeiras.
Depois de tentar negociar prazos com os fornecedores e de procurar novas encomendas, decidiu recorrer a Lorenzo. Não queria uma esmola. Preparou as contas e pediu um empréstimo, que tencionava devolver logo que o trabalho recuperasse.
Lorenzo recebeu-o com cordialidade, mas precisamente nessa altura estava a preparar o maior negócio da sua carreira. O êxito desse negócio iria abrir-lhe as portas de círculos sociais influentes, e as negociações exigiam meios e atenção consideráveis.
— Compreendo, Marco — disse ele, depois de examinar os documentos à pressa. — Deixa-mos ficar. Falamos daqui a uns dias.
Marco concordou. Mas o encontro seguinte foi adiado, depois surgiu uma nova obrigação e, a seguir, mais outra. O tempo passava, a oficina enfrentava dificuldades cada vez maiores e Marco voltou a procurar o amigo.
Desta vez, Lorenzo estava nervoso. Sabia que podia disponibilizar parte dos meios necessários, mas tinha medo de pôr em risco o negócio pelo qual se esforçara durante tanto tempo.
— Agora não posso correr esse risco — disse ele.
Marco garantiu-lhe que compreendia a dificuldade, mas pediu-lhe que, pelo menos, analisassem juntos as possibilidades.
Lorenzo, porém, começou a falar de forma cada vez mais áspera.
— Cada mercador tem de assumir a responsabilidade pelas suas decisões. Se tivesses gerido a tua oficina com mais prudência, provavelmente não estarias nesta situação.
Marco ficou em silêncio.
Conhecia Lorenzo desde o tempo em que os dois partilhavam o mesmo pão e se ajudavam em todas as dificuldades. Agora, à sua frente estava sentado um mercador respeitado, que avaliava a vida dele unicamente através das contas e dos erros que nelas se podiam encontrar.
— Lembro-me do tempo em que não tínhamos quase nada — disse Marco em voz baixa. — Nessa altura, encontrávamos sempre maneira de nos ajudarmos. Hoje percebo que uma pessoa pode ter muito mais e, mesmo assim, ser-lhe mais difícil dar alguma coisa.
Recolheu os seus papéis e foi-se embora.
Lorenzo ficou à secretária, ferido pelas palavras dele. Por um instante, quis ir atrás dele, mas olhou para os documentos do grande negócio e decidiu que falariam quando o trabalho estivesse concluído.
Passados alguns meses, soube que Marco fechara a oficina e deixara Florença com a família. Tentou enviar-lhe uma carta, mas não recebeu resposta. Depois, as novas tarefas voltaram a absorver-lhe a atenção.
O grande negócio terminou com êxito. Lorenzo recebeu reconhecimento público, a sua riqueza aumentou e a sua influência alargou-se. Aos quarenta e cinco anos, foi eleito para um cargo prestigiado ligado aos assuntos comerciais da cidade.
A cerimónia realizou-se num belo palácio florentino.
Quando Lorenzo chegou à larga escadaria de pedra, reconheceu de repente o lugar. Era o mesmo edifício a que, aos onze anos, tinha levado os sapatos arranjados pelo pai.
Nessa altura, tinham-no detido logo no primeiro degrau.
Agora os criados abriam-lhe caminho, os senhores cumprimentavam-no e as portas abriam-se à sua frente. Por um instante, sentiu uma enorme emoção. Lembrou-se da pobre oficina, da humilhação e da promessa que o guiara ao longo de todos aqueles anos.
Finalmente, chegara ao lugar com que sonhava.
A cerimónia decorreu de forma brilhante. Lorenzo recebeu felicitações e conversou com as pessoas mais influentes de Florença. Mas quando, à noite, chegou a casa, os filhos já tinham saído, Elena estava cansada e na secretária esperavam-no novos documentos.
— Foste feliz hoje? — perguntou-lhe a mulher.
— Claro! É um reconhecimento enorme. Só que agora vou ter ainda mais responsabilidades. Tenho de preparar...
— Lorenzo — interrompeu-o Elena —, gostava que, pelo menos esta noite, nos alegrássemos com o que alcançaste, sem falarmos da próxima tarefa.
Ele tentou sorrir, mas os seus pensamentos já estavam nas reuniões que se aproximavam.
Mais tarde, sozinho com um copo de vinho, deu-se conta de quão pouco durara a sua alegria. Toda a vida acreditara que uma posição elevada lhe traria segurança e satisfação. E agora que finalmente a tinha, já se preocupava com a forma de a conservar.
Os anos seguintes trouxeram novas conquistas, mas as relações na família foram mudando aos poucos. Elena esperava cada vez menos pelos jantares em comum, a filha partilhava o seu interesse pela música sobretudo com a mãe, e o filho começou a trabalhar no comércio, mas tinha dificuldade em suportar as exigências constantes do pai.
Certa vez, o rapaz confessou a Elena:
— Gostava que o pai, ao menos uma vez, se alegrasse com o que eu fiz, sem me explicar logo o que ainda tenho de alcançar.
Elena não soube o que responder. Conhecia esse sentimento bem demais.
Um dia, enquanto se preparava para uma reunião importante, Lorenzo recebeu uma carta de outra cidade. Nela informavam-no de que Marco tinha morrido.
Leu a notícia várias vezes, pôs os documentos de lado e, pela primeira vez em muitos anos, cancelou todas as reuniões da tarde.
Lembrou-se do amigo com quem crescera, das suas brincadeiras, da pequena oficina de carpintaria e da última conversa que tinham tido. Percebeu que, ao longo dos anos, poderia tê-lo procurado, saber como se tinha arranjado e, pelo menos, pedir-lhe perdão. Mas fora sempre adiando, porque tinha medo do encontro.
Algum tempo depois, conseguiu encontrar o filho de Marco, que continuava o ofício de carpinteiro noutra cidade. O jovem contou-lhe que, depois dos anos difíceis, a família se recompusera aos poucos. O pai voltara a fazer móveis, ganhara o respeito dos clientes e transmitira as suas competências aos filhos.
— Ele alguma vez falava da nossa amizade? — perguntou Lorenzo.
— Muitas vezes — respondeu o filho. — Contava como tinham crescido juntos e que rapaz inteligente o senhor era. Tinha esperança de que um dia se voltassem a encontrar.
Lorenzo sentiu um peso no peito. Marco tinha guardado as boas memórias de ambos, apesar de tudo o que acontecera. E ele próprio deixara que o orgulho e o medo de uma conversa incómoda lhe roubassem a última oportunidade de reparar a amizade.
À noite, contou tudo a Elena.
— Passei tantos anos a tentar provar que merecia respeito — confessou ele. — E quando o Marco veio ter comigo, tratei-o da mesma forma como, em tempos, me trataram a mim.
Elena ouviu-o.
— Sempre acreditei nas tuas capacidades, Lorenzo. Nunca quis que deixasses de crescer. Mas gostava que percebesses que és importante para nós também quando não estás a ganhar um novo negócio.
A conversa fê-lo pensar em quanto da vida dos seus tinha perdido. Pouco a pouco, começou a dedicar mais tempo a Elena e aos filhos. Foi a um serão musical com a filha, ouviu as ideias do filho sobre o comércio sem as corrigir de imediato e, pela primeira vez em anos, passou um dia inteiro com a família sem olhar para os papéis do trabalho.
A mudança exigia esforço. Os hábitos construídos durante décadas não desapareciam de um dia para o outro. Mas Lorenzo começou a sentir alegria em conversas e experiências que durante muito tempo deixara para um futuro indefinido.
Já idoso, voltou a visitar o palácio da escadaria de pedra. Subiu alguns degraus, apoiado na bengala, e parou no patamar com vista para o pátio.
Lembrou-se do rapaz de onze anos que um dia fora expulso do primeiro degrau. Quisera tanto proteger-se do desprezo alheio que fizera do sucesso a única medida do seu próprio valor.
Enquanto observava o pátio, reparou numa criança com roupas gastas e um cesto com documentos. O rapaz aproximou-se, curioso, da escadaria, mas um criado mandou-o ficar lá em baixo.
Lorenzo reconheceu de imediato a cena.
Desceu devagar e aproximou-se da criança.
— Como te chamas?
— Paolo, senhor.
O rapaz ajudava o pai, que era artesão, mas sonhava aprender a ler, a escrever e a fazer contas, para um dia poder trabalhar num escritório comercial. A família, porém, não tinha meios para lhe pagar os estudos.
Lorenzo conversou longamente com ele. Contou-lhe que ele próprio fora, em tempos, um rapaz pobre que trazia sapatos arranjados àquele pátio, e que um velho padre o ajudara a adquirir conhecimentos.
— Se os teus pais concordarem, arranjo-te um bom professor — propôs ele.
Paolo olhou-o com desconfiança. Só depois de algumas perguntas percebeu que o velho senhor falava a sério.
Depois, Lorenzo estendeu-lhe a mão.
— Anda, quero mostrar-te uma coisa.
O rapaz olhou para a escadaria e hesitou.
— Mas, senhor, disseram-me que não tenho o direito de subir.
— Hoje és meu convidado.
Os dois começaram a subir. Paolo observava os ornamentos de pedra, as janelas altas e os belos quadros com os olhos muito abertos. Pararam num dos patamares, e Lorenzo olhou para o primeiro degrau, de onde um dia fora expulso.
Pela primeira vez, compreendeu de que forma tão diferente poderia usar a posição a que aspirara a vida inteira.
Pouco depois, começou a destinar meios à educação de Paolo e de outras crianças de famílias pobres de artesãos. Queria que tivessem a oportunidade de desenvolver as suas capacidades, sem que a humilhação da sua origem lhes determinasse o futuro.
Quando assinou os documentos da doação, escreveu na última página:
«É no primeiro degrau que tudo começa.»
O voto simbólico de Lorenzo nasce no momento em que um rapaz pobre aceita a humilhação como prova de que tem de mudar o seu próprio valor. Promete a si mesmo tornar-se tão rico e influente que ninguém mais possa olhá-lo de cima.
Ao longo dos anos, essa promessa dá-lhe disciplina, perseverança e forças para vencer as dificuldades. Mas, pouco a pouco, começa a exigir-lhe cada vez mais. Cada conquista transforma-se numa breve paragem a caminho da seguinte, e cada erro parece uma ameaça ao respeito que procurou durante tanto tempo.
Na vida atual, um padrão destes pode manifestar-se através da convicção de que tens de provar constantemente as tuas capacidades. Talvez sintas desconforto quando recebes um elogio, porque te lembras logo do que ainda não conseguiste fazer. Ou tens dificuldade em recusar obrigações adicionais, porque te preocupa que alguém conclua que já não és suficientemente capaz.
A pergunta mais interessante é o que desejas realmente obter através da próxima conquista. Mais liberdade, segurança financeira, prazer no trabalho? Ou a confirmação de que mereces respeito?
A nova promessa que podes levar desta história é:
«Vou desenvolver as minhas capacidades e seguir os meus objetivos, lembrando-me de que o meu valor não depende apenas daquilo que alcancei.»
Imagina um homem que faz horas extraordinárias porque quer dar à família uma boa casa, viagens e segurança financeira. Quando a companheira lhe diz que sente falta das conversas e do tempo com ele, sente-se incompreendido. Está convencido de que os seus esforços são uma prova de amor, enquanto ela precisa de mais momentos partilhados.
Noutra pessoa, a ânsia de reconhecimento pode exprimir-se no desejo de ser sempre impecável aos olhos do parceiro. Esforça-se por parecer bem, por ser interessante, bem-sucedida e sorridente, mesmo quando atravessa uma fase difícil. Tem medo de que, se mostrar fraqueza, o outro perca o interesse.
A velha marca convida-te a perguntar-te se te sentes amado(a) também quando não consegues corresponder a todas as expectativas. Consegues dizer que estás cansado(a), que precisas de apoio ou que, neste momento, não sabes como lidar com uma situação? O amor merece espaço também para conversas destas.
Talvez tenhas crescido numa família em que os bons resultados eram muito importantes. Os teus pais orgulhavam-se das notas excelentes, dos prémios e dos sucessos, e os erros provocavam muitas vezes desilusão. Com o tempo, começaste a acreditar que tinhas de ser o(a) melhor para corresponder à confiança deles.
Imagina uma mulher que é a primeira da família a concluir um curso superior. Os pais fizeram grandes esforços pela sua educação e ela deseja sinceramente dar-lhes essa alegria. Começa num emprego prestigiado, mas, anos depois, descobre que gostaria de se dedicar a outra coisa. Continua, porém, a adiar a mudança, porque tem medo de que os seus vejam a decisão como um fracasso.
Noutra pessoa, esta marca pode manifestar-se nas expectativas em relação aos próprios filhos. O desejo de que tenham uma vida melhor transforma-se, aos poucos, numa pressão constante por resultados excelentes. A criança recebe um elogio, mas logo a seguir ouve o que ainda tem de melhorar.
Pergunta-te se sabes alegrar-te com os sucessos das pessoas próximas sem estabeleceres de imediato o objetivo seguinte. E se te permites a ti o mesmo.
Na vida profissional, a escadaria de pedra pode manifestar-se de forma especialmente clara. Talvez trabalhes há anos para uma promoção, frequentes formações e assumas tarefas adicionais. Quando finalmente obténs o cargo desejado, a alegria dura alguns dias e, depois, começas a preocupar-te com a possibilidade de não o conseguires manter.
Outra pessoa pode associar o reconhecimento ao dinheiro. No início, sonha com meios suficientes para viver bem. Quando os alcança, começa a comparar-se com quem ganha mais. Pouco a pouco, a casa bonita, o carro confortável e o bom rendimento começam a parecer insuficientes.
A ambição pode ser um magnífico motor de crescimento. Mas vale a pena saberes porque persegues o objetivo seguinte e que preço estás disposto(a) a pagar por ele. Talvez desejes um trabalho mais interessante, mais independência financeira ou a possibilidade de desenvolver um talento teu. Nesse caso, vale a pena fazeres um plano. Se, porém, a tua única razão for o medo de perderes o respeito dos outros sem um novo sucesso, provavelmente está na altura de reveres as regras da tua própria competição.
Já te aconteceu reencontrares um velho amigo e descobrires que já conversam quase como estranhos? Em tempos partilhavam sonhos, preocupações e pequenas alegrias, e agora os encontros são constantemente adiados por causa do trabalho e de novas obrigações.
Talvez tenhas começado a conviver sobretudo com pessoas do teu meio profissional, porque as vossas conversas são úteis para o teu crescimento. E os amigos da juventude foram ficando de lado, embora tenham sido precisamente eles a estar ao teu lado quando ainda não tinhas os sucessos de que hoje te orgulhas.
Também é possível a situação inversa — uma pessoa próxima alcança um sucesso considerável e tu começas a comparar-te com ela e a sentir-te desconfortável. Em vez de partilharem experiências, vão transformando as conversas numa competição invisível.
Pensa numa pessoa que te conhece há muito tempo e com quem gostarias de voltar a conversar sem pressa. Talvez seja precisamente essa uma das decisões mais valiosas que vais tomar nos próximos dias.
Esta história levanta uma pergunta que facilmente se perde entre as tarefas do dia a dia: como vais saber que já alcançaste o suficiente para te alegrares?
Se cada objetivo conduzir apenas ao seguinte, o sucesso pode, aos poucos, transformar-se numa prova sem fim. Mas quando sabes o que realmente valorizas, podes definir os teus objetivos de forma a que haja lugar para o trabalho, para as relações e para os teus próprios interesses.
Pensa em como é o teu sucesso para além dos títulos profissionais, dos rendimentos e da avaliação dos outros. Que pessoas queres que façam parte dele? O que gostas de fazer quando ninguém espera de ti mais uma conquista? E quando foi a última vez que dedicaste tempo a alegrar-te com algo que já conseguiste fazer?
Proponho-te uma prática de sete dias, que te vai ajudar a observar a tua relação com o sucesso, com o reconhecimento e com os teus objetivos pessoais.
Primeiro degrau — a promessa da criança. Escreve uma convicção que influencia muitas vezes as tuas decisões. Por exemplo: «Tenho de ser sempre o(a) melhor», «Não tenho direito a errar» ou «As pessoas vão respeitar-me quando eu alcançar mais». Pensa em quando começaste a acreditar nisso e se ainda te ajuda.
Segundo degrau — o olhar dos outros. De quem é o reconhecimento mais importante para ti? Pode ser um pai ou uma mãe, um companheiro, um chefe ou alguém com quem te comparas. Escreve o que gostarias de ouvir dessa pessoa e recorda uma conquista que valorizas, mesmo que mais ninguém a tenha notado.
Terceiro degrau — o preço da subida. Escolhe um objetivo a que aspiras neste momento. O que te vai trazer e que meios, esforços e tempo exige? Que relações e atividades desejas preservar enquanto trabalhas para ele?
Quarto degrau — o amigo do caminho. Recorda uma pessoa que te apoiou numa fase difícil. Quando foi a última vez que conversaram a sério? Se quiseres, envia-lhe uma mensagem ou combina um encontro. Se a relação terminou, escreve o que de valioso recebeste dela.
Quinto degrau — o suficiente. Escreve dez coisas que já alcançaste. Inclui também as pequenas vitórias que costumas tomar como garantidas. Escolhe uma delas e recorda o quanto significou para ti quando a alcançaste.
Sexto degrau — a nova promessa. Lê a convicção do primeiro dia e pensa no que gostarias de pôr no seu lugar. Pode ser: «Tenho o direito de crescer, de errar, de aprender e de me alegrar com o que alcancei.» Escreve-a numa folha à parte e guarda-a.
Sétimo degrau — o teu cume. Imagina a vida que desejas ter daqui a alguns anos. Como trabalhas, com quem passas o teu tempo e o que te traz alegria? Escreve a tua própria definição de sucesso e escolhe uma mudança que possas fazer no próximo mês para te aproximares dela.
Para esta variante, proponho-te que guardes a imagem de um amplo patamar de pedra de onde se abre uma bela vista. Vai lembrar-te de que podes apreciar o caminho percorrido antes de escolheres a direção seguinte.
Pega em sete pedrinhas e coloca-as no teu lugar preferido, ou desenha uma escadaria com sete degraus. No último, escreve a palavra «Suficiente».
Quando olhares para o símbolo, recorda uma conquista tua e uma pessoa com quem gostarias de a partilhar.
Imagina o velho Lorenzo sentado à janela do seu amplo gabinete. Aperta nas mãos uma pequena figura de madeira que Marco lhe ofereceu quando eram rapazes. Observa as marcas da faca na madeira, depois pega numa folha de papel e começa uma carta ao amigo que já nunca a poderá ler.
«Querido Marco,
Hoje encontrei a figura que me deste quando éramos rapazes. Lembro-me de como te orgulhavas dela e de como me explicavas que um dia farias móveis para as casas mais bonitas de Florença. Eu, nessa altura, sonhava com outra coisa — com grandes negócios, riqueza e o respeito de pessoas que nem sequer sabiam o meu nome.
É estranho como dois rapazes que partilham o mesmo pão podem ter sonhos tão diferentes. Mais estranho ainda é como uma pessoa consegue esquecer quem partilhou o pão com ela.
Quero dizer-te uma coisa que devia ter dito no dia em que vieste ao meu gabinete. Lamento. Lamento as palavras com que te magoei, a impaciência com que ouvi as tuas preocupações e, sobretudo, ter deixado que um negócio se tornasse mais importante do que a pessoa que eu conhecia desde a infância.
Não sei se, nessa altura, poderia ter-te emprestado a quantia toda. Mas podia ter-me sentado ao teu lado, examinado as contas e procurado uma forma de ajudar. Podia, pelo menos, ter-te tratado com o respeito que eu próprio tentei obter a vida inteira.
Há muitos anos, uma família rica fez-me sentir insignificante, porque eu usava sapatos gastos. Prometi a mim mesmo nunca mais passar por uma humilhação assim. E quando tu vieste ter comigo, fui eu que comecei a ver o valor de uma pessoa através do dinheiro e do sucesso.
Agora sei o quanto me enganei.
Durante muito tempo, acreditei que, quando chegasse ao degrau mais alto, sentiria uma felicidade imensa. Cheguei lá, Marco. Recebi as felicitações, os cargos e o respeito com que sonhava. Mas no momento mais importante faltou-me a pessoa com quem me podia rir de tudo isto e recordar como, em tempos, estávamos convencidos de que o homem mais rico de Florença tinha forçosamente os sapatos mais bonitos.
Gostava que pudéssemos sentar-nos mais uma vez numa das velhas ruas. Falar da tua oficina, dos nossos filhos, dos erros e dos bons anos. Provavelmente voltarias a picar-me por andar sempre com pressa, e com certeza terias razão.
Não sei se me perdoarias. Mas quero que saibas que a nossa amizade me foi mais preciosa do que consegui mostrar-te.
O teu amigo Lorenzo.»
Se a escadaria de pedra te fez refletir sobre os teus próprios objetivos e sobre o desejo de reconhecimento, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Karma podes perguntar: «Que velha convicção me leva a provar constantemente o meu próprio valor?» Em A Linhagem podes observar as ideias da família sobre o sucesso, e em Deixar ir o medo de errar ou da desaprovação.
Se o tema estiver ligado ao teu desenvolvimento profissional, visita Dons, Dinheiro ou A Encruzilhada. Para a relação com um companheiro ou companheira, podes continuar em Amor e Compatibilidade, e se a história te lembrou alguém de quem te afastaste ao longo dos anos, na sala Amigo.
E quando quiseres explorar o tema através dos símbolos do Tarot, podes continuar com a grande tiragem «O processo kármico — desclassificado».
Alguns anos depois do primeiro encontro de Lorenzo com Paolo, o jovem voltou a casa dele. Já sabia ler, escrever e fazer contas, trabalhava num escritório comercial e tinha recebido uma proposta para um cargo de maior responsabilidade.
Lorenzo recebeu-o com alegria, mas reparou que Paolo parecia inquieto.
— O que te preocupa? — perguntou ele.
— Tenho medo de o desiludir. O senhor fez tanto por mim. Se eu não estiver à altura do novo trabalho, todos vão pensar que não merecia esta oportunidade.
Lorenzo pousou a carta em cima da mesa. Nas palavras do rapaz reconheceu os seus próprios pensamentos de juventude.
— Sabes porque é que, um dia, te ajudei a subir aquela escadaria? — perguntou.
Paolo abanou a cabeça.
— Porque, em criança, fui expulso daquele mesmo lugar. Passei grande parte da vida a tentar provar que merecia subir mais alto do que todos os outros. Queria ser respeitado, mas quanto mais alcançava, mais medo tinha de perder o reconhecimento.
— E o senhor arrepende-se de ter trabalhado tão arduamente?
— Orgulho-me de muitas das coisas que alcancei. Mas gostava de ter dedicado mais tempo às pessoas que amo. E de ter percebido mais cedo que um erro não apaga tudo o que de bom uma pessoa fez.
Depois, os dois saíram em direção à velha escadaria de pedra. Lorenzo já se movia devagar e apoiava-se na bengala, e Paolo caminhava ao seu lado e ajudava-o a subir.
Pararam no amplo patamar. Dali abria-se uma bela vista sobre o pátio, os telhados dos edifícios vizinhos e as animadas ruas de Florença.
— Continuamos a subir? — perguntou Paolo.
Lorenzo sorriu.
— Hoje prefiro que fiquemos aqui um bocadinho. Gosto da vista.
Os dois sentaram-se no banco de pedra. Paolo começou a falar do seu trabalho, das pessoas que conhecera e dos seus planos. Lorenzo ouvia-o com interesse, fazia perguntas e desfrutava da conversa.
Passado algum tempo, o jovem riu-se:
— O senhor sempre foi assim tão paciente?
— Pergunta à minha mulher. Mas é melhor fazê-lo quando eu estiver suficientemente longe para não ouvir a resposta.
Os dois desataram a rir.
Quando o sol da tarde começou a descer, Paolo levantou-se e estendeu-lhe a mão. Lorenzo olhou para os degraus que, em tempos, tinham determinado tantas das suas decisões.
Décadas antes, um rapaz pobre fora expulso daquele lugar. Hoje, ao seu lado estava um jovem que recebera a oportunidade de desenvolver as suas capacidades, e o velho mercador sentia uma alegria para a qual já não precisava das felicitações de ninguém.
— Desejo-te que alcances todos os teus objetivos, Paolo — disse Lorenzo. — Mas quando chegares a um patamar bonito, dedica algum tempo a olhar à tua volta. E se ao teu lado estiver alguém com quem queiras partilhar a vista, não o faças esperar até ao degrau seguinte.
Paolo acenou com a cabeça e os dois começaram a descer devagar.
Se escolheste a escadaria de pedra, desejo-te sucessos que realmente te alegrem, objetivos que façam sentido para ti e pessoas com quem possas partilhar as tuas vitórias. Que desenvolvas as tuas capacidades, conquistes reconhecimento e construas a vida a que aspiras, mas sem te esqueceres de reparar no que há de bom pelo caminho. E quando chegares a mais um degrau, permite-te olhar à tua volta. É possível que a vista seja tão bonita que decidas ficar por ali algum tempo. Duvido que alguém te tire o título de «pessoa mais ambiciosa da escadaria» se te permitires cinco minutos de descanso.
Quem continuas a trazer no coração, muito depois de os vossos caminhos se terem separado? E porque é que uma decisão que te trouxe tantas coisas boas ainda pode despertar um sentimento de culpa?
Num velho arquivo ferroviário, entre horários amarelecidos e bilhetes do início do século XX, foi encontrado um envelope com o nome de uma jovem mulher que deixou a sua cidade natal na primavera de 1912. Lá dentro guardam-se um bilhete para Viena, uma fotografia e uma página arrancada de um diário. No verso da fotografia, numa bela caligrafia feminina, lê-se: «Parti antes de conseguir despedir-me. Pensei que um dia encontraria as palavras certas.»
Na fotografia vê-se uma rua antiga de calçada molhada. Debaixo das altas arcadas de pedra espera uma carruagem puxada a cavalos e, junto a uma das colunas, uma jovem mulher aperta a pega de uma grande mala castanha. Tem o cabelo apanhado sob um chapéu elegante, o casaco abotoado até ao pescoço e o olhar voltado para a rua por onde veio. Parece esperar que alguém a alcance, embora tema que, nesse caso, possa perder a coragem.
Mais tarde, foi acrescentado ao envelope um pequeno livro de poemas, encadernado em tecido azul-escuro. Na primeira página, alguém escreveu: «O mundo é maior do que o nosso medo.»
Quem ofereceu o livro? Por quem esperava a mulher da mala? E porque é que o bilhete foi guardado durante décadas depois da viagem?
Confesso que, quando alguém parte, costuma preparar com muito cuidado o mais necessário. Verifica os bilhetes, os documentos, a bagagem, o dinheiro e os horários e, se for particularmente previdente, junta ainda qualquer coisa para comer. Só que os sentimentos dos que nos são próximos raramente cabem na mala. Sobretudo a culpa — essa costuma arranjar o lugar mais confortável sem sequer ter comprado bilhete.
O teu processo kármico simbólico está ligado à separação, à liberdade, à pertença familiar e às palavras que ficam por dizer. Talvez tenhas deixado uma relação, um emprego, uma cidade ou um país porque desejavas uma vida diferente. A decisão pode ter-te trazido alegria, crescimento e novas oportunidades e, apesar disso, ainda te perguntas quem magoaste pelo caminho.
A história vai levar-nos à Europa Central em 1912. Vamos conhecer uma jovem mulher que sonha estudar e trabalhar em Viena, um pai convencido de que sabe qual é o melhor futuro para a filha e um professor de música disposto a apoiar os desejos dela, apesar dos seus próprios sentimentos. Uma partida vai separá-los, mas a verdade sobre a relação entre eles só virá à luz muito mais tarde, escondida numa carta que nunca chegou ao destinatário.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem simbólica com a imaginação, inspirada nas práticas de regressão. Pode ajudar-te a explorar os sentimentos ligados a uma separação ou a uma decisão importante. As imagens que surgirem são associações pessoais e, por si só, não estabelecem memórias reais de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou interromper o exercício.
Instala-te confortavelmente e imagina uma velha cidade europeia de manhã cedo. A calçada brilha depois da chuva da noite, uma névoa paira entre as altas arcadas e os candeeiros da rua ainda estão acesos. Algures ali perto, um relógio dá as horas. Debaixo de uma das arcadas espera uma carruagem e, ao lado dela, foi deixada uma grande mala de couro.
A primeira cena — a noite antes da partida. Imagina um quarto onde alguém está a fazer a mala. Em cima da secretária estão um bilhete, uma carta e alguns objetos pessoais. Que objetos leva consigo e que memória gostaria de guardar? Quem lhe custa mais deixar e que palavras está a adiar dizer?
A segunda cena — a última conversa. A pessoa tem a oportunidade de falar com alguém próximo cuja opinião é importante para ela. Pode ser um pai ou uma mãe, um companheiro ou um amigo. O que deseja um e de que tem medo o outro? Imagina que ambos podem exprimir abertamente os seus sentimentos, mesmo quando não estão de acordo.
A terceira cena — a mala debaixo das arcadas. Regressa à manhã de névoa. A carruagem espera e a pessoa olha para a rua por onde veio. Se pudesse enviar uma única frase a alguém que ficou em casa, o que escreveria?
A quarta cena — a plataforma. Imagina o alto relógio da estação, o vapor da locomotiva e os passageiros com as suas malas. Alguém pode chegar para se despedir, ou talvez a pessoa suba sozinha para o comboio. O que sente quando o comboio arranca? Que sentimentos surgem ao mesmo tempo que a emoção de um novo começo?
A quinta cena — a vida depois da escolha. O tempo avança. A pessoa já vive noutro lugar e passou anos cheios de novas relações e desafios. Observa a casa dela. Que objetos guardou da vida anterior? O que ganhou e do que continua a ter saudades?
A sexta cena — a carta que não foi enviada. Chega-lhe às mãos um envelope com uma caligrafia conhecida. Lá dentro pode haver uma confissão, uma explicação ou palavras que a outra pessoa nunca conseguiu dizer. Imagina o que lá está escrito, lembrando-te de que se trata de uma imagem criativa e não de informação real sobre os sentimentos de alguém. Como muda a história se admitires que pode ter mais do que um ponto de vista?
A sétima cena — o regresso à estação. Estás de novo na plataforma, mas a pessoa já é mais velha. Tem nas mãos um objeto que guardou da partida. Pergunta-lhe o que lhe trouxe o caminho que escolheu, de que se arrepende e o que gostaria de dizer à pessoa jovem com a mala.
Aos poucos, traz a tua atenção de volta ao presente. Escreve qual foi a cena que despertou o sentimento mais forte e que palavras ficaram nos teus pensamentos.
A pergunta que fica: «Que decisão minha ainda me faz sentir culpa e o que sei realmente sobre os sentimentos das pessoas que foram afetadas por ela?»
Europa Central, primavera de 1912. Numa pequena cidade à beira de um largo rio, a vida seguia uma ordem estabelecida. Pelas ruas calcetadas passavam carroças puxadas a cavalos, as lojas abriam cedo e, ao domingo, as famílias respeitáveis reuniam-se depois da missa para conversar sobre os últimos acontecimentos. Os noivados, os casamentos e as decisões dos vizinhos despertavam um interesse especial. Com empenho suficiente, alguns conseguiam ficar a saber dos planos alheios ainda antes das próprias pessoas que os deviam pôr em prática.
Numa espaçosa casa de dois andares perto da praça central vivia Klara Weiss, de vinte e três anos. O pai, Josef, era dono de uma loja de tecidos que tinha herdado e ampliado, e a mãe, Marta, cuidava da casa e das relações com as famílias respeitáveis da cidade.
Klara tinha cabelo castanho, olhos claros e o hábito de tocar no pequeno pendente de prata que trazia ao pescoço sempre que ficava inquieta. Falava francês, tocava piano e adorava livros. O que mais a atraía eram os relatos sobre as grandes cidades europeias, os teatros, as salas de concertos e as universidades, onde as mulheres iam aos poucos conquistando novas oportunidades de estudo e de trabalho.
Josef amava sinceramente a filha e desejava garantir-lhe um bom futuro. Tinha visto como era difícil a vida das mulheres sem meios próprios nem apoio da família e considerava que um casamento respeitável era o caminho mais seguro para uma vida feliz.
Havia já alguns anos que os pais discutiam a possibilidade de Klara casar com Friedrich, um jovem comerciante de uma família abastada. Ele era bem-educado, atencioso e tratava-a com respeito. Trazia-lhe flores, acompanhava-a nas reuniões de família e conversava com o pai dela sobre a futura casa de ambos.
Klara gostava dele e apreciava o seu bom feitio. Mas, quando tentava imaginar o casamento dos dois, via uma vida em que a sua principal ocupação seria cuidar da casa e participar nas reuniões de família. Friedrich queria exatamente isso e não tinha razões para pensar que os desejos de ambos fossem tão diferentes.
Uma noite, Klara disse à mãe que queria estudar em Viena.
— Vais ter oportunidade de viajar também depois do casamento — respondeu Marta. — O Friedrich é um bom homem. Vai cuidar de ti.
— Mas eu quero estudar e trabalhar por mim própria, mãe. Quero perceber do que sou capaz.
Marta olhou para ela com tristeza. Tomou as palavras dela por um entusiasmo de juventude que haveria de passar quando a filha constituísse família.
Klara percebeu que todos à sua volta já lhe tinham preparado o futuro, com as melhores intenções. Só que ninguém lhe tinha perguntado se era isso que ela própria queria.
No outono anterior, tinha chegado à cidade um jovem professor de música chamado Adrian. Tinha vivido em Viena e em Praga, tocava piano maravilhosamente e possuía um vivo sentido de humor. Os dois conheceram-se num serão musical e depressa descobriram que conseguiam passar horas a conversar sobre livros, concertos e viagens.
Adrian falava dos cafés de Viena, dos espetáculos de teatro e dos músicos que tinha conhecido. Klara ouvia-o com enorme interesse, e ele discutia com gosto os planos dela, sem os tomar por coisa pouco séria.
Com o tempo, Adrian começou a sentir por ela algo que ia além da amizade. Gostava da curiosidade dela e da forma como se animava quando falava de música. Também Klara lhe tinha um grande afeto, mas via a relação entre os dois sobretudo como amizade. Ele era a pessoa com quem podia falar abertamente, sem ter de se justificar pelos seus desejos.
Uma tarde, enquanto passeavam junto ao rio, Adrian perguntou-lhe se queria mesmo casar com Friedrich.
Klara ficou muito tempo calada.
— Ele é um bom homem. Mas, quando penso no nosso casamento, tenho a sensação de que a minha vida já está escrita. E eu ainda não percebi o que quero fazer com ela.
Adrian contou-lhe a sua própria partida, quando era jovem. Os primeiros anos longe de casa tinham sido difíceis, mas tinham-lhe dado a oportunidade de estudar música e de encontrar o seu lugar.
— Arrependes-te de ter partido? — perguntou Klara.
— Arrependo-me sobretudo do tempo em que tive medo de o fazer.
Algumas semanas depois, chegou uma carta da prima de Klara — Elisabeth, que vivia em Viena. Convidava-a a ficar em casa dela enquanto frequentava cursos de línguas e de música e procurava um trabalho adequado.
Klara leu a carta tantas vezes que depressa conseguia repetir quase todas as frases. Começou a consultar os horários, a fazer contas às despesas e a pensar em como poderia ganhar a vida. Pela primeira vez, o seu desejo parecia realizável.
Quando o contou a Josef, a conversa depressa se transformou numa discussão.
— Uma jovem solteira sozinha em Viena? — exclamou o pai. — Já pensaste no que as pessoas vão dizer? O Friedrich oferece-te um futuro seguro.
— Pai, eu quero estudar. Posso ficar em casa da Elisabeth e procurar trabalho.
— Trabalhei a vida inteira para que tu não tivesses de te preocupar com essas coisas.
— Eu sei. Estou-te grata. Mas quero decidir por mim como vou viver.
Josef zangou-se. Nas palavras dela ouviu uma rejeição de tudo o que tinha feito por ela.
— Enquanto viveres debaixo do meu teto, não vou permitir semelhante viagem.
Marta tentou reconciliá-los, mas também ela se preocupava com a opinião pública e com o noivado que se aproximava. Sugeriu que Klara esperasse pelo casamento e que depois viajasse com o marido.
Nas semanas seguintes, a família continuou a discutir os planos do casamento, como se a conversa sobre Viena nunca tivesse acontecido. Friedrich estava satisfeito com o rumo da relação, e Klara percebia cada vez com mais clareza que, se não tomasse uma decisão em breve, a sua vida seguiria numa direção que não tinha escolhido.
Depois de mais uma conversa difícil com o pai, escreveu a Elisabeth, começou a juntar as suas economias e comprou um bilhete de comboio para Viena.
Na noite antes da partida, tirou a grande mala castanha e arrumou nela a roupa, os livros e o mais necessário. Depois sentou-se à secretária para escrever uma carta aos pais.
A primeira tentativa saiu longa e cheia de explicações. Klara leu-a e rasgou as folhas. A segunda carta pareceu-lhe demasiado fria. À terceira tentativa, começou a chorar.
Por fim, escreveu um bilhete curto a dizer que partia para Viena, que ficaria em casa da prima e que escreveria assim que chegasse. Deixou-o em cima da mesa e passou a noite quase sem dormir.
Ainda antes do nascer do sol, saiu pela porta lateral. As ruas estavam molhadas da chuva da noite, os candeeiros iluminavam a calçada e a cidade ainda dormia. Várias vezes Klara se voltou para trás, porque lhe parecia que alguém a chamava.
Debaixo das velhas arcadas esperava-a a carruagem combinada.
O cocheiro andava impaciente de um lado para o outro junto ao cavalo, e Klara ficou por um instante ao lado da mala. Imaginou que podia voltar atrás, desfazer a bagagem e continuar a vida que a família lhe tinha preparado. Toda a gente ficaria satisfeita. Provavelmente, também ela aprenderia a viver assim.
Depois olhou para o bilhete.
— Para a estação, por favor — disse ao cocheiro.
O homem levantou a mala, Klara subiu para a carruagem e as rodas puseram-se em marcha sobre a calçada molhada.
Na estação já havia passageiros. Os funcionários carregavam bagagens, da locomotiva subia vapor e o grande relógio mostrava que faltava pouco para a partida. Klara encontrou a sua carruagem e pousou a mala na plataforma. Olhou várias vezes para a entrada, embora não esperasse ninguém.
Foi então que viu Adrian.
O jovem professor aproximou-se apressado. Trazia na mão um pequeno livro encadernado em tecido azul-escuro.
— Para a viagem — disse, estendendo-lho. — Para não te aborreceres se o comboio se atrasar. Com os caminhos de ferro, nunca se deve subestimar essa possibilidade.
Klara riu-se por entre as lágrimas. Abriu a primeira página e leu o que ele lá tinha escrito com a sua caligrafia:
«O mundo é maior do que o nosso medo.»
— Como soubeste quando eu partia? — perguntou ela.
— A Elisabeth escreveu-me. Achei que alguém devia vir despedir-se de ti.
Klara olhou para ele com gratidão. Queria dizer-lhe quanto as conversas entre os dois tinham significado para ela e quanto ele a tinha ajudado a acreditar nas suas próprias capacidades. Mas as palavras ficaram-lhe presas na garganta.
Adrian compreendeu. Sabia há muito que a amava, mas não queria que os seus sentimentos se tornassem mais uma razão para ela hesitar. Desejou-lhe que estudasse, que fosse a concertos e que conhecesse pessoas interessantes. Depois pediu-lhe que lhe escrevesse a contar o primeiro espetáculo musical que visse em Viena.
Klara prometeu.
Quando os funcionários chamaram os passageiros, ela subiu para a carruagem e pôs-se à janela. Adrian ficou na plataforma. O comboio arrancou, ela levantou a mão em despedida e a figura dele foi desaparecendo aos poucos no meio do vapor e da névoa.
Em Viena, foi recebida por Elisabeth. Os primeiros dias foram cheios de impressões — largas avenidas, cafés animados, livrarias, teatros e salas de concertos. Klara estava encantada, mas depressa descobriu que viver por conta própria exigia muito mais esforço do que tinha imaginado.
O dinheiro era pouco, o trabalho difícil de encontrar e os cursos exigiam persistência. Recebeu várias recusas e começou a perguntar-se se não teria sobrestimado as suas capacidades. Elisabeth ajudou-a a fazer um plano de despesas e encorajou-a a continuar.
Ao fim de alguns meses, Klara encontrou trabalho como assistente numa editora musical. Os seus conhecimentos de francês revelaram-se úteis, e as tarefas permitiam-lhe conviver com pessoas cujos interesses partilhava. O trabalho era cansativo, mas ela foi construindo aos poucos a vida com que sonhava.
Ia a concertos, aperfeiçoava as línguas e fazia novos amigos. À noite, porém, quando ficava sozinha, pensava muitas vezes nos pais.
Marta escrevia-lhe com relativa regularidade. Contava-lhe da loja, dos acontecimentos de família e dos conhecidos. Josef mantinha-se em silêncio.
Klara enviou-lhe várias cartas com fotografias e relatos do trabalho e dos cursos, mas não recebeu resposta. Aos poucos, começou a acreditar que o pai nunca lhe perdoaria e que a partida às escondidas tinha destruído o amor que ele lhe tinha.
— Sabes realmente o que ele sente? — perguntou-lhe um dia Elisabeth.
— Se quisesse ter notícias minhas, tinha-me escrito.
— Talvez. Mas tu conheces o teu pai. Quando não sabe o que dizer, costuma escolher o silêncio.
Klara ficou a pensar nisso, mas a tristeza permaneceu. Continuou a escrever de vez em quando, na esperança secreta de que alguma das cartas tivesse resposta.
Passado cerca de um ano, Adrian contou-lhe que tinha aceitado um trabalho em Praga. Os dois trocaram algumas cartas sobre música, concertos e as suas novas ocupações. Mais tarde, a correspondência tornou-se mais rara. Klara soube que Adrian tinha casado e tinha dois filhos. Alegrou-se por ele e guardou o livro de poemas entre os seus bens mais preciosos.
Entretanto, a vida dela em Viena corria bem. Tinha recebido mais responsabilidades na editora, tinha amigos e começava aos poucos a sentir-se em casa na grande cidade.
Alguns anos depois da partida, chegou uma carta de Marta. Josef estava gravemente doente.
Klara começou de imediato a preparar a viagem à cidade natal. Na editora, porém, havia uma encomenda importante, e os seus meios eram limitados. Tentou conseguir uma licença e juntar o dinheiro necessário, garantindo à mãe que chegaria na primeira oportunidade.
Antes de conseguir partir, recebeu um telegrama.
O pai tinha morrido.
Klara ficou muito tempo com a folha nas mãos. Ao longo dos anos, tinha imaginado que um dia voltaria, que os dois conversariam e que Josef compreenderia porque é que ela tinha precisado de partir. Agora, essa conversa nunca iria acontecer.
Chegou para o funeral e voltou a atravessar a soleira da casa que um dia tinha deixado às escondidas. Os móveis conhecidos, o soalho de madeira e o perfume das flores de Marta despertaram tantas memórias que, por um instante, lhe pareceu que ia ouvir a voz do pai vinda do escritório.
Nos dias seguintes, ela e a mãe começaram a rever os papéis dele. Numa das gavetas, Klara encontrou cartas cuidadosamente guardadas.
Reconheceu de imediato a sua própria caligrafia.
Eram todas as cartas que tinha enviado de Viena. Arrumadas por datas, juntamente com as fotografias de concertos, de ruas e de encontros com amigos.
— Ele lia-as — disse Marta, quando viu a surpresa dela. — Muitas vezes, à noite, sentava-se no escritório e relia as tuas cartas. Mostrava as fotografias aos amigos mais próximos. Tinha orgulho em ti.
— Então porque é que nunca me respondeu?
— Tentava. Mas dizia sempre que não sabia por onde começar.
Pouco depois, Klara encontrou um envelope fechado com o seu nome. A carta tinha sido escrita alguns meses depois da partida dela, mas nunca tinha sido enviada.
Nela, Josef confessava quão zangado e impotente se tinha sentido quando descobriu que a sua única filha tinha partido sem se despedir. Durante muito tempo acreditara que sabia qual era o melhor futuro para ela e custara-lhe aceitar que Klara desejasse uma vida diferente. Tinha medo da reprovação da sociedade e dos perigos da grande cidade, mas, aos poucos, começara a preocupar-se sobretudo em saber se ela era feliz.
Contava como relia as cartas dela e quanto o alegravam as notícias sobre o seu trabalho e os seus estudos. De cada vez pegava na pena, mas adiava a resposta, porque não encontrava palavras com que exprimir ao mesmo tempo a mágoa e o amor.
No fim, escreveu:
«Tive medo de te deixar partir, porque pensava que te ia perder. Agora compreendo que, com o meu silêncio, sou eu que aumento a distância entre nós. Tenho orgulho em ti, minha filha, embora não tenha encontrado coragem para to dizer.»
Klara leu as últimas linhas várias vezes. Durante tantos anos tinha tomado o silêncio do pai como prova de que ele deixara de a amar. Agora descobria que ele tinha acompanhado a vida dela com interesse e que se orgulhava das suas conquistas.
A dor da perda ficou. A ela juntou-se o pesar pelas conversas que os dois não tinham conseguido ter.
Nessa noite, Klara ficou sentada sozinha no seu antigo quarto. Da janela via-se a rua por onde um dia tinha partido para a estação. Lembrou-se da calçada molhada, do medo de perder o amor dos pais e das palavras por dizer que agora nunca lhes poderia dizer.
Foi então que fez a si mesma uma promessa:
«Nunca mais vou causar uma dor assim a alguém que me ama.»
Acreditava que, se fosse suficientemente atenta com todos, conseguiria evitar separações e arrependimentos semelhantes.
Nos anos seguintes, porém, esta promessa começou aos poucos a influenciar o seu dia a dia. Custava-lhe recusar pedidos, mudava os seus planos quando alguém precisava dela e sentia culpa mesmo quando tinha uma razão válida para escolher os seus próprios desejos.
Com o tempo, conheceu um homem que trabalhava na área editorial e partilhava o seu interesse pelos livros e pela música. Os dois aproximaram-se, constituíram família e tiveram uma filha. O marido respeitava o trabalho e a independência dela, e a casa deles foi-se enchendo de música, de livros e de conversas animadas.
Apesar da felicidade, Klara continuava a inquietar-se sempre que alguém próximo sentia tristeza ou desilusão. Se a mãe lhe dizia que tinha saudades dela, começava logo a mudar os seus planos. Se o trabalho exigia que se ausentasse, sentia culpa por deixar a criança com familiares, apesar de todos estarem de acordo.
Uma noite, o marido perguntou-lhe porque é que lhe custava tanto dizer que não, mesmo quando não tinha possibilidade de satisfazer o pedido.
Klara falou-lhe de Josef, da carta que ele nunca enviou e da promessa que fizera a si mesma depois da morte dele.
— Percebo porque queres proteger as pessoas de quem gostas — disse ele. — Mas, quando alguém está triste, isso nem sempre significa que tu agiste mal.
As palavras dele ficaram-lhe no pensamento.
Os anos passavam e a filha deles crescia. A rapariga adorava ciência, lia muito e sonhava estudar noutra cidade. Klara alegrava-se com a curiosidade dela, mas, quando a partida começou a parecer realmente possível, sentiu uma inquietação conhecida.
Imaginava o quarto vazio, os serões sem as conversas das duas e os perigos que uma rapariga jovem podia encontrar longe de casa. Começou a fazer cada vez mais perguntas sobre a universidade, o alojamento, as despesas e as pessoas com quem a filha iria viver.
Uma noite, a rapariga perguntou-lhe:
— Mãe, estás desiludida por eu querer partir?
Klara ficou calada.
De repente, lembrou-se do rosto de Josef quando lhe disse que queria estudar em Viena. Nessa altura, sentira-se como se o amor do pai dependesse da sua decisão de ficar. E agora era a sua própria filha que começava a ter medo do mesmo.
Klara abraçou-a.
— Vou ter imensas saudades tuas — confessou. — Vou preocupar-me em saber se chegaste, se comeste e se não te esqueceste do casaco nalgum comboio. Mas tenho muito orgulho em ti. E quero que tenhas a oportunidade de estudar aquilo de que gostas.
A rapariga sorriu e abraçou-a com ainda mais força.
Nessa noite, Klara abriu o velho armário e tirou o livro de poemas que Adrian lhe tinha oferecido. Abriu a primeira página e leu as palavras que, um dia, a tinham ajudado a subir para o comboio:
«O mundo é maior do que o nosso medo.»
Olhou para o quarto da filha e compreendeu o que queria dar-lhe no dia da partida.
O voto simbólico de Klara nasce da convicção dolorosa de que a sua própria decisão causou uma perda irreparável. Depois da morte do pai, ela começa a acreditar que, se tivesse ficado ou tivesse feito mais, a relação entre os dois teria tido um fim diferente.
Aos poucos, a promessa ganha um sentido mais amplo:
«Se eu escolher a minha própria felicidade, vou causar dor às pessoas que amo.»
Um padrão assim pode surgir depois de uma separação, de uma partida, de um divórcio ou de uma decisão que desiludiu as pessoas próximas de ti. É possível que estivesses convencido(a) de que a mudança era necessária mas que, anos mais tarde, ainda sintas culpa quando te lembras das lágrimas, da raiva ou do silêncio dos outros.
Talvez tenhas aprendido a estar disponível para todos, te custe estabelecer limites e te preocupes muitas vezes com o que o outro vai sentir se lhe disseres que não. Aos poucos, começas a encarar cada desilusão alheia como um erro pessoal.
Mas as relações entre as pessoas são mais complexas. Podemos cuidar de quem nos é próximo, falar abertamente e assumir a responsabilidade pelas nossas próprias ações. Não podemos determinar de antemão todas as reações dos outros, nem eliminar a tristeza que acompanha certas mudanças na vida.
A nova promessa que podes levar desta história é:
«Posso amar as pessoas que são importantes para mim e tomar decisões responsáveis sobre a minha própria vida, respeitando os sentimentos delas e as minhas próprias necessidades.»
Imagina uma mulher que pôs fim à relação com um homem que amava, porque os dois tinham ideias diferentes sobre o futuro em comum. Com o tempo, ela construiu uma nova vida, mas continua a sentir culpa quando sabe que o antigo companheiro ainda está sozinho.
Começa a responder às mensagens dele, aceita encontros e esforça-se por não o magoar, embora já não tenha vontade de reatar a relação. Aos poucos, a indefinição torna as coisas difíceis para os dois. Ela tem medo de estabelecer um limite claro, e ele pode interpretar a proximidade como esperança de um recomeço.
Outra pessoa vive a separação de forma oposta. Corta todo o contacto, porque tem medo de uma conversa dolorosa, mas, anos mais tarde, continua a perguntar-se o que o companheiro sentia realmente e se ficou alguma coisa por esclarecer.
Em histórias como estas, é útil perguntares-te o que te prende — o amor por aquela pessoa concreta, o arrependimento pelas tuas próprias ações ou o desejo de ter a garantia de que o outro já não sofre.
A história de Adrian acrescenta um ponto de vista particularmente bonito. Ele amava Klara, mas compreendia quanto a partida era importante para ela. Despediu-se dela com um livro e palavras que lhe deram coragem e depois seguiu ele próprio com a sua vida, constituiu família e guardou a bela memória da amizade dos dois. A separação foi triste, mas não retirou o valor ao que tinham vivido.
Talvez os teus pais tenham feito um esforço enorme para te garantir um bom futuro. Amas-os, estás-lhes grato(a) e procuras manter uma relação próxima com eles. Mas, quando os teus desejos são diferentes das expectativas deles, começas a sentir-te culpado(a).
Imagina um homem que recebe uma proposta de trabalho noutro país. Há muito que deseja uma oportunidade assim, mas os pais receiam ficar sozinhos. Ele propõe-se organizar visitas regulares e manter um contacto constante, mas, mesmo assim, continua a adiar, porque tem medo de que a partida seja vista como ingratidão.
Para outra pessoa, o tema pode ser a escolha de um companheiro, de uma profissão ou de um modo de vida que a família tem dificuldade em aceitar. Por vezes, por trás da desaprovação deles escondem-se receios reais que merecem atenção. Outras vezes, a preocupação deles está ligada à necessidade de aceitarem que já não podem determinar todas as decisões de um filho que cresceu.
A velha história oferece também o ponto de vista de quem é pai ou mãe. Quando a filha de Klara decide partir, a mãe sente a mesma tristeza que Josef conheceu um dia. A diferença surge na conversa: Klara consegue admitir os seus próprios medos sem fazer da filha refém deles.
Talvez tenhas deixado um emprego seguro, te tenhas mudado para outra cidade ou tenhas começado um negócio por conta própria. No início, estavas cheio(a) de esperança, mas, depois das primeiras dificuldades, começaste a perguntar-te se não terias cometido um erro.
Imagina uma mulher que deixa um emprego estável para abrir o seu próprio pequeno negócio. Os primeiros meses são duros, as receitas são irregulares e as obrigações revelam-se maiores do que ela esperava. Quando a família manifesta preocupação, ela começa a encarar cada dificuldade como prova de que desiludiu as pessoas que acreditaram nela.
Para outra pessoa, a escolha pode ser emigrar. Conseguiu um bom trabalho, mas sente a falta dos amigos, dos lugares de sempre e da proximidade da família. Nas noites difíceis, imagina como a vida seria fácil se nunca tivesse partido.
A história de Klara lembra que um novo começo raramente elimina todas as dificuldades. Ela passou por recusas, preocupações financeiras e solidão antes de encontrar o seu lugar em Viena. Ao avaliares a tua própria decisão, é útil olhares para os resultados reais, para as possibilidades de mudança e para as condições de que dispunhas quando fizeste a escolha.
Uma partida ou uma grande mudança na vida muitas vezes também transforma as amizades. Talvez tenhas tido uma pessoa próxima com quem falavas quase todos os dias e, depois da partida, tenham começado aos poucos a escrever-se cada vez menos. A vida continuou, surgiram novas relações e obrigações, mas a memória dessa amizade manteve o seu significado.
Outras vezes, a relação muda porque um fez uma escolha que o outro tem dificuldade em aceitar. Podem surgir mágoa, um sentimento de abandono ou a convicção de que a proximidade de antes já não tem importância.
Se este tema te é familiar, pensa numa pessoa com quem não falas há muito tempo. O que gostarias de lhe dizer hoje? Talvez uma mensagem curta seja suficiente para retomarem o contacto. Ou talvez prefiras simplesmente guardar a bela memória e a gratidão pelo tempo que partilharam.
Durante anos, Klara acreditou que o pai tinha deixado de a amar. O silêncio dele era real, tal como a zanga depois da partida. Mas ela não sabia que ele guardava as cartas dela e que tinha orgulho nela.
Este é um dos temas mais importantes do teu processo kármico: que parte da tua culpa vem de factos conhecidos e que parte vem de suposições sobre os sentimentos dos outros?
Talvez acredites que uma pessoa do teu passado nunca te perdoou. Ou estás convencido(a) de que as pessoas próximas de ti consideram uma determinada decisão tua um erro imperdoável. É possível que tenhas razões para esses pensamentos, mas também que existam coisas que nunca tiveste oportunidade de saber.
Se a conversa for possível e adequada, podes procurar clareza. Se a relação terminou ou a pessoa já não está entre os vivos, podes examinar as tuas próprias ações e as circunstâncias, sem transformar suposições em verdades definitivas.
Proponho-te uma prática de sete dias que te ajude a examinar uma decisão importante do passado e os sentimentos que ela continua a despertar.
Primeira paragem — a partida. Escreve uma decisão com a qual mudaste a tua vida ou te separaste de uma pessoa, de um lugar, de um emprego ou de um modo de vida conhecido. Que circunstâncias te levaram a ela? O que desejavas e o que sabias nessa altura? Tenta olhar para a escolha pelos olhos da pessoa que eras naquele momento.
Segunda paragem — as pessoas que ficaram. Pensa em quem foi afetado pela tua decisão. Que sentimentos tens hoje por essas pessoas? Escreve de que ações tuas te arrependes e que reações dos outros continuas a imaginar.
Terceira paragem — o que ficou por dizer. Escreve uma carta a uma pessoa com quem tens sentimentos por esclarecer. Conta o que querias explicar, pelo que estás grato(a) e o que gostarias que ela soubesse. A carta pode ficar só para ti. Se estiveres a pensar num contacto real, avalia se é adequado.
Quarta paragem — os factos e as suposições. Divide uma folha em duas colunas. Numa, escreve aquilo que sabes com certeza e, na outra, o que supões sobre os pensamentos e os sentimentos dos outros. Por exemplo, podes saber que alguém deixou de te escrever, mas não conhecer todas as razões do seu silêncio.
Quinta paragem — a minha responsabilidade. Pensa no que dependia de ti e no que estava fora do teu alcance. Por que ações tuas podes assumir responsabilidade? Há alguma coisa que possa ser reparada ou explicada hoje? Separa as tuas próprias decisões daquilo que os outros escolheram fazer.
Sexta paragem — a nova promessa. Escreve uma regra que possas ter criado depois da separação. Por exemplo: «Nunca mais vou desiludir ninguém.» Depois, substitui-a por uma promessa que te permita, ao mesmo tempo, ser atencioso(a) com as pessoas próximas e respeitar as tuas próprias necessidades.
Sétima paragem — o novo bilhete. Recorta um pequeno papel em forma de bilhete e escreve nele uma mudança que desejas fazer agora. Acrescenta um primeiro passo concreto e a data até à qual o vais dar. Pode ser uma conversa, uma decisão, um encontro ou uma ação que andas há muito a adiar.
Para esta variante, proponho-te dois objetos: a carta da terceira paragem e o bilhete da sétima.
Coloca-os em envelopes separados. Num, escreve «O passado que aceito» e, no outro, «O futuro que escolho».
A carta será o símbolo dos sentimentos por dizer que podes exprimir, pelo menos perante ti próprio(a). O bilhete vai lembrar-te de que o presente continua a oferecer oportunidades, independentemente das decisões que já tomaste.
Imagina Klara anos depois da sua primeira partida. Está sentada à janela da sua casa em Viena e, à sua frente, está o velho livro azul-escuro que Adrian lhe ofereceu. Abre-o, lê a dedicatória conhecida e pega numa folha de papel para escrever algumas palavras à rapariga que, um dia, esperou pela carruagem debaixo das arcadas molhadas.
«Querida Klara,
Sei quanto medo tens nesta manhã. Tens medo do desconhecido, da zanga do nosso pai, das lágrimas da nossa mãe e da possibilidade de te veres sozinha numa cidade enorme. Mas o que mais te inquieta é que as pessoas que amas deixem de te amar se seguires os teus próprios desejos.
Gostava de me poder sentar ao teu lado durante alguns minutos, antes de a carruagem chegar. Dir-te-ia para levares mais uma peça de roupa quente, porque em Viena os invernos podem ser desagradáveis, sobretudo quando o dinheiro não chega para tudo. Mas, acima de tudo, pedir-te-ia que não confundisses a tristeza dos outros com falta de amor.
Esperam-te experiências maravilhosas e dias difíceis. Vais conhecer pessoas de quem vais gostar, vais aprender muito e vais encontrar um trabalho que tem significado para ti. Também haverá noites em que te vais sentir sozinha e em que te vais perguntar se não te enganaste.
Não te vou prometer que tudo vai correr como imaginas. Digo-te apenas que a tua vida vai ser verdadeiramente tua e que vais ter a oportunidade de a construir.
Gostava que tivéssemos encontrado maneira de falar com o nosso pai. Durante tantos anos acreditei que o silêncio dele significava que me tinha rejeitado. Mais tarde compreendi quanto ele queria dizer-me e quanto medo tinha de não encontrar as palavras certas.
Ele amava-nos. Mas o amor dele não conseguiu chegar até nós da forma de que precisávamos.
Durante muito tempo depois da morte dele, carreguei a convicção de que nunca mais devia entristecer alguém que amo. Tentava satisfazer todos os pedidos, evitar todas as desilusões e estar disponível, mesmo quando não tinha forças. Só mais tarde compreendi que, assim, comecei aos poucos a perder a liberdade pela qual, um dia, tinha ganhado coragem para partir.
Agora tenho uma filha que também sonha conhecer o mundo. Quando me disse que queria estudar noutra cidade, senti a mesma inquietação que, provavelmente, o nosso pai sentiu um dia. Mas, desta vez, encontrei palavras para lhe dizer que tenho orgulho nela e que a nossa casa vai estar sempre à espera dela.
Por isso, minha querida, pega na mala e no livro. Se puderes, encontra maneira de dizer aos nossos que os amas. E, quando se despedirem de ti com tristeza, lembra-te de que a separação pode ser difícil também para pessoas que desejam sinceramente a felicidade umas das outras.
E não te esqueças da dedicatória na primeira página. Passados tantos anos, ainda acredito que Adrian escolheu as palavras mais certas.
Com amor e gratidão,
Klara.»
Se a mulher da estação te fez lembrar uma separação, uma decisão importante ou uma conversa que nunca chegou a acontecer, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Deixar ir podes perguntar: «Que sentimento do passado continua a travar-me e como posso compreendê-lo melhor?» Em A Linhagem podes examinar as crenças familiares sobre dever, pertença e independência e, em Karma, os padrões simbólicos repetidos ligados à culpa e à separação.
Se a tua história está ligada a uma pessoa concreta, continua em Amor ou em Compatibilidade. Para escolher entre diferentes rumos de vida, podes visitar A Encruzilhada e, numa mudança profissional, Dons e Dinheiro. Na sala Amigo podes explorar a relação com uma pessoa de quem te foste afastando aos poucos.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica «A porta para uma vida esquecida».
Muitos anos depois da primeira partida de Klara, a estação de Viena estava de novo cheia de passageiros. Debaixo do alto telhado de metal e vidro ouviam-se vozes, passos e avisos sobre os comboios que chegavam. Klara esperava na plataforma com a filha, que em breve partiria para estudar noutra cidade.
A rapariga estava entusiasmada. Pela primeira vez ia viver longe dos pais e há muito que andava a preparar a partida.
Klara já tinha verificado se o bilhete estava bem guardado, se a filha levava o dinheiro necessário e se sabia a morada de pessoas a quem pudesse recorrer em caso de necessidade.
— Mãe, se verificas a minha bagagem mais uma vez, vou achar que tencionas ir no meu lugar — riu-se a rapariga.
— Não diria que não a uma viagem — respondeu Klara. — Mas duvido que a vossa universidade precise de uma estudante com tanta experiência em fazer perguntas.
As duas riram-se.
Depois, Klara abriu a mala de mão e tirou um pequeno livro de poemas, encadernado em tecido azul-escuro.
— Quero que leves isto.
A filha reconheceu de imediato o livro da biblioteca da família.
— Mas tu guardas isso há tantos anos!
— É precisamente por isso que quero que o leves. Ofereceu-mo uma pessoa que veio despedir-se de mim quando parti de casa pela primeira vez. Nessa altura, eu tinha a tua idade e estava terrivelmente preocupada com o que me esperava.
Klara abriu a primeira página e mostrou a dedicatória:
«O mundo é maior do que o nosso medo.»
A rapariga leu as palavras e depois olhou para a mãe.
— E tu, arrependes-te de ter partido?
Klara ficou pensativa.
— Em muitas coisas, gostava de ter encontrado palavras melhores. Mas a partida em si deu-me a vida que amo. Se tivesse ficado, não teria conhecido o teu pai e não te teria a ti.
A filha sorriu, mas, passado um pouco, perguntou:
— E vais ter saudades minhas?
— Imensas. Provavelmente vou entrar no teu quarto e perguntar-me porque é que ninguém deixou livros em todas as cadeiras. Mas fico muito contente por teres a oportunidade de estudar aquilo de que gostas.
Klara abraçou-a.
— Vai, estuda, conhece pessoas, faz planos e muda-os quando descobrires um caminho melhor. E, quando quiseres voltar, vais ter sempre uma casa connosco.
Pouco depois, o comboio chegou. A filha guardou o livro na mala, subiu para a carruagem e pôs-se à janela. As duas acenaram uma à outra, e o comboio foi arrancando devagar.
Klara ficou na plataforma a ver as carruagens afastarem-se.
Lembrou-se da manhã de névoa de 1912, da calçada molhada, da grande mala castanha e de Adrian, que tinha vindo despedir-se dela. Nessa altura, partira com medo de perder o amor das pessoas que deixava para trás.
Hoje despedia-se da sua própria filha. Estava triste, porque ia ter saudades dela, mas alegrava-se com as oportunidades que a esperavam. Pela primeira vez, conseguia viver uma separação sem transformar a tristeza em acusação.
Enquanto caminhava para a saída, Klara imaginou a rapariga a abrir o livro durante a viagem e a ler a velha dedicatória. Sorriu ao pensar que o presente de Adrian voltava a fazer-se ao caminho.
Se escolheste a mulher da estação, desejo-te coragem para tomares as decisões importantes da tua vida, sabedoria para falares abertamente com as pessoas que amas e mais compreensão por aquilo que não podias saber no passado. Que guardes as boas memórias sem transformar o arrependimento numa obrigação para a vida inteira. E, quando voltares a dar por ti numa estação com uma mala na mão, consulta o horário, guarda o bilhete num lugar seguro e leva um bom livro. Nunca se sabe que mundo novo se pode descobrir entre duas estações, sobretudo se o comboio decidir ter opinião própria sobre a hora de chegada.
Que verdade continuas a procurar, ao mesmo tempo que tens medo de a ouvir? E quanto da tua vida passou em tentativas de adivinhar aquilo que outra pessoa te podia ter dito apenas com algumas palavras?
Na biblioteca de uma velha casa francesa, entre documentos notariais, livros de família e cartas amarelecidas do século XVIII, foi encontrada uma pequena caixa de madeira. A tampa é decorada com uma fina talha e, lá dentro, algumas dezenas de envelopes estão atados com uma fita azul desbotada. A maioria tem marcas de ter sido lida muitas vezes, mas um deles conservou intacto o seu selo de lacre vermelho.
A carta é dirigida a uma jovem mulher que viveu em França em 1768. Por baixo do nome dela, o autor acrescentou, numa bela caligrafia ligeiramente inclinada: «Peço-te, lê isto antes de tomares uma decisão.»
Chegou algumas semanas antes do noivado dela. A mulher guardou-a durante todo o casamento, levou-a juntamente com os seus objetos pessoais para a nova casa e trouxe-a consigo durante quase três décadas. Só a abriu aos cinquenta e dois anos, depois da morte do marido.
O que pode levar alguém que espera uma carta com enorme impaciência a ter tanto medo daquilo que nela está escrito? Porque preferiria tomar uma decisão sobre toda a sua vida em vez de quebrar um selo de lacre?
Confesso que a imaginação humana é espantosamente trabalhadora. Basta-lhe um envelope fechado para criar uma história de amor, uma traição, um encontro secreto, uma herança inesperada e pelo menos um parente com intenções duvidosas. E, se alguém mencionar uma viúva rica, já temos material para um romance inteiro. Só o autor da carta nos pode dizer se acertámos no enredo.
O teu processo kármico simbólico está ligado à confiança, aos sentimentos por dizer e ao medo de respostas que poderiam mudar a tua vida. Talvez esperes há muito tempo uma explicação de uma determinada pessoa, mas, quando surge a oportunidade de falarem abertamente, começas a adiar. Ou analisas com tanto cuidado mensagens, olhares e gestos que, aos poucos, as tuas próprias suposições começam a parecer mais convincentes do que os factos reais.
A história vai levar-nos à França do século XVIII, quando as cartas viajavam durante dias e semanas e uma resposta atrasada podia mudar o destino de duas pessoas. Vamos conhecer uma mulher que tem medo tanto da possibilidade de ser abandonada como da necessidade de escolher sozinha o seu futuro.
E, quando finalmente quebrarmos o selo vermelho, vamos descobrir que a verdade era muito diferente da história que ela contava a si própria.
Antes de leres o processo histórico, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Pode ajudar-te a examinar a tua relação com o desconhecido, com a confiança e com as conversas difíceis. As imagens são associações pessoais da imaginação e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Imagina uma sala espaçosa numa velha casa europeia. A luz da tarde entra pelas janelas altas, os cortinados pesados ondulam ligeiramente e, em cima de uma secretária de madeira, estão arrumados livros, um tinteiro, uma pena e alguns envelopes. Ao lado de uma pequena caixa trabalhada em talha está um corta-papéis.
O primeiro momento — a chegada. Um criado ou um funcionário dos correios entra e entrega uma carta a uma pessoa de outra época. Observa o rosto dela, a roupa e a sua reação quando reconhece a caligrafia. De quem espera notícias? Que resposta espera receber e porque é que ela tem tanta importância?
O segundo momento — o selo intacto. A pessoa fica sozinha. Pousa a carta na secretária e pega no corta-papéis, mas hesita. De que tem mais medo — de uma recusa, de uma traição ou da necessidade de tomar uma decisão depois de a ler? Imagina como seria o dia dela se abrisse a carta e como continuaria se a voltasse a guardar na caixa.
O terceiro momento — os anos de silêncio. O tempo avança. A pessoa está mais velha, à sua volta há objetos e retratos de família, e o mesmo envelope continua guardado na caixa. Que vida construiu? Que momentos lhe trouxeram felicidade? O que sente quando volta a tocar na carta?
O quarto momento — o outro ponto de vista. Imagina que se senta à secretária a pessoa que escreveu a carta. Que intenções poderia ter tido? O que queria explicar? Permite-te considerar mais do que uma possibilidade, lembrando-te de que a cena é fruto da imaginação e de que os verdadeiros pensamentos dos outros se apuram através da comunicação e de informação fidedigna.
O quinto momento — a folha em branco. À tua frente aparece uma nova folha de papel. Escreve mentalmente aquilo que há muito queres dizer a alguém. Pode ser uma pergunta, uma confissão, um agradecimento ou uma explicação. Por agora, não importa se algum dia vais enviar o que escreveste. O importante é perceberes o que desejas realmente exprimir.
O sexto momento — a carta para ti. Agora, em cima da secretária, está um envelope com o teu nome. Não sabes o que lá está escrito. O que esperas ler e que possibilidade te inquieta mais? Pensa na informação de que precisas na tua vida atual e em como a poderias obter de forma adequada.
Por fim, guarda mentalmente a folha em branco num envelope por fechar. Traz a tua atenção para os objetos à tua volta e escreve qual foi a cena que mais te tocou.
A pergunta que fica: «Que verdade continuo a adiar, porque tenho medo de que, depois de a conhecer, tenha de mudar alguma coisa na minha vida?»
França, 1768. Numa bela cidade de província não muito longe de Paris, a vida das famílias abastadas passava-se entre visitas sociais, serões musicais e conversas sobre livros, política e casamentos em perspetiva. Pelas ruas calcetadas circulavam carruagens e, por trás das janelas altas das casas espaçosas, discutia-se com atenção quem se tinha encontrado com quem, quanto tempo tinham conversado e que intenções se poderiam esconder por trás de tal atenção.
Sophie de Laroche, de vinte e seis anos, vivia numa casa com um belo jardim e uma grande biblioteca. O pai, Henri, era um notário respeitado com boas relações entre as famílias influentes, e a mãe, Madeleine, cuidava da casa e esperava encontrar em breve um marido adequado para a filha.
Sophie era culta, curiosa e adorava literatura. Tocava cravo, desenhava e passava longas tardes no meio dos livros do pai. Atraíam-na especialmente as cartas, porque acreditava que as pessoas muitas vezes encontram no papel a coragem para exprimir sentimentos que dificilmente diriam em voz alta.
Num serão literário, conheceu Julien Moreau — um jovem secretário na casa de uma família influente, com boa instrução e um vivo sentido de humor. Os dois começaram a conversar sobre um livro publicado havia pouco, mas depressa passaram à música, às viagens e às particularidades do carácter humano.
Quando o serão terminou, Julien ofereceu-se para lhe enviar os títulos de alguns livros que, na opinião dele, ela iria apreciar.
Passados alguns dias, chegou a primeira carta dele.
Sophie respondeu nessa mesma noite. Em breve, os dois começaram uma correspondência regular, cheia de impressões sobre livros, ideias e pequenos episódios do dia a dia. Aos poucos, as cartas foram-se tornando cada vez mais pessoais, e os seus encontros nas reuniões sociais ganharam um significado especial.
Entre eles nasceu o amor.
Julien era atencioso e sincero, e Sophie sentia alegria por poder conversar com alguém que compreendia os seus interesses e levava a sério a sua opinião. Ambos sabiam, porém, que dificilmente a relação entre os dois receberia a aprovação da família de Laroche.
Julien tinha capacidades e instrução, mas os seus rendimentos de secretário eram modestos. Henri já ponderava a possibilidade de um casamento entre a filha e um jovem abastado de uma família respeitada.
— O amor é um belo sentimento — dizia-lhe o pai —, mas a vida em família também exige segurança. Não quero que passes os teus anos preocupada com dinheiro.
Sophie tentava explicar-lhe quanto estimava Julien, mas Henri não mudava de opinião.
Quando o jovem secretário recebeu uma proposta de trabalho em Paris, decidiu aceitá-la. Esperava que na capital conseguisse construir uma posição mais segura e, aos poucos, garantir um futuro para os dois.
Na noite antes da partida, encontraram-se no jardim.
— Amo-te, Sophie — disse Julien. — Quero que fiquemos juntos, mas tenho de te poder oferecer uma casa e uma vida de que não te venhas a arrepender.
— Não espero que vivamos como as famílias mais ricas de Paris — respondeu ela.
— Eu sei. Mas o teu pai espera mais. Dá-me tempo para encontrar um trabalho que nos permita começar por conta própria.
Os dois combinaram escrever-se e falar sobre o futuro quando Julien percebesse que possibilidades tinha.
Nos primeiros meses, as cartas chegavam com regularidade. Ele falava das ruas de Paris, das livrarias e das suas novas funções, e ela escrevia-lhe sobre os serões musicais e os livros que andava a ler. Sophie abria cada envelope com impaciência, lia as páginas várias vezes e guardava-as numa pequena caixa de madeira com uma fita azul.
Em breve, começaram também a discutir planos mais concretos. Julien mencionou a possibilidade de um cargo melhor e a esperança de um dia terem uma casa sua.
Na sua última carta, escreveu que tinha pela frente uma decisão importante que podia mudar o seu futuro. Prometeu contar-lhe tudo em pormenor quando as circunstâncias se esclarecessem e pediu a Sophie que confiasse nele.
Depois disso, as cartas pararam.
A princípio, ela supôs que o trabalho dele se tinha tornado mais exigente. Mas, quando passaram algumas semanas, começou a inquietar-se. Enviou duas cartas, nas quais lhe perguntava se estava de saúde e se estava tudo bem. Não chegou resposta.
Entretanto, Henri falava com cada vez mais insistência da possibilidade de um casamento com outro pretendente. Sophie tentava ganhar tempo, mas ela própria já não tinha notícias de Julien e começava a duvidar de que pudessem sequer ter um futuro em comum.
Uma tarde, numa reunião social, uma conhecida mencionou que Julien frequentava a casa de uma viúva rica em Paris. A mulher tinha parentes influentes, conhecia pessoas importantes e dispunha de meios consideráveis.
— Dizem que ela o ajuda muito — acrescentou a conhecida, num tom especial.
Nos dias seguintes, o boato ganhou novos pormenores. Alguém afirmava que Julien e a viúva apareciam juntos em reuniões. Outro insinuava que ela lhe podia arranjar um cargo de prestígio. Um terceiro estava quase convencido de que entre os dois existia uma intimidade que ia muito além das relações profissionais.
Ninguém tinha informações fidedignas, mas a Sophie começou aos poucos a parecer que toda a gente sabia algo que só ela se recusava a aceitar.
Imaginava Julien a visitar a bela casa da mulher rica, os dois a conversar e ele a perceber, aos poucos, que podia obter muito mais através de uma ligação com ela.
Madeleine reparou na inquietação da filha.
— Ainda estás à espera daquele jovem secretário?
Sophie admitiu que há semanas não tinha notícias.
— Querida, às vezes o silêncio é suficientemente eloquente — respondeu a mãe. — Tens a oportunidade de um bom casamento. Não deixes que a tua vida dependa de alguém que não encontra tempo para te escrever.
As palavras dela magoaram Sophie, porque já tinha medo de ter sido ingénua e de os pais terem tido razão.
Uma manhã, a criada entrou no quarto com um envelope de Paris.
Sophie reconheceu a caligrafia de Julien ainda antes de ler o seu próprio nome. A carta era mais grossa do que o habitual, estava fechada com lacre vermelho e, por baixo da morada, estava escrito:
«Peço-te, lê isto antes de tomares uma decisão.»
O seu primeiro sentimento foi de alívio. Julien estava vivo, lembrava-se dela e tinha-lhe finalmente escrito. Mas, assim que leu o aviso, a inquietação voltou.
Porque é que lhe pedia aquilo com tanta insistência? Iria confessar que amava outra mulher? Ou iria propor-lhe que fosse ter com ele, apesar da desaprovação dos pais dela?
Sophie sentou-se à janela, pousou a carta na secretária e pegou no pequeno corta-papéis. Tocou no selo de lacre vermelho, mas a mão hesitou.
Enquanto não lesse a carta, podia manter a esperança de que Julien ainda a amava. E, se se viesse a confirmar que a amava de facto, seria obrigada a decidir se estava preparada para enfrentar a família.
Pôs o corta-papéis de lado.
— Leio-a amanhã — sussurrou.
No dia seguinte, o medo era ainda mais forte. Guardou o envelope na gaveta, prometendo a si mesma abri-lo quando se sentisse mais preparada.
Passaram alguns dias. Depois uma semana.
Henri continuava a insistir numa resposta definitiva sobre o casamento proposto. O pretendente abastado era um jovem bem-educado e sério chamado Étienne, que Sophie conhecia das reuniões sociais. Tratava-a com consideração e desejava constituir família com ela.
Na noite antes de ser anunciado o noivado, Sophie voltou a tirar a carta. Meteu o corta-papéis por baixo da borda do selo de lacre e quase o quebrou.
Nesse momento, Madeleine chamou-a para falarem dos preparativos.
Sophie pousou o envelope, foi ter com a mãe e voltou muito mais tarde. Estava cansada das conversas e das suas próprias hesitações. Decidiu que não tinha forças para ler algo que podia mudar tudo mesmo antes do noivado.
Guardou a carta na caixa de madeira.
Na manhã seguinte, aceitou o pedido de Étienne.
O casamento realizou-se alguns meses mais tarde. Sophie mudou-se para a casa do marido e começou, aos poucos, a construir uma nova vida.
Étienne revelou-se um homem bom e atencioso. Interessava-se pelos livros que ela lia, encorajava-a a tocar e a desenhar e, com os anos, nasceram entre os dois a confiança e o afeto. Tiveram dois filhos, a casa encheu-se de música, de reuniões de família e de conversas, e Sophie sentia uma verdadeira alegria com a vida que tinham criado.
Mas a pequena caixa de madeira continuava entre os seus objetos pessoais.
De vez em quando, tirava as velhas cartas de Julien e recordava a juventude. O último envelope, porém, continuava fechado.
Com os anos, o medo dela mudou. Já não se inquietava apenas com a possibilidade de a carta conter uma recusa dolorosa. Começou a ter medo de que lá dentro estivesse uma declaração de amor e uma proposta de futuro em comum. Se assim fosse, ficaria a saber que tinha tomado uma das decisões mais importantes da sua vida sem sequer ter lido a informação que tinha à sua frente.
Certa vez, a filha chegou a casa perturbada depois de uma discussão com uma amiga. Tinha ouvido um boato desagradável e decidira nunca mais falar com ela.
— E sabes se isso é verdade? — perguntou Sophie.
— Toda a gente fala disso.
— Mas falaste com a tua amiga?
A rapariga abanou a cabeça.
— Então pergunta-lhe primeiro — aconselhou-a Sophie. — Talvez a história seja diferente.
Enquanto dizia estas palavras, lembrou-se de repente da carta fechada. Estava a encorajar a filha a fazer aquilo para que ela própria nunca tinha ganhado coragem.
Quando Sophie fez cinquenta e dois anos, Étienne adoeceu gravemente. Nos últimos meses, ela passou muito tempo ao lado dele e foi percebendo quão profunda era a intimidade que tinham construído ao longo dos anos.
Uma tarde, os dois conversavam sobre a juventude.
— Sabes que, antes do casamento, eu tinha medo de que nunca conseguisses gostar de mim? — confessou Étienne.
Sophie olhou para ele surpreendida.
— Porque nunca mo disseste?
— Talvez tivesse medo de ouvir a resposta.
Os dois sorriram com tristeza. Depois de tantos anos, ainda descobriam sentimentos por dizer, sobre os quais tinham sido, em tempos, demasiado jovens ou demasiado assustados para falar.
Alguns meses depois, Étienne morreu.
A perda foi pesada. Sophie sentia gratidão pela vida que tinham partilhado, mas tinha saudades das conversas de todos os dias, da presença dele e dos pequenos hábitos que, ao longo dos anos, se tinham tornado parte da casa deles.
Uma tarde, enquanto revia os papéis da família, voltou a encontrar a caixa de madeira. Abriu-a e olhou para as cartas de Julien, cuidadosamente atadas com a fita azul.
Entre elas estava o último envelope.
Sophie pegou nele. O selo vermelho estava intacto, e a caligrafia era tão familiar como se a carta tivesse chegado na véspera.
Já tinha vivido o amor, a maternidade, alegrias e perdas. Agora, o medo de umas quantas folhas de papel parecia-lhe mais pequeno do que os anos que tinha passado a tentar adivinhar o que nelas estava escrito.
Pegou no corta-papéis e quebrou o selo.
Julien começava a carta com uma explicação sobre as dificuldades que tinha passado em Paris. O seu patrão perdera parte da influência, e o jovem secretário ficara sem um cargo seguro. Tentara encontrar outro trabalho, mas durante meses não conseguira receber nenhuma proposta adequada.
A viúva rica, sobre a qual Sophie tinha ouvido tantos boatos, era afinal parente de um protetor dele. Frequentava a casa dela porque ela o apresentava a pessoas que o podiam ajudar a encontrar trabalho.
Sophie leu estas linhas duas vezes.
Depois continuou.
Julien tinha finalmente recebido a proposta de um cargo num escritório comercial numa cidade portuária. Os rendimentos seriam modestos, e os primeiros anos incertos. Mas ele acreditava que, com trabalho e perseverança, podia construir um futuro.
Escrevia-lhe que continuava a amá-la e que desejava que os dois construíssem um lar em comum. Não lhe podia prometer riqueza nem as comodidades a que ela estava habituada, mas estava pronto a partilhar com ela tudo o que tinha.
No fim, escreveu:
«Amo-te e desejo que fiquemos juntos, mas não te posso prometer riqueza e segurança. Posso oferecer-te honestidade, trabalho e uma vida que construiremos os dois. Se estiveres pronta para seguirmos juntos este caminho, escreve-me. Se preferires o futuro que a tua família te preparou, aceitarei a tua decisão. Peço-te apenas que me respondas antes de eu partir, porque preciso de saber se vou sozinho.»
Sophie pousou a carta no colo.
Durante todos aqueles anos, acreditara que Julien a tinha abandonado por outra mulher. E ele tinha-lhe proposto uma vida em comum e esperara pela resposta dela.
A carta tinha chegado a tempo. Fora ela própria que preferira não a ler.
O seu primeiro pensamento foi para a jovem mulher que um dia se sentara junto àquela mesma janela, com o corta-papéis na mão. O que teria acontecido se, nessa altura, tivesse quebrado o selo? Talvez tivesse partido com Julien. Talvez se tivesse assustado com o futuro incerto e escolhido, mesmo assim, Étienne.
Não havia maneira de o saber.
Mas sabia que, nessa altura, teria pelo menos podido tomar uma decisão compreendendo que possibilidades existiam realmente.
Depois lembrou-se do marido, dos filhos e de todos os anos cheios de amor e de alegrias de família. O que tinha lido não retirava valor à vida que construíra. Apenas revelava que a história da sua juventude tinha sido diferente daquela em que acreditara durante tanto tempo.
Alguns dias depois, Sophie sentou-se à secretária e começou uma carta para Julien.
Contou-lhe que só agora tinha lido as últimas palavras dele. Confessou o medo que a impedira de abrir o envelope e agradeceu-lhe o amor que tinham partilhado em tempos. Escreveu que tinha constituído família, criado dois filhos e vivido muitos anos bons, mas que se lembrara muitas vezes das conversas entre os dois.
Lamentava não lhe ter respondido na altura.
Não sabia se ele estava vivo, se a morada ainda era a mesma, nem se ele quereria sequer ter notícias dela. Mesmo assim, dobrou as folhas, meteu-as num envelope e enviou-as.
Pela primeira vez em muitos anos, estava pronta para exprimir os seus sentimentos sem saber de antemão como seriam recebidos.
A marca simbólica de Sophie está ligada à convicção de que o desconhecido a pode proteger de uma resposta dolorosa. Tem medo de que a carta confirme as suas suposições mais desagradáveis, mas também de que a obrigue a escolher entre o amor e as expectativas da família.
O voto que, aos poucos, começa a determinar as suas decisões pode ser expresso assim:
«Se eu não souber a verdade, não vou ter de viver a perda.»
Na vida atual, um padrão assim pode surgir quando evitas uma conversa, uma pergunta ou uma verificação porque te inquieta o que vais descobrir. É possível que tenhas medo de perguntar ao teu companheiro ou à tua companheira para onde caminha a relação, de pedir uma explicação a alguém próximo ou de discutir um problema que há muito te preocupa.
Enquanto falta a resposta, a imaginação oferece cada vez mais possibilidades. Uma parece promissora, outra dolorosa, e uma terceira começa aos poucos a parecer-te certa, apesar de não teres informação suficiente.
Há casos em que é sensato esperar, reunir factos ou avaliar se a conversa é adequada. Mas, quando o adiamento se prolonga por meses ou anos, o desconhecido pode começar a determinar a tua vida.
A nova promessa que podes levar desta história é:
«Posso fazer as minhas perguntas importantes, procurar clareza e tomar decisões de acordo com a informação de que disponho, mesmo quando as respostas são difíceis.»
Imagina uma mulher que tem uma relação com um homem de outro país. Os dois falam muitas vezes, partilham histórias pessoais e vão construindo aos poucos uma intimidade. Ele mostra interesse, escreve-lhe mensagens ternas e fala da possibilidade de se encontrarem. Mas, quando ela propõe uma data concreta, as respostas dele tornam-se vagas.
A mulher tem medo de insistir. Começa a examinar as mensagens, a comparar o comportamento dele em dias diferentes e a procurar sinais escondidos dos seus sentimentos. Mas nunca chega a saber se ele deseja realmente um encontro e um futuro em comum.
Para outra pessoa, a situação pode estar ligada a uma relação que vai mudando aos poucos. O companheiro tornou-se mais distante, as conversas são mais curtas, os encontros mais raros. Em vez de falarem sobre o que está a acontecer, um deles começa a recear que a franqueza leve à separação.
Conversas assim podem ser difíceis e não trazer a resposta esperada. Mas, quando duas pessoas têm desejos diferentes, a clareza dá-lhes a possibilidade de decidir como continuar.
A história de Julien também merece atenção. Ele adiou contar os seus problemas financeiros porque esperava encontrar primeiro uma solução. Assim, deixou Sophie sem notícias e permitiu que os boatos preenchessem o seu silêncio. A comunicação aberta exige a participação dos dois.
Talvez tenhas sabido por uma conhecida que a pessoa com quem estás foi vista com alguém em particular. Ou notaste uma mudança no comportamento dela e começaste logo a procurar a causa na vossa relação.
Imagina uma mulher que vê que o homem que está com ela fala muitas vezes com uma colega. Depois de uma desilusão amorosa anterior, começa a recear que a história se possa repetir. Cada mensagem, cada atraso ou cada conversa começa aos poucos a parecer-lhe uma confirmação das suas suspeitas.
É possível que haja um problema real que mereça ser discutido. Também é possível que a relação seja inteiramente profissional. Quando faltam factos, nem o cenário mais assustador nem o mais agradável podem ser tomados como verdade.
Podes perguntar-te: «O que sei em primeira mão? O que me foi contado por outras pessoas? O que estou a supor e que informação me ajudaria a compreender melhor a situação?»
A imaginação humana sabe escrever romances maravilhosos, mas, se a nomearmos investigadora sem quaisquer provas, os resultados podem ser bastante imprevisíveis.
Talvez tenhas crescido numa casa onde raramente se falava dos temas difíceis. Os adultos discutiam as suas preocupações à porta fechada e, quando as crianças perguntavam o que se passava, recebiam um curto «Está tudo bem».
Aos poucos, uma pessoa pode habituar-se a decifrar o estado de espírito dos outros pelos olhares e pelo silêncio. Já adulta, começa a sentir inquietação quando um companheiro ou alguém próximo parece aborrecido, porque supõe logo que foi ela própria que fez alguma coisa mal.
Noutras famílias, exprimir discordância era recebido com críticas ou ofensas. Nesse caso, uma pessoa pode aprender a calar os seus desejos para não provocar conflitos.
Imagina uma jovem mulher que quer mudar de profissão, mas tem medo de comunicar a decisão aos pais. Eles investiram muito dinheiro na educação dela e ela espera desilusão. Em vez de falar com eles, continua a trabalhar num sítio de que não gosta e começa aos poucos a sentir descontentamento tanto em relação à profissão como à família.
O símbolo da carta selada convida-te a examinar que conversas adias por causa das expectativas dos outros e como podes exprimir a tua própria decisão com respeito pelas pessoas que vão ser afetadas.
Este símbolo também pode surgir na vida profissional. Talvez aches há muito que mereces uma remuneração melhor, mas tens medo de pedir uma conversa sobre o teu salário. Continuas a fazer horas extraordinárias, na esperança de que a chefia repare por si só no teu esforço.
Imagina um funcionário que recebe boas avaliações, mas que adia sempre perguntar se tem possibilidade de ser promovido. Tem medo de uma recusa ou de dar a impressão de ser demasiado insistente. Com o tempo, o seu descontentamento aumenta, e ele continua sem informação clara sobre as possibilidades que existem.
Para outra pessoa, o tema pode estar ligado a obrigações financeiras. Recebe uma carta do banco, mas deixa-a por abrir, porque tem medo do montante da dívida. Nos dias seguintes, a sua inquietação cresce, enquanto os prazos podem continuar a correr.
Situações assim exigem informação concreta e, se necessário, aconselhamento profissional. O adiamento raramente torna as condições mais favoráveis.
É possível que te tenhas afastado de um amigo por causa de um boato, de um mal-entendido ou de uma conversa que nunca chegou a acontecer. Alguém te transmitiu palavras desagradáveis, sentiste-te traído(a) e decidiste pôr fim à relação.
Mas sabes exatamente o que foi dito e em que circunstâncias?
Imagina duas amigas próximas que deixam aos poucos de se falar, depois de uma conhecida comum contar a uma delas que a outra a criticou. Nenhuma procura uma explicação. Com o tempo, a mágoa transforma-se na convicção de que a amizade não era sincera, embora a conversa verdadeira pudesse ter tido um sentido diferente.
Se uma história assim continua a ocupar-te, pensa se a conversa ainda é possível e se desejas realmente recuperar a proximidade. Mesmo quando a relação já terminou, distinguir os factos das suposições pode ajudar-te a compreendê-la melhor.
Sophie construiu uma boa vida com Étienne, criou dois filhos e viveu um amor e uma intimidade verdadeiros. Nenhuma página da carta de Julien pode apagar esses anos.
Mas ela passou quase três décadas com uma pergunta cuja resposta estava guardada na sua própria biblioteca.
Este é o tema mais importante do processo: quando evitas saber alguma coisa, podes começar a tomar decisões com base nos teus próprios medos. E, quando finalmente obténs clareza, a tua vida pode já ter seguido noutra direção.
Nem todas as conversas levam à reconciliação. Nem todas as verdades são agradáveis. E nem todas as pessoas estão dispostas a dar uma resposta em que possas confiar. Mas tens a possibilidade de fazer perguntas, de verificar a informação e de decidir o que é sensato fazeres com aquilo que ficas a saber.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a examinar uma pergunta que há muito evitas e a encontrar uma forma mais clara de a abordar.
Primeiro selo — a pergunta. Escreve uma pergunta importante que andas a adiar fazer. Formula-a com clareza, sem supores de antemão os motivos dos outros. Em vez de «Porque é que já não me ama?», podes escrever «O que mudou na nossa relação e como vemos os dois o futuro dela?»
Segundo selo — o medo. Pensa em que resposta te inquieta mais. Uma recusa, uma crítica, uma separação ou a necessidade de mudares os teus planos? Como cuidarias de ti se recebesses uma resposta desagradável e a quem poderias recorrer em busca de apoio?
Terceiro selo — as conjeturas. Divide uma folha em duas colunas. Numa, escreve os factos que sabes com certeza e, na outra, as tuas próprias suposições. Pensa que informação as poderia confirmar ou desmentir.
Quarto selo — o que ficou por dizer. Escreve uma carta em que exprimas os teus sentimentos com franqueza. O que te magoou, pelo que estás grato(a) e o que queres compreender? A carta pode ficar só para ti. Se decidires usá-la numa conversa, avalia se o contacto é adequado.
Quinto selo — a abertura. Imagina que recebes a resposta que mais temes. Que decisões poderias tomar a seguir? Que possibilidades terias? Tenta considerar também uma resposta mais favorável, sem tomares nenhum dos dois cenários como certo.
Sexto selo — a nova promessa. Escreve a convicção de que o desconhecido te protege da dor. Depois substitui-a por uma promessa que te permita procurar clareza quando isso for adequado: «Posso fazer as minhas perguntas importantes e tomar decisões de acordo com a informação de que disponho.»
Sétimo selo — a folha em branco. Escreve uma carta curta a ti mesmo(a) sobre a forma como desejas comunicar daqui em diante. Escolhe uma ação concreta para os próximos dias — uma conversa, uma pergunta, uma verificação de informação ou uma decisão que andas há muito a adiar.
Guarda um pequeno envelope vazio e coloca lá dentro a tua nova promessa pessoal. Deixa-o por fechar.
Se quiseres, junta também uma folha com a pergunta que mais vezes evitas fazer. Daqui a algum tempo, volta a lê-la e vê se já tens mais clareza.
O envelope por fechar vai lembrar-te de que as perguntas podem ser ditas em voz alta e de que as tuas próprias decisões merecem basear-se em informação que realmente tens.
Imagina Sophie sentada à janela da biblioteca, depois de ter lido a carta de Julien. À sua frente estão os velhos envelopes e o pequeno corta-papéis com que finalmente quebrou o selo de lacre. Pega numa folha em branco e começa a escrever à jovem mulher que, um dia, teve medo de ler umas quantas folhas de papel.
«Querida Sophie,
Lembro-me de quanto querias abrir a carta. Lembro-me também do que te travou. Tinhas medo de que Julien te dissesse que amava outra mulher, mas tinhas igualmente medo da possibilidade de ele te propor uma vida em comum, sobre a qual terias de ser tu a decidir.
Gostava de me poder sentar ao teu lado naquela manhã e dizer-te que nenhuma carta pode determinar todo o teu futuro. Pode dar-te informação, alegrar-te ou entristecer-te, mas a escolha de como continuar continua a ser tua.
Agora sei o que Julien escreveu. Sei também que ele calou durante muito tempo as suas próprias dificuldades, porque tinha medo de me desiludir. Duas pessoas que se amavam deixaram que os seus medos falassem por elas.
Não sei se teríamos sido felizes juntos. Talvez tivéssemos construído um belo lar. Talvez as dificuldades nos tivessem separado. Nunca vou ter resposta para esta pergunta.
Mas quero que saibas uma coisa sobre a vida que tens pela frente.
Étienne vai ser um bom marido. Vão aprender a entender-se, vão ter dois filhos maravilhosos e vão viver anos cheios de amor. Vai haver jantares de família, música, livros e pequenas alegrias que hoje nem sequer imaginas. E, quando o perderes, vais perceber quanto ele significou para ti.
Não tenho nenhum desejo de apagar esta vida. Estou grata por ela.
Lamento apenas ter tido medo durante tanto tempo de conhecer a verdade sobre outra possibilidade e ter deixado que as palavras desconhecidas de um envelope se transformassem numa pergunta permanente.
Por isso te peço: abre a carta. Lê-a, pensa e depois toma a tua decisão. Se escolheres Étienne, que seja com plena consciência das possibilidades que tens. Se escolheres Julien, fá-lo porque desejas essa vida e estás pronta a aceitar as suas dificuldades.
E, decidas o que decidires, não faças do desconhecido o teu conselheiro de maior confiança. Tem uma imaginação muito rica, mas raramente assume a responsabilidade pelas consequências.
Com amor e compreensão,
Sophie.»
Se as cartas seladas te fizeram lembrar uma conversa que andas a adiar ou uma história que ficou sem resposta clara, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Amor podes perguntar: «Que conversa ando a evitar com esta pessoa e o que é importante esclarecermos entre nós?» Em Compatibilidade podes explorar as diferenças na vossa forma de comunicar e nas vossas expectativas e, em Deixar ir, os sentimentos que continuam a ligar-te a uma história por esclarecer.
Em A Linhagem podes examinar os padrões familiares de silêncio, em Karma os medos repetidos da verdade e em A Encruzilhada as possibilidades que tens à tua frente quando precisas de tomar uma decisão importante. As salas Dinheiro e Amigo podem ajudar-te a explorar, respetivamente, uma questão financeira ou a relação com uma pessoa de quem te afastaste.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado».
Algumas semanas depois de Sophie ter enviado a sua carta a Julien, a criada entrou na biblioteca com um pequeno envelope de Paris.
Sophie olhou para ele surpreendida.
Reconheceu logo a caligrafia, embora as letras estivessem agora mais irregulares do que as recordava da juventude.
Por um instante, regressou em pensamento à manhã de 1768 em que recebera o último envelope com o selo de lacre vermelho. Nessa altura, tivera medo de o abrir, porque não sabia o que iria ler.
Agora, pousou a nova carta na secretária, pegou no corta-papéis e abriu o envelope com cuidado.
Julien escrevia-lhe que tinha ficado surpreendido e comovido com a carta dela. Depois de tantos anos, não esperava receber notícias da mulher que um dia amara e com quem sonhara um futuro em comum.
Contava que, depois de partir para a cidade portuária, passara a princípio anos difíceis. Mas, aos poucos, encontrara um bom trabalho, constituíra família e criara filhos que já tinham as suas próprias casas.
Tinha sido feliz no casamento e guardava uma boa memória de Sophie.
Confessava que, depois da sua última carta, esperara muito tempo por uma resposta. Quando esta não chegou, concluíra que a proposta tinha sido demasiado difícil para ela e que o silêncio significava uma recusa.
Depois escreveu uma coisa que Sophie nunca tinha imaginado.
Naqueles meses em Paris, também ele tivera medo de lhe dizer a verdade. Perdera o seu trabalho seguro e não queria preocupá-la antes de encontrar uma solução. Esperava primeiro recuperar a sua posição e só depois explicar-lhe tudo. Só agora compreendia quão doloroso tinha sido o seu longo silêncio.
No fim, acrescentou:
«Não sei como teria sido a nossa vida se, nessa altura, tivesses aberto a carta e me tivesses respondido. Mas hoje estou grato por podermos finalmente dizer um ao outro aquilo que ficou entre nós. Talvez seja isso o mais belo que podemos dar à memória da nossa juventude.»
Sophie ficou muito tempo a olhar para a carta que tinha nas mãos.
Finalmente sabia o que tinha acontecido a Julien. Ele não tinha abandonado a vida à espera de uma resposta; seguira em frente, constituíra família e vivera as suas próprias alegrias e perdas. Ambos tinham construído boas vidas, embora os seus caminhos se tivessem separado de uma forma que nenhum dos dois compreendera por completo.
Passado algum tempo, Sophie abriu a caixa de madeira.
Arrumou todas as cartas por anos e guardou-as no arquivo da família. Pôs o último envelope selado ao lado da nova resposta de Julien. Depois fechou a caixa.
Desta vez, ela ficou vazia.
Sophie pegou numa folha em branco e numa pena nova. Há muito que queria escrever as suas memórias — sobre a infância, os livros, o primeiro amor, o casamento com Étienne, os filhos e as pessoas que tinham feito parte da sua vida. Andava sempre a adiar, porque não sabia por onde começar.
Agora olhou para a folha em branco, sorriu e escreveu a primeira frase.
Lá fora ouviam-se os pássaros no jardim, o sol da tarde iluminava a secretária e, à sua frente, havia uma pilha inteira de páginas em branco.
Se escolheste as cartas seladas, desejo-te que encontres pessoas com quem possas falar abertamente e que encontres coragem para fazer as perguntas que têm importância para ti. Que a verdade te ajude a tomar decisões com mais clareza e que as boas memórias mantenham o seu valor, mesmo quando descobres que alguns acontecimentos foram diferentes daquilo que supunhas. E, se um dia voltares a estar diante de um envelope fechado, vê primeiro o que está lá dentro. Podes poupar-te a um romance inteiro de conjeturas e, se for um convite para jantar, pelo menos ficas a saber a tempo se tens de te vestir a rigor.
Que parte de ti guardas com tanto zelo que nem mesmo as pessoas que te amam suspeitam da sua existência? E o que aconteceria se um dia decidisses mostrar-lhes a pessoa que vês ao espelho quando ficas sozinho(a)?
Durante o restauro de uma antiga casa veneziana, cujas janelas dão para um canal estreito, os artesãos deparam-se com um achado invulgar. Atrás de um enorme espelho oval de moldura dourada está escondida uma tela, cuidadosamente embrulhada num pano de linho. O quadro representa uma mulher idosa, de cabelo branco solto sobre os ombros e um pincel na mão. O rosto traz as marcas dos anos, mas o olhar é vivo, e o leve sorriso dá a impressão de que, a qualquer momento, vai contar algo divertido. No canto inferior está escrito um nome.
No grande salão da mesma casa está pendurado outro retrato. Dele olha uma bela jovem com um vestido sumptuoso, joias requintadas e o cabelo impecavelmente apanhado. A expressão é séria, a pose digna, e cada pormenor sublinha a posição social da família. Segundo os documentos antigos, os dois quadros representam uma e a mesma mulher.
Entre os seus objetos pessoais conservou-se também uma pequena arca de madeira com pincéis, tintas secas e desenhos, na sua maioria sem assinatura.
Porque terá um dos retratos estado exposto diante dos convidados, enquanto o outro ficou escondido atrás do espelho? O que significaria o pincel na mão da mulher idosa e porque terá ela escrito o seu próprio nome apenas nesse quadro?
Confesso que os espelhos são testemunhas curiosas da vida humana. Imagina quantos penteados escolhidos com esmero, quantos adornos e sorrisos amáveis viram ao longo dos séculos. Certamente observaram também muitas pessoas a preparar-se para uma receção magnífica enquanto, em pensamento, já sonhavam voltar para casa, tirar os sapatos desconfortáveis e ficar a sós com o seu livro preferido. Nem o mais caro espelho veneziano conseguiria mostrar o que a pessoa diante dele realmente deseja.
O teu processo kármico simbólico está ligado aos papéis que desempenhamos e àquela parte da nossa personalidade que raramente mostramos aos outros. Talvez todos te conheçam como uma pessoa forte, alegre, responsável ou sempre pronta a ajudar. Só que também tu tens desejos, inquietações, preferências e capacidades que não cabem na imagem que os outros fazem de ti.
É possível que sonhes há muito tempo pintar, escrever, cantar, dançar, estudar ou começar algo teu, mas que tenhas medo dos comentários alheios. Ou que estejas tão habituado(a) a fazer a vontade aos teus próximos que já mal te lembras da última vez que escolheste alguma coisa só porque gostas dela.
A história vai levar-nos a Veneza, no século XVII, onde uma mulher vive rodeada de riqueza, de objetos belos e de respeito social, mas esconde o seu maior talento numa velha arca de madeira. Vamos conhecer um marido que a ama sem conhecer por inteiro os seus sonhos, uma criada de língua afiada e bom coração e um pintor que reconhece as capacidades dela logo no primeiro desenho.
E, no fim, vamos perceber porque é que dois rostos tão diferentes podem pertencer a uma e a mesma mulher.
Antes de leres a história, convido-te para uma breve viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através da imagem do espelho antigo, podes observar os teus próprios interesses, papéis e desejos. As imagens que surgirem são associações pessoais da imaginação e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Imagina que estás a caminhar por um corredor de uma antiga casa veneziana. O chão é de madeira escura, das paredes pendem retratos e, por detrás de uma das portas altas, ouvem-se música e conversas animadas. Abres outra porta e entras num quarto espaçoso com pesados cortinados vermelhos. Por cima de uma cómoda de madeira ergue-se um espelho oval com uma bela moldura dourada.
O primeiro reflexo — o rosto perante o mundo. No espelho aparece uma pessoa que se está a preparar para um acontecimento importante. Observa-lhe a roupa, o penteado e a expressão. O que deseja mostrar aos convidados? Como muda o seu comportamento quando ouve passos à porta? Imagina que a segues por entre as pessoas. Pode exprimir livremente a sua opinião, ou está constantemente a ajustar-se às expectativas delas?
O segundo reflexo — a pessoa sem público. A noite termina, os convidados vão-se embora e a pessoa fica sozinha. Tira os adornos e troca a roupa de cerimónia por roupa confortável. O que faz primeiro? Pega num livro, num instrumento musical, em pincéis ou noutro objeto preferido? Como muda a sua expressão quando pode escolher livremente?
O terceiro reflexo — o desejo esquecido. O espelho mostra uma vida possível, em que a pessoa dedicou mais tempo aos seus interesses. Podes ver um ateliê, um palco, um jardim, uma biblioteca ou uma cidade desconhecida. Que ocupação lhe traz alegria? O que desse quadro poderia ela trazer para a sua vida atual?
O quarto reflexo — o olhar alheio. Junto ao espelho surge uma pessoa cuja opinião é especialmente importante. Como reage ao saber do desejo escondido? Imagina várias respostas possíveis, incluindo uma que te surpreenda agradavelmente. O que te inquieta mais — as consequências reais ou a ideia antecipada da desaprovação alheia?
O quinto reflexo — o teu rosto hoje. Aos poucos, o espelho começa a mostrar-te a ti. Pensa em que qualidades exprimes livremente e quais preferes guardar para ti. Há algum desejo de que há muito não falas? Com quem o poderias partilhar e que pequeno passo gostarias de dar?
O sexto reflexo — a tua própria assinatura. Diante de ti surge uma tela em branco. Pinta mentalmente o teu retrato simbólico, com os objetos, as cores e as qualidades que desejas ver presentes na tua vida. Quando terminares, pega no pincel e escreve o teu nome no canto inferior.
Volta a atenção para o presente e anota a imagem que mais te comoveu.
A pergunta que fica: «Que parte de mim continuo a esconder com medo de que não seja aceite, e como posso dar-lhe mais espaço na minha vida?»
Veneza, 1664. Pelos canais passavam gôndolas e barcos de carga com mercadorias de terras distantes, e pelas ruas estreitas cruzavam-se mercadores, artesãos e viajantes. Nas casas ricas organizavam-se receções, encomendavam-se quadros e objetos belos, e o respeito por uma família media-se muitas vezes pelo esplendor dos seus bens e pela influência dos seus convidados.
Numa casa espaçosa junto a um dos canais vivia Beatrice Contarini, de vinte e oito anos. Tinha cabelo escuro, olhos verde-acinzentados e mãos elegantes, que atraíam a atenção pelos seus gestos cuidadosos. O marido, Andrea, era um abastado comerciante de tecidos, um homem trabalhador e responsável que dava grande valor à posição social da família. Os dois tinham uma filha pequena chamada Elena.
Beatrice era conhecida pelas suas maneiras encantadoras e pelo seu gosto requintado. Sabia receber convidados, conduzir conversas interessantes e criar a impressão de que cada pormenor da casa fora pensado até à perfeição. Mesmo quando alguém contava pela terceira vez a mesma aventura, ela conseguia sorrir com tanta amabilidade como se tivesse acabado de ouvir a história mais interessante de Veneza.
Mas, por trás dos vestidos bonitos, das joias e das receções impecavelmente organizadas, Beatrice guardava um amor do qual os seus novos conhecidos quase nada sabiam.
Ela adorava pintar.
O pai era pintor e fazia retratos e painéis decorativos para famílias ricas. Em criança, Beatrice passava horas no ateliê dele, a observar como misturava as tintas e como a luz mudava a expressão das pessoas. Lembrava-se do cheiro do óleo de linhaça, das molduras de madeira e do leve raspar do pincel sobre a tela.
Quando fez dez anos, o pai ofereceu-lhe o primeiro conjunto de pincéis. A menina gostava tanto de pintar que muitas vezes chegava à oficina antes dele.
— Se continuas assim, em breve vou ter de te dar uma chave só tua — brincava ele. — Ao menos poderei dormir até ao nascer do sol.
Beatrice tinha um dom especial para reparar nos rostos humanos. Captava a tristeza por trás de um sorriso educado, a curiosidade de uma criança que finge ser obediente e o cansaço nos olhos da mãe. O pai reparou que os retratos dela tinham uma naturalidade difícil de alcançar mesmo com muito treino.
A menina sonhava com um ateliê seu, onde receberia pessoas, pintaria e conversaria com outros artistas. O pai encorajava-a, embora soubesse como era difícil para uma mulher construir uma carreira independente na arte.
Depois da morte dele, a vida foi mudando aos poucos. A mãe guardou parte dos instrumentos e começou a preparar a filha para um casamento conveniente. A pintura continuou a ser uma ocupação agradável, mas o seu futuro passou a estar ligado à casa, à família e às obrigações sociais.
Quando conheceu Andrea, Beatrice gostou do seu carácter sério, do seu sentido de responsabilidade e do entusiasmo com que ele falava do comércio. Ele, por sua vez, sentiu-se atraído pela instrução, pela beleza e pelo sentido de humor dela. Casaram-se e ela mudou-se para a casa espaçosa dele junto ao canal.
Entre os seus objetos pessoais havia uma grande arca de madeira com pincéis, tintas, desenhos e algumas telas por acabar. Beatrice acreditava que em breve encontraria tempo para voltar a pintar.
Mas a casa de Andrea recebia parceiros comerciais e convidados quase todas as semanas. Ela tinha de preparar as receções, de cuidar das relações familiares e de vigiar todos os pormenores de que dependia a boa impressão. Depois do nascimento de Elena, as obrigações aumentaram e a pintura foi ficando, pouco a pouco, em segundo plano.
No seu quarto, Beatrice tinha um enorme espelho oval de moldura dourada. Todas as manhãs, a criada ajudava-a a escolher o vestido, o penteado e os adornos adequados. Com o tempo, ela ficou a conhecer muito bem o rosto que os outros esperavam ver — uma dona de casa bela e atenciosa que sabe sempre o que dizer.
Numa noite de outono, depois de uma receção particularmente longa, os convidados foram finalmente embora. Beatrice voltou ao quarto, tirou os pesados brincos e sentou-se diante do espelho.
Olhou para o seu reflexo e, de repente, desatou a rir.
Nas últimas horas tinha conversado sobre música, comércio, viagens e histórias de famílias alheias. Ninguém lhe perguntara do que gostava realmente. E ela própria não falava de pintura há tanto tempo que provavelmente surpreenderia os convidados se, de repente, começasse a discutir a qualidade das tintas em vez dos novos tecidos chegados do estrangeiro.
O seu olhar pousou na velha arca.
Beatrice abriu-a e tirou com cuidado os pincéis que o pai lhe oferecera. Observou os desenhos amarelecidos, tocou nos cabos de madeira e sentiu um forte desejo de voltar a trabalhar.
Pôs uma folha sobre a mesa e começou a desenhar a própria mão. As primeiras linhas eram inseguras, mas aos poucos foi recordando o que aprendera com o pai. Depois olhou para o espelho e fez um esboço do seu próprio rosto.
Pintou até altas horas da noite. Tinha o cabelo solto, o vestido caro trocado por uma roupa simples, e nos dedos tinham-lhe aparecido manchas de tinta.
De manhã, a jovem criada Lucia encontrou-a adormecida na cadeira, com a cabeça apoiada na mão. À sua volta estavam espalhados pincéis e desenhos.
Lucia observou com atenção um dos retratos e ficou maravilhada.
— Senhora, porque os esconde? — perguntou quando Beatrice acordou. — Se os convidados soubessem como pinta bem, encomendavam-lhe retratos em vez de lhe perguntarem constantemente onde comprou os cortinados.
Beatrice riu-se, mas apressou-se a guardar as folhas. Confessou que adorava pintar desde criança, mas não queria que ninguém soubesse daquela sua ocupação.
Lucia prometeu guardar o segredo.
Nos meses seguintes, as duas começaram a trabalhar juntas à noite, quando os outros se deitavam. Lucia trazia fruta, flores e objetos para pintar e, às vezes, posava para um retrato. Conversavam, riam-se e, aos poucos, criaram uma proximidade que ia além da relação habitual entre senhora e criada.
Lucia tinha uma mente viva e sentido de humor. Quando Beatrice ouvia passos no corredor e se apressava a guardar os pincéis, ela brincava:
— Se continua assim, senhora, em breve vai pintar mais depressa do que eu consigo abrir a porta.
Aos poucos, Beatrice recuperou as suas capacidades. Começou a pintar retratos das pessoas que conhecia e foi-se apaixonando cada vez mais pelas expressões humanas naturais.
O que mais gostava era de pintar a filha, Elena.
A menina estava sempre a fazer perguntas e não suportava ficar quieta. Mas, quando se deixava absorver por um livro, Beatrice podia observá-la durante muito tempo. Numa tarde, pintou Elena junto à janela, com um livro nas mãos e o olhar concentrado.
Alguns meses depois, Andrea encomendou um retrato oficial da família a um pintor famoso. O homem chegou à casa deles e começou a preparar a composição, mas teve dificuldade em captar a expressão da pequena Elena, que se aborrecia com as longas sessões de pose.
Beatrice lembrou-se do seu próprio desenho e mostrou-lho com cuidado.
O pintor observou-o com interesse.
— Quem é o autor? — perguntou ele.
— Sou eu — confessou Beatrice.
O homem olhou para ela, surpreendido, e pediu-lhe que lhe mostrasse mais trabalhos seus.
Depois de ver os retratos e os esboços, reconheceu que ela tinha verdadeiro talento. Propôs apresentar um dos seus quadros num próximo encontro de pintores e colecionadores.
Beatrice ficou emocionada. Aceitou, mas pediu que o quadro fosse mostrado sem o seu nome.
A obra despertou interesse. Vários colecionadores perguntaram pelo autor e um deles quis comprá-la. O pintor ficou satisfeito e incentivou Beatrice a estar presente em pessoa no encontro seguinte.
— Poderá conversar com outros artistas, receber conselhos e apresentar o seu próprio trabalho — explicou ele.
Para Beatrice, aquela proposta significava muito mais do que reconhecimento público. Dava-lhe a oportunidade de voltar a fazer parte do mundo que amara em criança.
Começou a preparar um novo quadro. Lucia ajudava-a com os materiais e alegrava-se com o entusiasmo dela. Beatrice escolheu um vestido bonito para o evento e passou muito tempo a imaginar como iria conversar com pessoas que partilhavam o seu interesse pela arte.
Mas, pouco antes do encontro, Andrea soube que o nome da mulher seria anunciado perante os convidados.
Ficou surpreendido. Sabia que ela gostava de pintar, mas nunca imaginara que ela quisesse mostrar o que pintava em público.
— Tens uma casa maravilhosa, uma família e o respeito de todos — disse ele. — Para que precisas de procurar ainda mais reconhecimento?
Beatrice tentou explicar-lhe que desejava desenvolver as suas capacidades, conversar com outros pintores e aprender novas técnicas. Falou-lhe do pai e dos anos em que passava horas no ateliê.
Andrea ouviu-a, mas continuava preocupado com a forma como a sociedade iria receber a decisão dela. Tinha medo de que os convidados começassem a falar da mulher dele como de alguém que procura atenção fora de casa.
— Não te vou proibir de ir — disse por fim. — Mas pensa em como isto se pode refletir na nossa família. Nessa mesma noite convidei pessoas importantes e gostaria que estivesses ao meu lado.
A conversa terminou, mas Beatrice passou quase a noite inteira sem conseguir dormir.
Imaginava a sala com os quadros, os encontros com os pintores e o momento em que poderia pronunciar o seu próprio nome como autora. Depois pensava na inquietação de Andrea e nos possíveis comentários dos convidados.
Na manhã seguinte, Lucia trouxe o vestido bonito. O quadro já estava embrulhado.
Beatrice sentou-se diante do espelho e ficou muito tempo a observar o seu reflexo. Imaginou-se a entrar entre os pintores e, depois, a regressar a casa e a ter de explicar a sua decisão a Andrea.
Por fim, pediu baixinho a Lucia que guardasse a tela.
A criada olhou para ela, surpreendida.
— Tem a certeza, senhora?
— Provavelmente é o mais sensato. Haverá outras oportunidades.
Lucia ficou calada por um instante.
— E tem a certeza de que esta decisão é sua?
Beatrice não respondeu.
Tirou o vestido escolhido para o encontro com os pintores e vestiu outro, próprio para a receção familiar.
Nessa noite recebeu os convidados, conversou com amabilidade e sorriu sempre que alguém se lhe dirigia. Ninguém suspeitava de que, a algumas ruas dali, havia pessoas a observar quadros entre os quais poderia ter estado também a obra dela.
Terminada a receção, Beatrice voltou ao seu quarto. Tirou as joias e pôs-se diante do espelho.
No canto estava o quadro embrulhado.
Foi então que pronunciou a promessa que, pouco a pouco, iria determinar a sua vida:
«Serei a mulher que todos querem ver. Aquilo que sou só para mim ficará escondido.»
A partir desse dia, começou a pintar cada vez menos.
Ao princípio abria a arca, observava os pincéis e prometia a si mesma acabar em breve algum quadro. Mas as obrigações sociais voltaram a encher-lhe os dias e, quando Lucia a encorajava a trabalhar, Beatrice respondia normalmente que tinha tarefas mais importantes.
Os anos foram passando.
Elena cresceu, Andrea continuou a desenvolver o comércio e Beatrice tornou-se uma das mulheres mais respeitadas da sociedade veneziana. As jovens donas de casa procuravam-na para lhe pedir conselhos, os convidados admiravam o seu gosto e todos acreditavam que ela estava plenamente satisfeita com a vida.
Mas, quando alguém lhe perguntava o que gostava de fazer nos tempos livres, raramente mencionava a pintura.
Lucia continuava ao seu lado. De vez em quando, tirava algum desenho antigo e deixava-o em cima da mesa.
— Senhora, as suas tintas já devem ter concluído que as abandonou de vez — brincava ela.
Beatrice ria-se, mas normalmente voltava a guardar a folha.
Quando Elena se casou e partiu para outra cidade, a casa foi ficando mais silenciosa. Beatrice começou a sentir tristeza pela ausência da filha, e os encontros sociais já não lhe davam o mesmo prazer.
Num outono, Andrea adoeceu e teve de reduzir o trabalho. Começou a passar mais tempo em casa, e as noites que outrora se enchiam de convidados e de conversas de negócios foram ficando mais calmas.
Pela primeira vez em muitos anos, os dois tinham tempo para conversar sem pressa.
Numa tarde, Andrea procurava um livro na biblioteca e encontrou por acaso alguns desenhos. Entre eles havia um retrato de Lucia, uma imagem da pequena Elena junto à janela e o autorretrato de uma mulher de cabelo solto.
Ficou muito tempo a observar as folhas.
Quando Beatrice entrou, perguntou-lhe porque nunca lhe tinha mostrado tantos trabalhos seus.
Ao princípio, ela tentou desvalorizar os desenhos, mas, ao ver o interesse sincero dele, começou a contar. Partilhou as recordações do pai, as noites secretas com Lucia e a proposta de apresentar os seus quadros a pintores.
Contou-lhe também do dia em que desistira do encontro.
Andrea ficou muito tempo calado.
— Não percebia o quanto aquilo era importante para ti — confessou por fim. — Pensava que só querias receber ainda mais reconhecimento. E tu querias continuar uma coisa que amavas desde criança.
Beatrice olhou para ele. Durante tantos anos tivera medo de que ele nunca compreendesse o seu desejo, e agora, pela primeira vez, falavam abertamente sobre isso.
— Devia ter-te contado mais — disse baixinho.
— E eu devia ter-te ouvido com mais atenção logo nessa altura.
Andrea ofereceu-se para lhe arranjar materiais novos e um espaço adequado para trabalhar. Encorajou-a a voltar a pintar.
Beatrice sorriu, mas tinha medo de que, depois de tantos anos, já tivesse perdido as suas capacidades.
— Ninguém espera que pintes uma obra-prima logo no primeiro dia — disse o marido.
— Esta é provavelmente a opinião artística mais sensata que alguma vez te ouvi — respondeu ela, e os dois riram-se.
Nos meses seguintes, Beatrice começou a fazer pequenos esboços enquanto Andrea descansava. Ele observava os trabalhos dela, fazia perguntas sobre as cores e as técnicas e, pouco a pouco, foi conhecendo aquela parte da personalidade dela que durante tanto tempo ficara escondida.
A doença dele, porém, agravou-se, e alguns anos mais tarde ele morreu.
A perda foi dura. Os dois tinham construído uma família, vivido muitos momentos felizes e conseguido encontrar uma nova proximidade nos últimos anos.
Depois da morte dele, a casa ficou ainda mais silenciosa. Elena vivia com a família noutra cidade e as obrigações sociais de Beatrice tinham diminuído. Lucia continuava ao seu lado, embora ela própria já estivesse mais velha.
Certa manhã chegou uma carta de Elena.
A filha contava que, há algum tempo, fazia objetos decorativos. Os amigos gostavam das peças e alguns até as quiseram comprar. Elena sonhava desenvolver aquela ocupação, mas tinha medo da desaprovação do marido e dos familiares dele. Perguntava à mãe se uma decisão daquelas poderia prejudicar o respeito pela família.
Beatrice leu a carta várias vezes.
Lembrou-se do dia em que ela própria se sentara diante do espelho com o vestido bonito para o encontro com os pintores.
Depois abriu a velha arca.
Entre os desenhos, encontrou o autorretrato feito na noite a seguir àquela longa receção. Da folha olhava para ela uma jovem de cabelo solto, olhos ligeiramente cansados e um sorriso que ela ainda conseguia reconhecer.
Nessa noite escreveu uma longa carta a Elena.
Pela primeira vez, falou-lhe da pintura, do pai, de Lucia e do encontro com os pintores a que renunciara. Confessou o quanto se arrependera da sua decisão e como só anos depois Andrea compreendera o significado que a arte tinha para ela.
No fim, acrescentou:
«Se desejas criar algo teu, conhece as possibilidades, fala com o teu marido e avalia como podes desenvolver as tuas capacidades. Vou gostar muito de ver as tuas peças. E, se alguém começar a comentar a tua escolha, aceita que as pessoas em Veneza sempre mostraram um talento notável nessa área.»
Depois de enviar a carta, Beatrice voltou ao seu quarto.
Abriu as janelas, arrumou parte dos adornos e pôs uma tela nova no cavalete.
Lucia entrou pouco depois e encontrou-a a arrumar os pincéis.
— Finalmente! — exclamou ela. — Já começava a recear que tivéssemos de os deixar em herança à geração seguinte sem que ninguém os tivesse usado.
As duas desataram a rir.
As primeiras tentativas foram difíceis. A mão de Beatrice já não tinha a leveza de outrora, e as cores nem sempre saíam como ela as via na imaginação. Por várias vezes sentiu vontade de abandonar o trabalho.
Mas, pouco a pouco, foi recordando o que aprendera com o pai.
Começou a pintar um pouco todos os dias. Fazia esboços, observava os desenhos antigos e experimentava novas composições. Alegrava-se com o próprio trabalho e preocupava-se cada vez menos com o que alguém diria do resultado.
Passado algum tempo, decidiu fazer o seu próprio retrato.
Pôs o cavalete diante do grande espelho oval e observou com atenção o seu rosto. Tinha o cabelo grisalho, rugas à volta dos olhos, e as mãos traziam as marcas dos anos.
Quando era nova, passava horas a escolher o penteado e os adornos para parecer impecável diante dos convidados. Agora queria pintar a mulher que realmente via.
Começou pelos olhos. Esforçou-se por captar a curiosidade que conservara ao longo dos anos e o leve sorriso que lhe surgia sempre que Lucia contava uma das suas histórias. Depois pintou as mãos, pondo um pincel numa delas.
Trabalhou durante várias semanas.
Quando terminou, na tela havia o retrato de uma mulher idosa, de cabelo grisalho, expressão natural e olhar vivo. Junto dela estavam representadas tintas, pincéis e um desenho por acabar.
Beatrice ficou muito tempo a observar o quadro.
Depois pegou num pincel fino, molhou-o na tinta e escreveu com cuidado o seu próprio nome no canto inferior.
Pela primeira vez, não sentiu vontade de o esconder.
A marca simbólica mais profunda na história de Beatrice surge no dia em que ela recusa o encontro com os pintores. Tem medo de que, se começar a mostrar um lado diferente de si, perca a aprovação das pessoas cuja opinião valoriza.
A sua promessa diz:
«Serei a mulher que todos querem ver. Aquilo que sou só para mim ficará escondido.»
Uma convicção semelhante pode surgir também na vida atual, quando uma pessoa acredita que tem de desempenhar constantemente um determinado papel para ser amada e respeitada.
Talvez todos contem contigo para seres a pessoa forte da família, que nunca se queixa. No trabalho és o colaborador de confiança, sempre pronto a assumir mais uma tarefa, e entre os amigos és a pessoa alegre que está sempre a fazer os outros rir. Estas qualidades podem fazer realmente parte da tua personalidade, mas isso não significa que tenhas de as mostrar a todo o momento.
É possível também que guardes os teus interesses longe dos olhares alheios, porque tens medo da crítica. Gostas de uma certa música, sonhas com uma nova profissão ou desejas desenvolver um talento, mas estás convencido(a) de que os teus próximos o vão encarar como uma ocupação estranha ou inadequada.
A história de Beatrice mostra como uma pessoa se pode ir afastando dos seus próprios desejos enquanto tenta corresponder às expectativas dos outros. O marido não compreendia porque é que a pintura significava tanto para ela, mas também ela, durante muito tempo, não lhe permitiu conhecer essa parte da sua personalidade.
A nova promessa pode ser:
«Posso ser amado(a) e respeitado(a) quando exprimo os meus próprios desejos, desenvolvo as minhas capacidades e mostro mais da pessoa que realmente sou.»
Imagina uma mulher que adora teatro, viagens e encontros com amigos, mas cujo parceiro prefere passar o tempo livre em casa. No início, ela faz-lhe muitas vezes a vontade, porque quer que estejam juntos. Aos poucos, começa a recusar convites, a faltar a espetáculos e a pôr de lado as suas ocupações preferidas.
Anos depois, sente que o seu dia a dia se tornou demasiado limitado, e o parceiro fica sinceramente surpreendido. Acreditava que tinham gostos quase iguais, porque ela raramente partilhava os seus próprios desejos.
Noutra pessoa, o tema pode estar ligado à necessidade de parecer sempre forte e seguro de si. Um homem pode calar as suas preocupações profissionais por acreditar que a companheira o ama precisamente pela sua capacidade de dar conta de tudo. Uma mulher pode esforçar-se por estar sempre alegre e atraente, com medo de que, se mostrar cansaço ou insegurança, o amado perca o interesse.
Mas a verdadeira intimidade exige a possibilidade de sermos conhecidos em diferentes estados e circunstâncias. Consegues exprimir uma opinião diferente da do teu parceiro? Tens tempo para os teus próprios interesses? Permites-te pedir apoio quando precisas dele?
Talvez tenhas crescido com a convicção de que um bom filho faz sempre a vontade aos pais, cumpre as suas expectativas e evita decisões que os possam desiludir.
Imagina uma mulher que, desde pequena, ouviu que tinha de ser sensata e pensar nos outros. Em adulta, organiza os encontros de família, ajuda toda a gente e tem dificuldade em recusar pedidos. Quando quer reservar tempo para os seus próprios interesses, sente culpa, porque se habituou a ser a pessoa com quem todos contam.
Noutra pessoa, esta marca pode manifestar-se através de uma profissão escolhida por insistência dos pais. Tem um emprego estável, mas continua interessado numa área completamente diferente, para a qual em tempos não recebeu apoio.
A história de Elena mostra como convicções deste tipo se podem transmitir de geração em geração. Quando a filha deseja desenvolver uma atividade criativa, sente as mesmas inquietações que outrora travaram Beatrice. Mas, desta vez, a mãe consegue contar a sua própria história e ajudá-la a procurar um caminho diferente.
Pensa em que expectativas familiares continuam a influenciar as tuas decisões. Quais correspondem realmente aos teus desejos e quais aceitaste apenas por medo da desaprovação?
Talvez, entre os teus amigos, sejas sempre a pessoa que propõe os encontros, inventa surpresas e consegue fazer rir toda a gente. Mas, quando atravessas um período difícil, custa-te admitir que precisas de apoio.
Outra pessoa pode ser conhecida como a boa conselheira, que ouve os problemas alheios e está sempre a ajudar. Quando ela própria precisa de tempo para si, começa a recear que a recusa seja entendida como falta de amizade.
Numa terceira pessoa, o tema pode manifestar-se através de uma concordância constante com os outros. Raramente exprime uma opinião diferente, porque evita discussões, e aos poucos começa a ter a sensação de que os amigos conhecem apenas uma parte da sua personalidade.
A relação entre Beatrice e Lucia mostra-nos como pode ser valiosa uma pessoa diante da qual podemos falar livremente dos nossos interesses e sentimentos. Lucia conhecia a respeitada senhora da casa, mas via também a pintora que trabalhava até tarde, de cabelo solto e mãos sujas de tinta.
Com que pessoas consegues ser assim tão natural? Diante de quem te sentes livre para partilhar uma opinião de que os outros talvez não gostem?
Imagina uma mulher que faz joias bonitas. Os amigos gostam das peças e alguns incentivam-na a começar a vendê-las. Ela, porém, repete constantemente que aquilo é só um passatempo. Tem medo de que, se apresentar o seu trabalho em público, as pessoas comecem a avaliá-la e a compará-la.
Outra pessoa pode ter ideias interessantes no trabalho, mas ficar calada durante as reuniões, porque se preocupa se os colegas as vão aceitar. Mais tarde, ouve uma proposta semelhante de outro colaborador e arrepende-se de não ter dito o que pensava.
O tema pode ter também uma dimensão financeira. Se subestimas as tuas capacidades, pode ser-te difícil fixar um preço para o teu trabalho, pedir uma remuneração justa ou apresentar os teus serviços a novos clientes.
Beatrice tinha um verdadeiro talento, que foi notado por um pintor respeitado. Mas só no fim da vida encontra coragem para voltar à pintura. A sua história lembra-nos que as capacidades se desenvolvem com trabalho e que uma pessoa pode recomeçar, mesmo depois de uma longa interrupção.
Talvez o teu próprio desejo ainda seja realizável, embora exija tempo, formação e novos esforços. Ou talvez descubras que preferes manter essa ocupação apenas por prazer. Ambas as possibilidades merecem ser consideradas.
Beatrice foi uma boa esposa, uma mãe carinhosa e uma mulher respeitada. Estas qualidades faziam realmente parte da sua personalidade e ela valorizava a vida que construíra.
Mas tinha também um talento artístico que durante muito tempo ficou escondido. Quando começou a acreditar que tinha de escolher entre a família e a sua própria criação, foi desistindo aos poucos da ocupação que lhe dava tanta alegria.
O espelho antigo convida-te a observar os diferentes lados da tua personalidade. Que qualidades mostras livremente? Que desejos deixaste para segundo plano? E que pessoas poderiam conhecer-te melhor se encontrasses uma forma adequada de lhes falar deles?
Talvez descubras que adoras uma ocupação que nunca partilhaste. É possível que queiras exprimir os teus sentimentos com mais abertura ou ter mais tempo para os teus próprios interesses.
Claro que cada pessoa tem direito a um mundo pessoal. Não é preciso mostrar tudo ao público. O importante é seres tu mesmo(a) a decidir o que desejas guardar para ti e o que merece mais espaço na tua vida.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar os papéis que desempenhas e os desejos que deixaste de lado.
Primeiro reflexo — a máscara. Escreve como as pessoas te veem nas diferentes áreas da tua vida. A pessoa responsável, alegre, forte ou aquela que encontra sempre uma solução? De quais destas qualidades gostas em ti e quando começam a pesar-te?
Segundo reflexo — o rosto escondido. Pensa no que gostas de fazer quando ninguém espera nada de ti. Escreve cinco interesses ou desejos que raramente partilhas. Escolhe um e dedica-lhe pelo menos meia hora durante o dia.
Terceiro reflexo — o olhar alheio. A opinião de quem influencia mais as tuas decisões? O que temes que aconteça se essa pessoa não aprovar um desejo teu? Pensa se a inquietação está ligada a consequências reais ou a suposições.
Quarto reflexo — o desejo esquecido. Recorda uma ocupação que em tempos te dava alegria. Ainda queres desenvolvê-la? Se sim, escolhe um pequeno primeiro passo — arranja os materiais, reserva tempo ou procura um curso adequado.
Quinto reflexo — a voz verdadeira. Escolhe uma situação comum em que muitas vezes calas as tuas preferências. Por exemplo, a escolha de um filme, de um restaurante ou de um programa em conjunto. Se as circunstâncias o permitirem, tenta exprimir o teu desejo com clareza e respeito.
Sexto reflexo — a nova promessa. Desenha uma máscara simples e escreve nela as convicções que te limitam: «Tenho de ser sempre forte», «Toda a gente tem de gostar de mim» ou «Os meus desejos podem esperar». No verso da folha, escreve por que convicções as gostarias de substituir.
Sétimo reflexo — o autorretrato. Descreve ou desenha a pessoa que desejas ser no próximo ano. Inclui as qualidades que valorizas, as relações que te alegram e as capacidades que queres desenvolver. Escolhe uma ação concreta para os próximos sete dias.
Para esta variante, guarda dois símbolos: a máscara do sexto dia e o autorretrato do sétimo.
Põe a máscara num envelope com a inscrição «Processo encerrado» e deixa o autorretrato num sítio onde o possas ver. Passado algum tempo, volta às duas imagens e pensa no que mudou na forma como te vês.
Talvez descubras novos desejos, qualidades e capacidades de que hoje ainda nem suspeitas. Uma pessoa continua a mudar e a conhecer-se a si mesma ao longo de toda a vida.
Imagina a Beatrice idosa, sentada junto à janela do seu quarto. Na mesa diante dela estão as tintas, os pincéis velhos e o seu novo autorretrato. Pega no pequeno pincel de cabo de madeira escura que o pai lhe oferecera e começa uma carta à menina que, em tempos, sonhou com um ateliê só seu.
«Querida Beatrice,
Hoje volto a pegar no pincel que o nosso pai nos ofereceu. O cabo de madeira escureceu e os pelos já não são tão macios, mas, mal lhe peguei, lembrei-me do cheiro das tintas e das horas passadas na oficina dele.
Lembras-te de como ele nos ensinava a observar os rostos humanos? Dizia que um belo retrato exige mais do que olhos e lábios bem desenhados. É preciso reparar na expressão, naquele pequeno gesto ou sorriso que revelam a pessoa.
Só agora compreendo como eram importantes as palavras dele.
Ao longo dos anos, aprendi a ser uma anfitriã excelente, uma esposa atenciosa e uma boa mãe. Amei a minha família, alegrei-me com a nossa filha e dei valor à vida que construí com Andrea. Mas, aos poucos, comecei a acreditar que a pintura devia ficar reservada para os tempos livres.
Quando tive a oportunidade de apresentar os meus quadros a pintores, assustei-me com a opinião alheia. Nessa noite vesti um vestido bonito, recebi os convidados e deixei a tela guardada no meu quarto.
Arrependi-me muito tempo dessa escolha.
O que mais me entristecia era pensar que Andrea nunca iria compreender o quanto a pintura significava para mim. E, quando anos mais tarde ele descobriu os meus desenhos antigos, percebeu-se que, simplesmente, não conhecia bem essa parte da minha vida.
Ele amava-me. Eu também o amava. Mas tínhamos passado tanto tempo a conversar sobre a casa, os convidados e o comércio que alguns dos nossos desejos mais íntimos ficaram por dizer.
Quando finalmente lhe contei tudo, ele começou a encorajar-me a voltar a pintar. Até se interessava pelas técnicas e pelas cores. Lembro-me de como nos rimos quando ele me garantiu que não era preciso pintar uma obra-prima logo no primeiro dia.
Gostava que tivéssemos tido esta conversa muito mais cedo.
Depois recebi uma carta de Elena. Também ela tinha medo de desenvolver um talento seu, porque não sabia como a família reagiria. Foi então que, pela primeira vez, encontrei coragem para falar à nossa filha da pintora que durante tanto tempo escondera.
Agora volto a pintar.
A minha mão já não é tão segura como antes, e algumas linhas só me saem depois de várias tentativas. Lucia continua a dar-me conselhos e a brincar que, se eu tivesse começado mais cedo, já teria há muito uma galeria só minha.
Não sei se me teria tornado uma pintora famosa. Talvez tivesse recebido reconhecimento, ou talvez tivesse preferido pintar por prazer. Mas gostava de me ter dado mais oportunidades para o descobrir.
Hoje tenho diante de mim um novo autorretrato. Nele sou uma mulher idosa, de cabelo branco e com um pincel na mão. Não tentei parecer mais nova. Quis pintar o rosto que realmente vejo, com todas as suas vivências e alegrias.
E, pela primeira vez, escrevi o meu nome no quadro.
Se pudesse dar-te um conselho, pedia-te que guardasses a tua curiosidade e não arrumasses os pincéis tão depressa. Fala abertamente dos teus desejos, procura pessoas que partilhem os teus interesses e desenvolve as tuas capacidades. Vais ter muitas obrigações e relações maravilhosas que merecerão a tua atenção, mas lembra-te de que também a pintura faz parte da tua vida.
E, quando estiveres diante do espelho, olha com atenção para o teu rosto. Ele vai mudar ao longo dos anos, mas a pessoa por trás dele continuará a ter sonhos.
Com carinho,
Beatrice.»
Se o espelho antigo te fez lembrar um talento, um desejo ou uma parte da tua personalidade que raramente mostras aos outros, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Dons podes perguntar: «Que capacidade deixei em segundo plano e como poderia desenvolvê-la?» Em A Linhagem podes explorar os papéis e as expectativas familiares que influenciam as tuas decisões, e em Karma o medo da desaprovação alheia.
Se o tema estiver ligado a um parceiro, as salas Amor e Compatibilidade podem ajudar-te a observar a vossa comunicação e as diferenças nas vossas necessidades. Em A minha gente e Amigo podes dar atenção às relações em que te sentes mais natural, e em Deixar ir às convicções que desejas mudar.
Para decisões profissionais e projetos criativos, podes continuar em A Encruzilhada e Dinheiro.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica de regressão «A porta para uma vida esquecida».
Muitos anos depois de Beatrice ter voltado a pintar, a filha, Elena, regressou à velha casa junto ao canal para tratar dos pertences da mãe falecida.
A casa estava silenciosa. Os pesados cortinados vermelhos emolduravam as janelas altas, e o enorme espelho oval continuava a refletir o quarto onde Beatrice passara tantas noites.
Elena era já uma mulher madura, com uma família sua. Ao longo dos anos, conseguira desenvolver a sua ocupação com objetos decorativos e lembrava-se muitas vezes da carta em que a mãe lhe falara do seu amor pela pintura.
Entre os pertences, encontrou a arca de madeira com os pincéis, álbuns de desenhos e algumas telas embrulhadas.
Observou-os com atenção.
Num dos álbuns encontrou um retrato de si própria em menina, sentada junto à janela com um livro nas mãos. Depois viu um desenho de Lucia, tão natural que quase conseguia ouvir as suas brincadeiras características.
Na parede do grande salão continuava pendurado o retrato oficial da jovem Beatrice. Elena conhecia-o desde a infância. A mãe estava representada com um vestido sumptuoso, joias magníficas e uma expressão séria. Os convidados sempre admiraram o quadro e viam-no como prova da riqueza e da posição da família.
Mas Elena procurava outro retrato.
A mãe tinha-lhe escrito sobre o quadro que pintara depois da longa interrupção e mencionara que desejava que um dia a filha o guardasse.
Passado algum tempo, Elena reparou num pano de linho dobrado atrás do grande espelho. Aproximou-se e encontrou uma tela cuidadosamente guardada.
Desembrulhou o pano.
Diante dela surgiu o retrato da Beatrice idosa.
Tinha o cabelo grisalho e solto, viam-se rugas à volta dos olhos e na mão segurava um pincel. O olhar era vivo, o sorriso natural, e na mesa ao lado havia tintas e um desenho por acabar.
Elena ficou muito tempo a observar aquele rosto.
Era a mãe tal como se lembrava dela nas suas melhores noites juntas — quando falavam de livros, se riam das histórias de Lucia e partilhavam os seus pequenos segredos.
Depois, o seu olhar pousou no canto inferior da tela.
Beatrice Contarini.
Era a primeira vez que via um quadro em que a mãe tivesse escrito o seu próprio nome.
Junto à tela havia um pequeno bilhete.
«Elena, gostava que guardasses os dois retratos juntos. Amei a minha vida de esposa e mãe, mas amei também a pintura. Durante muito tempo acreditei que tinha de escolher qual dos dois rostos mostrar ao mundo. Que as duas mulheres se encontrem finalmente. Passei anos suficientes a tentar mantê-las em quartos diferentes.»
Elena sorriu por entre as lágrimas. Mesmo nas suas últimas palavras, a mãe conservara o sentido de humor.
Cumpriu o desejo dela.
Num dos quartos espaçosos, pendurou os dois retratos lado a lado. Por baixo do primeiro escreveu o nome da mãe e a sua condição familiar. Por baixo do segundo pôs o mesmo nome, seguido da palavra «pintora».
Quando recuou, viu dois rostos diferentes que pertenciam a uma e a mesma mulher. Um falava da posição social, da família e da vida que Beatrice construíra. O outro mostrava a pintora que, durante longos anos, pintara em segredo e que, por fim, encontrara coragem para assinar a sua própria obra.
Mais tarde, Elena começou a falar aos filhos da avó, da velha arca com as tintas e do primeiro pincel oferecido pelo pai dela. Quando algum deles mostrava interesse pela música, pela pintura ou por outra ocupação, ela esforçava-se por lhe dar a oportunidade de conhecer as suas capacidades.
Assim, os dois retratos tornaram-se uma história de família, que continuou a ser contada mesmo depois da morte de Beatrice.
Se escolheste o espelho antigo, desejo-te que desenvolvas as tuas capacidades com alegria, que encontres pessoas diante das quais possas ser natural e que guardes tempo para as ocupações que amas. Que os anos te tragam novos interesses, belos encontros e coragem para mostrar mais da tua verdadeira personalidade. E, da próxima vez que te olhares ao espelho, lembra-te de que a parte mais interessante do teu retrato talvez ainda esteja por pintar. Desta vez, o pincel está nas tuas próprias mãos, e a assinatura em baixo será a tua.
Durante quanto tempo consegues guardar o segredo de outra pessoa quando sabes que ele causa uma injustiça? E, se a pessoa a quem deves tanto te pedir algo que vai contra a tua consciência, quem escolherás proteger?
Durante a limpeza de um antigo arquivo comercial na cidade francesa de Lião, é encontrada uma pesada chave de metal com um punho ricamente decorado. Está guardada numa bolsa de couro com iniciais quase apagadas e, junto dela, estão dois livros de contabilidade do século XVIII. Estão encadernados da mesma maneira, descrevem as mesmas transações, mas os montantes neles registados são diferentes.
Entre os documentos há também uma pasta amarelecida com uma decisão oficial de reabilitação do bom nome de um homem acusado, décadas antes, de irregularidades financeiras. Na primeira página, alguém escreveu: «Os documentos foram guardados para que toda a verdade seja conhecida.»
O mais estranho é que a chave foi encontrada em cima da mesa, junto à porta aberta do arquivo. Segundo as descrições antigas, a sala esteve sempre fechada à chave, e só os empregados de maior confiança da casa comercial tinham acesso a ela.
Porque terá o último guardião deixado a porta aberta? O que conteriam os dois livros e porque terá alguém esperado quase meia vida antes de revelar o que neles estava escrito?
Confesso que as chaves antigas despertam logo a minha curiosidade. Sobretudo quando são suficientemente grandes para abrir um tesouro de família ou uma sala secreta. Mas, se alguém me entregasse uma chave assim com as palavras «Confio-ta, só promete que nunca farás perguntas», provavelmente pediria pelo menos uma breve descrição daquilo que estamos a guardar. Afinal, uma pessoa precisa de saber se está a assumir a responsabilidade por algumas cartas de família ou por todo um departamento de contabilidade com mais do que uma versão da verdade.
O teu processo kármico simbólico está ligado à confiança, à gratidão, à lealdade e às promessas que, aos poucos, começam a pesar mais do que esperavas. Talvez, em tempos, tenhas defendido uma pessoa a quem deves muito, apesar de teres dúvidas sobre o seu comportamento. Ou talvez te tenhas visto entre duas pessoas próximas que confiam em ti, mas esperam de ti coisas opostas.
É possível que guardes um segredo de família, que te sintas em dívida para com alguém que te ajudou num momento difícil ou que sintas culpa sempre que tentas impor um limite.
A história vai levar-nos a Lião, no ano de 1756. Ali, um jovem escrivão recebe a chave do arquivo pessoal de um rico comerciante que, em tempos, salvou a sua família da pobreza. O rapaz aceita a responsabilidade que lhe é confiada como a maior prova de confiança. Mas, quando descobre contas falsificadas e percebe que um homem inocente vai sofrer as consequências, tem de escolher entre a gratidão e a sua própria consciência.
E a velha chave, que ao princípio lhe traz tanto orgulho, vai transformar-se aos poucos num objeto do qual ele não se conseguirá libertar nem mesmo depois da morte do seu benfeitor.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através da chave antiga, podes observar a tua relação com a confiança, as promessas e a responsabilidade pessoal. As imagens que vão surgir são associações criativas e, por si só, não provam memórias de uma vida passada real. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Imagina um longo corredor numa antiga casa europeia. O chão de pedra está gasto por inúmeros passos, a luz das velas desenha os contornos das pesadas portas de madeira e no ar sente-se o cheiro a cera e a papel velho. Ao fundo do corredor há uma mesa, sobre a qual está uma chave de metal.
A primeira decisão — a promessa. Imagina uma pessoa que recebe a chave de alguém que respeita profundamente. Pode ser um pai ou uma mãe, um amigo, um professor ou um patrão. O que lhe promete? Sabe o que se encontra atrás da porta? Compreende todas as obrigações que assume, ou sente uma gratidão tão grande que nem lhe passa pela cabeça fazer uma pergunta?
A segunda decisão — a descoberta. O tempo avança. A pessoa abre a velha porta e descobre um documento, um objeto ou uma informação que muda a ideia que tinha de quem lhe confiou a chave. O que sente? Que possibilidades tem de verificar a informação e de compreender as circunstâncias?
A terceira decisão — a pessoa que paga o preço. Diante dela surge alguém cujos interesses são afetados pelo segredo guardado. Talvez tenha sido acusado injustamente ou tenha perdido algo valioso. Que perguntas faz? Imagina que a pessoa da chave o ouve sem tentar justificar de antemão as suas próprias ações.
A quarta decisão — a conversa difícil. A pessoa volta a quem lhe confiou o segredo. Já dispõe de mais informação e quer uma explicação. Como reage o outro? Admite o seu erro, ou insiste em que a promessa seja cumprida independentemente das consequências? Como poderia o guardião exprimir a sua posição com respeito e clareza?
A quinta decisão — muitos anos depois. Imagina essa pessoa já idosa. Que vida construiu? De que decisões suas se orgulha e de quais se arrepende? Pergunta-lhe: «Que promessa te foi mais difícil cumprir e o que gostarias de ter sabido antes de a fazer?»
A sexta decisão — a devolução da chave. Sobre a mesa está de novo o velho objeto de metal. A pessoa pode guardá-lo, entregá-lo a outra pessoa ou deixá-lo junto à porta aberta. O que escolhe? Imagina que também tu podes pousar junto à chave uma responsabilidade que há muito desejas rever.
Aos poucos, volta a atenção para o presente e anota a decisão que te pareceu mais difícil.
A pergunta que fica: «Que promessa continuo a cumprir por gratidão, medo ou sentido de dever, embora já duvide de que seja justa?»
Lião, França, 1756. Pelas ruas passavam carroças com tecidos de seda, das oficinas ouviam-se as vozes dos tecelões, e às grandes casas comerciais chegavam fornecedores e compradores de diversas cidades europeias. Lião era famosa pela sua seda, mas por trás dos belos tecidos existia um mundo complexo de créditos, contratos e obrigações, no qual um único algarismo alterado podia custar a uma pessoa mais do que todos os seus bens.
Numa das ricas casas comerciais trabalhava um escrivão de vinte e quatro anos, conhecido pela sua exatidão e boa memória. Era sério, dedicado e tinha a espantosa capacidade de encontrar erros em documentos que os outros já tinham verificado várias vezes.
Mas, por trás do seu empenho, havia uma razão que os colegas raramente mencionavam.
Em criança, conhecera a pobreza. O pai morrera cedo, deixando dívidas, e a mãe adoecera e mal conseguia trabalhar. O rapaz deixou a escola para ajudar em casa e durante muito tempo acreditou que nunca teria oportunidade de desenvolver as suas capacidades.
Foi então que o dono de uma grande casa comercial de sedas reparou no seu zelo e lhe ofereceu trabalho. Ao princípio, o rapaz levava cartas e arrumava documentos, mas o patrão depressa descobriu que ele tinha jeito para os números. Pagou-lhe a formação, permitiu-lhe trabalhar com os livros de contabilidade e, pouco a pouco, começou a confiar-lhe tarefas mais complexas.
Com o salário regular, o jovem conseguiu saldar parte das dívidas da família e garantir à mãe uma casa melhor e tratamento médico.
Por isso, o comerciante significava para ele muito mais do que um patrão. Via-o quase como um segundo pai — o homem que aparecera no momento mais difícil e lhe dera a oportunidade de construir um futuro.
O próprio comerciante era inteligente, ambicioso e respeitado. Criara postos de trabalho, fechara negócios vantajosos e construíra uma grande empresa. Mas o sucesso foi-o tornando demasiado confiante no seu próprio juízo. Aceitava mal a discordância, raramente admitia erros e estava convencido de que, como tantas famílias dependiam das suas decisões, tinha o direito de decidir sozinho que meios eram admissíveis para salvar o negócio.
O jovem escrivão conhecia sobretudo o seu lado generoso e raramente punha em causa as suas decisões.
Um dia, o comerciante chamou-o ao seu gabinete.
Sobre a grande secretária de madeira estava uma pesada chave de metal com um punho ricamente decorado.
— A partir de hoje, és tu o responsável pelo arquivo pessoal — anunciou o dono. — Nele guardam-se os contratos, as contas e as cartas mais importantes. Confio-te a chave porque sei que sabes guardar o que te é confiado.
O jovem pegou nela, emocionado.
O acesso ao arquivo só era permitido aos colaboradores mais próximos do comerciante. Para ele, aquilo era um enorme reconhecimento.
— Tudo o que souberes pelos documentos tem de ficar entre nós — acrescentou o patrão. — Desta informação depende o futuro de toda a casa.
O escrivão prometeu.
Nem sequer perguntou que segredos aquela sala poderia esconder.
Ao sair do gabinete, encontrou a velha governanta, Madeleine. Ela trabalhava para a família há mais de trinta anos e conhecia o patrão suficientemente bem para não se deixar impressionar por cada um dos seus discursos solenes.
Reparou na chave e ergueu as sobrancelhas.
— Então já tens acesso ao santo dos santos. Só não te esqueças, meu rapaz, de que o patrão gosta muito de falar de honra e dignidade. Sobretudo quando está para vir uma conversa sobre dinheiro.
O jovem riu-se.
— A senhora é desconfiada de mais, Madeleine.
— Depois de trinta anos nesta casa, ganhei o direito de duvidar pelo menos de metade das promessas que ouço.
Ele tomou as palavras dela como mais uma brincadeira e seguiu pelo corredor, de chave apertada na mão.
Nos meses seguintes, trabalhou ainda com mais afinco. Revia contratos, verificava pagamentos e cuidava de que os documentos importantes ficassem bem guardados. Gostava de ser o homem de confiança do dono e, aos poucos, começou a sentir os êxitos da casa comercial como seus.
Entre os empregados havia também um velho contabilista, que trabalhava na empresa há mais de vinte anos. Era um homem honesto, marido e pai de três filhos. Os colegas respeitavam-no pela sua paciência e bom feitio.
O contabilista ajudava muitas vezes o jovem escrivão. Explicava-lhe as contas complicadas, partilhava a sua experiência profissional e interessava-se pela saúde da mãe dele. Às vezes trazia ervas medicinais ou pequenos presentes preparados pela mulher.
Quando o jovem recebeu a chave do arquivo, foi precisamente o velho contabilista um dos primeiros a felicitá-lo sinceramente.
No outono, porém, a casa comercial começou a passar por dificuldades.
Várias entregas atrasaram-se, um cliente importante cancelou uma encomenda, e o dono tinha cada vez mais conversas tensas com os credores. Exigia que as informações fossem preparadas de imediato, revia as contas e, por vezes, saía do gabinete visivelmente irritado.
O jovem escrivão reparava na inquietação, mas acreditava que o patrão encontraria uma solução, como tantas outras vezes.
Numa noite, ficou depois do fim do dia de trabalho para verificar os documentos de uma grande entrega.
Ao comparar os montantes, descobriu uma discrepância entre os pagamentos registados e os tecidos efetivamente entregues. Ao princípio, julgou tratar-se de um erro.
Mas, quando verificou mais algumas transações, reparou em diferenças semelhantes.
Pegou na chave, abriu o arquivo e procurou os contratos originais.
Entre os documentos, encontrou um segundo livro de contabilidade.
Pôs os dois livros lado a lado.
No oficial estavam registados pagamentos que não correspondiam às informações originais. No outro via-se que parte dos fundos tinha sido transferida para contas pessoais do dono e que as perdas de certas transações tinham sido escondidas.
O jovem verificou os números mais uma vez.
As diferenças eram demasiado consistentes para serem casuais.
Na manhã seguinte, pediu para falar com o patrão.
O comerciante ouviu-o, fechou a porta do gabinete e admitiu que a situação financeira da empresa se tinha agravado.
— Tive de transferir fundos temporariamente — explicou. — Quando recebermos os novos pagamentos, reponho tudo.
O escrivão apontou para os documentos alterados.
— Mas os sócios não conhecem a situação real.
— Se souberem agora, vão exigir a devolução imediata do dinheiro. As oficinas fecham e centenas de pessoas podem perder o seu sustento. Só preciso de alguns meses.
O jovem hesitava.
Sabia quantas famílias dependiam da empresa. Conhecia também a habilidade do comerciante, que por diversas vezes ultrapassara sérias dificuldades.
— Não há outra maneira? — perguntou.
— Já pensei em tudo — respondeu o dono. — Agora preciso de alguém com quem possa contar.
Depois olhou para ele com atenção.
— Posso contar contigo?
O jovem lembrou-se dos anos de pobreza, da mãe doente e da ajuda que recebera.
Prometeu guardar silêncio.
Nas semanas seguintes, tentou convencer-se de que a decisão era temporária. Assim que as novas encomendas fossem cumpridas, o dinheiro seria reposto e ninguém sairia prejudicado.
Mas as dificuldades financeiras continuaram.
Um dos sócios reparou nos fundos em falta e exigiu uma auditoria.
O comerciante percebeu que as irregularidades podiam ser descobertas e decidiu desviar as suspeitas para o velho contabilista.
Pouco depois foi apresentado um documento segundo o qual fora precisamente ele quem autorizara a transferência indevida dos fundos.
Quando o jovem escrivão viu o documento, reconheceu de imediato as informações alteradas.
Sabia que o seu velho colega estava inocente.
Foi ter com o patrão e pediu uma explicação.
— Se a casa toda ruir, todos sairão prejudicados — respondeu o comerciante, irritado. — O contabilista há de arranjar outro emprego. E nós temos de salvar aquilo que andámos anos a construir.
— Mas a acusação vai arruinar o bom nome dele. Ele tem família.
— Tu também tens família — lembrou o dono. — Pensa na tua mãe. Pensa em todos os que dependem deste trabalho.
Depois acrescentou:
— Não te esqueças da tua promessa.
O escrivão saiu do gabinete com um peso no peito.
Nessa noite, voltou para casa e encontrou a mãe de cama. O médico recomendara um novo tratamento, que iria exigir mais dinheiro.
O jovem sentou-se ao lado dela e prometeu arranjar o necessário.
— Tenho orgulho em ti — disse a mãe. — Fizeste tanto por nós. Ainda bem que, naquela altura, o patrão te deu a oportunidade de trabalhar.
As palavras dela feriram-no mais do que ela poderia imaginar.
Quando ficou sozinho, tirou a chave da bolsa e pousou-a em cima da mesa.
Se dissesse a verdade, podia perder o emprego. Se continuasse calado, um homem inocente sofreria as consequências.
A acusação depressa se tornou oficial.
O contabilista foi afastado e os boatos espalharam-se pelos meios comerciais da cidade. Velhos conhecidos começaram a evitá-lo, as oportunidades de trabalho diminuíram e a família caiu em dificuldades financeiras.
O homem insistia que estava inocente, mas o documento apresentado parecia convincente.
Numa noite, quando o jovem escrivão saía da casa comercial, viu o contabilista à entrada.
O homem mais velho estava à espera dele, vestido com o seu velho casaco.
— Podemos conversar?
O jovem acenou que sim.
— Tu conheces as contas — começou o contabilista. — Diz-me só se acreditas mesmo que fui eu que fiz isto.
O escrivão sentiu o rosto a arder.
Diante dele estava o homem que tantas vezes o ajudara, que se interessara pela sua mãe doente e se alegrara sinceramente com os seus êxitos.
Ele sabia a verdade.
Por um instante, quis contar-lhe tudo.
Depois lembrou-se do salário, do tratamento da mãe e do medo da pobreza.
— Não sei todos os pormenores — respondeu.
O contabilista olhou-o demoradamente.
— Eu pensava que pelo menos tu ias acreditar em mim.
Depois virou-se e foi-se embora.
O jovem ficou à entrada até a figura do homem mais velho desaparecer aos poucos ao fundo da rua.
Nessa noite, voltou a tirar a chave.
Em tempos, sentira orgulho por lhe ter sido confiada uma responsabilidade tão importante. Agora, aquele objeto de metal lembrava-lhe a verdade que conhecia e o homem que deixara partir sem defesa.
Foi então que fez a si mesmo a promessa que o iria perseguir nos anos seguintes:
«Protegerei as pessoas que me salvaram, mesmo que tenha de me calar contra a minha própria consciência.»
No dia seguinte, Madeleine reparou em como ele estava inquieto.
Quando ficaram a sós, ele confessou-lhe que sabia mais sobre a acusação do que tinha dito.
A velha mulher ouviu-o com atenção.
— O patrão deu-te trabalho quando não tinhas nada — disse ela. — Mas isso não significa que lhe devas a tua consciência.
O jovem explicou que a mãe dependia dele e que não podia arriscar o salário.
Madeleine acenou com a cabeça. Conhecia as dificuldades da família dele.
— Percebo porque tens medo. Mas, pelo menos, não te convenças de que está tudo bem. Quando uma pessoa não consegue fazer logo o que está certo, tem de admitir perante si mesma o que realmente está a acontecer.
Nos meses seguintes, as novas encomendas foram restabelecendo a situação financeira da casa comercial.
A acusação contra o contabilista, porém, manteve-se.
O jovem escrivão foi promovido. O salário aumentou, a mãe começou a receber um tratamento melhor, e o patrão garantiu-lhe que tinha um grande futuro.
Todos o felicitavam.
Mas, sempre que abria o arquivo, lembrava-se da pergunta do homem mais velho.
Algum tempo depois, soube que o contabilista deixara Lião com a família. Tinham-se instalado numa pequena vila, onde esperavam recomeçar, mas a acusação continuava a dificultar-lhes a vida.
Os anos foram passando.
A mãe do escrivão foi recuperando aos poucos e ele constituiu família. Ganhou experiência, poupou dinheiro e começou uma atividade comercial por conta própria.
Tornou-se um homem respeitado, conhecido pela sua exatidão e honestidade.
Quando formava os empregados, insistia em que cada conta fosse verificada com cuidado. Proibia alterações que pudessem enganar os clientes e exigia que todas as decisões importantes ficassem documentadas.
Os colegas brincavam que, com ele, até o mais pequeno algarismo tinha de estar pronto a dar explicações, caso alguém decidisse interrogá-lo.
Mas, por trás desse rigor, continuava a viver a memória dos dois livros de contabilidade.
Quando o antigo patrão morreu, os herdeiros começaram a rever os velhos arquivos.
Nessa altura, o homem já tinha quarenta e oito anos.
Convidaram-no a ajudar com os documentos, porque conhecia a casa comercial melhor do que a maioria dos empregados.
Ele chegou e voltou a percorrer os corredores conhecidos.
No arquivo encontrou os dois livros de contabilidade e o rascunho do documento com que o contabilista inocente fora acusado. Nas páginas ainda se viam as correções feitas antes da apresentação do texto final.
Desta vez, ninguém lhe podia ordenar que se calasse.
Mas, quando guardou os documentos na pasta, voltou a sentir medo.
Se revelasse a verdade, mancharia a memória do homem que em tempos ajudara a sua família. Desiludiria os herdeiros dele, e o mais difícil era que teria de admitir publicamente a sua própria participação.
Voltou para casa com os documentos, mas não fez nada.
Nessa noite, o filho contou-lhe um conflito entre amigos.
Um rapaz partira uma janela e acusara outro. O filho tinha visto o que acontecera, mas tinha medo de dizer a verdade, porque não queria perder a amizade da criança culpada.
O pai ouviu-o.
— E se fosses tu o acusado injustamente? Como te sentirias se todos soubessem a verdade, mas preferissem ficar calados?
O rapaz ficou pensativo.
— Gostava que alguém me defendesse.
O homem não respondeu logo.
Voltou a ver o velho contabilista à entrada da casa comercial.
Nessa mesma noite, tirou os documentos, pôs os dois livros lado a lado e começou a descrever tudo o que sabia.
Depois de várias semanas de buscas, soube que o velho contabilista já tinha morrido.
A notícia deixou-o abalado.
Tantas vezes imaginara que um dia teria oportunidade de falar com ele e de lhe pedir perdão. Agora essa conversa nunca iria acontecer.
Mas encontrou uma das filhas dele, que vivia numa pequena cidade não muito longe de Lião.
Preparou os documentos e partiu para a visitar.
A mulher recebeu-o com cortesia, mas com visível cautela. Conhecia o nome dele e lembrava-se de que o pai, em tempos, falava do jovem escrivão com respeito.
O homem pousou os documentos em cima da mesa.
Contou-lhe dos registos alterados, das irregularidades financeiras e da promessa que fizera ao patrão. Admitiu que sabia da inocência do pai dela, mas que tivera medo de perder o emprego e o dinheiro para o tratamento da mãe.
A mulher ouviu-o sem o interromper.
Depois fez uma única pergunta:
— E quando o meu pai estava vivo e ainda podia ouvir estas palavras, onde estava o senhor?
O homem baixou a cabeça.
— Tinha medo — respondeu baixinho.
— Ele também tinha medo — disse ela. — Tinha medo de que não conseguíssemos sustentar-nos, de que os filhos não pudessem estudar e de que ninguém voltasse a acreditar no seu nome. Mas todos os dias repetia que estava inocente.
Depois contou-lhe como fora a vida depois de terem deixado Lião.
O pai tivera dificuldade em encontrar trabalho. A mãe tivera de assumir obrigações extra, ela própria interrompera os estudos e os irmãos começaram a trabalhar ainda rapazes.
Ao longo dos anos, a família esperou que alguém provasse a verdade, mas ninguém apareceu.
— O senhor tinha escolha — concluiu a mulher. — O meu pai não tinha.
O homem não tentou justificar-se.
Sabia que o seu medo de outrora fora real. Mas agora via com toda a clareza quantas pessoas tinham sofrido as consequências do seu silêncio.
— Cometi um erro — admitiu. — E não espero que me desculpe.
Ofereceu-se para apresentar os documentos às instituições competentes e aos meios comerciais, testemunhar sobre o que acontecera e ajudar a restabelecer o bom nome do pai dela.
A mulher examinou as páginas.
— Aceito a sua ajuda — disse. — Mas não espere que eu lhe diga que está tudo esquecido.
— Compreendo.
Desta vez, a palavra tinha um significado diferente.
Nos meses seguintes, o homem apresentou os documentos, falou com antigos empregados e assumiu a sua própria responsabilidade. Teve de responder a perguntas difíceis. Algumas pessoas acusavam-no de manchar a memória do seu benfeitor, outras queriam saber porque se calara durante tantos anos.
Ele contava os factos, sem calar nem a ajuda que recebera nem a injustiça que o patrão cometera.
Depois de um longo processo, a acusação foi revista e o bom nome do contabilista foi restabelecido. A família recebeu também o dinheiro que lhe era devido.
Nada disto podia devolver os anos perdidos.
Mas os filhos e os netos do contabilista podiam agora falar dele como de um homem honrado.
A filha não enviou nenhuma carta de agradecimento.
Apenas lhe comunicou que os filhos dela sabiam finalmente a verdade sobre o avô.
Foi o único reconhecimento que o homem recebeu.
E, desta vez, bastou-lhe.
O voto simbólico do jovem escrivão nasce da gratidão pelo homem que, em tempos, salvou a sua família da pobreza. Quando recebe a chave, deseja sinceramente provar que merece a confiança que lhe foi dada.
Mas, aos poucos, começa a acreditar que todos os pedidos do benfeitor têm de ser cumpridos, independentemente das consequências.
A sua promessa diz:
«Protegerei as pessoas que me salvaram, mesmo que tenha de me calar contra a minha própria consciência.»
Uma convicção semelhante pode surgir quando alguém te ajudou num momento difícil e tu, aos poucos, começas a encarar cada desejo dessa pessoa como uma obrigação. Tens medo de recusar, porque achas que vais parecer ingrato(a).
É possível também que tenhas crescido com a regra familiar de que os nossos devem ser sempre protegidos, independentemente da forma como agiram. Ou que guardes um segredo alheio que já afeta pessoas que nunca participaram na promessa original.
A história traça uma fronteira importante entre a confiança e a participação numa injustiça. Podemos estar gratos pela ajuda recebida, guardar informações confidenciais e respeitar os nossos próximos sem aceitar como corretas todas as suas ações.
A nova promessa pode ser:
«Dou valor à confiança e à ajuda que recebi, mas tenho o direito de fazer perguntas, de impor limites e de tomar decisões segundo a minha própria consciência.»
Imagina uma mulher que sabe que o parceiro está com dificuldades financeiras. No início, ela respeita o desejo dele de manter os problemas dentro da família. Mas, aos poucos, descobre que ele continua a contrair novos empréstimos e espera que ela esconda a situação real.
Quando ela lhe pergunta como se vão desenrascar, ele lembra-lhe como é importante que os parceiros estejam unidos.
A mulher começa a recear que, se insistir em mais clareza, vai parecer desleal. Aos poucos, vai assumindo obrigações financeiras que não são suas e adiando os seus próprios planos.
Noutra pessoa, o tema pode estar ligado a um parceiro que quebra repetidamente as suas promessas. Tu continuas a encontrar explicações perante os teus próximos — trabalho pesado, um período difícil, problemas familiares. Parte das razões pode ser verdadeira, mas, com o tempo, começas a evitar as conversas sobre os teus próprios sentimentos.
Se reconheces uma situação assim, pergunta a ti mesmo(a) o que estás exatamente a proteger — a pessoa que amas, ou ações dela que causam dano. E como seria a relação se pudessem conversar abertamente, sem que cada pergunta fosse recebida como uma acusação.
Imagina uma criança a quem a mãe conta os problemas do casamento, pedindo-lhe que não diga nada ao pai. Passado algum tempo, também o pai começa a fazer dela a sua confidente.
A criança ama os dois. Aos poucos, começa a sentir-se responsável pela relação deles, embora não tenha forma de resolver os seus problemas.
Em adulta, essa pessoa pode continuar a desempenhar um papel semelhante. Os familiares contam-lhe os seus conflitos, esperam que faça de mediadora e ofendem-se quando recusa tomar partido.
Noutra pessoa, a obrigação familiar pode ser financeira. Talvez um familiar conte constantemente contigo para pagares as dívidas dele, porque em tempos te ajudou e acha que agora lhe deves retribuir o favor.
A velha história convida-te a observar que responsabilidades te pertencem realmente. Podes amar a tua família, ajudar na medida das tuas possibilidades e manter o direito de definir os teus próprios limites.
Talvez, entre os teus amigos, sejas a pessoa a quem todos confiam os seus segredos. Uma amiga conta-te um conflito com outra, a segunda partilha a sua própria versão, e uma terceira espera que lhe digas quem tem razão.
Depressa descobres que sabes quase tudo sobre as relações entre elas, mas estás constantemente a ter cuidado com o que dizes.
É possível que sintas culpa por não conseguires ajudar toda a gente. Ou que tenhas medo de que, se recusares o papel de mediador, os teus amigos concluam que já não podem contar contigo.
Mas a confiança nem sempre exige que assumas a responsabilidade de resolver os conflitos alheios.
Madeleine é um belo exemplo de uma forma diferente de apoio. Conhecia o jovem escrivão, compreendia o seu medo da pobreza, mas não tentava convencê-lo de que estava a agir bem. Disse-lhe a verdade que ele próprio tinha medo de admitir.
Às vezes, o amigo mais valioso é a pessoa que consegue ouvir-te com compreensão e, ao mesmo tempo, dizer-te que uma certa decisão merece ser revista.
Imagina um empregado que conseguiu trabalho graças a uma pessoa que o ajudou num momento difícil. Com os anos, ganha experiência, assume mais responsabilidades e torna-se um membro valioso da equipa.
Mas, quando pede uma remuneração melhor, o chefe lembra-lhe que foi precisamente ele quem, em tempos, lhe deu uma oportunidade.
O empregado começa a sentir-se ingrato, embora as condições de trabalho tenham mudado há muito.
Noutra pessoa, a situação pode ser muito mais séria. Um patrão ou um sócio pede-lhe que encubra uma decisão incorreta, insistindo que dela depende o futuro de toda a empresa.
A pessoa tem medo de recusar, porque tem família, créditos e responsabilidades.
A história do escrivão mostra como decisões destas podem ser difíceis quando a segurança financeira está realmente ameaçada. Por isso, é importante analisares as tuas possibilidades com cuidado, procurares um conselho fiável e, perante riscos jurídicos ou profissionais, consultares um especialista competente.
A gratidão por alguém que te ajudou pode continuar sincera e duradoura. Mas cada nova situação merece uma avaliação própria.
Talvez a lição mais difícil da história do escrivão seja que, quando finalmente revela a verdade, não recebe o perdão com que sonhou durante tanto tempo.
A filha do contabilista aceita a sua ajuda, mas recusa-se a declarar esquecido o que aconteceu.
E tem toda a razão.
O homem não pode devolver os anos perdidos, a educação que os filhos não receberam ou a vida do pai deles. Mas pode admitir o que sabia, porque se calou e o que está disposto a fazer agora.
Esta é uma questão importante também para a tua vida atual. Talvez, em tempos, tenhas calado alguma coisa por teres medo das consequências. Ou tenhas assumido uma promessa que, mais tarde, começou a contradizer as tuas próprias convicções.
Pensa no que dependia realmente de ti nessa altura e que possibilidades tens hoje. Se puderes reparar parte das consequências, vale a pena considerar essa possibilidade. Mas a decisão de te perdoar ou não pertence à outra pessoa.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar as promessas, a confiança e os limites nas tuas próprias relações.
Primeiro dente — a promessa. Escreve uma situação em que te sentes responsável por um segredo ou um problema alheio. O que prometeste realmente e que obrigações extra começaste a assumir com o tempo?
Segundo dente — a gratidão. Pensa se o sentimento de dever está ligado a alguém que em tempos te ajudou. Pelo que lhe estás grato(a)? Como influencia essa gratidão as tuas decisões hoje?
Terceiro dente — o preço. Observa que consequências tem o cumprimento prolongado da promessa. Como afeta o teu tempo, as tuas finanças e as tuas relações? Há outras pessoas afetadas?
Quarto dente — o limite. Divide uma folha em duas partes. Numa, escreve as ações e decisões pelas quais és realmente responsável. Na outra, aquilo que pertence à outra pessoa. Pensa em que obrigações podes rever.
Quinto dente — a verdade. Escolhe uma situação em que gostarias de exprimir a tua posição com mais clareza. Prepara uma conversa breve e concreta. Se houver risco de consequências sérias, procura o apoio adequado ou aconselhamento profissional antes de agires.
Sexto dente — a reparação. Pensa se podes reparar algo do passado — através de uma confissão, de ajuda, de um esclarecimento ou de uma mudança no teu próprio comportamento. Escolhe um passo sensato, sem esperar de antemão gratidão ou perdão.
Sétimo dente — a nova chave. Formula uma promessa pessoal que substitua a antiga convicção. Por exemplo: «Posso ser grato(a) e leal às pessoas que amo sem assumir a responsabilidade por todas as decisões delas.»
Escolhe uma pequena chave, um pendente decorativo, ou desenha uma chave numa folha.
Põe-na junto de uma breve promessa que desejes guardar:
«Darei valor à confiança que recebo e avaliarei as minhas responsabilidades com honestidade para comigo e para com os outros.»
Quando alguém te pedir uma nova promessa, lembra-te deste símbolo e faz a ti mesmo(a) a pergunta: «O que se espera exatamente de mim e quais podem ser as consequências?»
Imagina o velho comerciante de Lião, sentado junto à janela da sua casa. Na secretária diante dele está a velha chave e, ao lado, uma folha de papel. O homem pega na chave, observa o punho escurecido e começa uma carta ao jovem escrivão que, em tempos, se sentira tão orgulhoso por lhe confiarem um segredo importante.
«Meu querido,
Se pudesse voltar ao dia em que recebeste esta chave, a primeira coisa que fazia era abraçar-te.
Sei o quanto ela significava para ti. Tinhas passado pela pobreza, tinhas temido pela vida da nossa mãe e, finalmente, recebias o reconhecimento que há tanto tempo merecias.
Compreendo porque aceitaste a promessa sem fazer uma pergunta.
Confiavas no homem que nos ajudou. Estavas grato por tudo o que ele fizera e desejavas sinceramente corresponder à sua confiança.
Mas gostava de te dizer uma coisa que, naquela altura, ninguém conseguiu explicar-te.
Uma pessoa pode fazer-te um bem enorme e, mais tarde, agir de forma injusta. A gratidão pelo primeiro não apaga a responsabilidade pelo segundo.
Sei como te assustaste quando viste os documentos alterados. Sei o que o salário significava para a nossa mãe e como te era difícil imaginar que o podias perder.
Mas, quando o contabilista te perguntou se acreditavas na acusação, tu já sabias a verdade.
Lembro-me do rosto dele.
Ao longo dos anos, tentei muitas vezes encontrar uma explicação para o nosso silêncio. Dizia a mim mesmo que éramos jovens, assustados e dependentes do patrão. Tudo isso era verdade.
Mas também era verdade outra coisa: um homem inocente perdeu o seu bom nome, e nós não encontrámos coragem para o defender.
O que mais me dói é ter esperado tanto tempo.
Quando finalmente encontrei a filha dele, ela perguntou-me onde estive enquanto o pai ainda podia ouvir a verdade.
Não tinha palavras que tornassem a resposta mais fácil.
Foi então que percebi que, durante tantos anos, estivera à espera do momento certo, em que a confissão não me custasse nada. Mas esse momento nunca chegou.
Consegui ajudar a restabelecer o nome dele. Apresentei os documentos e assumi a responsabilidade pelo meu silêncio. A filha aceitou a minha ajuda, mas não me perdoou.
Agora compreendo porquê.
Não posso fazer voltar o tempo e não quero fingir que tudo foi reparado.
Mas posso dizer-te o que aprendi.
Não é preciso ser perfeito para ser um homem honesto. É preciso saber reconhecer os próprios erros e assumir a responsabilidade por eles.
Se voltarem a estender-te esta chave, aceita-a com respeito. Agradece a confiança que te dão. Mas pergunta o que se espera de ti.
E se um dia descobrires atrás da porta algo que vai contra a tua própria consciência, não fiques sozinho com o teu medo. Procura conselho, conhece as tuas possibilidades e pensa nas pessoas que podem ser afetadas pelo teu silêncio.
A nossa mãe tinha razão em ter orgulho em ti. Trabalhavas com afinco e cuidavas dela com amor.
Mas eu gostava de ter orgulho também no homem que vai encontrar coragem para fazer a pergunta difícil quando todos os outros preferem ficar calados.
Com compreensão pelo jovem que eu fui.»
Se a chave antiga te fez lembrar uma promessa que te custa cumprir, um segredo de família ou uma pessoa para com quem sentes um forte sentido de dever, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala A Linhagem podes perguntar: «Que convicção familiar me leva a assumir responsabilidades que não são minhas?» Em Karma podes observar os padrões repetidos de lealdade e culpa, e em Deixar ir o sentimento de obrigação de que desejas libertar-te.
Se a questão estiver ligada a uma pessoa concreta, as salas Amor, Compatibilidade, Amigo e A minha gente podem ajudar-te a explorar a confiança e as expectativas mútuas. Para decisões profissionais e financeiras, podes continuar em Dinheiro e A Encruzilhada, e em Dons podes observar as capacidades que te vão ajudar a construir um caminho mais independente.
Podes continuar a investigação simbólica com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com «A porta para uma vida esquecida».
Muitos anos depois dos acontecimentos na velha casa das sedas, o velho comerciante voltou a chegar diante do edifício onde, em tempos, começara a trabalhar como um rapaz pobre.
A empresa mudara há muito de finalidade. Os antigos armazéns eram usados para outros fins, os corredores estavam quase vazios e nas paredes viam-se as marcas do tempo.
Mas o velho arquivo ainda existia.
O homem trazia uma pequena pasta de couro com alguns documentos e a pesada chave de metal que guardara durante todos aqueles anos.
Percorreu o corredor conhecido e parou diante da porta.
Meteu a chave na fechadura.
O metal rangeu e a pesada porta abriu-se.
Lá dentro, as prateleiras estavam quase vazias. Havia pó sobre a mesa, e pela janela alta entrava uma pálida luz da manhã.
O homem entrou e pousou a pasta sobre a superfície de madeira.
Tirou os últimos documentos relacionados com a acusação contra o contabilista. Entre eles estava a decisão oficial que restabelecera o seu bom nome e os testemunhos sobre as verdadeiras irregularidades financeiras.
Arrumou as folhas numa pasta de arquivo.
Depois pôs ao lado delas as cópias dos dois livros de contabilidade.
Um mostrava os registos oficiais, o outro as transferências dos fundos.
Décadas antes, aquelas páginas tinham-no enchido de medo.
Agora contavam uma história que ninguém precisava de esconder.
O homem fechou a pasta e pôs sobre ela um breve bilhete:
«Os documentos foram guardados para que toda a verdade seja conhecida.»
Depois aproximou-se da janela.
Lá fora, Lião ia acordando aos poucos. Ouviam-se as rodas das carroças e as vozes dos mercadores, e as oficinas distantes começavam mais um dia.
Lembrou-se da mãe, que outrora o mandava para o trabalho com a esperança de que a família tivesse finalmente uma vida melhor. Lembrou-se também do benfeitor que lhe dera a oportunidade de estudar e de desenvolver as suas capacidades.
Depois pensou no velho contabilista.
No homem que lhe mostrara como verificar as contas complicadas, que trazia ervas medicinais para a mãe dele e se alegrava sinceramente com os seus êxitos.
E na filha, que lhe perguntara onde estivera durante todos aqueles anos.
Essa pergunta nunca iria perder o seu significado.
Mas já não ficaria sem resposta nos arquivos.
O homem voltou-se para a porta e, por um instante, imaginou Madeleine de pé no corredor, com o seu sorriso de sempre.
Certamente lhe diria que devia ter aberto aquela porta muito mais cedo. E depois provavelmente acrescentaria que, ao menos, ele finalmente percebera para que serve uma chave.
Ele sorriu com tristeza.
Pegou na pasta quase vazia e dirigiu-se à saída.
Parou no limiar.
Olhou para a chave que trouxera consigo durante tantos anos e pousou-a sobre a mesa junto à porta.
Deixou a sala aberta.
Desta vez, ninguém lhe ordenara que abrisse.
A decisão era dele.
Quando saiu para a rua, o sol da manhã já iluminava as fachadas das casas antigas. O homem seguiu para casa a passos lentos, e a pasta de couro que levava na mão estava quase vazia.
Pela primeira vez em muitos anos, não precisava de apertar a velha chave na palma da mão.
Se escolheste a chave antiga, desejo-te que encontres pessoas cuja confiança te traga alegria e que recebas um apoio que não se transforme numa dívida para toda a vida. Que tenhas a sabedoria de distinguir quando a lealdade pede ajuda e quando pede uma conversa franca, que saibas admitir os teus erros e encontrar forma de reparar aquilo que realmente depende de ti. E, se um dia a vida voltar a estender-te uma pesada chave antiga e te pedir a promessa de um segredo eterno, pergunta primeiro o que se encontra exatamente atrás da porta. Sobretudo se a pessoa que ta entrega começar com as palavras «Confia em mim, não há nada a explicar». Perante uma introdução destas, eu, pessoalmente, pediria também uma especificação das condições por escrito.
Se pudesses recuperar uma única hora da tua vida, qual escolherias? Aquela em que perdeste uma oportunidade importante, ou uma tarde qualquer com alguém a quem nunca encontraste tempo para dizer o quanto significa para ti?
Após a morte de um velho fotógrafo, encontram no seu antigo estúdio um relógio de bolso prateado com o vidro rachado. Os ponteiros pararam exatamente às 17:17. Ao lado, repousa um grande álbum de couro com a inscrição: «Paris, 1896. As fotografias que nunca mostrei.»
As páginas estão repletas de fotografias de desconhecidos, mercados animados, velhas oficinas e crianças junto a estações de comboio. Por baixo das imagens, o fotógrafo escreveu pequenas histórias. Algumas das fotografias são tão belas que custa acreditar que o seu autor as tenha guardado num armário, em vez de as apresentar ao público.
Os familiares contam que o relógio se danificou durante uma viagem que o fotógrafo nunca chegou a terminar. Durante décadas, recusou-se a mandá-lo arranjar. Quando lhe perguntavam por que guardava aquele objeto partido, respondia: «Há horas que uma pessoa nunca esquece.»
Mas, entre os últimos documentos do estúdio, encontrou-se também um talão de uma relojoaria. Afinal, pouco antes de morrer, o fotógrafo pedira que o mecanismo fosse reparado.
O que o terá levado a mudar de ideias depois de tantos anos? Por que razão as 17:17 ficaram a ser a hora mais importante da sua vida e o que descobriu ele para querer que os ponteiros voltassem a andar?
Confesso que a relação dos seres humanos com o tempo é bastante peculiar. Quando esperamos uma boa notícia, o relógio parece atrasar-se de propósito. Quando estamos com pressa para um encontro, os minutos desaparecem a uma velocidade suspeita. E quando se trata dos nossos sonhos, há sempre um maravilhoso «amanhã» que promete ser muito mais conveniente do que hoje. Só que esse amanhã tem a espantosa capacidade de deslizar cada vez mais para a frente no calendário.
O teu processo kármico simbólico está ligado aos planos interrompidos, às oportunidades perdidas e à sensação de que tens constantemente de recuperar o atraso. Talvez em tempos tenhas estado muito perto de realizar um sonho importante, mas os acontecimentos obrigaram-te a seguir noutra direção. Interrompeste uns estudos, perdeste um emprego, viveste uma separação ou adiaste uma decisão que, na altura, parecia decisiva para o teu destino.
Os anos passaram, mas continuas a comparar a tua vida com aquele futuro que em tempos imaginaste. É possível que, mesmo depois de sucessos consideráveis, sintas que estás atrasado(a), que tens de trabalhar mais ou que as melhores oportunidades já ficaram no passado.
A história vai levar-nos a Turim, no ano de 1896. Ali, um jovem fotógrafo prepara-se para uma viagem a Paris, convencido de que finalmente chegou a sua grande oportunidade. Mas um acidente súbito interrompe-lhe o caminho, e o relógio que o pai lhe oferecera para às 17:17.
O homem vai passar muitos anos a tentar recuperar o que perdeu, antes de compreender por que razão outra pessoa guardou a memória daquela mesma hora com imensa gratidão.
Antes de leres a história, convido-te a uma breve viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através da imagem do velho relógio, podes observar a tua própria relação com o tempo, com os planos interrompidos e com os desejos que continuas a adiar. As imagens que surgirem são associações pessoais da imaginação e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Imagina uma velha rua europeia com pedras da calçada, belas fachadas e varandas com grades de ferro. De uma padaria chega o aroma de pão acabado de cozer, uma caleche passa pela rua e o relógio de uma torre alta dá as horas. Entre os transeuntes, reparas numa pessoa que tira do bolso um relógio. Observa-lhe o rosto, a roupa e a forma como olha para os ponteiros. O que espera ela com tanta impaciência?
O primeiro rosto do tempo — a espera. Imagina um dia importante para o qual essa pessoa se preparou durante muito tempo. Pode ser uma viagem, um encontro, uma oportunidade profissional ou um novo começo. Observa a bagagem e as pessoas que a vêm despedir. O que espera ela alcançar? Como imagina a sua vida depois desse dia?
O segundo rosto do tempo — a interrupção. Dá-se uma mudança imprevista. Pode chegar uma notícia desagradável, a viagem pode ser cancelada ou as circunstâncias podem exigir uma decisão diferente. A pessoa volta a olhar para o relógio, mas os ponteiros já não se mexem. O que sente? O que promete a si mesma depois do que aconteceu? Começa a acreditar que tem de compensar a todo o custo a oportunidade perdida?
O terceiro rosto do tempo — a vida depois desse dia. Agora a pessoa está muito mais velha. Observa-lhe a casa, os familiares, o trabalho e tudo o que criou. Que pessoas entraram na sua vida depois do plano interrompido? Que novas oportunidades descobriu? Repara nas suas próprias conquistas, ou ainda compara tudo com o futuro que em tempos esperava?
O quarto rosto do tempo — o relógio nas tuas mãos. A pessoa idosa entrega-te o relógio avariado. Podes guardá-lo como recordação, deixá-lo em cima da mesa ou levá-lo a arranjar. O que escolhes? Pensa num desejo da tua própria vida que ainda tem importância para ti. Poderá ele ganhar uma nova forma, adequada às tuas possibilidades atuais?
Aos poucos, traz a tua atenção de volta ao presente e anota qual a cena que despertou o sentimento mais forte.
A pergunta que fica: «Se pudesse recuperar apenas uma hora da minha vida, o que gostaria de fazer com ela e a que me sugere esta resposta que dedique mais tempo hoje?»
Turim, Itália, 1896. A cidade ia mudando de feição pouco a pouco. Pelas ruas passavam carros americanos puxados a cavalos e caleches, as oficinas enchiam-se de máquinas novas e as montras ofereciam invenções que a geração anterior teria considerado inacreditáveis. A fotografia tornava-se cada vez mais popular. As famílias abastadas encomendavam retratos formais, os viajantes compravam imagens de lugares célebres e alguns fotógrafos começavam a apontar as objetivas para a vida comum.
Entre eles estava um homem de vinte e nove anos, dono de um pequeno estúdio perto do centro. Aprendera o ofício com o tio e sabia fazer belos retratos, mas o que mais gostava era de fotografar as pessoas na rua — artesãos, comerciantes, crianças, homens e mulheres idosos cujos rostos traziam as marcas dos anos passados.
Todas as manhãs chegava ao estúdio à mesma hora. Preparava o equipamento, verificava as chapas e tirava do bolso o seu relógio prateado para o acertar pelo de parede.
Os clientes brincavam, dizendo que ele provavelmente seria capaz de medir até a duração de um sorriso.
O relógio fora um presente do pai, que durante longos anos trabalhara como relojoeiro. O velho mestre adorava mecanismos complexos e sonhava abrir um dia uma grande oficina, onde criaria relógios concebidos por ele próprio. Mas a família precisava constantemente de dinheiro, surgiam novas obrigações e, todos os anos, ele adiava o seu sonho.
Pouco antes de morrer, ofereceu ao filho um relógio que montara com as próprias mãos a partir de peças reunidas ao longo de anos.
— Não deixes a tua vida para depois, como eu fiz — disse-lhe. — Trabalha, estuda e cuida das pessoas que amas, mas, quando desejares algo a sério, arranja-lhe lugar enquanto podes.
O jovem fotógrafo guardou aquelas palavras.
Pouco a pouco, começou a acreditar que tinha de vencer suficientemente cedo para não repetir os arrependimentos do pai. Queria viajar pela Europa, fotografar a vida das pessoas comuns e, um dia, apresentar as suas fotografias a um grande público.
Na primavera de 1896, recebeu uma carta de um conhecido em Paris que trabalhava com editores e colecionadores. Convidava-o a apresentar parte das suas obras a pessoas que lhe poderiam oferecer novas encomendas e participações em exposições.
O fotógrafo mal acreditou na notícia.
Começou a selecionar as suas melhores fotografias, fez belos passe-partouts e preparou um grande álbum de couro. Por baixo de cada imagem, escreveu uma pequena história sobre a pessoa fotografada. Entre as fotografias havia um velho sapateiro, uma mulher com um cesto de flores, dois irmãos numa padaria e um rapazinho junto à enorme roda de uma locomotiva.
Quem mais o apoiava era Maria, uma jovem professora de literatura com quem estava havia alguns anos. Ela adorava as fotografias dele e ajudava-o muitas vezes com os textos. A própria Maria sonhava escrever um livro sobre as mulheres de Turim — professoras, costureiras, vendedoras e velhas vizinhas cujas histórias raramente encontravam lugar na literatura.
Os dois eram capazes de conversar durante horas sobre arte e viagens.
Mas Maria aceitava mal o hábito dele de transformar cada minuto livre em mais uma tarefa.
— Depois de Paris, tudo vai ser diferente — garantia-lhe ele. — Vou ter novas encomendas, contratar um ajudante e vamos ter mais tempo.
— Maravilhoso — respondia Maria. — Só me diz em que ano estás a pensar, para eu tomar nota.
Na véspera da partida, os dois folhearam o álbum mais uma vez. Maria ajudou-o com a bagagem e despediu-se dele na esperança de que a viagem lhe trouxesse o reconhecimento que merecia.
Na manhã seguinte, o fotógrafo apanhou o comboio para França. Levava a mala de couro com o álbum, a máquina fotográfica e algumas chapas fotográficas. No bolso do colete, fazia tiquetaque o relógio do pai.
A viagem começou de forma agradável. Pelas janelas viam-se encostas verdes, pequenas aldeias e picos de montanhas ao longe.
No compartimento viajavam um senhor idoso, dois comerciantes e uma jovem mãe com um rapazinho.
A criança reparou de imediato na mala fotográfica.
Começou a perguntar como funcionava a máquina, por que razão as pessoas tinham de ficar imóveis e se um dia as fotografias poderiam ser a cores.
A mãe pediu desculpa várias vezes pela curiosidade do filho, mas o fotógrafo estava sinceramente a divertir-se.
— E pode tirar-nos uma fotografia a nós também? — perguntou o rapaz.
O homem olhou para a luz junto à janela e aceitou.
Preparou a máquina e pediu aos dois que se sentassem bem juntinhos. O rapaz esforçou-se tanto por ficar imóvel que o seu rosto ganhou a expressão de alguém que comparece perante um júri de exame muito severo.
— Também podes sorrir — disse o fotógrafo.
— A mãe disse para não me mexer!
— Vamos autorizar o sorriso a título excecional.
O rapaz finalmente riu-se e o fotógrafo tirou a fotografia.
Prometeu enviar uma cópia depois de a revelar. A mãe agradeceu-lhe, e a criança continuou a fazer perguntas até se ir cansando aos poucos.
À tarde, o tempo piorou.
Sobre as montanhas juntaram-se nuvens pesadas. Começou a chover com força e o comboio passou a andar mais devagar. Pelas janelas escorriam fios de água, as conversas foram-se calando e os passageiros olhavam cada vez mais vezes lá para fora.
O fotógrafo tirou o relógio do bolso.
Eram 17:17.
No instante seguinte, ouviu-se um estrondo.
A composição sacudiu-se bruscamente, as rodas chiaram e o comboio começou a parar de repente. A chuva provocara um deslizamento de terras sobre os carris.
A bagagem abanou. Uma mala caiu do porta-bagagens, o senhor idoso agarrou-se ao assento e o rapazinho, que acabara de se levantar, perdeu o equilíbrio e foi projetado em direção à porta do compartimento.
O fotógrafo reagiu num instante.
Puxou a criança para si e protegeu-a do embate, mas a mão direita bateu com força na aresta metálica do assento.
Sentiu uma dor aguda.
A máquina fotográfica caiu, e o relógio de bolso escorregou-lhe do colete e bateu no chão.
Seguiram-se minutos de confusão. Os funcionários dos caminhos de ferro começaram a verificar as carruagens, os passageiros procuravam a bagagem e a mãe abraçava o rapaz, que chorava.
Quando percebeu que a criança estava ilesa, voltou-se para o fotógrafo e começou a agradecer-lhe.
Mas o homem mal a ouvia.
A mão doía-lhe muito, o equipamento estava danificado e a viagem a Paris já parecia impossível.
Baixou-se para apanhar o relógio.
O vidro estava rachado e os ponteiros tinham parado às 17:17.
Alguns dias depois, regressou a Turim.
O médico avisou-o de que a recuperação da mão levaria tempo. O encontro em Paris fora perdido, parte do equipamento precisava de reparação e o álbum preparado voltou a ir parar ao armário.
Maria cuidava dele, levava-lhe livros e garantia-lhe que, assim que recuperasse, poderia procurar uma nova oportunidade.
Mas o fotógrafo só pensava em Paris.
Imaginava o encontro com os colecionadores e todas as encomendas que poderia ter recebido. Na sua imaginação, a vida perdida ia-se tornando cada vez mais maravilhosa, enquanto a vida presente parecia pálida em comparação.
Uma noite, tirou o relógio avariado e lembrou-se das palavras do pai.
«Não deixes a tua vida para depois.»
Sentiu vergonha.
Parecia-lhe que já tinha repetido o destino do pai e deixado escapar a sua maior oportunidade.
Fez então uma promessa a si mesmo:
«Nunca mais vou deixar a minha vida por terminar. Vou conseguir a tempo, mesmo que tenha de sacrificar tudo o resto.»
Ao fim de alguns meses, foi regressando aos poucos ao trabalho. A mão recuperava lentamente e, por vezes, precisava de ajuda para transportar o equipamento pesado.
Mas aceitava cada vez mais encomendas.
Trabalhava desde manhã cedo até tarde da noite, procurava novos clientes e calculava sem cessar o que mais poderia fazer.
Em breve o trabalho aumentou, os rendimentos melhoraram e o seu nome começou a tornar-se conhecido.
Mas a satisfação durava pouco.
Depois de cada encomenda concluída, pensava na seguinte. Cada tarde livre parecia-lhe uma oportunidade desperdiçada.
Alguns anos depois, ele e Maria casaram-se e nasceu-lhes uma filha.
Desde pequena que a menina mostrava interesse pela fotografia. Gostava de folhear os álbuns, de fazer perguntas e de observar o pai enquanto ele trabalhava.
Ele amava-a profundamente e sonhava transmitir-lhe um dia o seu ofício.
Mas ia sempre adiando.
Quando a filha lhe pedia que lhe mostrasse como funcionava a máquina, ele prometia que o fariam no dia seguinte. Quando Maria sugeria irem passear, geralmente surgia uma encomenda urgente.
A própria Maria foi pondo de lado, pouco a pouco, as suas ocupações literárias. Dava aulas, cuidava da casa e ajudava no estúdio. Os cadernos com as histórias das mulheres de Turim ficaram guardados no armário.
Num domingo, a filha entrou no estúdio com um pequeno caderno de notas.
— Pai, levas-me ao mercado? Quero que fotografemos as pessoas.
— Claro que sim. Vamos à tarde.
A menina ficou contente e começou a preparar as suas perguntas.
Mas, pouco depois, chegou um cliente com uma encomenda urgente. Depois, era preciso revelar algumas chapas e, por fim, surgiu mais um compromisso.
Quando o fotógrafo terminou, o mercado já estava fechado.
A filha esperava-o nas escadas.
— Tu dizes sempre amanhã.
Ele começou a explicar como o trabalho era importante e como em breve teriam mais tempo.
— Eu queria fotografar hoje — respondeu a menina.
Depois guardou o caderno e subiu para o quarto.
As palavras dela feriram-no.
Nessa mesma noite, Maria encontrou-o no estúdio, sentado diante do velho álbum de Paris.
— Há anos que falas do tempo que perdeste — disse ela. — E, enquanto tentas recuperá-lo, continuas a perder a vida que temos agora.
Ele objetou que trabalhava para o futuro da família.
— Eu sei — respondeu Maria. — Mas a nossa filha está a crescer, nós estamos a envelhecer, e tu continuas a viver como se aquele comboio estivesse algures à tua espera.
Depois ficou calada.
— Tu, pelo menos, sabes que sonho estás a tentar recuperar. Eu começo a esquecer-me de qual era o meu.
O fotógrafo olhou para ela, surpreendido.
Maria falou-lhe do livro por acabar, das mulheres cujas histórias havia muito queria registar e das noites em que estava cansada demais até para abrir os cadernos.
— Não quero descobrir um dia que passei a vida à espera de que todas as outras tarefas terminassem — disse ela.
Nessa noite, os dois conversaram durante muito tempo.
Pela primeira vez, o fotógrafo percebeu que a sua ânsia de compensar o encontro perdido em Paris começara, pouco a pouco, a determinar também o tempo das pessoas que amava.
Na manhã seguinte, fechou o estúdio durante algumas horas e levou a filha ao mercado.
A menina chegou com o caderno, tão entusiasmada como se os dois partissem para uma expedição longínqua.
Passearam entre as bancas, conversaram com os vendedores e tiraram fotografias.
Em breve o fotógrafo descobriu que a filha olhava o mundo de uma forma completamente diferente. Enquanto ele procurava a luz e a composição certas, ela reparava nos sorrisos espontâneos, nos gestos e nos pequenos episódios.
A certa altura, insistiu em fotografarem uma senhora idosa que se ria de uma piada no mercado.
— A luz não está boa — objetou o pai.
— Mas olha como ela se ri tão bem!
Por fim, tiraram a fotografia.
Quando revelaram a chapa, o fotógrafo ficou surpreendido. O sorriso era tão natural que a imagem parecia mais viva do que muitos dos seus retratos cuidadosamente preparados.
Colocou a fotografia entre as suas preferidas.
Aos poucos, os dois começaram a sair juntos cada vez mais vezes. Ele transmitia-lhe os seus conhecimentos técnicos, e a filha ajudava-o a olhar para a cidade conhecida com uma curiosidade nova.
Maria também voltou a escrever.
À noite, registava as histórias das pessoas que os dois tinham encontrado durante o dia. As fotografias e os relatos foram começando a completar-se uns aos outros.
Os anos foram passando.
A filha cresceu e decidiu dedicar-se à fotografia. O pai apoiou-a, embora se preocupasse se a profissão lhe garantiria meios suficientes.
Um dia, a rapariga descobriu o velho álbum preparado para Paris.
Folheou as fotografias, leu as notas e perguntou por que razão nunca tinham sido apresentadas ao público.
O pai falou-lhe da viagem, da mão ferida e do encontro perdido.
A filha ouviu-o até ao fim.
— Mas tu continuaste a fotografar — disse ela. — E, ao longo de todos estes anos, fizeste tantas outras fotografias maravilhosas. Por que há de um único encontro perdido decidir o destino de todo o teu trabalho?
Ele não conseguiu responder de imediato.
Para ele, o álbum significava uma oportunidade perdida.
A filha, porém, via nele o começo de uma história que podiam continuar juntos.
Propôs que selecionassem as fotografias antigas e as completassem com imagens novas das mesmas ruas, mercados e oficinas. Maria podia escrever os textos, e os dois fotógrafos podiam mostrar como a cidade tinha mudado.
Foi assim que começaram a preparar uma exposição intitulada «As pessoas da nossa cidade».
Procuravam os descendentes das pessoas fotografadas, conversavam com antigos clientes e reuniam histórias sobre lugares que já não existiam.
Maria aproveitou parte das suas notas literárias, e a filha acrescentou fotografias da vida em Turim no novo século.
Quando a exposição finalmente abriu, o fotógrafo já era um homem idoso.
Mas sentia a mesma emoção com que, em tempos, preparara o álbum para Paris.
Os visitantes paravam diante das fotografias, reconheciam familiares e contavam recordações.
Uma mulher ficou muito tempo a olhar para o retrato do velho sapateiro. Depois, comovida, confessou que era o seu pai, de quem quase não tinha boas fotografias.
O homem ouviu-a com alegria.
Pela primeira vez em muitos anos, começou a ver as suas velhas fotografias através dos olhos das pessoas cujas histórias tinha preservado.
Pouco depois, reparou num visitante que observava demoradamente a fotografia de uma mãe e de um filho num compartimento de comboio.
A fotografia fora tirada na primavera de 1896.
O desconhecido era um homem de meia-idade. Leu a legenda por baixo da imagem e perguntou quem era o autor.
Quando o velho fotógrafo se apresentou, o visitante olhou para ele com surpresa.
— Então foi o senhor que me protegeu no comboio.
O fotógrafo fitou-lhe o rosto.
Aos poucos, lembrou-se do rapazinho, da sua curiosidade pela máquina e da mãe que não parava de pedir desculpa pelas perguntas.
O homem contou que a mãe guardara a memória daquele dia durante toda a vida.
— Falava-me muitas vezes do fotógrafo desconhecido que me puxou para si quando o comboio parou de repente — disse ele. — Contava como o senhor magoou a mão enquanto me protegia.
Depois tirou do bolso uma pequena fotografia amarelada.
Era uma cópia daquela mesma fotografia do compartimento, que a mãe recebera depois do acidente e guardara ao longo dos anos.
— Ela dizia que naquele dia tínhamos conhecido um homem muito bom. Contou esta história tantas vezes que até os meus filhos já a sabem.
O velho fotógrafo pegou na fotografia.
Enquanto a observava, lembrou-se das janelas molhadas, das encostas das montanhas, do estrondo e da dor na mão.
Depois recordou o relógio a cair no chão.
17:17.
Durante todos aqueles anos, associara aquela hora ao encontro perdido, à máquina danificada e ao futuro que imaginara em Paris.
E agora tinha à sua frente a pessoa que um dia protegera.
Um homem com família, filhos, uma profissão e uma vida inteira que continuara depois daquela tarde.
Durante muito tempo, o fotógrafo não encontrou palavras.
Pela primeira vez, compreendeu quão diferente era a forma como os dois se lembravam do mesmo acontecimento.
Enquanto ele, durante anos, lamentara não ter conseguido chegar a tempo, uma mãe contava ao filho a história do homem que tinha reagido mesmo a tempo.
Depois do encontro, o fotógrafo ficou ainda algum tempo diante da fotografia.
Quando a filha se aproximou, contou-lhe o que tinha acontecido.
Nessa mesma noite, voltou ao estúdio, abriu a gaveta e tirou o velho relógio.
Olhou para o vidro rachado e para os ponteiros parados às 17:17.
Pela primeira vez, o objeto recordou-lhe também algo de bom que acontecera naquele dia.
Na manhã seguinte, levou o relógio a um relojoeiro.
— Acha que pode ser reparado?
O relojoeiro examinou o mecanismo.
— Vai exigir um trabalho cuidadoso, mas provavelmente vou conseguir.
O fotógrafo sorriu.
— Não tenha pressa. Este relógio já esperou que chegue.
O voto simbólico do fotógrafo surge depois da viagem interrompida a Paris. Com o pai, aprendeu que os sonhos merecem atenção e que não se deve adiar tudo aquilo que se ama. Mas, depois do acidente, começa a entender essas palavras como um aviso de que qualquer atraso o pode privar do futuro que deseja.
A sua promessa diz:
«Nunca mais vou deixar a minha vida por terminar. Vou conseguir a tempo, mesmo que tenha de sacrificar tudo o resto.»
Com o tempo, começa a medir os seus dias pelo trabalho feito, pelos objetivos alcançados e pelas oportunidades aproveitadas. O descanso, os momentos partilhados com Maria e o tempo com a filha de ambos são constantemente adiados para o futuro.
E assim o homem que mais receia perder a sua vida começa a adiar aquilo que verdadeiramente o enche de alegria.
Uma convicção semelhante pode manifestar-se também hoje, quando, depois de uma perda, de uma dificuldade financeira ou de um plano interrompido, sentes necessidade de recuperar constantemente o atraso. Mesmo quando as circunstâncias melhoram, continuas a trabalhar como se cada hora livre fosse um risco de ficares para trás.
Talvez adies encontros, viagens e desejos pessoais até alcançares uma determinada segurança. Ou comparas a tua vida atual com o futuro que em tempos imaginaste, sem reparares em tudo o que já construíste.
A nova promessa pode ser:
«Vou cuidar do meu futuro, deixando tempo também para as pessoas, as relações e as experiências que tornam a minha vida valiosa hoje.»
Imagina um casal que há muito sonha com uma viagem a dois. Mas um dos parceiros propõe constantemente esperar até ao mês seguinte, até terminar um projeto importante, até pagarem uma certa despesa ou até surgir um momento mais oportuno.
Os meses passam, e os planos comuns continuam a ser adiados.
A outra pessoa começa, pouco a pouco, a sentir que a relação fica sempre em último lugar, depois de todas as outras obrigações.
Noutra pessoa, o medo do tempo perdido pode levar ao contrário. Depois de uma série de relações falhadas, começa a acreditar que já está atrasada para constituir família. Logo após os primeiros encontros, quer saber quando vão viver juntos e com que rapidez a relação vai evoluir.
O desejo de uma relação séria é perfeitamente compreensível, mas a ansiedade de que o tempo está a passar pode impedir que os dois se conheçam de forma natural.
Há também a pessoa que adia o amor até mudar de emprego, comprar casa ou alcançar uma segurança financeira ideal.
Aos poucos, a intimidade transforma-se no último ponto de uma lista que não para de crescer.
A história do fotógrafo e de Maria recorda-nos como é fácil um futuro em comum engolir o presente de duas pessoas. Pensa em que boa experiência podes partilhar agora com o teu parceiro ou a tua parceira, sem precisares de terminar primeiro todas as outras tarefas.
As palavras da menina — «Eu queria fotografar hoje» — mostram como percebemos o tempo de forma diferente nas várias fases da nossa vida.
Um pai ou uma mãe pode trabalhar arduamente para garantir o futuro da família e acreditar que os passeios e as conversas perdidos serão compensados mais tarde.
Mas as crianças crescem, os seus interesses mudam e certas experiências pertencem a um período concreto da vida.
O mesmo pode acontecer com os nossos pais idosos. Há muito que queremos visitá-los, ver as fotografias antigas ou ouvir uma história de família, mas surge sempre uma nova obrigação.
É possível também que tenhas crescido numa família onde o trabalho era o valor mais importante e o descanso era visto como uma recompensa depois de cumpridas todas as tarefas.
Pensa em que regras familiares ainda influenciam a tua relação com o tempo. Talvez algumas delas mereçam ser mudadas, para que tenhas mais oportunidades de encontros e de experiências com as pessoas que amas.
Imagina alguém que perdeu o seu negócio, mas que, anos depois, conseguiu recomeçar. A nova atividade está a correr bem, os clientes aumentam e os rendimentos já garantem uma boa vida.
Mas continua a trabalhar aos fins de semana, a aceitar quase todas as encomendas e a ter medo de que, se abrandar o ritmo, volte a perder tudo.
Noutra pessoa, pode tratar-se de uma carreira ou de uns estudos interrompidos. Anos depois, regressa ao desenvolvimento profissional, mas compara-se constantemente com os colegas da sua idade que seguiram em frente sem interrupções.
Em vez de valorizar o esforço que o novo começo exigiu, calcula quão mais à frente estaria se as circunstâncias tivessem sido outras.
Sentimentos assim são compreensíveis, sobretudo quando a pessoa viveu de facto perdas sérias. Mas é útil olhares para a tua situação atual através das tuas possibilidades reais, e não apenas através da comparação com a vida que imaginavas há anos.
Talvez em tempos tenhas decidido que, aos trinta anos, tinhas de ter uma determinada profissão, aos quarenta — casa própria e, aos cinquenta — meios suficientes para viajar e aproveitar a vida.
Mas as circunstâncias evoluíram de outra maneira.
Uma mulher pode, aos quarenta, decidir que é tarde demais para mudar de profissão, aos cinquenta — que o grande amor já ficou no passado e, aos sessenta — que as viagens com que sonha pertencem aos mais novos.
Outra pessoa compara-se constantemente com os da sua idade. Um tem família, outro comprou casa, um terceiro construiu uma carreira de sucesso. Aos poucos, começa a sentir-se para trás, sem ter em conta quão diferentes podem ser as circunstâncias humanas.
Pergunta a ti mesmo(a) quem definiu os prazos pelos quais medes a tua própria vida.
É claro que a idade influencia algumas possibilidades reais. Mas muitos desejos podem ganhar uma nova forma de acordo com a tua situação atual. Uma pessoa pode começar uma formação, regressar à criatividade, construir relações ou descobrir novos lugares num período que nunca fez sequer parte do seu plano inicial.
No estúdio do fotógrafo estiveram guardados durante muito tempo dois projetos — o álbum para Paris e o livro de Maria.
Ambos preservavam os seus desejos, mas, aos poucos, começaram a encará-los como ocupações para as quais encontrariam tempo mais tarde.
Talvez também tenhas um projeto semelhante por terminar.
Queres aprender uma língua, começar a pintar, escrever um livro ou visitar um determinado lugar. Guardas materiais, apontamentos e planos, mas de cada vez surge algo mais urgente.
Imagina alguém que sonha com viagens e já juntou uma coleção inteira de itinerários. Sabe que museus quer visitar, onde vai ficar e o que vai ver, mas encontra sempre uma razão para adiar a partida. Anos depois, conhece as cidades quase como um guia turístico local, apesar de nunca lá ter estado.
Noutra pessoa, o desejo por cumprir é um instrumento musical ou um velho manuscrito. Sempre que o vê, recorda quanto gostava daquela ocupação, mas começa logo a calcular quanto esforço seria necessário para voltar ao nível que tinha.
A história do fotógrafo mostra-nos que alguns sonhos podem continuar de uma forma diferente da original. O encontro em Paris nunca se realizou, mas as fotografias encontraram o seu público através da exposição criada com Maria e a filha de ambos.
Talvez o teu desejo também mereça uma nova oportunidade. Ou talvez já tenhas descoberto outro sonho que significa mais para ti hoje.
Uma das perguntas mais interessantes desta história é por que razão duas pessoas se lembram do mesmo acontecimento de forma tão diferente.
Para o fotógrafo, as 17:17 foram a hora em que perdeu a oportunidade de apresentar o seu trabalho em Paris. Para a mãe do comboio, foi o dia em que um desconhecido ajudou o seu filho.
Ambas as memórias fazem parte daquilo que as personagens realmente viveram.
Mas, quando o fotógrafo começou a medir toda a sua vida pelo encontro perdido, foi deixando de reparar em quantas coisas boas aconteceram depois dele.
O velho relógio convida-te a olhar para os anos que se seguiram ao acontecimento que mudou os teus planos.
Que pessoas entraram na tua vida? O que aprendeste? Que dificuldades superaste? E que momentos de hoje não trocarias nem sequer pela possibilidade de voltar ao teu plano inicial?
Talvez a perda tenha sido realmente grande e as suas consequências mereçam ser reconhecidas. Mas isso não significa que todos os anos seguintes tenham de ser medidos unicamente por ela.
Proponho-te uma prática de sete dias, dedicada ao tempo, aos sonhos interrompidos e àquilo para que desejas encontrar mais espaço no teu dia a dia. Podes dedicar-lhe vinte minutos por dia e, se tiveres possibilidade, mais.
Primeira hora — o relógio parado. Anota um acontecimento a partir do qual começaste a encarar a tua vida de outra forma. O que esperavas e o que aconteceu realmente? O que esteve fora do teu controlo e que convicção criaste depois do que viveste?
Segunda hora — o itinerário perdido. Recorda o futuro que imaginavas antes disso. Que desejos ainda têm importância para ti e quais já mudaram? Talvez hoje queiras coisas completamente diferentes, e isso merece ser reconhecido.
Terceira hora — os anos que se seguiram. Anota pelo menos cinco acontecimentos bons ou importantes que aconteceram depois daquele momento. Podem ser encontros, amizades, conhecimentos, viagens ou dificuldades que superaste. Se guardas fotografias, olha para elas e recorda as pessoas e os lugares desse período.
Quarta hora — o amanhã prometido. Recorda algo que há muito prometes a ti mesmo(a) ou a uma pessoa próxima — uma visita, um encontro, uma conversa ou uma atividade em conjunto. Escolhe um dia concreto e dá o primeiro passo para o concretizar.
Quinta hora — o sonho esquecido. Encontra um objeto ligado a um desejo antigo. Pode ser um livro, um instrumento, um desenho ou uma nota de uma viagem planeada. Ainda queres continuar? Se sim, escolhe uma pequena ação. Se o desejo já não tem importância para ti, permite-te deixá-lo no passado.
Sexta hora — o novo horário. Observa o teu dia a dia. Quanto tempo dedicas ao trabalho e às obrigações e quanto — às ocupações que te trazem alegria? Escolhe uma coisa que gostarias que estivesse mais presente na tua vida e procura uma forma realista de lhe dedicar tempo.
Sétima hora — os dezassete minutos. Escolhe uma ocupação que te seja agradável e dedica-lhe exatamente dezassete minutos. Pode ser música, leitura, um passeio, desenho ou uma chávena de café que finalmente vais beber enquanto ainda está quente. Põe as outras tarefas de lado e, depois, anota como te sentiste.
Quando terminares a prática, volta ao primeiro dia. Pensa se a tua relação com o antigo acontecimento mudou e que parte da tua vida gostarias de desenvolver daqui em diante.
Escolhe um pequeno relógio ou desenha um mostrador de relógio.
Se guardas um relógio antigo e avariado, podes colocá-lo ao lado de outro que mostre a hora atual. Um vai lembrar-te do que viveste, e o outro — das possibilidades que continuam a surgir.
Podes também desenhar um mostrador onde, em vez dos números, escreves as áreas da vida importantes para ti: amor, família, trabalho, amizades, criatividade, viagens e desejos pessoais.
Observa quais recebem atenção suficiente e quais há muito esperam pela sua vez.
A pergunta ao símbolo é: «Qual é a coisa mais importante para a qual quero encontrar tempo hoje?»
Imagina o velho fotógrafo sentado à janela do seu estúdio. Nas paredes estão penduradas fotografias de vários anos e, sobre a secretária, repousa o velho álbum de couro. Ao lado, há uma caixinha vazia da relojoaria.
O homem pega numa folha de papel e começa uma carta ao jovem fotógrafo que um dia apanhou o comboio para Paris, convencido de que o dia mais importante da sua vida estava para chegar.
«Meu querido,
Se pudesse encontrar-me contigo naquele compartimento, primeiro pedir-te-ia que guardasses o relógio. Já verificaste a hora vezes suficientes e garanto-te que o comboio não vai chegar mais depressa, por mais insistentemente que olhes para os ponteiros.
Depois sentar-me-ia ao teu lado e perguntar-te-ia o que esperas de Paris.
Sei a resposta. Sonhas com reconhecimento, viagens, novas encomendas e a possibilidade de mostrar ao mundo as tuas fotografias. Queres provar que o teu talento tem valor e que não vais repetir os arrependimentos do nosso pai.
Mas quero dizer-te uma coisa sobre o seu último desejo.
Ele não nos pediu que nos apressássemos a alcançar todos os sucessos antes que fosse tarde demais. Pediu-nos que encontrássemos lugar para aquilo que amamos, enquanto podemos.
Eu só o compreendi muito mais tarde.
Depois daquela viagem, comecei a acreditar que tinha perdido a minha única oportunidade. Cada nova encomenda parecia-me insuficiente, cada dia livre — tempo perdido. Trabalhava para o futuro que queria dar à Maria e à nossa filha, mas ia sempre adiando os bons momentos que podíamos partilhar.
Uma noite, a Maria confessou-me que estava a começar a esquecer o seu próprio sonho.
Foi então que compreendi como é fácil alguém querer realizar tudo e, aos poucos, deixar à espera o que tem de mais precioso.
Agora a nossa filha está crescida. Adora fotografia, mas vê o mundo de uma forma que eu nunca lhe poderia ter ensinado. Repara em rostos, gestos e sorrisos pelos quais eu muitas vezes passava sem ver, enquanto procurava a luz perfeita.
A Maria voltou a escrever.
E o velho álbum, que durante tantos anos considerei a prova do meu fracasso, finalmente encontrou o seu público.
Quero falar-te de mais uma pessoa.
Lembras-te do rapazinho do compartimento, que não parava de fazer perguntas sobre a máquina fotográfica?
Agora é um homem com a sua própria família. Encontrei-o na exposição. Mostrou-me a fotografia que um dia tirámos no comboio e contou-me que a mãe guardou a vida inteira a memória do nosso encontro.
Foi então que compreendi que aquele mesmo dia de que tanto me arrependia ficou na vida de outra família como algo maravilhoso.
Não sei o que teria acontecido em Paris. Talvez tivéssemos recebido grandes encomendas, viajado e ficado famosos. Talvez tivéssemos encontrado novas dificuldades.
Mas agora sei que a vida que se seguiu também foi verdadeira e valiosa.
Por isso, quando voltares a Turim com a mão ferida e o relógio avariado, permite-te ficar desiludido. Perdeste uma oportunidade que significa muito para ti.
Depois, quando puderes, olha para a Maria. Observa as novas fotografias que vais tirar. Deixa espaço para as pessoas que vão surgir na tua vida.
Continua a sonhar com Paris, se ainda o desejares. Mas não transformes um comboio perdido no horário de todos os anos que te restam.
E quando a nossa filha um dia te pedir que a leves ao mercado, pega na máquina fotográfica e vai com ela. Acredita em mim, esse passeio vai revelar-se uma das nossas melhores viagens.
Com carinho,
O homem que finalmente compreendeu as palavras do nosso pai.»
Se o velho relógio de bolso te fez lembrar um plano interrompido, um sonho antigo ou a sensação de que o tempo te ultrapassa constantemente, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Karma podes perguntar: «Que experiência me faz acreditar que estou constantemente atrasado(a) para as coisas importantes?» Na sala A Linhagem podes observar as convicções familiares sobre o trabalho, o sucesso e o descanso e, na sala Deixar ir, o arrependimento por uma oportunidade que já não podes recuperar.
Se desejas escolher uma nova direção, visita a sala A Encruzilhada. Na sala Dons podes dar atenção a capacidades que puseste de lado e, na sala Dinheiro, aos medos financeiros que te podem levar a trabalhar cada vez mais.
Para a relação com um parceiro ou uma parceira, podes continuar nas salas Amor e Compatibilidade e, nas salas Amigo e A minha gente, observar os laços com as pessoas para quem queres encontrar mais tempo.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica «A porta para uma vida esquecida».
Algumas semanas depois da exposição, o velho fotógrafo revia as últimas fotografias no estúdio. Nas paredes estavam pendurados retratos de vários anos e, sobre a grande mesa, repousavam álbuns, cartas e algumas máquinas fotográficas antigas.
Junto à janela, Maria deixara o manuscrito do seu livro.
A filha preparava a bagagem para uma viagem a uma cidade vizinha, onde os três tencionavam visitar uma exposição de fotografia e ficar alguns dias.
Enquanto o pai arrumava as fotografias, ela entrou com uma pequena caixa.
— O relojoeiro arranjou-o.
Pousou a caixa em cima da secretária.
O fotógrafo abriu-a.
Lá dentro estava o relógio de bolso prateado. A caixa fora limpa, o vidro — substituído, e os ponteiros voltavam a andar.
O homem pegou nele e aproximou-o do ouvido.
Pela primeira vez em muitos anos, ouviu o conhecido tiquetaque.
— Lembras-te de quando parou? — perguntou a filha.
— Nunca hei de esquecer. Cinco horas e dezassete minutos.
Ela apontou para o grande relógio de parede.
— Então talvez esteja na hora de o acertares.
O pai acertou os ponteiros com cuidado.
Olhou para o pequeno mostrador e depois guardou o relógio no bolso interior do colete.
Desta vez, o objeto voltava a trazer-lhe alegria.
Maria entrou no estúdio e olhou para a bagagem.
— Estás pronto? Se não sairmos depressa, vamos perder o comboio.
O fotógrafo voltou-se para a mesa de trabalho.
Sobre ela continuavam algumas encomendas por terminar e cartas que precisavam de ser revistas.
Por um instante, sentiu o conhecido desejo de terminar tudo primeiro.
Depois fechou a gaveta e pegou no casaco.
— Estou pronto.
Maria olhou para ele com uma ligeira desconfiança.
— Vamos mesmo partir sem verificares mais uma vez todos os documentos?
— Trabalho vai haver também quando voltarmos.
— Isto tenho mesmo de apontar — respondeu ela. — Depois de tantos anos, finalmente ouvi uma coisa pela qual quase tinha perdido a esperança.
Os três riram-se.
A filha fechou o estúdio à chave e seguiram pela rua.
A cidade estava animada. Havia pessoas a conversar à porta das lojas, crianças a correr junto à praça e, ao longe, ouvia-se a campainha de um elétrico.
Maria deu o braço ao marido.
— Porque estás a sorrir?
— Estava a pensar em quanto tempo passei a tentar recuperar um dia perdido.
— E a que conclusão chegaste?
Ele olhou para ela e depois para a filha.
— Que quero aproveitar melhor o tempo que temos agora.
Maria sorriu.
— Maravilhoso. Só te peço que te despaches um pouco, porque desta vez podemos mesmo perder o comboio.
Os três seguiram para a estação.
No bolso do fotógrafo, o relógio fazia tiquetaque baixinho. Os ponteiros já tinham passado havia muito as 17:17 e, à frente deles, estavam alguns dias que ninguém tinha preenchido com trabalho e promessas para mais tarde.
Desta vez, o fotógrafo ia viajar juntamente com as pessoas que amava.
Se escolheste o velho relógio de bolso, desejo-te que tenhas tempo para bons encontros, viagens interessantes, pessoas queridas e sonhos que ainda te entusiasmam. Que consigas alegrar-te com o que alcançaste, descobrir novas oportunidades depois dos períodos difíceis e não medir toda a tua vida por aquilo que um dia não resultou. E, se os teus planos voltarem a mudar, desejo-te que descubras um novo itinerário que te leve a algo valioso. Só não te esqueças de verificar a hora da partida — é maravilhoso viver sem pressas desnecessárias, mas os caminhos de ferro têm, apesar de tudo, a sua própria opinião sobre o assunto.
A quem continuas a ser fiel, quando a vossa história em comum já terminou há muito? E se um dia o teu coração quiser voltar a amar, vais permitir-lho, ou vais pedir primeiro autorização ao teu próprio passado?
Numa velha oficina de violinos na cidade italiana de Cremona, entre instrumentos, cartas amarelecidas e caixas de madeira, encontram uma pequena caixinha de veludo. Lá dentro repousa um anel de ouro com uma pedra vermelho-escura e, na sua face interior, estão gravadas as palavras «Até ao regresso».
Junto à caixinha conservam-se duas partituras musicais com caligrafias diferentes. Uma está ligada a um jovem violinista que morreu em 1859 e a outra foi escrita muito mais tarde e traz uma dedicatória de um homem chamado Alessandro.
Os documentos da família falam de uma mulher que usou o anel durante mais de quinze anos. Os seus conhecidos admiravam a sua fidelidade ao amado que morrera e acreditaram durante muito tempo que ela nunca haveria de querer outro homem a seu lado.
O anel, porém, foi encontrado na caixinha, e o metal mostra que foi usado durante décadas. Alguém o tirou, depois de durante tanto tempo ter julgado que ele devia ficar no seu dedo para sempre.
Por que razão mudou a mulher de ideias? Quem é Alessandro e o que tem a sua música a ver com o violino de Lorenzo?
Confesso que os anéis são objetos espantosos. Um pequeno círculo de metal pode carregar mais promessas do que algumas pessoas conseguem cumprir numa vida inteira. E a nossa memória tem um hábito estranho — podemos esquecer-nos de por que razão entrámos na cozinha, mas lembrar-nos perfeitamente das palavras de alguém que, há trinta anos, nos pôs um anel no dedo. Sobretudo quando o amámos de verdade.
O teu processo kármico simbólico está ligado às promessas de amor, ao apego ao passado e ao sentimento de culpa que pode surgir depois de uma perda ou de uma separação.
Talvez guardes a memória de uma pessoa amada que perdeste e receies que uma nova relação signifique esquecê-la. É possível que compares cada novo parceiro com o teu primeiro grande amor ou que continues à espera do regresso de alguém que há muito seguiu outro caminho.
Ou talvez te tenhas habituado(a) tanto a uma certa ideia de fidelidade que já te custa distinguir os teus próprios desejos da promessa que um dia fizeste.
A história vai levar-nos ao norte de Itália, no século XIX. Vamos conhecer um jovem violinista com um talento maravilhoso e uma duvidosa aptidão para reparar o próprio instrumento, uma mulher que ama tanto a ele como ao seu trabalho, e um homem que surgiu muitos anos mais tarde com um violoncelo danificado e a sua própria história de amor e de perda.
E, no fim, vamos perceber por que razão, por vezes, é preciso tirar um anel para descobrir que aquilo que realmente queremos guardar nunca esteve fechado dentro dele.
Antes de leres a história, convido-te a uma breve viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Pode ajudar-te a observar as velhas promessas e a tua relação com o amor. As imagens são associações pessoais e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se viveste uma perda recente, podes saltar qualquer cena que te seja desagradável. Não há qualquer necessidade de tomares uma decisão sobre uma relação futura.
Imagina uma velha casa italiana com um pequeno jardim, janelas altas e uma porta aberta para um pátio interior. Algures ali perto toca um violino. Entras numa sala onde, sobre uma mesa de madeira, repousa uma caixinha de veludo.
Abre-la e encontras um anel. Observa a cor, a pedra e a inscrição na sua face interior. Que sentimento surge quando lhe pegas?
O primeiro círculo — o dia da promessa. Imagina duas pessoas que trocam o anel. Onde estão e o que prometem uma à outra? Que futuro veem à sua frente? Repara no que as suas palavras realmente significam no momento em que as pronunciam.
O segundo círculo — a promessa transformada. O tempo passou e as circunstâncias já são outras. Uma das pessoas volta a olhar para o anel. O que sente e como interpreta agora as velhas palavras? Talvez, pouco a pouco, tenha começado a exigir de si mesma mais do que os dois alguma vez prometeram um ao outro.
O terceiro círculo — o novo hóspede. Anos depois, surge à porta alguém que traz a possibilidade de uma nova intimidade, de uma amizade ou de uma experiência interessante. Como reage quem tem o anel? Alegra-se com o encontro? Sente hesitação ou culpa? O que desejaria essa pessoa, se pudesse escolher livremente?
O quarto círculo — o encontro consigo mesmo. Sobre a mesa repousa de novo o anel e, ao lado, há duas caixinhas vazias. Uma é para as memórias que a pessoa deseja guardar, e a outra — para os seus desejos futuros. Deixa que seja ela a decidir onde pôr o objeto ou se continua a usá-lo. Depois imagina como, ao seu lado, surge a sua versão mais jovem. O que gostaria de lhe dizer depois de todos os anos vividos?
Aos poucos, traz a tua atenção de volta ao presente. Anota a promessa de que te lembraste e o que significa ela para ti hoje.
A pergunta que fica: «Que promessa do passado continuo a cumprir, apesar de a pessoa a quem a fiz, ou as circunstâncias em que a pronunciámos, já serem diferentes?»
Cremona, Lombardia, primavera de 1859. A cidade era conhecida pelas suas tradições musicais e pelas oficinas onde gerações de mestres construíam violinos, violas e outros instrumentos de corda. Das janelas abertas chegavam exercícios musicais, pelas ruas estreitas cruzavam-se comerciantes e artesãos e, por trás das portas de madeira das oficinas, os mestres trabalhavam a madeira, afinavam as cordas e reparavam instrumentos que muitas vezes eram mais velhos do que os próprios donos.
Mas, naquela primavera, as conversas voltavam-se cada vez mais para a guerra entre o Império Austríaco e as forças aliadas do Piemonte-Sardenha e da França. As famílias preocupavam-se com os jovens que partiam, e as notícias dos campos de batalha chegavam com um atraso inquietante.
Numa pequena casa com pátio interior vivia uma mulher de vinte e três anos que trabalhava na oficina de instrumentos de corda da família.
O pai era um mestre respeitado e ela, desde criança, passava horas entre caixas de ressonância de madeira, vernizes e instrumentos cuidadosamente arrumados. Tinha um ouvido apurado e mãos habilidosas. Conseguia detetar uma pequena alteração no som que o dono do violino nem sequer notava.
O pai orgulhava-se dela, embora muitas vezes a advertisse para ter mais paciência com os clientes que primeiro reparavam eles próprios os instrumentos e depois os traziam à oficina em muito pior estado.
O visitante mais frequente da oficina era um jovem violinista chamado Lorenzo.
Dava aulas de música a crianças de famílias abastadas e tocava em serões musicais da terra. Os dois conheciam-se havia anos, e a amizade entre eles transformara-se, pouco a pouco, num amor que se notava mais nos hábitos do dia a dia do que em grandes declarações.
Lorenzo era cheio de vida, sociável e adorava contar histórias divertidas. Chegava atrasado aos encontros, entusiasmava-se facilmente com ideias novas e estava convencido de que percebia de reparar violinos quase tanto como os verdadeiros mestres.
A sua amada dispunha de provas suficientes de que esta última convicção era completamente errada.
Uma tarde, ele chegou à oficina com o violino e declarou que o instrumento precisava de uma reparação urgente.
Ela verificou as cordas, tocou algumas notas e olhou para ele com desconfiança.
— Qual é exatamente o problema?
— Parece-me que o som perdeu parte da sua ternura.
— Provavelmente a causa está no músico.
Lorenzo suspirou teatralmente e declarou que, com mestres tão severos, em breve uma pessoa começaria a preocupar-se com os sentimentos dos seus instrumentos.
Depois ficou mais uma hora, supostamente para discutirem um novo tipo de verniz, mas na verdade porque queria estar perto dela.
Os serões dos dois passavam-se muitas vezes no pátio interior. Lorenzo tocava, enquanto ela limpava instrumentos ou reparava pequenas peças.
Tinham uma melodia preferida, que ele começava a tocar sempre que sentia que a amada estava zangada.
Uma vez, os dois discutiram porque o violinista decidira reparar sozinho um risco no instrumento e deixara uma marca ainda maior.
— Queria poupar-te trabalho — explicou ele.
— Se continuas a ajudar-me assim, em breve vou ter de abrir uma segunda oficina só para as consequências das tuas boas intenções.
Ele pegou no violino e começou a melodia preferida dos dois.
Ela tentou manter a expressão séria, mas depressa desatou a rir.
Os dois sonhavam com uma casa em comum, com um pequeno jardim, uma sala de música e espaço suficiente para filhos. Ela queria começar, aos poucos, a construir os seus próprios instrumentos, e Lorenzo queria continuar a dar aulas e a tocar.
— Se tivermos um filho, vou ensiná-lo a tocar ainda antes de ele começar a andar — garantia-lhe ele.
— Primeiro aprende a apanhar as partituras do chão, para a criança ter onde dar os primeiros passos.
Falavam do futuro com a segurança de duas pessoas que acreditam que as decisões mais importantes já estão tomadas.
Mas, na primavera, Lorenzo anunciou que queria partir como auxiliar sanitário voluntário junto das tropas.
Vários amigos seus já tinham partido, e ele acreditava que podia ajudar os feridos.
A amada ficou inquieta.
— Porque tens de partir? Há tanta gente a precisar de ajuda também em Cremona.
Lorenzo ouviu-a. Admitiu que também ele tinha medo, mas considerava a sua decisão a certa.
Na véspera da partida, ficaram sozinhos no pátio interior.
O ar da primavera cheirava a flores. Sobre a mesinha ardia uma vela e, da casa vizinha, ouvia-se música.
Lorenzo estava invulgarmente calado, o que deixou logo a amada inquieta. Normalmente conseguia encontrar palavras mesmo quando todos os outros preferiam ouvir o seu violino.
Passado algum tempo, tirou do bolso uma pequena caixinha.
Lá dentro estava um anel de ouro com uma pedra vermelho-escura.
Na face interior estavam gravadas as palavras:
«Até ao regresso.»
— Queria oferecer-to quando voltasse — explicou Lorenzo. — Mas porquê adiar? Quando regressar, começamos os preparativos para o casamento.
Ela observou o anel e abraçou-o.
— Vou esperar por ti. Só vê lá se não te atrasas demasiado, porque não tenho intenção de envelhecer enquanto andas a correr mundo.
Lorenzo riu-se, prometeu ter cuidado e começou a tocar a melodia dos dois.
Na manhã seguinte, partiu.
Nas primeiras semanas, a jovem continuou a trabalhar na oficina e esperava notícias todos os dias. A mãe de Lorenzo visitava-a com frequência. As duas falavam dele, recordavam episódios engraçados e imaginavam o seu regresso.
Mas, no fim de junho, chegaram notícias alarmantes sobre a grande batalha perto de Solferino.
Falava-se de inúmeros feridos e mortos. Já havia muito tempo que não chegava nenhuma carta de Lorenzo.
Quando finalmente chegou a notícia, a jovem soube que ele morrera enquanto ajudava a transportar feridos do campo de batalha.
A princípio, custou-lhe acreditar.
Ouviu o homem que trouxera a notícia, depois voltou à oficina e sentou-se junto à janela. Olhava para o anel e recordava a última noite dos dois.
Nas semanas seguintes, os mais próximos tentaram apoiá-la. O pai assumiu mais trabalho, as amigas visitavam-na e a mãe de Lorenzo passava longas horas com ela.
As duas mulheres encontravam consolo nas conversas sobre ele.
Algumas semanas mais tarde, chegaram os pertences pessoais de Lorenzo.
Entre eles estava o seu violino.
Quando a mulher abriu o estojo, reconheceu de imediato o risco que ele um dia fizera na sua confiante tentativa de reparar o instrumento.
Tocou-lhe com os dedos e sorriu sem querer.
Depois lembrou-se do riso dele, dos eternos atrasos e da melodia preferida dos dois.
Apertou o violino contra o peito e chorou.
Guardou o instrumento num armário especial e continuou a usar o anel todos os dias.
A princípio, ele lembrava-lhe o amor que vivera. Mas, pouco a pouco, começou a acreditar que a promessa de esperar por Lorenzo devia determinar também todos os anos seguintes.
«Se voltar a amar, é sinal de que te esqueci.»
Esta convicção surgia sempre que alguém mostrava interesse por ela.
Os anos foram passando.
Depois da morte do pai, a mulher assumiu a oficina da família. Aos poucos, tornou-se uma mestra respeitada, formava aprendizes e aceitava encomendas de músicos que chegavam até de outras cidades.
Tinha amigos, trabalhava com gosto e mantinha uma relação próxima com a mãe de Lorenzo.
Mas, quando alguém a convidava para sair, normalmente recusava.
Explicava que já tinha vivido o seu grande amor.
Alguns conhecidos admiravam a sua fidelidade. Outros preocupavam-se por ela ter começado a recusar oportunidades que lhe poderiam trazer alegria.
Ela própria perguntava-se cada vez menos o que desejava.
Quase quinze anos depois da morte de Lorenzo, entrou na oficina um homem de cerca de quarenta anos com um grande estojo de violoncelo.
Chamava-se Alessandro.
Trabalhava numa tipografia que publicava livros, partituras e programas de teatro. Estava viúvo havia alguns anos, e o violoncelo pertencera à falecida mulher, que dava aulas de música.
— Durante muito tempo não consegui abrir o estojo — admitiu ele. — Mas ultimamente voltei a tocar e gostava que o instrumento fosse reparado.
A mulher examinou o violoncelo com cuidado e explicou-lhe o que podia fazer.
Alessandro fazia perguntas interessantes sobre a madeira, as cordas e o som. A conversa deles durou muito mais do que a habitual discussão sobre uma reparação.
Alguns dias depois, voltou.
A princípio, visitava a oficina por causa do instrumento, mas depois começou a encontrar também outros pretextos.
Tinha um sentido de humor discreto, adorava livros e sabia ouvir. Era diferente de Lorenzo, que entrava com estrondo e enchia qualquer sala de música e de riso.
Alessandro falava mais devagar e ponderava as palavras. Gostava de planear com antecedência e aceitava mal as alterações súbitas ao que fora combinado.
Um dia, trouxe-lhe uma bela edição com gravuras de instrumentos musicais.
— Vi-a na tipografia e pensei que ia gostar.
Ela comoveu-se com a atenção e convidou-o para um chá.
Pouco a pouco, começaram a encontrar-se também fora da oficina.
Passeavam junto ao rio, assistiam a concertos e conversavam sobre livros, viagens e a vida em Cremona.
A mulher descobriu que esperava os encontros dos dois com interesse.
Mas, quando Alessandro a convidava para jantar, muitas vezes aceitava e depois cancelava.
Uma vez, sentiu-se especialmente feliz depois de um encontro com ele. Voltou para casa, continuou a sorrir e só então reparou no anel no seu dedo.
A sua alegria deu lugar, de repente, à culpa.
Parecia-lhe que passara uma noite inteira sem se lembrar de Lorenzo.
No dia seguinte, evitou Alessandro.
Ele foi começando a reparar nas hesitações dela, mas não insistiu em pedir explicações.
Uma tarde, enquanto passeavam junto ao rio, a conversa voltou-se para o passado.
A mulher falou-lhe de Lorenzo, da guerra e do anel.
Alessandro ouviu-a e depois partilhou a história da sua mulher. Falou dos anos que tinham passado juntos e da dificuldade em continuar a vida depois da morte dela.
— Amei-a e vou lembrar-me sempre dela — disse ele. — Mas, quando voltei a tocar, percebi quanto me fizera falta também a própria música.
A mulher confessou que sentia culpa quando se alegrava com a companhia dele.
— Tenho medo de que, se deixar outra pessoa aproximar-se de mim, esteja a trair Lorenzo.
Alessandro olhou para ela com um sorriso triste.
— E há alguém em Cremona que passe licenças para amar? Se existir um serviço desses, gostaria de entregar os meus papéis a tempo.
Ela riu-se.
Mas, quando ele lhe tocou na mão com cuidado, voltou a afastar-se.
Nos meses seguintes, começaram a passar mais tempo juntos. Alessandro tornou-se, aos poucos, uma pessoa importante para ela, mas, depois de cada encontro mais íntimo, ela sentia inquietação e afastava-se.
Durante muito tempo, ele tentou compreender o comportamento dela.
Por fim, uma noite, foi visitá-la à oficina e pediu-lhe que conversassem.
— Sei o quanto amaste Lorenzo — começou. — E eu também nunca vou esquecer a minha mulher. Mas ultimamente tenho a sensação de que, sempre que te convido para jantar, tenho de pedir autorização a alguém que nunca conheci.
A mulher baixou os olhos.
— Não te quero magoar.
— Acredito em ti. Mas eu também tenho sentimentos. Quero uma casa, intimidade e alguém com quem partilhar os dias comuns. Até gostava que discutíssemos coisas perfeitamente terrenas, por exemplo, quem se esqueceu de comprar pão. Já me parece que isso seria um verdadeiro progresso.
Ela sorriu por entre as lágrimas.
Alessandro continuou:
— Amo-te. Mas preciso de saber se tu própria desejas que fiquemos juntos. Não posso viver eternamente à espera de uma decisão que estás sempre a adiar.
Depois foi-se embora.
A mulher ficou sozinha na oficina.
Pela primeira vez, pensou que a sua velha promessa estava a causar dor também a alguém que não tinha qualquer culpa do que acontecera anos antes.
Entretanto, em Cremona, começou a falar-se da relação dela com Alessandro.
O mais difícil para ela foi conversar com a mãe de Lorenzo.
A senhora idosa soube do novo homem por conhecidos e, durante algum tempo, evitou encontrar-se com ela.
Quando finalmente conversaram, confessou por que razão se afastara.
— Tive medo de te perder também a ti — disse ela. — Durante todos estes anos, recordámos o Lorenzo juntas. E agora estás a começar outra vida e tenho receio de que já não precises de mim.
A mulher abraçou-a.
— Tu fazes parte da minha família. Isso não vai mudar só porque conheci o Alessandro.
As duas conversaram durante muito tempo.
A mãe falou de Lorenzo em criança — curioso, teimoso e sempre ocupado com música.
A amada recordava o jovem violinista que aparecia com avarias inventadas para a ver.
Descobriram que cada uma guardava uma parte diferente da história dele e que, ao longo dos anos, se criara entre elas uma proximidade com um significado próprio.
Quando se despediram, a senhora idosa admitiu que ia precisar de tempo para se habituar à mudança.
— Eu também — respondeu a jovem mestra.
Alguns dias depois, ela abriu o armário com os pertences de Lorenzo.
Tirou o violino e começou a limpá-lo com cuidado.
O seu olhar pousou no velho risco.
Lembrou-se de como ele insistia que era capaz de reparar sozinho o instrumento. Depois recordou os seus eternos atrasos, as partituras espalhadas e as explicações cheias de confiança.
Riu-se.
Com os anos, começara a lembrar-se de Lorenzo sobretudo jovem, maravilhoso e cheio de promessas. E agora surgia de novo diante dela o homem verdadeiro que amara — com o talento, as piadas, os defeitos e todos aqueles pequenos hábitos que mantêm o amor vivo.
Por um instante, entristeceu-a já não conseguir recordar com exatidão a voz dele.
Depois tocou nas cordas do violino.
As memórias tinham mudado, mas o carinho pelo que vivera continuava a fazer parte dela.
Olhou para o anel.
A inscrição continuava a dizer «Até ao regresso».
Quando os dois o escolheram, acreditavam que Lorenzo iria voltar e que se casariam. Ninguém imaginara o que ia acontecer.
Só depois da morte dele foi ela própria que transformou a promessa de esperar por ele numa regra de nunca mais amar.
Nessa noite, pegou numa folha de papel e escreveu:
«Se voltar a amar, é sinal de que te esqueci.»
Ficou muito tempo a olhar para as palavras.
Depois pegou numa segunda folha.
«Vou lembrar-me de ti com amor e vou deixar o meu coração viver.»
Deixou as duas folhas ao lado do anel.
Não se apressou a tirá-lo. Queria que a decisão fosse sua, e não mais uma promessa que tivesse de cumprir a todo o custo.
Passado algum tempo, foi procurar Alessandro.
Convidou-o para um passeio e falou-lhe das conversas com a mãe de Lorenzo e das suas próprias hesitações.
— Adoro o tempo que passamos juntos — confessou. — Quero que tentemos construir uma vida em comum. Mas vou ter de aprender a falar mais abertamente, em vez de desaparecer sempre que tenho medo.
Alessandro ouviu-a.
— E eu vou ter de te dizer quando alguma coisa me preocupa, em vez de fingir que compreendo tudo. Parece-me que ambos temos trabalho pela frente.
Ela riu-se.
A relação dos dois foi começando a desenvolver-se de outra forma.
Alessandro tinha o hábito de deixar livros em todas as superfícies livres, e ela gostava de arrumação. Ele defendia que os livros deviam estar à mão de semear, e ela lembrava-lhe que isso deixaria de ser possível se, em breve, já ninguém conseguisse atravessar a sala.
Discutiam por ninharias, faziam as pazes, conversavam e aprendiam a aceitar as suas diferenças.
A música era uma parte importante da vida em comum.
Um dia, decidiram preparar uma pequena atuação para os amigos.
A mulher propôs que a primeira melodia fosse a peça preferida de Lorenzo, e Alessandro escolheu outra composição que tinha um significado pessoal para ele.
Quando começaram os ensaios, ela tirou o velho violino do estojo.
Afinou o instrumento, experimentou algumas notas e, por um instante, recordou os já distantes serões no pátio interior.
Alessandro observava-a.
— Se quiseres, podemos escolher outra peça.
— Não — respondeu ela. — Quero que toquemos precisamente esta.
Ao serão musical chegaram amigos, conhecidos e alguns clientes da oficina.
Entre os convidados estava também a mãe de Lorenzo.
A mulher comoveu-se quando a viu.
Pegou no velho violino, e Alessandro sentou-se com o violoncelo.
Soaram as primeiras notas da melodia preferida.
A música encheu a sala.
Enquanto tocava, recordou o jovem violinista que outrora aparecia com avarias inventadas, a fazia rir e lhe prometia um futuro em comum.
Quando a peça terminou, olhou para a mãe dele.
Os olhos da senhora idosa estavam cheios de lágrimas.
Depois, ela e Alessandro começaram a segunda composição.
Soava de outra maneira — com uma nova atmosfera e novas harmonias. A mulher olhou para o homem a seu lado, viu a atenção com que ele acompanhava a música e sentiu alegria pelo que estavam a criar juntos.
Depois da atuação, a mãe de Lorenzo aproximou-se e abraçou-a.
— Enquanto tocavas a primeira melodia, lembrei-me de como ele a ensaiava em rapaz — confessou. — Enganava-se sempre no mesmo sítio, mas insistia em recomeçar até a tocar na perfeição.
As duas riram-se por entre as lágrimas.
A senhora idosa olhou para Alessandro.
— Fico feliz por a música continuar a fazer parte da tua vida.
Depois acrescentou baixinho:
— E por eu ainda poder fazer parte dela.
A mulher abraçou-a mais uma vez.
Mais tarde, quando os convidados se foram embora, voltou à oficina.
Abriu a pequena caixinha de veludo e tirou o anel com cuidado.
Observou a pedra vermelha, afagou com o dedo a inscrição «Até ao regresso» e pousou-o sobre o veludo.
Guardou a caixinha ao lado do violino de Lorenzo.
Junto dela deixou as duas partituras.
A primeira guardava a memória do amor da sua juventude. A segunda estava ligada ao homem que conhecera muitos anos mais tarde.
Olhou para elas e sorriu.
Depois apagou a luz e saiu.
Alessandro esperava-a à porta com o casaco dela.
— Estás pronta? Prometemos ir ter com os nossos amigos.
A mulher deu-lhe a mão.
— Estou pronta.
Os dois seguiram pela rua, a conversar sobre a música, os convidados e tudo o que queriam fazer nos dias seguintes.
Na velha oficina ficaram o violino, o anel e as duas partituras.
E a mulher já sabia que podia guardar a primeira melodia com amor e continuar a criar música com o homem que caminhava a seu lado.
O voto simbólico da mulher de Cremona nasce depois da morte de Lorenzo. Quando lhe prometeu esperar por ele, acreditava que a separação seria temporária. Depois da perda, porém, começa aos poucos a encarar as suas palavras como uma obrigação para a vida inteira.
«Se voltar a amar, é sinal de que te esqueci.»
E assim a velha promessa começa a determinar a sua relação com as pessoas novas. Quando se alegra com os encontros com Alessandro, sente culpa. Quando se ri, receia estar aos poucos a esquecer Lorenzo. Com o tempo, até a admiração alheia pela sua fidelidade reforça a ideia de que deve ficar sozinha.
Uma convicção semelhante pode surgir depois da morte de uma pessoa amada, quando uma nova intimidade desperta sentimentos dolorosos. Mas pode manifestar-se também depois de uma separação, se continuas à espera de um antigo parceiro ou se comparas todas as relações seguintes com o teu primeiro grande amor.
Isto não significa que toda a gente tenha de procurar um novo parceiro. Uma vida a sós pode ser uma escolha plenamente consciente e gratificante.
A questão é se desejas de facto viver assim por ti mesmo(a), ou se sentes medo e culpa perante a ideia de poderes escolher outra coisa.
A nova promessa pode ser:
«Vou guardar com carinho as pessoas e as experiências que foram importantes para mim e vou tomar decisões sobre o futuro de acordo com os meus próprios sentimentos e desejos.»
Imagina uma mulher que, depois de uma longa relação, viveu uma separação dolorosa. Anos depois, conhece um homem atencioso com quem tem interesses em comum e conversas agradáveis.
Mas, aos poucos, começa a compará-lo com o parceiro anterior.
Se ele não escreve as mesmas mensagens, tem outro sentido de humor ou gosta de outras atividades, ela receia que a relação dos dois nunca venha a ser tão forte.
A pessoa nova vê-se, pouco a pouco, numa competição com uma imagem que a memória conservou na sua forma mais bela.
Noutra pessoa, o tema pode estar ligado ao primeiro grande amor. Passaram muitos anos, mas ela continua a acreditar que nunca mais vai sentir algo parecido.
Só que o amor muda connosco. Aos vinte anos, podemos sonhar com aventuras, grandes gestos e conversas infindáveis até de manhã e, mais tarde, valorizar mais a confiança, o quotidiano partilhado e a pessoa que sabe como tomamos o café.
Lorenzo e Alessandro eram homens diferentes. Um adorava piadas ruidosas e música, o outro preferia conversas ponderadas e livros. Cada um tinha as suas qualidades maravilhosas e as suas manias irritantes.
A mulher de Cremona só começa a construir uma nova intimidade quando permite que Alessandro seja ele próprio, em vez de o comparar constantemente com o passado.
Imagina uma mulher que, há anos, mantém um contacto intermitente com um antigo parceiro. Os dois escrevem-se, recordam bons momentos e falam das suas vidas, mas ele não dá passos concretos para retomar a relação.
Ela continua a ter esperança de que um dia ele volte.
Quando conhece outra pessoa, começa a hesitar em dar-lhe uma oportunidade, porque tem medo de que seja precisamente nessa altura que o antigo parceiro queira recomeçar.
Numa história assim, é importante observares as ações e as intenções reais da pessoa do passado. Existe um desejo mútuo de um futuro em comum? Estão a fazer planos concretos? Ou a espera continua sobretudo nas tuas esperanças?
Outra pessoa pode guardar a memória de um amor que nunca teve oportunidade de se desenvolver por causa da distância ou de circunstâncias familiares. Anos depois, imagina como teria sido bela a vida dos dois se tivessem ficado juntos.
Mas esse futuro nunca foi posto à prova pelo dia a dia, e por isso parece muitas vezes mais perfeito do que as relações reais.
Pensa se continuas à espera de uma pessoa concreta com quem tens realmente intenções em comum, ou se guardas a esperança de uma vida que nunca chegou a acontecer.
Talvez na tua linhagem tenha havido uma mulher que, depois da morte do marido, nunca mais teve uma nova relação. Os familiares contavam a sua história com admiração e apresentavam-na como exemplo de uma dedicação excecional.
É possível que essa tenha sido a sua escolha consciente.
Mas, se a narrativa familiar se transformar aos poucos numa regra, as gerações seguintes podem começar a acreditar que o amor verdadeiro só acontece uma vez.
Outra pessoa pode recear a reação dos filhos já crescidos se, depois de perder o parceiro, desejar uma nova intimidade. Tem medo de que eles encarem a decisão como uma falta de respeito pelo pai ou pela mãe que morreu.
A história da mãe de Lorenzo mostra como sentimentos destes podem ser complexos. Ela receava que a nova relação da mulher lhe tirasse também a proximidade entre as duas, construída ao longo dos anos.
Só quando conseguem conversar abertamente é que as duas percebem que podem preservar a memória de Lorenzo e continuar a sua própria relação.
Se este tema te é familiar, pensa em que ideias familiares de fidelidade partilhas de facto e quais adotaste porque sempre te foram apresentadas como a única escolha certa.
Depois de uma grande perda amorosa, uma pessoa pode sentir que o mundo à sua volta vai mudando pouco a pouco.
Os amigos formam famílias, partem, começam novas relações e mudam o seu dia a dia. E quem viveu a perda pode sentir que a sua vida está a seguir um rumo diferente.
Alguns próximos insistem que está na altura de conhecer um novo parceiro. Outros lembram-lhe constantemente como o antigo amor era maravilhoso.
Ambas as reações podem ser dolorosas quando a pessoa precisa de perceber sozinha o que deseja.
Talvez também tenhas começado a recusar convites para concertos, viagens ou encontros, porque as experiências agradáveis despertam um sentimento de culpa.
Pensa em que relações e ocupações continuam a trazer-te alegria. É possível que desejes um novo amor, mas também é possível que encontres satisfação nas amizades, na criatividade e na proximidade com a família.
Depois de uma separação dolorosa, algumas pessoas dirigem toda a sua atenção para o desenvolvimento profissional e a segurança financeira.
Imagina um homem que, depois do fim de uma longa relação, decide construir uma carreira de sucesso. Trabalha arduamente, vai melhorando a sua situação e começa a orgulhar-se da sua independência.
Quando alguém lhe pergunta se deseja voltar a ter uma parceira, costuma responder que não tem tempo.
Mas, em certos momentos, sente a falta de intimidade e pergunta-se se o trabalho não se terá tornado uma razão cómoda para evitar o risco de uma nova desilusão.
Outra pessoa pode ter vivido uma relação em que dependia financeiramente do parceiro. Depois da separação, decide nunca mais voltar a ficar numa situação assim. Aos poucos, constrói estabilidade, mas começa a encarar cada nova relação como uma ameaça à sua liberdade.
A mulher de Cremona fez prosperar a sua oficina e era capaz de cuidar de si mesma. O encontro com Alessandro leva-a a descobrir como poderia manter a sua independência e, ao mesmo tempo, construir uma nova intimidade.
Talvez também para ti a questão seja que limites, acordos e condições tornariam uma relação futura adequada à vida que criaste.
O momento mais belo da história é a noite em que a mulher pega no violino de Lorenzo e começa a tocar com Alessandro.
A primeira melodia lembra-lhe a juventude e o amor que viveu. A segunda está ligada à relação que constrói muitos anos mais tarde.
As duas peças soam de forma diferente, mas encontram lugar no mesmo serão.
Esta é também a pergunta mais importante do teu processo kármico: o que significa para ti preservar o amor do passado?
Talvez desejes continuar a guardar fotografias, cartas e objetos queridos. É possível que prefiras falar de uma determinada pessoa apenas com os mais próximos. Ou talvez as novas relações ainda te pareçam uma possibilidade demasiado difícil.
Não há um prazo dentro do qual tenhas de tomar uma decisão.
Mas podes observar se a tua vida hoje reflete os teus próprios desejos, ou uma regra que criaste há muitos anos, em circunstâncias completamente diferentes.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar as velhas promessas de amor e o lugar que ocupam na tua vida atual. Podes dedicar-lhe quinze ou vinte minutos e, se algum exercício despertar sentimentos dolorosos, deixa-o para outro dia. No caso de uma perda recente, podes concentrar-te apenas nas memórias, sem discutires contigo mesmo(a) a possibilidade de uma nova relação.
Primeiro círculo — o dia da promessa. Anota uma promessa que um dia fizeste a uma pessoa amada. Quais eram as circunstâncias e que futuro imaginavam? Como mudou o sentido das palavras ao longo dos anos?
Segundo círculo — o amor que vivi. Recorda três bons momentos da relação. Pode ser um passeio, um episódio divertido, uma conversa ou um pequeno gesto. Anota os pormenores de que ainda te lembras com carinho.
Terceiro círculo — a pessoa por trás da memória. Pensa na pessoa amada com todas as suas qualidades e defeitos. O que te fazia rir? Que hábitos te irritavam por vezes? O que tornava a vossa relação verdadeira e diferente de todas as outras?
Quarto círculo — os anos que se seguiram. Anota cinco experiências importantes depois do fim da história de amor. Que pessoas conheceste, o que aprendeste e que novos interesses descobriste? Como mudaram as tuas próprias necessidades?
Quinto círculo — o novo hóspede. Pensa em como reages quando alguém mostra interesse por ti. Se desejas uma nova relação, o que te ajudaria a conhecer a pessoa sem comparações constantes? Se preferes uma vida a sós, anota que relações e ocupações queres desenvolver.
Sexto círculo — o anel e a liberdade. Volta à velha promessa. Se hoje a exprimisses de outra forma, escreve as novas palavras. Por exemplo: «Vou guardar com carinho as memórias importantes e vou tomar decisões de acordo com os meus sentimentos e desejos de hoje.»
Sétimo círculo — as duas melodias. Escolhe duas peças musicais. A primeira pode lembrar-te uma pessoa importante do passado, e a segunda — a vida que desejas construir daqui em diante. Ouve-as uma a seguir à outra e anota que experiência desperta cada uma delas.
Quando terminares, pensa em que memórias queres guardar e no que gostarias de viver nos próximos anos.
Escolhe um objeto que associas a uma história de amor importante. Pode ser um anel, uma fotografia, uma carta, um livro ou um pequeno presente.
Observa-o com atenção e recorda o que significava quando o recebeste e que importância tem para ti hoje.
Se quiseres, coloca-o numa caixinha especial juntamente com um pequeno texto sobre aquilo que esse amor te deu.
Podes continuar a usar o objeto, guardá-lo ou voltar a ele apenas quando te apetecer.
A pergunta ao símbolo é: «O que quero guardar deste amor e que decisões desejo que me pertençam hoje?»
Imagina a mulher de Cremona muitos anos mais tarde. Está sentada junto à janela da velha oficina e, à sua frente, estão o anel com a pedra vermelha e a pequena caixinha de madeira.
Na sala ao lado, Alessandro está a ensaiar. De vez em quando ouve-se uma nota interrompida, seguida do seu resmungar descontente.
A mulher sorri, pega numa folha de papel e começa uma carta à rapariga que um dia recebeu o anel de Lorenzo.
«Minha querida,
Se pudesse voltar àquela noite de primavera, gostaria de ficar mais um pouco no pátio interior.
Ouviria o violino de Lorenzo, rir-me-ia das suas piadas e lembrar-lhe-ia sem falta que, quando voltasse, tinha finalmente de deixar de reparar sozinho o seu instrumento. Ele certamente voltaria a objetar que percebia de violinos quase tanto como eu, e eu começaria com gosto a nossa conhecida discussão.
Senti tanta falta destes momentos simples.
Quando soube da morte dele, tive medo de, com os anos, começar a esquecer a sua voz, o seu riso e o seu rosto.
Por isso guardei o anel.
Aos poucos, comecei a acreditar que, se amasse outra pessoa, o amor entre mim e Lorenzo perderia o seu significado. As pessoas elogiavam a minha fidelidade, e eu perguntava-me cada vez menos o que realmente desejava.
Passaram muitos anos até eu conhecer Alessandro.
Ele é completamente diferente. Adora livros, fala com ponderação e tenta planear tudo com antecedência. Tem também um talento especial para deixar partituras em todas as mesas livres, como se a casa inteira tivesse de participar nas suas ocupações musicais.
Às vezes discutimos por causa disso.
Depois rimo-nos.
Custou-me aceitar o quanto gosto destes serões. Tinha medo da minha alegria, porque acreditava que ela me afastava de Lorenzo.
Mas Alessandro também tinha vivido uma perda. Amava a falecida mulher e guardava a memória dela. Quando me contou quanto tempo não conseguira abrir o estojo do violoncelo dela, senti pela primeira vez que estava a falar com alguém que compreendia a minha tristeza.
Depois disse-me uma coisa de que me lembrei durante muito tempo.
Que queria ser amado como a pessoa que é hoje, e não estar constantemente a competir com a memória de alguém que nunca conheceu.
Tinha razão.
Ambos tínhamos um passado, mas só nós podíamos decidir se desejávamos um futuro em comum.
O mais difícil para mim foi conversar com a mãe de Lorenzo. Ao longo dos anos, ela tornou-se parte da minha família e eu tinha medo de que o meu novo amor a magoasse.
Afinal, ela tinha receio de me perder também a mim.
Voltámos a contar uma à outra muitas histórias sobre Lorenzo. Ela recordou-me como ele era em rapaz, e eu contei-lhe as suas tentativas engraçadas de reparar o violino.
Foi então que compreendi que as nossas memórias podem continuar a ser-nos queridas, mesmo quando a nossa vida muda.
Agora, às vezes, toco no velho violino.
O serão mais bonito foi aquele em que eu e Alessandro tocámos a melodia preferida de Lorenzo e, a seguir, outra peça que escolhemos juntos.
Entre os convidados estava também a mãe dele.
Quando a vi sorrir por entre as lágrimas, compreendi quanto amor pode estar presente numa só vida, sem que todos os sentimentos tenham de ser iguais.
Depois guardei o anel na caixinha.
Continuo a guardá-lo. Mesmo agora, enquanto escrevo, a pedra vermelha apanha a luz da tarde.
Mas agora sei que o meu amor por Lorenzo faz parte de mim e que não vai desaparecer se o anel deixar de estar no meu dedo.
Se pudesse dizer-te alguma coisa naquela última noite, aconselhar-te-ia a amar Lorenzo com todo o teu coração, a alegrares-te com o tempo que passam juntos e a guardares todos os bons pormenores que puderes.
Mas não prometas em nome da pessoa que vais ser daqui a quinze ou vinte anos.
Ela vai saber coisas que tu ainda nem consegues imaginar. Vai viver alegrias, perdas e encontros que a vão mudar.
E vai merecer ser ouvida.
Com carinho,
A mulher que continuou a lembrar.»
Se o velho anel te fez lembrar um amor que ainda influencia as tuas decisões, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Amor podes perguntar: «O que continua a ligar-me a este velho amor e como influencia ele as minhas relações hoje?» Se na tua vida já está presente uma pessoa nova, a sala Compatibilidade pode ajudar-te a observar como os vossos feitios e necessidades se encontram.
Na sala Deixar ir podes explorar os sentimentos que continuam a fazer-te voltar a uma história que terminou e, na sala Karma, as velhas promessas que transformaste em regras pessoais.
Se a questão está ligada às ideias familiares de amor e fidelidade, visita a sala A Linhagem. Na sala A Encruzilhada podes observar as possibilidades à tua frente quando hesitas entre a espera por alguém do passado e o desejo de um novo começo.
As salas A minha gente e Amigo podem ajudar-te a dar atenção às pessoas próximas que fazem parte da tua vida depois de uma separação ou de uma perda, e a sala Dinheiro — às questões da independência e da segurança nas relações.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica «A porta para uma vida esquecida».
Cremona, muitos anos depois da guerra.
Na velha oficina, a mulher arrumava os instrumentos reparados que os clientes viriam buscar no dia seguinte.
Da sala ao lado ouvia-se um violoncelo.
Alessandro estava outra vez a ensaiar uma peça que tencionavam tocar para os amigos. De vez em quando parava, voltava a algumas notas e comentava, descontente, que o instrumento devia ter decidido mostrar que tinha feitio próprio.
— Posso afiná-lo mais uma vez — gritou a mulher. — Mas isso não o vai impedir de ter a sua própria opinião sobre o músico.
Alessandro apareceu à porta.
— Depois de tantos anos contigo, já devia ter aprendido a negociar com feitios teimosos.
Ela riu-se.
Depois reparou numa pequena folha na mão dele.
— O que é isso?
— Uma coisa que comecei a escrever.
Estendeu-lhe a folha.
Nela havia algumas linhas de notas musicais.
— Uma composição nova? — perguntou ela.
— Estou a tentar. Por enquanto, tenho um começo de que gosto muito e um final sobre o qual ainda estou a discutir comigo mesmo.
A mulher sentou-se à mesa e observou as notas com atenção.
Alessandro pegou no violoncelo e tocou os primeiros compassos.
A melodia era terna, com um início ligeiramente triste, mas passava aos poucos para tons mais luminosos e vivos.
Ela ouvia-o com interesse.
— Gosto — admitiu. — Mas acho que, numa certa passagem, o violino pode responder ao violoncelo.
— É precisamente por isso que ta estou a mostrar. Quero que a terminemos juntos.
A mulher voltou a olhar para a partitura.
Ao longo dos anos, os dois tinham tocado muitas peças, mas nunca tinham tentado escrever uma sua.
— Como lhe vamos chamar?
Alessandro encolheu os ombros.
— Ainda não sei. Primeiro temos de perceber se vamos conseguir pôr-nos de acordo quanto às notas.
— Essa é realmente a parte mais complicada — respondeu ela.
Pousou a folha em cima da mesa e abriu o armário dos instrumentos musicais.
Lá dentro estava o violino de Lorenzo.
Ao lado, estava a pequena caixinha com o anel.
A mulher abriu-a por um instante.
A pedra vermelha continuava a apanhar a luz da mesma forma que naquela distante noite de primavera, quando Lorenzo lha oferecera.
Tocou nas palavras gravadas e recordou a voz dele, o riso, as promessas e a melodia preferida dos dois.
Depois fechou a caixinha e voltou a guardá-la.
Pegou no violino.
Quando voltou à sala ao lado, Alessandro já tinha posto as notas na estante.
— Estás pronta para experimentarmos?
— Sim. Mas na terceira linha mudaria algumas notas.
Ele suspirou com fingido desespero.
— Eu sabia que não devia mostrar a peça antes de estar terminada.
— Nesse caso, já seria tarde demais para a corrigirmos.
— É exatamente isso que me preocupa. Contigo, as correções costumam sair melhores do que o original.
Os dois riram-se e começaram a tocar.
A primeira tentativa foi hesitante. Numa passagem o violoncelo adiantou-se, noutra o violino entrou cedo demais, e depois os dois pararam, porque decidiram ao mesmo tempo alterar a mesma frase.
Depois de algumas tentativas, a melodia começou a ganhar forma.
A mulher tocou algumas notas novas, e Alessandro repetiu-as e acrescentou a sua resposta.
Aos poucos, a música encheu a velha oficina.
Ela olhou para ele e sorriu.
Ao longo da vida, vivera um amor maravilhoso com Lorenzo, que terminara muito mais cedo do que os dois esperavam. Depois conhecera Alessandro, com quem construíra uma intimidade completamente diferente — com dias partilhados, desacordos, muitas conversas e amor pela música.
E agora os dois estavam a criar algo que nunca antes existira.
Quando as últimas notas se calaram, Alessandro pousou o arco e olhou para a partitura.
— Bem, já temos a peça quase inteira.
— Falta inventarmos um título.
Ele ficou pensativo.
— E que tal te soa «A próxima melodia»?
A mulher olhou para ele e depois para o velho violino nas suas mãos.
— Maravilhoso.
Alessandro pegou na pena e escreveu o título na folha.
Por baixo, acrescentou dois nomes.
Depois estendeu-lhe a partitura.
— Agora já podemos discutir quem escreveu a parte mais bonita.
— Não vamos discutir — respondeu ela. — Claro que fui eu.
O riso dos dois espalhou-se pela sala.
No armário ao lado continuavam guardados o anel e as duas velhas partituras. Haveriam sempre de lembrar a música e o amor de anos diferentes.
Mas, em cima da mesa, já estava também uma terceira partitura.
Desta vez, tinham-na escrito os dois juntos.
Se escolheste o velho anel, desejo-te um amor que possas recordar com gratidão e pessoas com quem partilhar a tua vida tal como tu próprio(a) desejares. Que as boas memórias guardem o seu lugar e que o futuro te traga novos encontros, música, alegria e motivos de sobra para sorrir. E, se um dia receberes um novo anel, desejo-te que as promessas sejam mútuas, sinceras e possíveis de cumprir. Porque até o amor mais belo precisa de duas pessoas que, além de prometerem uma à outra a eternidade, saibam também pôr-se de acordo sobre quem vai comprar o pão.
Onde fica a tua verdadeira casa, quando um lugar guarda a tua infância, outro acolheu a tua vida, e as pessoas dos dois lados esperam que proves que pertences precisamente a elas? E será possível amar dois mundos sem te sentires constantemente culpado(a) perante um deles?
Durante a reparação de uma velha ponte medieval sobre o Danúbio, os operários descobrem um bloco de pedra com uma marca invulgar. Nele estão esculpidas duas torres unidas por um arco e, por baixo delas, distinguem-se algumas palavras numa língua estranha à cidade. A marca permaneceu escondida na alvenaria durante séculos, e provavelmente milhares de pessoas passaram por ela sem suspeitar da sua existência.
Entre os antigos registos das reparações da ponte, os investigadores encontram o nome de um canteiro chegado das terras em redor de Verona. Participou no reforço da estrutura no século XIII e, aos poucos, tornou-se um mestre respeitado. Mas nenhum documento explica por que razão escolheu esculpir duas torres em vez da marca habitual do seu ofício.
Terá querido guardar a memória da sua cidade natal? Ou estariam as duas torres ligadas a pessoas que amava, mas que nunca conseguiu reunir no mesmo lugar?
As pontes são criações particularmente curiosas. As pessoas constroem-nas para passar com mais facilidade de uma margem para a outra, mas repara em quantas histórias começam precisamente com uma travessia. Alguém parte por causa do trabalho, outro por amor, um terceiro simplesmente quer ver o mundo. Promete voltar dentro de alguns meses e, um dia, descobre que passaram vinte anos e que já tem casa, família e amigos noutro lugar. É então que surge a pergunta mais interessante — de onde é, afinal? No novo país chamam-lhe estrangeiro e, quando regressa à terra natal, começam a explicar-lhe o quanto mudou. Provavelmente, para casos assim, deveria existir um certificado de pertença com dois carimbos, embora eu desconfie que, mesmo assim, alguém iria pedir mais um documento.
O teu processo kármico simbólico está ligado às raízes, à emigração, às promessas de família e à sensação de que tens de escolher entre diferentes partes de ti. Talvez tenhas deixado a tua cidade ou o teu país natal e construído um lar noutro lugar, mas sentes culpa por os teus terem ficado longe. É possível que tenhas crescido entre línguas e culturas diferentes e que há muito te tenhas habituado a mudar o teu comportamento conforme as pessoas com quem convives.
Ou talvez nunca tenhas deixado a tua terra natal, mas escolheste uma profissão, um companheiro ou um modo de vida diferente daquilo que a tua família esperava.
A história vai levar-nos à Ratisbona medieval, até um jovem canteiro chamado Matteo, que deixa a sua terra com algumas ferramentas, pouco dinheiro e uma promessa feita ao pai. Na cidade desconhecida irá encontrar um amigo que lhe corrige constantemente a pronúncia, uma mulher que o amará com todas as suas diferenças, e pessoas perante as quais, durante anos, tentará provar que é um deles.
E quando, depois de uma longa ausência, regressar à oficina natal, descobrirá que a memória de casa e a própria casa já são duas coisas diferentes.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Ela vai ajudar-te a observar a tua relação com os lugares, as pessoas e as decisões que mudaram a tua vida. As imagens que surgirem são associações pessoais e, por si só, não provam memórias reais de uma vida passada. Se alguma cena te for desagradável, podes alterá-la, observá-la à distância ou terminar o exercício.
Imagina um velho caminho de pedra que desce até um rio largo. Nas margens crescem árvores, a água reflete as nuvens e, por cima dela, ergue-se uma ponte com belos arcos. Ouvem-se o toque de um sino, o chiar de rodas e conversas numa língua desconhecida. Entre os viajantes reparas numa pessoa com um pequeno saco ao ombro. Observa as roupas, o rosto e os objetos que traz consigo. Para onde se dirige e o que espera encontrar?
A primeira travessia — a partida. A pessoa detém-se diante da ponte e olha para trás, para o lugar que conhece desde a infância. Imagina as pessoas de quem se despede. Porque decidiu partir? O que lhes promete? Talvez acredite que vai estar ausente por muito pouco tempo, ou talvez tenha medo de nunca vir a ter a possibilidade de regressar. Nas mãos aperta um pequeno objeto que recebeu de alguém próximo. O que significa ele para ela?
A segunda travessia — o mundo desconhecido. Os anos passam. Vê a mesma pessoa no meio de ruas novas, de uma língua diferente e de gente cujos costumes, ao princípio, não compreendia. Que vida construiu? Que novas relações se tornaram importantes para ela? Imagina uma situação em que alguém lhe lembra que é diferente. Muda o seu comportamento para ser aceite? O que tenta esconder da sua origem?
A terceira travessia — o regresso. Passados muitos anos, a pessoa chega de novo à sua terra natal. As ruas parecem conhecidas, mas parte das pessoas mudou, outras partiram, e algumas já não estão entre os vivos. Entra na velha casa de família e estende a mão para um objeto que sempre encontrou num lugar certo. Mas o objeto já está noutro sítio. Como se sente ao perceber que a vida continuou também sem ela?
A última imagem — os dois objetos. A pessoa volta a encontrar-se na ponte. Numa mão aperta um objeto da sua terra natal e, na outra, um presente da sua nova casa. Alguém lhe disse que tem de deixar um deles para poder seguir em frente. Mas quem criou essa regra? Deixa-a observar os dois objetos e decidir por si mesma o que deseja fazer.
Antes de terminares, imagina um encontro entre o jovem viajante e a pessoa em que ele se tornou. O que lhe contaria o mais velho? Por que decisão o elogiaria e que conselho lhe daria?
Traz a tua atenção de volta ao presente e anota as imagens que te comoveram.
A pergunta que fica: «Que parte de mim continuo a mudar para ser aceite, e o que gostaria de preservar, independentemente de onde vivo e de com quem convivo?»
Ratisbona, Sacro Império Romano-Germânico, meados do século XIII. Pelo largo Danúbio passavam barcos mercantes, pelas ruas cruzavam-se viajantes de várias terras e, sobre o rio, erguia-se a grande ponte de pedra construída no século anterior. Os seus arcos ligavam as duas margens e atraíam a atenção de qualquer mestre que compreendesse quanto trabalho e conhecimento eram necessários para uma obra assim.
Entre os que chegavam à cidade estava Matteo, de vinte e dois anos, um jovem canteiro de uma pequena povoação perto de Verona.
Tinha cabelo escuro, rosto tisnado e mãos fortes, nas quais se viam as marcas de muitos anos de trabalho. O pai era mestre de obras e, desde a infância, ensinara ao filho como reconhecer a pedra de qualidade, como se constroem alicerces sólidos e porque é que um arco bem feito pode sobreviver durante gerações.
Matteo era talentoso, trabalhador e bastante orgulhoso. Sobretudo quando alguém punha em dúvida as suas capacidades.
Na sua terra, porém, o trabalho estava a diminuir. A família passava por dificuldades financeiras, e o jovem sonhava usar o seu ofício numa cidade maior.
Quando soube que em Ratisbona procuravam canteiros, decidiu partir.
Ao princípio, o pai opôs-se.
— A nossa família trabalha a pedra há gerações. Um dia, a oficina terá de ser tua.
— Mas, se eu ficar, em breve não teremos trabalho suficiente nem para nós os dois.
Discutiram durante várias noites. Por fim, o pai admitiu que compreendia o desejo dele, embora lhe custasse separar-se do seu ajudante mais capaz.
Matteo prometeu que voltaria dentro de alguns anos, quando tivesse juntado meios suficientes.
A mãe preparou-lhe comida para a viagem e ofereceu-lhe um velho crucifixo de madeira que pertencera ao pai dela.
— Leva-o, para te lembrares de onde partiste.
Matteo abraçou-a e prometeu voltar antes que ela ficasse demasiado velha.
— Então despacha-te — respondeu ela. — Porque o tempo já começou a tratar do assunto.
Na manhã seguinte, o jovem canteiro partiu para lá dos Alpes.
A viagem foi longa. Atravessou caminhos de montanha, parou em cidades desconhecidas e, pouco a pouco, foi entrando em terras onde as pessoas falavam línguas que ele quase não compreendia.
Quando finalmente chegou a Ratisbona, a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi a ponte de pedra.
Matteo observou os arcos durante muito tempo, tentando perceber como tinham sido preparados os alicerces e como cada um dos blocos suportava o peso da estrutura.
Para ele, aquilo era um verdadeiro milagre de mestria.
As primeiras semanas, porém, revelaram-se difíceis.
Falava muito pouco da língua local e muitas vezes não compreendia as indicações dos mestres. Mas, em vez de perguntar, acenava com confiança e esperava ter adivinhado o que se esperava dele.
Certa manhã, o mestre principal mandou-o buscar uma determinada ferramenta. Matteo percebeu apenas parte das palavras e apareceu com algo completamente diferente.
Os outros operários desataram a rir.
Ele ficou tão ofendido que, nessa mesma noite, começou a aprender as palavras novas, repetindo-as diante do pequeno espelho do seu quarto.
Mas a língua era apenas uma das dificuldades.
Ao princípio davam-lhe o trabalho mais pesado, e alguns mestres locais duvidavam abertamente das suas capacidades.
Chamavam-lhe «o lombardo» ou «o homem do Sul».
Alguns faziam-no de forma amigável, outros usavam a alcunha para lhe lembrar que era estrangeiro.
Matteo trabalhava cada vez com mais afinco.
Um dia, reparou um bloco de pedra que os outros consideravam inutilizável. O mestre principal examinou o seu trabalho e perguntou-lhe onde aprendera o ofício.
— Com o meu pai. Na nossa oficina perto de Verona.
A partir desse dia, começaram a confiar-lhe tarefas mais complexas.
Pouco a pouco conquistou o respeito dos colegas, mas continuava a sentir-se constrangido com a sua origem e a sua pronúncia. Esforçava-se por falar como os locais e falava cada vez menos da sua terra natal.
O seu amigo mais próximo tornou-se um carpinteiro chamado Konrad.
Os dois trabalhavam muitas vezes juntos, e Konrad tinha um vivo sentido de humor e corrigia-lhe constantemente a pronúncia.
Certa noite, numa estalagem junto ao rio, Konrad declarou:
— Já falas quase como alguém de Ratisbona.
— Excelente. Agora só falta vocês começarem a falar um pouco mais devagar, para eu vos perceber na perfeição.
Os dois riram-se.
Konrad ajudava-o a encontrar trabalho, apresentava-o a pessoas e explicava-lhe os costumes locais que Matteo ainda tinha dificuldade em compreender.
Numa das primeiras reparações maiores junto à ponte, o jovem canteiro reparou que a água tinha escavado parte dos alicerces. Propôs um método de reforço que aprendera com o pai, mas o mestre principal interrompeu-o.
— A ponte resistiu mais de um século. Dificilmente precisa dos conselhos de alguém que chegou ontem de terras distantes.
O reparo foi feito diante de todos.
Matteo sentiu-se humilhado e não voltou a insistir.
Alguns meses mais tarde, depois de chuvas prolongadas, o Danúbio encheu e danificou esse mesmo troço.
Foi preciso fechar parte do acesso à ponte.
Quando viu os estragos, Matteo reconheceu de imediato a fragilidade para a qual tinha avisado.
Por um instante, teve vontade de lembrar a todos que tinha razão.
Mas depois viu os mercadores que esperavam com as suas carroças e os operários que tentavam tornar o local seguro.
Aproximou-se do mestre principal e voltou a propor o seu método de reforço.
Desta vez explicou em pormenor como substituir os blocos e preparar apoios mais sólidos.
Konrad e mais alguns operários apoiaram-no.
O mestre principal não parecia encantado, mas aceitou que experimentassem.
Depois de semanas de trabalho, conseguiram reforçar o troço danificado.
Quando tudo terminou, o mestre reconheceu que a proposta de Matteo tinha sido útil.
O jovem sentiu uma satisfação enorme.
Pela primeira vez viu como os conhecimentos que recebera do pai podiam ter um valor verdadeiro também na sua nova vida.
Por essa altura conheceu Gertrude, filha de um mercador local.
Ela ajudava na loja da família junto ao mercado, tinha um espírito prático e sabia conversar com clientes de diferentes terras sem perder a paciência, mesmo quando alguém regateava um preço que já fora reduzido o suficiente.
Matteo começou a frequentar a loja por causa das ferramentas, mas depressa descobriu que as conversas com Gertrude eram muito mais interessantes do que as compras.
Um dia tentou pedir uma determinada ferramenta de metal, mas usou a palavra errada.
Gertrude ouviu-o com uma expressão perfeitamente séria.
— Tencionas mesmo reparar arcos de pedra com um tacho de cozinha?
Quando ele percebeu o que tinha dito, os dois desataram a rir.
Pouco a pouco, começaram a encontrar-se também fora da loja.
Passeavam junto ao Danúbio, conversavam sobre livros, sobre o trabalho e sobre os lugares de que gostavam.
Gertrude mostrava um interesse verdadeiro pela aldeia natal dele. Matteo falava-lhe das montanhas, da oficina da família e da mãe, e ela apresentava-lhe as pessoas e os costumes de Ratisbona.
Pela primeira vez desde que chegara, ele não se sentia constrangido ao falar de casa.
O amor entre os dois foi-se tornando sério.
Mas Matteo hesitava quando as conversas se voltavam para o futuro.
— Um dia vais voltar de vez para junto dos teus pais? — perguntou-lhe Gertrude, enquanto os dois passeavam pela ponte.
Ele ficou pensativo.
— Quando parti, acreditava que ia estar fora só alguns anos.
— E agora?
— Agora já não sei.
Gertrude pegou-lhe na mão.
— Então vamos ter de falar disso antes de começarmos uma vida juntos.
Com o tempo, casaram-se.
Fizeram um lar não muito longe do rio, nasceram-lhes dois filhos, e Matteo foi-se tornando um mestre respeitado, com encomendas e aprendizes próprios.
Gertrude continuou a participar no comércio da família e ajudava-o muitas vezes a negociar as obras.
Às vezes discutiam por causa das despesas, porque Matteo gostava de comprar ferramentas novas, e a mulher costumava perguntar quantas das anteriores ferramentas indispensáveis ainda estavam à espera de ser usadas.
Em casa, os hábitos dos dois mundos foram-se entrelaçando.
Gertrude aprendeu a preparar pratos da terra natal do marido, e ele começou a participar nas festas locais. Os filhos cresciam com histórias de terras distantes, mas falavam sobretudo a língua de Ratisbona.
Um dia, o filho mais velho chegou a casa perturbado.
Alguns rapazes tinham troçado da pronúncia do pai quando este conversava com um mercador do Sul.
À noite, Matteo começou a contar-lhe uma história no dialeto da sua terra, e a criança interrompeu-o de repente.
— Pai, não fales assim à frente dos meus amigos.
As palavras feriram-no mais do que todas as troças que alguma vez ouvira dos mestres locais.
— Nunca te deves envergonhar da tua família!
O rapaz desatou a chorar.
— Eu só quero ser como as outras crianças.
Matteo saiu do quarto zangado.
Mais tarde, Gertrude encontrou-o na oficina.
— Tu próprio passaste anos a tentar falar como os locais — lembrou-lhe ela. — E agora zangas-te com o teu filho por ter medo da mesma coisa de que tu também tinhas medo.
Matteo calou-se.
No dia seguinte, conversou com o rapaz.
Admitiu que tinha reagido de forma demasiado dura e contou-lhe os seus primeiros dias em Ratisbona, quando muitas vezes não percebia o que as pessoas diziam e tinha medo de fazer figura de tolo.
O filho ouvia com interesse.
Pela primeira vez começou a perceber que, por trás da estranha pronúncia do pai, existia uma história inteira.
Entretanto, Matteo continuava a enviar cartas e dinheiro aos pais.
A mãe falava-lhe dos vizinhos, das colheitas e da vida na aldeia. O pai escrevia com menos frequência, mas quase sempre mencionava a oficina da família e a esperança de um dia voltarem a trabalhar juntos.
Matteo adiava constantemente a visita.
Depois da próxima grande encomenda, depois de terminar a obra, quando as crianças crescessem um pouco...
Surgia sempre uma nova razão.
Num outono, chegou uma carta do irmão.
O pai tinha morrido depois de uma longa doença. A mãe ficara sozinha, e a oficina da família ia perdendo as encomendas aos poucos.
O irmão insistia para que Matteo voltasse, porque não conseguia dar conta de tudo.
No fim da carta escreveu que o pai, até ao último momento, esperara pelo filho mais velho.
Matteo leu as palavras várias vezes.
Depois tirou o velho crucifixo de madeira que a mãe, em tempos, pusera na sua bagagem.
Lembrou-se da promessa de que voltaria dentro de alguns anos.
Agora já nunca mais poderia voltar a trabalhar com o pai.
Nos dias seguintes começou a falar de um regresso definitivo.
Ponderava se deveria levar Gertrude e os filhos e continuar o ofício da família perto de Verona.
A mulher ouvia-o, mas quando ele começou a falar da partida como de uma decisão já tomada, perguntou-lhe:
— E já pensaste no que isso significa para mim e para os rapazes?
Matteo franziu o sobrolho.
— A minha mãe está sozinha. O meu irmão precisa de ajuda.
— Eu compreendo. E quero que os ajudemos. Mas em Ratisbona também está a nossa casa, o meu trabalho, a minha família e os amigos das crianças. Se partirmos, vamos ter de recomeçar tudo do zero.
— Então queres que eu abandone a minha mãe?
Gertrude olhou para ele com dor.
— Quero que decidamos como cuidar dela. Mas não posso aceitar que o meu amor por ti signifique deixar tudo o que construí, sem sequer termos conversado.
Nessa mesma noite, quando as crianças adormeceram, Matteo admitiu finalmente o que o atormentava.
— Se ficar, traio a família de onde venho. Se partir, traio a família que criei.
Gertrude olhou-o demoradamente.
— Há anos que procuras um lugar onde te chamem um dos seus. E eu pergunto-me quando vais reparar que, para mim, já há muito tempo que estás em casa.
As palavras dela comoveram-no.
Nos dias seguintes falou também com Konrad, que lhe fez uma pergunta simples:
— Queres mesmo deixar Ratisbona, ou estás a tentar cumprir uma promessa feita por um jovem que ainda não sabia que vida o esperava?
Matteo não conseguiu responder.
Por fim, decidiu partir primeiro sozinho, ver a mãe e perceber de que é que o irmão precisava realmente.
A viagem através dos Alpes despertou muitas recordações.
Quando chegou à sua aldeia natal, reconheceu as ruas estreitas, as casas de pedra e a pequena igreja.
Mas muitas coisas estavam diferentes.
Alguns amigos tinham partido, outros tinham constituído família, e os jovens quase não o conheciam.
A mãe recebeu-o em lágrimas e abraçou-o durante muito tempo.
Na primeira noite falaram de tudo o que tinha acontecido durante a sua ausência.
Na manhã seguinte, Matteo entrou na oficina do pai.
O cheiro a pó de pedra era o mesmo. A luz entrava pela pequena janela conhecida, e nas paredes estavam penduradas as ferramentas com que, em tempos, aprendera a trabalhar.
Matteo estendeu maquinalmente a mão para o lugar onde o pai deixava sempre o seu escopro preferido.
Mas ali estava outra ferramenta.
Olhou em redor.
O irmão tinha mudado a oficina, acrescentado utensílios novos e trocado de lugar parte das ferramentas antigas.
Por um instante, sentiu uma tristeza profunda.
Tinha regressado à casa de que se lembrava, mas a vida nela continuara sem ele.
Pouco depois chegou o irmão.
Os dois abraçaram-se, mas logo nos primeiros dias começaram a discutir por causa do trabalho.
Matteo propunha técnicas novas e mudanças aprendidas em Ratisbona, e o irmão ouvia-o com uma irritação crescente.
Por fim, pousou a ferramenta que tinha pegado.
— Tu partiste. Eu fiquei. Durante todos estes anos cuidei da oficina, da mãe e do pai, e das encomendas que mal conseguíamos cumprir. Agora chegas e começas logo a explicar-me como devo trabalhar.
Matteo sentiu-se ofendido.
— Estou a tentar ajudar.
— Então pergunta-me primeiro de que é que eu preciso.
Os dois calaram-se.
Pela primeira vez, Matteo percebeu que o irmão também carregava a sua própria história de oportunidades perdidas.
Ele próprio passara anos a culpar-se por ter partido. E o irmão, por vezes, lamentava ter ficado e nunca ter conhecido o mundo para lá da terra natal.
Nos dias seguintes começaram a falar com mais franqueza.
Matteo ajudava com as encomendas, mostrava técnicas que aprendera em Ratisbona e deixou parte das ferramentas que tinha trazido.
Discutiram a possibilidade de um jovem parente partir durante algum tempo para lá dos Alpes, para aprender o ofício e depois regressar com novos conhecimentos.
Pouco a pouco encontraram uma forma de se ajudarem um ao outro, sem que nenhum tivesse de abandonar a vida que construíra.
A conversa mais difícil, porém, foi com a mãe.
Certa noite estavam sentados no pequeno jardim.
Ela perguntou-lhe por Gertrude e pelos rapazes.
Matteo falou-lhe longamente da sua casa em Ratisbona, do trabalho e dos filhos.
Por fim, confessou:
— Prometi ao pai que voltaria. E agora nunca mais vou poder cumprir a minha promessa.
A mãe ouviu-o.
— O teu pai queria muito voltar a trabalhar contigo — disse ela. — Mas tinha orgulho em tudo o que alcançaste. Queria ver-te mais vezes. Essa é a verdade. Mas tu tens mulher e filhos, que também precisam de ti.
Matteo baixou os olhos.
— Tenho medo de que, se voltar para junto deles, vos esteja a abandonar outra vez.
A mãe pegou-lhe na mão.
— Não posso devolver os anos em que estiveste longe. Mas não quero que percas também aquilo que construíste durante eles.
Os dois ficaram muito tempo no jardim.
Quando, algumas semanas depois, Matteo partiu de volta para Ratisbona, o irmão despediu-se dele com a promessa de manterem um contacto regular. A mãe deu-lhe o pequeno escopro que, em tempos, pertencera ao pai.
— Leva-o. E quando ensinares o ofício aos teus filhos, fala-lhes do homem com quem aprendeste tudo.
Na despedida, Matteo prometeu que tentariam organizar uma visita com a família toda.
Desta vez já sabia como era importante que uma promessa assim estivesse ligada a possibilidades reais.
Quando chegou a Ratisbona, atravessou a grande ponte de pedra e viu Gertrude e as crianças na outra margem.
O filho mais novo correu para ele.
O mais velho começou logo a examinar os presentes.
Gertrude abraçou-o.
— Então, voltaste para casa?
Matteo sorriu.
Algumas semanas antes tinha sentido a mesma alegria quando a mãe o recebera na aldeia natal.
— Sim — respondeu ele. — Voltei.
Depois falou-lhe do irmão, da mãe e da oficina mudada.
Os dois decidiram continuar a sua vida em Ratisbona, mantendo uma ligação mais próxima com os parentes perto de Verona.
Com o tempo, um jovem parente chegou para aprender o ofício com Matteo.
Gertrude ajudou-o a habituar-se à cidade, Konrad apresentou-o aos mestres, e as crianças mostravam curiosidade pelas histórias sobre a terra natal do pai.
Matteo usava cada vez mais o dialeto da sua terra em casa.
Certa noite, o filho mais velho pediu-lhe que lhe ensinasse algumas palavras.
— Quero conseguir conversar com a avó quando formos visitá-la.
Matteo olhou para ele comovido.
Começaram por palavras fáceis, mas o rapaz pronunciava-as constantemente mal.
Por fim, os dois riram-se.
Pela primeira vez, Matteo permitiu-se alegrar-se com a sua origem diferente, sem se preocupar com a forma como os outros a iriam ver.
Os anos foram passando.
Matteo continuou a trabalhar em diversas obras de pedra e, pouco a pouco, tornou-se um dos mestres respeitados da cidade.
Um dia teve a oportunidade de dirigir uma reparação importante da velha ponte sobre o Danúbio.
A água tinha danificado parte da alvenaria, e o trabalho exigia reforçar os alicerces e substituir vários blocos de pedra.
Matteo passava dias inteiros junto ao rio.
Explicava aos aprendizes como preparar as pedras, porque é que as medidas têm de ser exatas e como um arco bem construído distribui o peso pelas diferentes partes.
Um dos jovens mestres reparou que ele usava uma técnica diferente das formas de trabalhar a pedra conhecidas no lugar.
— Onde a aprendeu?
Matteo sorriu.
— Com o meu pai. Na nossa oficina perto de Verona.
Depois explicou em pormenor como o velho mestre lhe ensinara a reconhecer a qualidade da pedra e a reparar os blocos danificados.
Os aprendizes ouviam com interesse.
Matteo recordou os primeiros anos em Ratisbona, quando evitava falar da sua origem por ter medo de nunca vir a ser aceite.
E agora eram precisamente os conhecimentos da sua terra natal que estavam entre as coisas mais valiosas que podia transmitir.
Quando a reparação estava quase terminada, pôs de parte um bloco de pedra.
Nele começou a esculpir cuidadosamente duas torres.
Entre elas colocou um belo arco que as unia.
Por baixo da marca gravou umas breves palavras no dialeto da sua terra.
Os aprendizes observavam-no com curiosidade.
— O que significa isto, mestre?
Matteo olhou para as duas torres e sorriu.
— Conto-vos quando acabarmos o trabalho.
Depois continuou a esculpir.
A marca simbólica mais profunda na história de Matteo surge quando ele recebe a carta sobre a morte do pai. Prometeu voltar, mas ao longo dos anos construiu uma família e uma casa em Ratisbona. Agora começa a ver cada decisão possível como uma traição às pessoas que ama.
«Onde quer que fique, vou trair alguém que amo.»
Uma convicção assim pode surgir quando partiste da tua terra natal para estudar, trabalhar ou constituir família noutro lugar.
A cada telefonema dos teus sentes culpa por não estares ao pé deles. Quando os visitas, começas a preocupar-te com as obrigações que deixaste na tua nova casa. E quando regressas, os teus pensamentos voltam a dirigir-se para os familiares que ficaram longe.
Outra pessoa pode sentir algo parecido sem nunca ter deixado a sua cidade natal. Os pais esperam que continue a profissão da família, e ela deseja um caminho diferente. Ou já tem a sua própria família, mas continua a assumir todas as obrigações que cumpria em criança.
A história de Matteo lembra-nos que as promessas são feitas em determinadas circunstâncias, e que a vida as vai mudando aos poucos. Por vezes conseguimos encontrar maneiras de cuidar das diferentes pessoas que amamos. Outras vezes teremos de tomar decisões difíceis e aceitar que alguém possa ficar desiludido.
A nova promessa pode ser:
«Vou valorizar as pessoas e os lugares que fazem parte da minha vida, e vou tomar decisões com atenção às necessidades deles e às minhas próprias possibilidades.»
Imagina uma mulher que cresceu numa família com ideias tradicionais sobre o casamento. O companheiro vem de um meio em que a independência pessoal e a liberdade são especialmente importantes.
Os dois amam-se e desejam um futuro em comum, mas quando começam a fazer planos concretos descobrem diferenças quanto à relação com os familiares, às festas, à educação dos filhos e à divisão das tarefas da família.
Numa relação entre pessoas de países diferentes, as questões podem ser ainda mais complicadas.
Onde vão viver? Quem vai partir? Que oportunidades profissionais terá a pessoa que deixa o seu país? Como vão manter a ligação com os seus?
No início, as diferenças podem parecer entusiasmantes. Mas quando um dos dois tem de deixar a casa, o trabalho e os amigos, a decisão ganha um significado completamente diferente.
Gertrude ama Matteo, mas recusa-se a aceitar que esse amor signifique abandonar automaticamente tudo em Ratisbona. Quer que os dois encontrem uma solução que tenha em conta a vida de ambos.
Se estás numa situação semelhante, pergunta-te que mudanças estão realmente dispostos a fazer e que questões ainda andam a evitar discutir.
Talvez vivas há anos longe dos teus pais.
Construíste uma casa, tens trabalho e amigos, mas a cada visita à terra natal começa a conversa sobre quando vais finalmente voltar de vez.
É possível que sintas ansiedade por os teus estarem a envelhecer e tu não poderes estar com eles tantas vezes quanto gostarias.
Outra pessoa pode ter ficado na cidade natal, mas sentir uma culpa semelhante, porque deseja mudar de profissão ou constituir família de uma forma que os pais não aprovam.
Na história de Matteo, o momento mais importante chega quando ele descobre que o irmão mudou a oficina do pai. Ao longo dos anos guardou uma imagem de casa, enquanto a vida real continuou a desenrolar-se.
Se também tu viveste um regresso assim, pensa em quais das tuas expectativas estão ligadas às recordações e quais correspondem à relação atual com os teus.
Talvez descubras que hoje a família precisa de um apoio diferente daquele que um dia prometeste dar.
Imagina alguém que cresceu numa cidade pequena e que, depois de anos de estudo, trabalho e viagens, começou a interessar-se por coisas diferentes.
Quando se encontra com os velhos amigos, continua a gostar deles, mas cala cada vez mais parte dos seus interesses, porque tem medo de que o acusem de ter mudado.
Outra pessoa pode sentir algo semelhante entre os novos colegas. Para ser aceite, começa a concordar com opiniões que na verdade não partilha e, aos poucos, perde a confiança para exprimir as suas próprias preferências.
Konrad é uma pessoa importante na vida de Matteo, porque o ajuda a conhecer a nova cidade sem exigir que renuncie à sua história. A amizade entre eles inclui brincadeiras, discussões e apoio, mas o mais valioso é que os dois aprendem pouco a pouco a respeitar-se tal como são.
Com que pessoas podes falar abertamente da tua origem, dos teus interesses e dos teus desejos? E que amizades continuas a preservar apenas através da imagem da pessoa que um dia foste?
Matteo parte para usar o seu ofício e ajudar a família. Mas na nova cidade tem de começar quase do zero, aprender a língua e provar as suas capacidades perante pessoas que não o conhecem.
Uma história assim pode ser familiar a alguém que foi para o estrangeiro por alguns anos e que, pouco a pouco, construiu uma carreira de sucesso.
Quando surge a possibilidade de comprar casa ou de começar um negócio próprio, começa a hesitar. Tem medo de que uma decisão dessas signifique afastar-se definitivamente da terra natal.
Outra pessoa pode ter uma boa oportunidade profissional numa cidade nova, mas preocupar-se se conseguirá fazer amigos, adaptar-se e sentir-se parte do novo ambiente.
A velha ponte convida-te a observar o que realmente ganhas e perdes com uma decisão assim. Talvez descubras que a mudança exige mais preparação do que inicialmente supunhas. Ou talvez o medo do desconhecido tenha começado a parecer maior do que as dificuldades reais.
Matteo regressa à oficina do pai com a esperança de encontrar o lugar de que se lembra da juventude.
Mas o escopro preferido do pai já não está no lugar conhecido. O irmão mudou a arrumação, assumiu novas responsabilidades e continuou o ofício da família à sua maneira.
Este pequeno pormenor revela algo que Matteo evitou aceitar durante muito tempo: as pessoas e os lugares que amamos continuam a mudar, mesmo quando estamos longe deles.
Talvez também tu guardes a memória de uma casa, de uma cidade ou de um período da tua vida ao qual sonhas regressar.
Quando o visitas, anos depois, descobres que o velho café fechou, que os amigos vivem noutro lado e que a casa de família já parece diferente.
Isso pode despertar tristeza, mas também pode ajudar-te a conhecer os teus tal como são hoje.
Matteo descobre aos poucos que pode guardar a memória do pai, ajudar o irmão e, ao mesmo tempo, continuar a sua vida em Ratisbona.
A velha ponte não lhe oferece a possibilidade de trazer de volta o passado. Mas lembra-lhe que entre as diferentes partes da sua vida podem existir novas ligações.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar as tuas raízes, as tuas escolhas de vida e o teu sentimento de pertença. Reserva quinze ou vinte minutos por dia e anota aquilo que te parecer importante.
Primeira pedra — a margem natal. Recorda o lugar onde cresceste. Descreve os sons, os cheiros, as pessoas e as tradições familiares que associas a ele. Se a tua infância foi difícil, escolhe outro lugar onde te sentiste aceite. Que três coisas desse período continuam a ter importância para ti?
Segunda pedra — o primeiro passo. Recorda uma decisão que mudou a tua vida — uma partida, um novo emprego, os estudos ou a constituição de uma família. O que esperavas e o que aconteceu realmente? Que boas oportunidades surgiram graças a essa escolha?
Terceira pedra — o olhar alheio. Anota uma situação em que te sentiste diferente por causa da tua origem, da tua língua ou das tuas preferências. Como reagiste nessa altura? Como gostarias de agir hoje, agora que tens mais experiência?
Quarta pedra — a nova casa. Descreve cinco coisas que hoje te dão um sentimento de pertença. Podem ser pessoas, ocupações, lugares ou pequenos hábitos do dia a dia. Qual delas gostarias de desenvolver?
Quinta pedra — os dois objetos. Escolhe dois objetos que simbolizem diferentes partes da tua vida. Um pode estar ligado ao passado e o outro, ao presente. Observa o que cada um significa e pensa se terás mesmo de escolher entre eles.
Sexta pedra — a ponte da escolha. Anota uma decisão que andas a adiar por medo de desiludir alguém. Que pessoas serão afetadas e quais são as necessidades delas? O que desejas tu próprio(a)? Poderás ter uma conversa ou encontrar uma solução que tenha em conta as diferentes circunstâncias?
Sétima pedra — a minha marca. Desenha uma ponte entre duas margens. Numa delas escreve aquilo que valorizas no teu passado e, na outra, as pessoas e os desejos que são importantes para ti hoje. Ao meio acrescenta as qualidades que te ajudam a ligar estas partes da tua vida.
Quando terminares, observa o desenho e escolhe um passo concreto — uma conversa, um encontro, uma visita ou uma decisão que te ajude a sentir-te mais perto da vida que queres construir.
Escolhe uma pequena pedra de um lugar que amas, ou um objeto simples que associes a casa.
Pega nela e recorda as pessoas, a língua, os costumes ou as vivências que te moldaram.
Depois pensa noutro lugar ou noutra pessoa que ganhou importância mais tarde.
Se quiseres, coloca a pedra junto ao desenho do sétimo dia e escreve:
«Levo as minhas raízes comigo e tenho o direito de criar uma nova casa.»
Que o símbolo te lembre tudo o que recebeste dos diferentes períodos da tua vida e a possibilidade de escolheres tu mesmo(a) como os vais ligar daqui em diante.
Imagina o velho Matteo, sentado à janela da sua casa em Ratisbona. Dali avistam-se os arcos da grande ponte sobre o Danúbio.
Na mesa à sua frente estão o velho crucifixo de madeira, oferecido pela mãe, e o pequeno escopro do pai.
Pega numa folha de papel e começa uma carta ao jovem que, em tempos, deixou a sua terra natal com algumas ferramentas, muitas esperanças e uma promessa que se revelaria mais difícil de cumprir do que ele imaginava.
«Querido Matteo,
Lembro-me de como estavas orgulhoso no dia da partida.
Acreditavas que, passados alguns anos, voltarias com dinheiro suficiente, novos conhecimentos e boas histórias. Imaginavas como voltarias a trabalhar com o nosso pai e lhe falarias das grandes cidades que tinhas visto.
Nessa altura, nenhum de nós imaginava o quanto a vida iria mudar.
Em Ratisbona, ao princípio, foi difícil. Não percebias a língua e tinhas medo de parecer tolo diante dos mestres locais. Lembro-me de como, à noite, praticavas as palavras novas diante do espelho e de como, às vezes, ficavas tão zangado com a tua própria pronúncia que acabavas por preferir calar-te.
Mas, aos poucos, aprendeste o ofício, fizeste amigos e conheceste Gertrude.
Ela nunca te pediu que esquecesses de onde vinhas. Pelo contrário, ouvia as tuas histórias, aprendia palavras novas e ria-se dos teus erros engraçados.
Lembro-me do dia em que finalmente percebi o quanto ela significava para mim.
Passeávamos pela ponte e ela perguntou-me se um dia eu voltaria de vez para junto dos meus pais. Não lhe consegui responder, porque ainda acreditava que devia o meu regresso ao nosso pai.
Os anos passavam, e eu adiava constantemente.
Quando soube da morte dele, senti tanta culpa que estive pronto a deixar tudo o que tinha em Ratisbona.
Foi então que Gertrude me perguntou uma coisa de que me lembrei durante muito tempo.
Porque é que eu procurava com tanta teimosia um lugar onde me chamassem um dos seus, quando, para ela, eu já há muito estava em casa?
No início, as palavras dela feriram-me. Parecia-me que ela não percebia o quanto a minha terra natal significava.
Mas quando voltei para perto de Verona, descobri uma coisa que devia ter percebido muito antes.
A oficina do pai já era diferente.
Estendi a mão para o lugar onde o pai deixava sempre o seu escopro preferido, mas ali estava outra ferramenta.
Por um instante pareceu-me que tinha perdido a última possibilidade de voltar à vida de que me lembrava.
Depois conversei com o nosso irmão.
Percebi quantas dificuldades ele tinha passado ao longo dos anos, enquanto eu construía a minha vida longe da família. Estava convencido de que só eu carregava a culpa pelas minhas decisões, e nunca tinha pensado nos sonhos que ele não realizou.
Por fim, conseguimos dizer um ao outro coisas que tínhamos calado durante muito tempo.
A nossa mãe surpreendeu-me ainda mais.
Confessei-lhe o quanto lamentava não ter voltado a tempo, e ela contou-me o orgulho que o nosso pai tinha no meu trabalho. Não escondeu que ele queria ver-me mais vezes. Mas pediu-me que não esquecesse Gertrude e as crianças.
Voltei para Ratisbona com o escopro dele e com muitas histórias que, finalmente, queria contar.
Agora o meu filho está a aprender as palavras do nosso dialeto. Quando as pronuncia mal, rimo-nos e começamos de novo. Às vezes reconheço nele os meus próprios medos antigos e, outras vezes, vejo a curiosidade do rapaz que um dia partiu para lá dos Alpes.
Gostava de te poder dizer que vais conseguir cumprir todas as promessas exatamente como as fizeste.
Mas isso não seria verdade.
Vais perder alguns momentos importantes. Vais tomar decisões de que te arrependerás e vais aprender a compreender os teus de uma maneira diferente.
Mas também vais construir uma vida bonita.
Vais ter família, amigos, aprendizes e um trabalho de que te vais orgulhar. Vais descobrir que as competências aprendidas com o nosso pai são valiosas também para lá dos Alpes, e que os novos conhecimentos te vão ajudar a apoiar o teu irmão.
Por isso, quando alguém te perguntar de onde és, conta-lhe.
Não te envergonhes da língua que aprendeste em criança, da oficina nem das pessoas que te deram tanto.
E quando prometeres um regresso, pensa em como o podes tornar real. Escreve mais vezes. Procura oportunidades para se verem. Não deixes que os anos passem apenas à espera de um momento mais conveniente.
E quando a vida te oferecer uma nova casa e pessoas que te vão amar, permite-te ser feliz com elas.
Podes guardar a tua terra natal no coração, mesmo quando as janelas da tua casa dão para outro rio.
Com carinho,
Matteo.»
Se a velha ponte de pedra te fez lembrar a tua terra natal, uma promessa de família ou a sensação de que tens de provar constantemente a tua pertença, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala A Linhagem podes perguntar: «Que expectativa da família me faz sentir culpa quando escolho uma vida diferente?» Em Karma podes explorar o medo de que cada decisão tua desiluda alguém e, em Deixar ir, o apego a um lugar ou a um período que mudou ao longo dos anos.
Se estás a ponderar uma partida, um regresso ou uma nova direção profissional, em A Encruzilhada podes observar as tuas possibilidades. As salas Amor e Compatibilidade são indicadas para relações com um companheiro de outra cultura ou de outro meio familiar.
Em Amigo e A minha gente podes dar atenção aos teus e às amizades que te dão um sentimento de pertença e, em Dinheiro e Dons, às decisões financeiras e profissionais que influenciam o teu modo de vida.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica guiada «A porta para uma vida esquecida».
Ratisbona, muitos anos depois da chegada do jovem Matteo.
Sobre o Danúbio erguia-se a velha ponte de pedra, e pelo seu pavimento passavam mercadores, viajantes e habitantes da cidade.
O velho mestre caminhava devagar junto ao parapeito com o filho mais velho, que já aprendia o ofício da construção.
Os dois observavam os troços reparados nos últimos anos e conversavam sobre as pedras, os alicerces e a força do rio.
Quando chegaram a um dos blocos, o filho reparou numa marca invulgar.
— Pai, foste tu que esculpiste isto?
Na pedra havia duas torres unidas por um arco.
Por baixo delas estavam escritas palavras que o rapaz não reconhecia.
Matteo sorriu.
— Sim. Fi-lo quando terminámos a reparação.
— E porquê duas torres?
O velho mestre tocou nas linhas esculpidas.
— Uma é pelo lugar onde nasci. Pelo meu pai, pela minha mãe e pela oficina onde aprendi o ofício. A outra é por Ratisbona. Pela tua mãe, por vocês os dois e pela vida que construímos.
O filho observou o arco.
— E porque é que as uniste?
— Porque durante muito tempo acreditei que tinha de escolher só um dos lugares.
O rapaz ficou pensativo.
— Mas nós fomos visitar a avó. E o tio manda-nos ferramentas. E o nosso primo veio aprender contigo.
Matteo acenou com a cabeça.
— Exatamente.
O filho seguiu com o dedo as letras por baixo da marca.
— O que diz?
— No dialeto da minha terra quer dizer «Duas margens, um caminho».
O rapaz repetiu as palavras, mas trocou a pronúncia.
Matteo corrigiu-o com cuidado.
Os dois riram-se.
Depois o filho tirou um pequeno pedaço de papel e um carvão.
— Posso desenhar a marca? Quero guardá-la.
— Claro.
O rapaz ajoelhou-se junto à pedra e começou a esboçar as duas torres.
Enquanto desenhava, perguntou:
— Pai, e se um dia eu for trabalhar para outra cidade, vais ficar zangado?
Matteo olhou para ele surpreendido.
— Porque perguntas?
— Um mestre que chegou de Praga contou-me coisas sobre grandes obras. Gostava de um dia ver como trabalham os mestres de lá.
Matteo sorriu.
Em tempos, ele próprio estivera diante do pai com o mesmo desejo.
— Vou ter saudades tuas — admitiu. — Mas vou ficar contente por veres lugares novos e aprenderes coisas que eu não sei.
O rapaz continuou a desenhar.
— E se eu decidir ficar noutro sítio?
Desta vez, Matteo não respondeu logo.
Olhou para o rio e lembrou-se do pai, que em tempos tentara mantê-lo na oficina da família.
Depois pousou a mão no ombro do filho.
— Então vamos falar sobre que vida queres construir. E vamos encontrar uma maneira de continuarmos a ver-nos. Só não me prometas que voltas daqui a dois anos, se ainda não sabes o que te espera.
O rapaz riu-se.
— Porquê?
— Porque na nossa família já temos alguma experiência com promessas dessas.
Quando o esboço ficou pronto, o filho mostrou-o ao pai.
As duas torres estavam desenhadas com cuidado, e o arco entre elas parecia mais largo do que o da pedra.
Matteo reparou também noutra coisa.
O rapaz tinha acrescentado uma terceira pequena torre numa das pontas do desenho.
— E isto, o que é?
O filho encolheu os ombros.
— Talvez o lugar para onde um dia eu vou.
Matteo observou o desenho durante muito tempo.
Depois sorriu.
— Então vais ter de desenhar mais um arco.
— Acrescento-o quando perceber para onde leva.
Matteo acenou com a cabeça.
Pareceu-lhe uma resposta maravilhosa.
Do outro lado da ponte apareceu Gertrude, com um cesto de compras.
Quando os viu, acenou-lhes.
— Já acabaram finalmente com as pedras? O jantar não tem intenção de esperar por vocês até amanhã!
Matteo riu-se.
— Já vamos!
Mas o filho puxou-o pela manga.
— Só mais uma coisa. Mostras-me como se esculpe uma marca assim?
— Amanhã — respondeu Matteo. — Hoje a tua mãe já mostrou paciência suficiente com o nosso ofício.
Os três seguiram para casa.
O rapaz levava o esboço, Gertrude contava episódios do mercado, e Matteo ouvia-os a sorrir.
Atrás deles ficou a ponte de pedra com as duas torres e o arco entre elas.
A marca continuaria a lembrar os dois mundos do seu mestre. Mas o desenho nas mãos do filho já tinha uma terceira torre.
E um dia poderia ter muitas mais.
Se escolheste a velha ponte de pedra, desejo-te lugares aos quais regresses com alegria, pessoas entre as quais possas ser tu mesmo(a) e caminhos que te levem a novas possibilidades. Que as tuas raízes sejam uma fonte de força e que tudo o que aprendeste pelo caminho enriqueça a tua vida. Desejo-te que os teus compreendam as tuas escolhas, mesmo quando são diferentes das ideias deles, e que tenhas a coragem de construir o teu próprio futuro. E quando alguém te perguntar de onde és, que possas responder com um sorriso, mesmo que para isso sejam precisas várias frases e um pequeno mapa. Afinal, uma pessoa pode amar mais do que um lugar, falar mais do que uma língua e criar um lar em qualquer sítio onde a vida a junte a pessoas que ama.
Durante quanto tempo te podes culpar pelo destino de alguém que amas? E se um dia encontrasses as últimas palavras que nunca leste, falar-te-iam elas da culpa que carregas, ou de algo completamente diferente?
Durante o inventário dos bens de uma velha casa florentina, descobre-se um quarto fechado à chave, cheio de quadros de família, livros e documentos. Entre os móveis cobertos, chama a atenção um grande retrato numa pesada moldura de madeira, de dourado escurecido. O quadro está virado com a face para a parede, embora tudo indique que em tempos ocupou um lugar de honra na casa.
Quando o viram, do outro lado da tela olha para eles uma jovem de olhos escuros, cabelo ligeiramente apanhado e um sorriso quase impercetível. Usa um vestido bonito mas simples, um xaile azul, e nas mãos tem um pequeno livro. O pintor captou a sua expressão como se, a qualquer momento, ela fosse dizer algo que faria rir as pessoas à sua volta.
No verso da moldura, a tinta escurecida, estão escritas duas palavras:
«Perdoa-me.»
Um pouco mais acima está preso um envelope lacrado com o nome «Giulio». A letra é diferente da que está na moldura, e os documentos da família mostram que a carta foi deixada ali quando a jovem ainda era viva.
Porque é que o retrato foi escondido? Quem escreveu o pedido de perdão? E porque é que uma carta destinada à pessoa que guardou o quadro ficou por abrir durante tantos anos?
Os retratos antigos sempre me interessaram. As pessoas neles parecem muitas vezes tão sérias, como se o pintor as tivesse acabado de informar de que teriam de posar mais seis horas e pagar à parte a moldura. E, no entanto, entre elas houve certamente pessoas alegres, que chegavam atrasadas aos encontros, adoravam doces e enlouqueciam os seus com algum pequeno hábito.
A mulher do xaile azul era claramente daquelas que dificilmente se conseguem calar. Até o seu retrato parece pronto a começar uma conversa.
O teu processo kármico simbólico está ligado à culpa depois de uma perda, à responsabilidade excessiva e à convicção de que, se amas alguém com força suficiente, deves conseguir protegê-lo de todo o sofrimento.
Talvez tenhas vivido um acontecimento depois do qual voltas constantemente às últimas conversas e decisões. Perguntas-te se devias ter reparado num determinado sinal, insistido mais ou reagido mais depressa. É possível que ainda hoje sejas a pessoa que cuida de todos, resolve os problemas dos outros e sente culpa quando os seus esforços não dão o resultado desejado.
A história vai levar-nos a Florença, em 1884. Vamos conhecer um médico que, ainda rapaz, prometeu proteger a irmã mais nova, a própria Elena, que sonha ver o mar, e um colega experiente que um dia será obrigado a dizer a Giulio uma verdade que ele há muito evita.
E por trás do velho retrato vamos encontrar uma carta que nunca foi destinada a pesar como uma sentença.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através da imagem do retrato, podes observar a tua relação com o cuidado, a perda e as responsabilidades que assumiste. As imagens que surgirem são associações pessoais e, por si só, não provam memórias de uma vida passada. Se o tema estiver ligado a uma perda pessoal dolorosa, podes saltar o exercício, alterar as cenas ou terminá-lo a qualquer momento.
Imagina uma casa antiga, de janelas altas e com um longo corredor em cujas paredes estão pendurados retratos de família. Abres uma porta e entras numa sala luminosa, com uma estante de livros, um cadeirão junto à janela e um grande quadro. Na tela está retratada uma pessoa que claramente teve um lugar importante na vida de alguém.
O primeiro olhar — a pessoa antes do dia difícil. Imagina um momento comum da vida da pessoa retratada. O que gosta de fazer? Como se ri, o que lhe interessa e que hábitos seus são conhecidos dos que lhe são próximos? Talvez leia, toque um instrumento, converse com amigos ou sonhe com uma viagem. Tenta vê-la através de tudo aquilo que enchia o seu dia a dia.
O segundo olhar — o dia da impotência. Diante do quadro coloca-se outra pessoa, que em tempos quis ajudar, mas não conseguiu mudar o que aconteceu. Não precisas de imaginar o próprio acontecimento doloroso. Observa a pessoa diante do retrato. O que repete para si mesma? De que decisão se culpa? O que sabia realmente naquele momento e que circunstâncias estavam fora do seu alcance?
O terceiro olhar — a vida depois da perda. O tempo avança. A pessoa já é mais velha. Como vive? Trabalha demasiado, preocupa-se constantemente com os seus, tem dificuldade em aceitar a ajuda dos outros? O que pôs de lado dos seus próprios desejos?
O quarto olhar — o reflexo. Junto ao retrato há um espelho antigo. A pessoa olha para ele e vê-se a si mesma depois de todos os anos vividos. Imagina que pode conversar com a sua versão mais jovem. O que lhe diria sobre o amor, a responsabilidade e aquilo que não conseguiu prever? O que desejaria para a sua própria vida daqui em diante?
Traz a tua atenção para o presente e anota a imagem mais forte.
A pergunta que fica: «Quem continuo a tentar salvar nos meus pensamentos e o que deixei de lado da minha própria vida enquanto carrego esta responsabilidade?»
Florença, 1884. A cidade vivia entre as suas tradições seculares e as novas descobertas científicas. Pelas ruas passavam carruagens, nos cafés discutia-se política e medicina, e os médicos iam aprendendo cada vez mais sobre as doenças infecciosas. Apesar dos progressos, as possibilidades de tratar infeções graves continuavam a ser limitadas.
Não muito longe de uma velha igreja vivia um médico de trinta e dois anos chamado Giulio.
Trabalhava num hospital e tinha um pequeno consultório cheio de livros de medicina, instrumentos e apontamentos. Os colegas respeitavam-no, os doentes confiavam nele, e os médicos jovens procuravam muitas vezes os seus conselhos.
Giulio era inteligente, atento e extremamente trabalhador. Tinha, porém, um hábito que os seus conheciam muito bem — dificilmente conseguia ter uma conversa normal sem encontrar nela um tema médico. Se alguém, ao jantar de família, mencionava que lhe doía a cabeça, Giulio começava logo a fazer perguntas, como se tivesse à sua frente um novo doente.
Quem mais troçava dele era a irmã mais nova, Elena.
Era uma jovem de vinte e cinco anos, de olhos escuros, imaginação viva e um maravilhoso sentido de humor. Adorava literatura, música e ensinar. Ajudava numa pequena escola e sonhava um dia trabalhar com alunos mais velhos.
Os dois eram muito próximos desde a infância.
Quando Giulio tinha dezasseis anos e Elena apenas nove, o pai morreu depois de uma doença grave. A mãe ficou sozinha com os dois filhos e muitas preocupações quanto ao futuro.
Certa noite, a pequena Elena entrou no quarto do irmão.
— Giulio, e se a mãe também morrer?
Ele abraçou-a.
— Eu vou cuidar de ti. Sempre. Não te vou deixar sozinha.
A menina foi-se acalmando e adormeceu ao lado dele.
Giulio, porém, ficou acordado durante muito tempo depois disso.
Na sua mente, a promessa ganhou uma importância enorme. Pouco a pouco começou a acreditar que tinha de ser suficientemente forte, capaz e atento para proteger a irmã de todos os perigos.
Anos mais tarde escolheu a medicina.
Estudava com afinco, trabalhava até tarde e acreditava que, quanto mais conhecimentos adquirisse, melhor poderia cuidar das pessoas que amava.
Mas Elena já tinha crescido.
Tinha os seus próprios sonhos, amigos e planos. Valorizava os cuidados do irmão, mas lembrava-lhe cada vez mais vezes que era capaz de tomar decisões sozinha.
Uma tarde discutiram, porque ela quis começar a dar aulas noutra escola, e Giulio começou imediatamente a enumerar as dificuldades possíveis.
— Percebes imenso de medicina — interrompeu-o Elena —, mas, sobre o ensino, preferia falar com pessoas que passam mais tempo entre alunos do que entre doentes.
Giulio franziu o sobrolho.
— Só quero ter a certeza de que vais ficar bem.
— Se um dia decidir casar-me, espero ao menos ser eu a escolher o noivo. Embora tu, provavelmente, vás primeiro pedir-lhe o processo clínico e uma recomendação de um médico.
O irmão riu-se, apesar da irritação.
Elena conseguia muitas vezes fazê-lo rir precisamente quando ele se levava demasiado a sério.
O seu maior sonho nesses anos era ver o mar.
Lia livros sobre cidades costeiras, observava gravuras de portos e imaginava como seria estar na praia, sentir o vento do mar e ver os navios ao longe.
Várias vezes propôs fazer uma pequena viagem com o irmão e a mãe.
Giulio adiava sempre.
Primeiro tinha de terminar um caso importante, depois apareciam novos doentes e, a seguir, outras obrigações.
Num domingo, Elena encontrou-o ao pequeno-almoço com um livro de medicina aberto.
— Já decidiste quando vamos?
— Daqui a algumas semanas já poderei dizer com mais precisão.
— Excelente. Se continuas assim, se calhar vou ter de te levar à praia depois de te reformares. E aí vais com certeza verificar se o ar do mar é adequado para médicos idosos.
Depois fechou-lhe o livro e insistiu que pelo menos um pequeno-almoço decorresse sem conversas sobre doenças.
Na primavera, um amigo da família, um jovem pintor, ofereceu-se para pintar um retrato de Elena.
Ela aceitou com enorme prazer.
Escolheu o seu xaile azul preferido, um vestido simples e um livro que tinha realmente lido.
— Não tenho intenção de que, daqui a cem anos, as pessoas pensem que passei a vida inteira a posar com volumes imponentes só por uma questão de beleza — explicou ao pintor.
O trabalho no retrato revelou-se uma verdadeira prova à paciência dele.
Elena falava sem parar, fazia perguntas e interessava-se por tudo o que ele fazia.
Quando ele lhe pedia que ficasse imóvel, ela prometia esforçar-se, desde que ele lhe contasse alguma coisa interessante.
Uma tarde, ela inventou uma pequena surpresa.
Pediu ao pintor que prendesse por trás da moldura um envelope lacrado com uma carta para Giulio. Estava convencida de que o irmão um dia ia querer pendurar o quadro no seu consultório e que, nessa altura, encontraria a mensagem.
O pintor aceitou e prometeu guardar o segredo.
Quando o retrato ficou pronto, a família reuniu-se para o ver.
Giulio observou demoradamente a irmã na tela.
— Pareces saber alguma coisa que nós não sabemos.
— Se eu te disser, vais com certeza querer uma explicação médica — respondeu ela.
Todos se riram.
O quadro ocupou um lugar de honra na sala de estar.
No verão, Elena começou a queixar-se de cansaço, dores de cabeça e mal-estar.
Ao princípio os sintomas eram vagos. Giulio supôs que se tratava de uma doença relativamente ligeira, que podia passar com repouso e vigilância.
Mas o estado dela foi-se agravando.
A febre subiu, surgiram novos sinais de infeção, e Giulio começou a suspeitar de uma doença grave, compatível com febre tifoide.
Chamou os colegas, discutiu o caso e organizou os cuidados de que dispunham.
Entre os médicos estava Carlo, um colega mais velho com muitos anos de experiência.
Carlo admitia que alguns sintomas podiam ter sido acompanhados mais cedo. Mas sublinhava que mesmo um reconhecimento mais rápido da doença não garantia um desfecho diferente, dadas as possibilidades da medicina daquele tempo.
Giulio, porém, voltava constantemente aos primeiros dias.
Revia os registos, lia os livros de medicina e pensava no que teria feito de forma diferente.
Quase não saía da cabeceira da irmã.
Certa noite, Elena reparou que ele estava sentado com um livro aberto.
— Giulio, pousa-o um bocadinho.
— Quero verificar mais uma coisa.
— E eu quero saber se ainda és capaz de ter uma conversa que não comece por sintomas.
Ele sorriu, cansado.
Pousou o livro e começou a contar-lhe um episódio engraçado do hospital, em que um jovem ajudante trocara os nomes de dois visitantes.
Elena riu-se.
Depois os dois recordaram histórias da infância.
Durante algum tempo voltaram a ser simplesmente um irmão e uma irmã que conseguem brincar e conversar.
Pouco antes de adormecer, Elena perguntou-lhe:
— E o mar? Ainda tencionas levar-me lá?
— Claro. Quando ficares boa, vamos.
— Desta vez vou querer uma data concreta. As tuas promessas já parecem receitas médicas, em que ninguém consegue decifrar o que lá está escrito.
Giulio riu-se.
Mas nos dias seguintes a doença continuou a evoluir de forma grave.
Apesar dos cuidados e dos esforços dos médicos, Elena morreu.
Depois da morte dela, Giulio caiu num profundo desespero.
Revia constantemente os sintomas, as decisões e as conversas com os colegas. Tentava descobrir o momento exato em que poderia ter evitado o que aconteceu.
Lembrava-se também da promessa que, em tempos, fizera à Elena de nove anos, depois da morte do pai.
Tinha prometido que cuidaria sempre dela.
Agora começava a acreditar que tinha quebrado a palavra mais importante da sua vida.
«Se não consegui salvar-te, é porque não te amei o suficiente.»
Certa noite, entrou na sala de estar da família.
O seu olhar caiu sobre o retrato da irmã.
O xaile azul, o livro e o sorriso estavam exatamente como se lembrava deles. Mas ele já não conseguia ver a jovem que o fazia rir constantemente.
O quadro lembrava-lhe apenas os últimos dias, a doença e a sua própria impotência.
Tirou o retrato da parede.
Virou-o e, nas costas da moldura, escreveu:
«Perdoa-me.»
Depois guardou o quadro num quarto onde raramente entrava.
Nos anos seguintes, Giulio começou a trabalhar ainda mais.
Recebia mais doentes, ficava no hospital até tarde e visitava muitas vezes pessoas que não tinham meios para pagar assistência médica.
Os colegas admiravam a sua dedicação.
Mas Giulio aceitava cada vez com mais dificuldade que existem doenças e circunstâncias cujas consequências não dependem inteiramente dele.
Se um doente faltava a uma consulta, mandava alguém procurá-lo.
Quando alguém não seguia as suas recomendações, sentia uma desilusão quase pessoal.
Carlo começou pouco a pouco a preocupar-se com ele.
Um dia encontrou-o a verificar pela terceira vez os registos de um doente cujo estado já tinha sido discutido por vários médicos.
— Giulio, se continuares a ler as mesmas notas, dificilmente o doente vai melhorar mais depressa. Mas o papel, esse, vai com certeza gastar-se.
O jovem médico riu-se, mas depressa voltou ao trabalho.
A sua vida pessoal foi-se reduzindo à casa e ao hospital.
Os amigos deixaram de o convidar para encontros, porque raramente aceitava.
A mãe preocupava-se com ele, e quando alguém lhe propunha uma viagem ou um descanso, Giulio começava logo a enumerar os doentes que precisavam de cuidados.
Nesse período encontrou várias vezes Sofia, uma professora que tinha trabalhado com Elena.
Ela lembrava-se da irmã dele como uma mulher alegre e curiosa, adorada pelos alunos.
Pouco a pouco, os dois começaram a conversar sobre livros, música e a escola.
Sofia mostrava interesse por Giulio como pessoa, e não apenas como médico respeitado.
Ele gostava da companhia dela, mas, sempre que a relação entre os dois se tornava mais próxima, começava a afastar-se.
Um dia ela convidou-o para uma pequena tertúlia literária.
Giulio prometeu ir, mas à última hora ficou no hospital, embora os colegas pudessem assumir o trabalho.
Quando voltaram a encontrar-se, Sofia perguntou-lhe:
— Afinal, queres ou não passar tempo comigo?
— Claro que quero. É só que o meu trabalho tem muita responsabilidade.
— Eu sei. Mas as relações entre as pessoas também exigem tempo. Não consigo conhecer alguém que me promete constantemente um encontro depois do próximo doente.
Giulio sentiu-se ofendido.
Mas as palavras dela fizeram-no pensar.
Alguns anos depois, deu entrada no hospital um jovem doente com uma doença infecciosa grave.
Giulio assumiu os cuidados e voltou a passar quase todo o seu tempo junto dele.
Carlo ofereceu-se para o substituir, mas ele recusou.
Tinha medo de que outro médico pudesse deixar escapar um sinal importante.
Depois de várias noites quase sem dormir, porém, foi o próprio Giulio que não reparou a tempo numa alteração no estado do doente.
Outro médico detetou-a e chamou imediatamente Carlo.
Os dois organizaram os cuidados necessários, e o doente foi ultrapassando aos poucos o período mais perigoso.
Quando percebeu o que tinha acontecido, Giulio ficou horrorizado.
Carlo chamou-o para uma conversa.
— Estás a tentar evitar todas as perdas, e já estás tão cansado que começas a criar perigos que, noutras condições, terias notado.
Giulio tentou contestar, mas Carlo continuou:
— A boa medicina exige atenção, conhecimento e a capacidade de reconhecer os próprios limites. Nenhum médico pode trabalhar no lugar de um hospital inteiro.
O caso foi analisado profissionalmente. Giulio reconheceu a sua falha e, juntamente com os colegas, discutiu como melhorar a vigilância dos doentes e a passagem de informação.
Foi uma experiência dolorosa.
Mas, aos poucos, começou a perceber que a sua ânsia de controlar tudo se tinha tornado perigosa, tanto para ele como para os doentes.
Depois de uma dessas conversas, Carlo falou-lhe de um doente que ele próprio perdera muitos anos antes.
Admitiu que passara muito tempo a analisar as suas decisões, que procurara a opinião de outros médicos e que tentara perceber o que poderia ter sido feito de forma diferente.
— Temos de reconhecer os nossos erros reais — disse ele. — Mas também temos de aceitar que a medicina tem limites. O amor por alguém próximo não nos dá poder sobre todas as circunstâncias.
Giulio ficou muito tempo calado.
Depois, pela primeira vez, contou a Carlo o quanto se culpava pela morte de Elena.
Falou dos primeiros sintomas, da promessa de infância e do medo que o fazia trabalhar até à exaustão.
Carlo ouviu-o.
Lembrou-lhe que as decisões em torno da doença da irmã mereciam uma avaliação honesta, à luz dos conhecimentos e das possibilidades da época, mas que não havia motivo para aceitar que todo o destino dela tivesse dependido apenas dele.
Depois dessa conversa, Giulio começou pouco a pouco a mudar a sua maneira de trabalhar.
Aceitava a ajuda dos colegas, formava os médicos jovens e tentava distribuir as responsabilidades de forma mais sensata.
As primeiras tentativas foram difíceis.
Quando chegava a casa mais cedo, às vezes não sabia o que fazer com o tempo livre.
Certa noite, a mãe viu-o sentado à mesa ainda antes do jantar.
— No hospital descobriram finalmente que os médicos podem comer em casa?
Giulio riu-se.
— O Carlo insiste em que eu trabalhe de forma mais sensata.
— Vou mandar-lhe uma carta de agradecimento. Pelos vistos, é a única pessoa a quem dás ouvidos, pelo menos de vez em quando.
Pouco a pouco, os dois começaram a passar mais tempo juntos.
Certa noite, a mãe tirou um álbum antigo.
Entre as fotografias encontraram Elena numa reunião de família, a rir no meio dos amigos.
A mãe começou a contar como a filha insistira para que todos tirassem uma fotografia, embora Giulio estivesse com pressa de ir trabalhar.
Depois os dois recordaram mais histórias.
Pela primeira vez em anos, Giulio riu-se enquanto falava da irmã.
Pouco depois voltou a encontrar Sofia.
Desta vez foi ele próprio que propôs encontrarem-se.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Tens a certeza de que o hospital sobrevive à tua ausência durante uma noite?
— Recebi há pouco provas bastante convincentes de que os meus colegas são capazes de se arranjar sem mim.
Os dois riram-se.
Começaram a ver-se mais vezes. Conversavam sobre livros, música e viagens, e Giulio foi descobrindo o quanto lhe fizera falta a proximidade de alguém que o conhecesse fora da profissão.
Mas continuava a evitar o quarto do velho retrato.
Um dia, a mãe mencionou que a moldura precisava de ser reparada e perguntou-lhe se gostaria que restaurassem o quadro.
Ao princípio, Giulio recusou.
Alguns dias depois, porém, entrou ele próprio no quarto fechado.
Tirou a cobertura e virou cuidadosamente o retrato.
O rosto de Elena voltou a surgir diante dele.
O xaile azul, o pequeno livro e o sorriso eram os mesmos do dia em que o pintor trouxera o quadro.
Giulio lembrou-se das brincadeiras dela durante as sessões de pose.
Quase conseguia ouvir a sua voz.
Depois virou a moldura e viu as palavras que ele próprio, em tempos, escrevera:
«Perdoa-me.»
Por um instante voltou a sentir o peso conhecido.
Mas desta vez reparou também no pequeno envelope preso na parte de cima.
Nele estava escrito o seu nome, com a letra de Elena.
Giulio soltou o envelope com cuidado.
Abriu-o.
Lá dentro havia uma carta curta.
«Querido Giulio,
Se estás a ler isto, é porque finalmente arranjaste tempo para olhar para o meu retrato. Espero que tenhas reparado na paciência com que estive sentada, embora o pintor afirme que sou o modelo mais conversador que já teve. Na minha opinião, simplesmente faltam-lhe histórias interessantes.
Prometeste levar-me a ver o mar. Decidi não esperar pela tua reforma, porque até lá serei provavelmente eu a ter de te levar.
E se voltares a adiar a viagem, ao menos chega a horas no domingo. Quero passar uma bela tarde com o meu irmão, com quem posso conversar, rir e falar de livros, antes que ele volte a partir para salvar Florença inteira.
Vou fazer o teu doce preferido, embora tenha sérias dúvidas de que o mereças depois do último atraso.
Com carinho, Elena.»
Giulio leu a carta várias vezes.
Primeiro sorriu.
Depois os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
Sentou-se junto à janela com a pequena folha na mão.
Durante tantos anos procurara uma resposta médica para a pergunta de porque não conseguira salvar a irmã. E agora encontrava uma carta escrita numa tarde perfeitamente comum, em que Elena pensava em livros, em doces, no mar e no tempo com o irmão.
Ela nunca lhe tinha pedido que fosse a pessoa capaz de evitar tudo.
Queria-o ao pé de si.
Giulio voltou a olhar para o retrato.
Pela primeira vez em muitos anos, via sobretudo a jovem sorridente do xaile azul, e não os últimos dias da sua doença.
Nas semanas seguintes mandou restaurar a moldura e voltou a pendurar o quadro na sala de estar da família.
Continuou a sentir a falta da irmã, mas, pouco a pouco, começou a falar dela também através das boas recordações.
Com a mãe recordava episódios engraçados.
Sofia falava-lhe das crianças da escola que tinham gostado tanto de Elena.
E quando Giulio falava da irmã a novos conhecidos, já conseguia começar pelos livros dela, pelos seus sonhos e pelo seu sentido de humor.
Um dia recebeu um convite para um encontro médico numa cidade costeira.
Ao princípio começou a calcular quanto trabalho ia perder.
Depois olhou para o retrato na sala de estar.
Lembrou-se da carta.
E, pela primeira vez, decidiu que o mar não ia esperar mais.
Convidou Sofia para irem juntos.
A marca simbólica mais profunda na história de Giulio começa ainda na infância, quando ele promete à irmã assustada que cuidará sempre dela.
Com os anos, essa promessa vai-se transformando na convicção de que tem de ser suficientemente forte e capaz para evitar todos os perigos.
Depois da morte de Elena, o pensamento ganha uma forma dolorosa:
«Se não te conseguir salvar, é porque não te amei o suficiente.»
Um padrão assim pode manifestar-se em alguém que viveu uma perda pesada e continua a analisar as últimas conversas e decisões. Ou em alguém que há anos assumiu o papel de salvador na família e sente culpa sempre que uma pessoa próxima tem um problema.
É importante distinguir a responsabilidade pelas nossas próprias ações da responsabilidade por todas as consequências possíveis. Podemos não reparar num sinal importante, tomar uma decisão errada e, mais tarde, arrepender-nos. Casos assim merecem uma avaliação honesta e uma lição. Mas o amor, por si só, não nos dá a possibilidade de prever e evitar tudo.
A nova promessa pode ser:
«Vou cuidar das pessoas que amo, vou assumir a responsabilidade pelas minhas próprias ações e vou aceitar que nem todas as circunstâncias dependem de mim.»
Imagina uma mulher que começa uma relação com um homem que está a atravessar um período difícil. Ele tem problemas financeiros, tensão no trabalho e relações familiares complicadas.
No início, ela apoia-o de boa vontade. Aos poucos, porém, começa a organizar-lhe quase a vida inteira — procura trabalho por ele, ajuda-o financeiramente e resolve os conflitos dele com os familiares.
Com o tempo, descobre que quase todas as conversas são dedicadas às dificuldades dele, e que os seus próprios desejos recebem cada vez menos atenção.
Noutra pessoa, o padrão de salvador pode manifestar-se através de um medo constante pelo companheiro. Se ele se atrasa ou não atende o telemóvel, a pessoa começa logo a imaginar o pior. A preocupação vai-se transformando em tentativas de controlar as decisões dele.
É também possível que, depois de uma perda, evites uma nova proximidade por teres medo de voltar a sofrer.
A história de Giulio e Sofia lembra que as relações exigem atenção mútua e a possibilidade de os dois serem eles próprios, incluindo quando sentem ansiedade ou precisam de apoio.
Talvez tenhas crescido numa família em que um dos pais estava doente ou ausente, ou em que a família passou por dificuldades sérias.
Ainda criança, começaste a cuidar dos mais novos, a ajudar em casa e a esforçar-te por não criar problemas adicionais.
Agora, adulto(a), toda a gente continua a contar contigo.
Imagina uma mulher que organiza as tarefas da família, cuida dos pais idosos, ajuda os filhos e quase nunca recusa um pedido.
Quando é ela própria que precisa de apoio, tem dificuldade em pedi-lo. Habituou-se a ser a pessoa que encontra soluções.
Noutra pessoa, o tema pode estar ligado à perda de alguém próximo, depois da qual começou a preocupar-se constantemente com os restantes membros da família.
O velho retrato convida-te a observar quando é que o cuidado começou a transformar-se numa obrigação insuportável e que responsabilidades podem ser partilhadas.
Imagina alguém a quem os amigos telefonam constantemente para pedir conselhos.
Um está a passar por uma separação, outro tem um problema no trabalho, um terceiro precisa de ajuda com uma escolha importante.
Ele ouve todos, propõe soluções e tem dificuldade em dizer que não, mesmo quando ele próprio está cansado.
Pouco a pouco, começa a preocupar-se com a ideia de que, se não atender o telefone, pode deixar alguém sozinho num momento difícil.
Outra pessoa pode estar constantemente a mediar conflitos entre amigos e sentir-se responsável quando não consegue reconciliá-los.
Mas a proximidade inclui também o direito de seres ouvido(a), de pedires ajuda ou de dizeres que, neste momento, não tens possibilidade de conversar.
Pensa em quais amizades estão construídas sobre a reciprocidade e em quais foste assumindo aos poucos o papel de quem tem de resolver tudo.
Giulio começa a trabalhar até à exaustão porque acredita que só ele consegue cuidar suficientemente bem dos seus doentes.
Uma convicção assim pode surgir em qualquer profissão.
Imagina um funcionário que assume constantemente tarefas adicionais, fica depois do horário de trabalho e tem dificuldade em delegar. Tem medo de que, se recusar, o trabalho falhe e os colegas fiquem desiludidos.
As relações financeiras também podem incluir este padrão.
Talvez estejas constantemente a ajudar familiares com dificuldades e, aos poucos, comeces a usar as tuas próprias poupanças, a adiar planos pessoais ou a assumir obrigações alheias.
Quando tentas pôr um limite, sentes-te culpado(a).
A história de Giulio mostra que a responsabilidade excessiva se pode tornar um risco, tanto para a pessoa que ajuda como para as pessoas que contam com ela.
Depois da morte de alguém próximo, a pergunta «E se eu tivesse feito alguma coisa diferente?» pode continuar a surgir durante muito tempo.
Talvez tenhas pensado que devias ter insistido noutro exame, reparado mais cedo num sintoma ou tido uma conversa que andaste sempre a adiar.
É importante observares o que sabias realmente na altura, de que possibilidades dispunhas e que circunstâncias estavam fora do teu controlo.
Giulio tinha motivos para avaliar com atenção algumas das suas decisões médicas. Mas, com o tempo, começa a ver todo o destino da irmã como um fracasso pessoal.
E a memória dela vai-se encolhendo até aos últimos dias da doença.
O velho retrato propõe-te que recordes também a pessoa para lá do período difícil — o seu carácter, as ocupações preferidas, as brincadeiras e as vivências que partilharam.
Se o sentimento de culpa for forte, prolongado ou afetar de forma significativa o teu dia a dia, uma conversa com um psicólogo ou com um especialista em luto pode ser um apoio valioso.
Quando Giulio guarda o retrato, começa aos poucos a evitar também os seus próprios sentimentos.
Durante anos cuida dos doentes, trabalha até à exaustão e deixa os seus desejos pessoais em segundo plano.
Só quando ele próprio comete uma falha séria percebe como é importante aceitar a ajuda dos outros.
E a carta de Elena lembra-lhe algo ainda mais pessoal.
A irmã precisava da atenção e do amor dele, das conversas e das gargalhadas dos dois, do simples tempo passado juntos.
É precisamente por isso que a pergunta mais importante do teu processo está ligada à pessoa que és para lá de todas as obrigações.
O que gostas de fazer? Quando foi a última vez que reservaste tempo para um desejo teu? E a quem podes permitir que te ajude, em vez de seres sempre tu a pessoa que ajuda?
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar a tua relação com o cuidado, a culpa e as tuas próprias necessidades. Podes reservar quinze ou vinte minutos por dia. Se o tema estiver ligado a uma perda pessoal dolorosa, escolhe apenas os exercícios que neste momento forem adequados para ti.
Primeira pincelada — o rosto. Descreve uma pessoa pela qual sentes uma forte preocupação ou à qual associas um sentimento de culpa. Se já morreu, recorda o seu carácter, os seus interesses e os bons momentos que partilharam. Se faz parte da tua vida hoje, anota as capacidades e os desejos dela que existem independentemente da tua ajuda.
Segunda pincelada — a promessa. Recorda quando começaste a acreditar que tens de ser sempre forte e útil. O que prometeste a ti mesmo(a) ou a outra pessoa? Essas palavras continuam a corresponder às tuas possibilidades reais?
Terceira pincelada — as mãos. Escolhe uma situação pela qual sentes culpa. O que sabias na altura e que decisões tomaste? Que circunstâncias estavam fora do teu controlo? Se encontrares um erro real, pensa no que podes aprender e se existe maneira de corrigir parte das consequências.
Quarta pincelada — a sombra. Anota os pensamentos que surgem quando não consegues ajudar alguém. São sustentados por factos concretos, ou nascem do medo? Tenta formular um olhar mais exato sobre a tua própria responsabilidade.
Quinta pincelada — o espelho. Descreve-te através de pelo menos sete qualidades, interesses ou desejos que não estejam ligados ao quanto és útil aos outros. Qual deles gostarias de desenvolver?
Sexta pincelada — a luz. Pensa na última vez em que permitiste que outra pessoa te ajudasse. Escolhe uma pequena situação em que possas partilhar uma preocupação ou aceitar apoio.
Sétima pincelada — o novo retrato. Cria o teu autorretrato simbólico através de palavras ou de um desenho. Inclui as pessoas que amas, os teus próprios sonhos e as qualidades que valorizas. Escolhe uma ação concreta que vais fazer por ti nos próximos dias.
Quando terminares a prática, observa as sete pinceladas como partes de um mesmo quadro. Pensa em como podes preservar a tua capacidade de cuidar, respeitando ao mesmo tempo as tuas próprias forças e os teus desejos.
Escolhe uma pequena moldura onde possas pôr uma fotografia, um desenho ou um texto curto.
Se quiseres honrar a memória de alguém próximo que morreu, escolhe uma imagem que te lembre a sua vida, o seu carácter e a relação entre vocês.
Se o tema estiver ligado a relações atuais, podes pôr na moldura palavras que descrevam a forma como desejas cuidar dos outros.
Por exemplo:
«Amo, ajudo e partilho a responsabilidade.»
Coloca a moldura num lugar de que gostes. Que ela te lembre que uma pessoa é muito mais do que as dificuldades que atravessa, e que o teu próprio valor é muito mais do que a capacidade de resolver os problemas dos outros.
Imagina o velho Giulio, sentado à janela da sua casa florentina. Na secretária está o pequeno bilhete de Elena e, na sala de estar da família, voltou a estar pendurado o retrato do xaile azul.
Pega numa folha de papel e começa uma carta à irmã.
«Querida Elena,
Hoje, pela primeira vez em muitos anos, quero contar-te uma coisa que não tem nada a ver com doenças nem com livros de medicina.
Sei que só por estas palavras já te ririas.
Lembras-te de como troçavas constantemente de mim por eu ser capaz de transformar qualquer jantar de família numa consulta médica? Com certeza vais gostar de saber que, ultimamente, a nossa mãe consegue cada vez mais vezes fazer-me largar o trabalho e sentar-me à mesa a horas.
Admito que o Carlo também tem mérito nisso.
Mostrou uma paciência notável até me convencer de que o hospital consegue funcionar mesmo quando eu não estou lá dentro.
Mas quero contar-te porque é que durante tanto tempo não consegui aceitar isto.
Depois da tua morte, comecei a acreditar que tinha quebrado a promessa que te fiz em tempos, quando era rapaz.
Tinha-te dito que cuidaria sempre de ti.
Quando não consegui salvar-te, comecei a perguntar-me se alguma vez tivera o direito de fazer uma promessa assim.
Revia as notas médicas, procurava os meus erros e imaginava constantemente o que poderia ter sido diferente.
Durante muito tempo acreditei que, se trabalhasse o suficiente e ajudasse cada vez mais pessoas, conseguiria reparar pelo menos parte daquilo que aconteceu.
Mas, aos poucos, deixei de viver fora do hospital.
A nossa mãe preocupava-se comigo. Os amigos deixaram de me convidar para encontros. E Sofia, que tu conhecias da escola, durante muito tempo não conseguiu perceber se eu queria sequer passar tempo com ela.
Só quando o cansaço me levou a uma falha séria no trabalho é que comecei a perceber o quanto tinha exigido de mim mesmo.
O Carlo ajudou-me a olhar para as minhas decisões com mais honestidade.
Mas foste tu quem me lembrou uma coisa que eu quase tinha esquecido.
Um dia, a nossa mãe tirou um álbum antigo e começámos a contar histórias sobre ti.
Recordámos as tuas brincadeiras, os livros, o teu xaile azul preferido e a teimosia com que insistias em fazer tudo à tua maneira.
Depois voltei a olhar para o retrato.
Encontrei a carta que tinhas deixado por trás da moldura.
Li-a e quase ouvi a tua voz.
Querias levar-me a ver o mar, que eu chegasse a horas ao jantar de domingo e que, pelo menos por um bocadinho, deixasse de pensar nos meus doentes.
Desejos tão simples.
E eu tinha-os transformado em promessas para um futuro distante.
O que mais lamento é termos perdido a viagem.
Gostava que tivéssemos estado juntos na praia e de ter visto o teu rosto quando olhasses para o mar pela primeira vez.
Com certeza ias falar sem parar dos navios e, depois, declarar que eu era obrigado a levar-te também ao porto seguinte.
Agora, finalmente, vou partir.
Recebi um convite para um encontro médico numa cidade costeira e decidi ficar mais alguns dias.
A Sofia vem comigo.
Já avisei os meus colegas e verifiquei tudo o que era necessário. Até o Carlo admitiu que, desta vez, organizei a minha ausência de forma sensata.
Vou levar a tua carta.
E quando vir o mar, vou lembrar-me do quanto querias que estivéssemos juntos num dia comum, sem eu andar sempre a correr para a tarefa seguinte.
Continuo a sentir a tua falta.
Ainda há momentos em que penso nos teus últimos dias e me pergunto o que poderia ter acontecido de forma diferente.
Mas já consigo recordar também todos os bons anos que vieram antes deles.
Foste minha irmã, minha amiga e a crítica mais severa do meu hábito de trabalhar demasiado.
É precisamente essa tua imagem viva que quero guardar.
Prometo continuar a ajudar as pessoas.
Mas vou esforçar-me também por ser um bom filho, um bom amigo e uma pessoa que arranja tempo para aqueles que ama.
E se um dia voltar a comportar-me como se fosse o único médico de Florença, vou imaginar-te a olhar para mim de sobrancelhas erguidas, a dizer-me que a cidade consegue certamente sobreviver sem a minha vigilância constante.
Com carinho,
O teu irmão Giulio.»
Se o velho retrato te fez lembrar um sentimento de culpa, uma promessa de família pesada ou o hábito de cuidar constantemente de todos, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Karma podes perguntar: «Que vivência me faz acreditar que tenho de salvar as pessoas que amo?» Em A Linhagem podes observar o papel na família em que começaste a assumir responsabilidades a mais e, em Deixar ir, a culpa que continua a influenciar a tua vida depois de uma perda difícil.
Se o tema diz respeito às relações amorosas, as salas Amor e Compatibilidade podem ajudar-te a explorar o cuidado mútuo e os limites pessoais. Em Amigo e A minha gente podes observar as relações em que todos contam contigo e as possibilidades de maior reciprocidade.
Para decisões profissionais e excesso de carga, podes continuar em A Encruzilhada e, em Dinheiro, explorar as obrigações financeiras que assumes pelos teus. A sala Dons pode ajudar-te a dar atenção a capacidades e desejos que deixaste de lado.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica de regressão «A porta para uma vida esquecida».
Muitos anos depois da morte de Elena, Giulio chegou com Sofia a uma pequena cidade costeira.
Fora convidado para um encontro médico, mas, pela primeira vez, decidiu ficar alguns dias também para si.
Logo de manhã, os dois saíram do hotel e seguiram em direção ao porto.
O ar cheirava a sal, pelas ruas cruzavam-se mercadores e viajantes, e as vozes distantes dos marinheiros misturavam-se aos poucos com o som das ondas.
Quando chegaram à beira-mar, Giulio parou.
Diante dele estendia-se o mar.
A luz do sol brilhava sobre a água, ao longe viam-se navios, e pelo passeio de pedra passeavam pessoas.
Sofia reparou que ele estava comovido.
— Estás a pensar na Elena, não estás?
Ele acenou com a cabeça.
— Ela queria tanto ver o mar. Eu prometia-lhe que a levaria quando tivesse mais tempo.
— Ela contou-me — respondeu Sofia. — Na escola, gostava de falar às crianças de cidades distantes e de navios.
Giulio tirou do bolso a pequena folha amarelada.
Desdobrou-a com cuidado.
Leu algumas linhas da carta da irmã e sorriu.
— Se ela me pudesse ver agora, diria com certeza que me atrasei umas quantas décadas.
Sofia deu-lhe o braço.
— E provavelmente ia querer que a levasses ao porto seguinte.
Os dois riram-se.
Continuaram pelo passeio marítimo.
Passavam por barcos, pequenas lojas e cafés, e Giulio, pela primeira vez em muitos anos, não tinha pressa de voltar ao trabalho.
Algum tempo depois, Sofia sugeriu que se sentassem num pequeno café com vista para a água.
Giulio olhou para o relógio.
Ela reparou imediatamente na expressão conhecida.
— Não me digas que já estás a pensar no encontro médico de amanhã.
Ele sorriu.
— Na verdade, lembrei-me de que tenho umas notas para rever.
— Claro. O mar esperou tantos anos, de certeza que pode esperar mais umas horas.
Giulio riu-se.
Depois guardou o relógio.
— Sabes, acho que as notas podem esperar até à noite.
Sofia olhou para ele surpreendida.
— Isto tem de ficar registado. Hoje a medicina deu um grande passo em frente.
Sentaram-se junto à janela.
Pediram café e um doce, e conversaram sobre livros e sobre lugares que queriam visitar.
A certa altura, Sofia perguntou-lhe:
— O que gostavas que fizéssemos amanhã, depois do encontro?
Giulio olhou para o porto.
— Podemos apanhar um barco. Apetece-me ver a costa a partir do mar.
— Excelente ideia.
Ele sorriu.
— A Elena teria insistido no mesmo.
Depois acrescentou:
— Só que, provavelmente, primeiro ia querer saber se o capitão tinha experiência suficiente, já que não tencionava deixar-me examinar a tripulação inteira antes da partida.
Sofia riu-se.
A tarde passou agradavelmente.
No dia seguinte, Giulio participou no encontro médico, conversou com os colegas e partilhou a sua experiência profissional.
Quando a parte oficial terminou, vários médicos propuseram continuar a discussão de casos complexos.
Giulio ficou para o mais importante e depois pediu desculpa.
— Tenho um compromisso.
Um dos médicos mais novos olhou para ele surpreendido.
— Não fica mais um bocadinho, doutor?
— Hoje vou cumprir uma promessa a tempo.
Saiu da sala e dirigiu-se ao porto.
Sofia já esperava por ele junto a um pequeno barco.
Quando o viu chegar exatamente à hora combinada, sorriu.
— Quase não consigo acreditar.
— Estou a adquirir novas capacidades — respondeu ele.
Subiram para o barco.
Este deixou lentamente o porto, e a cidade foi ficando para trás.
Vistas da água, as casas pareciam diferentes. A luz deslizava pelas fachadas, as gaivotas voavam sobre o barco, e a costa distante ganhava as cores suaves da tarde.
Giulio tirou o bilhete de Elena.
Olhou para ele por um instante e guardou-o de novo com cuidado.
Depois olhou para o mar.
Não podia fazer voltar o tempo e trazer a irmã nesta viagem. A perda dela ficaria sempre como parte da sua vida.
Mas agora já conseguia recordar toda a sua história — a criança que em tempos tivera medo de ficar sozinha, a jovem que adorava livros, ensinar e brincar, e a irmã que queria que o irmão tivesse mais tempo para as alegrias simples.
Sofia aproximou-se e pegou-lhe na mão.
— É bonito, não é?
Giulio acenou com a cabeça.
— Muito.
Depois sorriu.
— Sabes o que estou a pensar?
— Que o capitão talvez precise de uma consulta médica?
Ele riu-se.
— Que gostava que voltássemos a viajar.
Sofia sorriu, e os dois continuaram a olhar para a costa.
O barco afastava-se do porto, e diante deles abria-se ainda muita água.
Pela primeira vez em anos, Giulio não andava à procura do que tinha de consertar.
Simplesmente estava ali, com a pessoa ao seu lado, e alegrava-se com o dia.
Se escolheste o velho retrato, desejo-te pessoas com quem possas partilhar tanto as tuas alegrias como as tuas preocupações, forças para tudo o que é importante e sabedoria para aceitar ajuda quando precisas dela. Que as memórias das pessoas que amas guardem também o riso, as conversas e as boas vivências que tiveram juntos, e que a tua própria vida continue a encher-se de amizades, de amor e de novos sonhos. Desejo-te que encontres tempo para as viagens que há muito esperam a sua vez. E se um dia te encontrares diante de um mar que prometeste ver há muitos anos, aproveita-o. Só tem cuidado para não começares a verificar se toda a gente na praia está bem — provavelmente a maioria foi para lá simplesmente com a intenção de descansar.
Quanto mais precisas de aprender antes de te permitires mostrar aquilo que já sabes fazer? E se alguém descobrir um erro no teu trabalho, o que vais realmente perder — o respeito dessa pessoa ou apenas a ideia de que tens de ser sempre impecável?
Ao arrumarem uma antiga biblioteca veneziana, encontram um volume pesado, com a encadernação de couro estalada, os cantos gastos e dois fechos de metal. Na capa distingue-se uma inscrição em latim quase apagada e, por baixo dela, está desenhado um círculo rodeado por sete estrelas.
O livro contém observações astronómicas, desenhos geométricos e tabelas cheias de correções. Quase todas as páginas estão cobertas de notas acrescentadas com tintas diferentes. Em certos sítios, frases inteiras foram riscadas e, nas margens, veem-se esclarecimentos escritos com uma letra tão miúda que uma pessoa começa a suspeitar se o autor não teria a intenção de aproveitar também o espaço entre as próprias letras.
O último terço do volume, porém, está em branco.
Entre duas folhas repousa uma pequena flor azul seca e, na última página escrita, ficaram registadas, numa letra grande, as palavras:
«Se alguém está a ler isto, é porque finalmente tive coragem.»
Por baixo delas distinguem-se caligrafias diferentes. Uma pessoa escreveu uma dedicatória, outra corrigiu um cálculo e, mais tarde, alguém acrescentou uma pergunta com uma data e uma breve descrição de uma observação.
Quem é o autor deste livro invulgar? Porque passou tantos anos a fazer correções antes de permitir que os outros o lessem? E o que tem a pequena flor azul a ver com a astronomia?
Confesso que os livros antigos despertam sempre a minha curiosidade. Sobretudo se forem suficientemente pesados para exigirem uma prateleira só para eles e tiverem fechos, como se escondessem informações que devem ser guardadas de qualquer leitor ocasional. E se ainda por cima descubro muitas correções, começo a sentir uma certa simpatia pelo autor. É evidente que também ele conhecia aquele estado peculiar em que uma pessoa decide rever apenas um parágrafo e, três horas depois, já reescreveu metade do livro e pergunta-se porque é que começou sequer.
O teu processo kármico simbólico está ligado ao conhecimento, às capacidades, ao medo do julgamento dos outros e ao desejo de estares tão bem preparado(a) que ninguém consiga encontrar uma falha no teu trabalho.
Talvez escrevas, pintes, cries objetos bonitos ou tenhas competências profissionais que os outros valorizam, mas estás sempre a encontrar um novo motivo para adiar o momento de as mostrar. É possível que há muito tempo queiras começar uma atividade própria, candidatar-te a um determinado emprego ou apresentar um projeto, mas ainda estejas à espera de terminar mais uma formação.
A história vai levar-nos a Veneza, em 1577, quando um cometa brilhante atrai a atenção dos estudiosos de toda a Europa. Um astrónomo terá a oportunidade de partilhar as suas valiosas observações, mas terá tanto medo de um possível erro que deixará passar o momento certo. Vamos também conhecer a sua irmã Beatrice, que recolhe as histórias de mulheres comuns, e o jovem Tommaso, que acredita que o conhecimento deve chegar também às pessoas sem formação universitária.
E a pequena flor azul vai levar-nos ao tempo em que o futuro estudioso ainda era um rapaz que adorava fazer perguntas, sem se preocupar com a forma como era visto pelos outros.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através do livro antigo, podes observar a tua relação com a aprendizagem, com os erros e com as capacidades que ainda não te atreves a mostrar. As imagens que surgirem são associações criativas e, por si só, não provam memórias de uma vida passada real. Podes alterar qualquer cena ou terminar o exercício quando quiseres.
Imagina um corredor de pedra num edifício antigo. Nas paredes estão pendurados mapas, o ar cheira a papel e a tinta e, ao fundo do corredor, vê-se uma porta com uma pequena estrela no puxador. Abre-la e entras numa biblioteca espaçosa. Entre as prateleiras há uma mesa sobre a qual repousam três livros.
A primeira página — a criança curiosa. Abre o primeiro livro e imagina uma criança que observa o mundo com enorme interesse. Talvez apanhe pedrinhas, desenhe, faça perguntas, desmonte objetos ou se deixe levar por histórias. Quem a encoraja? O que lhe traz alegria? Imagina-a naqueles anos em que ainda não se preocupa se os outros vão achar as suas perguntas tolas.
A segunda página — o olhar dos outros. A criança já cresceu e, um dia, tem a oportunidade de mostrar o que aprendeu. Durante a apresentação comete um erro ou recebe um reparo áspero. Como reage? De que palavras se lembra? Pensa se, depois desse episódio, começa a preparar-se com mais cuidado ou se, aos poucos, decide que é mais seguro nem sequer mostrar o seu trabalho.
A terceira página — os três livros. Volta à mesa. No primeiro livro está tudo aquilo que a pessoa já sabe, o segundo está cheio de erros e correções e o terceiro tem folhas em branco. Qual mostrarias aos outros? De qual terias vergonha? O que muda se aceitares que os três fazem parte da tua experiência?
A quarta página — o primeiro leitor. Imagina uma pessoa que quer aprender algo contigo. Ela abre o livro, faz uma pergunta e aponta para um sítio que não compreende. O que sentes? Consegues explicar-lhe como chegaste ao que está escrito, incluindo as perguntas que ainda estás a investigar?
A quinta página — o encontro com a criança. Na biblioteca volta a aparecer a criança da primeira cena. Ela folheia os teus livros com interesse e faz uma pergunta para a qual ainda não sabes a resposta. Imagina que os dois começam a procurá-la juntos. O que gostarias de dizer a essa criança sobre todos os anos de aprendizagem?
A sexta página — o livro com o teu nome. Sobre a mesa está um novo volume. Na primeira página está registado um projeto, um talento ou um desejo da tua vida atual. Observa o que já fizeste e o que continuas a adiar. Depois escreve um passo sensato que possas dar nos próximos dias.
Traz a tua atenção de volta ao presente e anota qual foi a cena que mais te impressionou.
A pergunta que fica: «Que conhecimento ou capacidade minha continua à espera de autorização para ser usado e de quem é que, na verdade, espero essa autorização?»
Veneza, 1577. Pelos canais passavam barcos carregados de mercadorias e de livros, as tipografias preparavam novas edições e os livreiros conversavam com estudiosos, mercadores e viajantes. Entre as obras mais procuradas havia livros de matemática, geografia, medicina e astronomia.
Ao fim da tarde, os amantes das observações celestes subiam a terraços e telhados com quadrantes, astrolábios e outros instrumentos. As discussões sobre o movimento dos corpos celestes prolongavam-se muitas vezes durante anos, porque uma nova observação podia pôr em dúvida uma conclusão aceite durante muito tempo.
Numa casa pequena, perto das tipografias, vivia um estudioso de trinta e oito anos chamado Lorenzo Bellini.
O pai era encadernador e, desde a infância, Lorenzo passava horas no meio de livros, couro, papel e tinta. Observava como as folhas soltas se transformavam em volumes capazes de chegar a pessoas em cidades distantes.
Mas as suas primeiras memórias da curiosidade estavam ligadas à mãe.
Ela não tivera a possibilidade de estudar durante muito tempo, mas adorava a natureza e encorajava constantemente os filhos a observar o mundo. Nos dias bonitos, levava Lorenzo e a irmã mais nova, Beatrice, para fora da cidade, mostrava-lhes plantas e contava-lhes como as estações mudavam.
Quando as crianças faziam uma pergunta para a qual ela não sabia a resposta, costumava propor:
— Vamos procurar juntos.
Numa primavera, Lorenzo colheu uma pequenina flor azul e ofereceu-a à mãe.
Ela colocou-a entre as páginas de um livro.
— Vou guardá-la — prometeu.
Depois da morte dela, muitos anos mais tarde, Lorenzo encontrou a flor nos velhos livros da família e guardou-a entre as suas próprias notas.
Para ele, era uma recordação do tempo em que cada descoberta lhe trazia alegria.
Ainda jovem, partiu para estudar em Pádua.
Era capaz, trabalhador e orgulhoso dos seus conhecimentos. Gostava especialmente da matemática e dos cálculos astronómicos.
Mas, durante uma apresentação perante um professor e um grupo de estudantes, cometeu um erro numa tabela na qual trabalhara durante muito tempo.
O professor descobriu a imprecisão e corrigiu-o diante de todos, num tom áspero.
Alguns estudantes riram-se.
Um deles começou mais tarde a chamar-lhe «o grande astrónomo que não consegue contar as suas próprias estrelas».
Lorenzo sentiu-se humilhado.
O erro era real e tinha de ser corrigido. Mas a forma como o professor o apontou deixou no jovem uma recordação dolorosa.
A partir desse dia, começou a verificar cada um dos seus cálculos vezes sem conta.
Aos poucos, tornou-se extremamente cuidadoso. Descobria imprecisões que os outros deixavam escapar e ganhou a reputação de estudioso competente.
Mas, juntamente com a capacidade de verificar, surgiu também o medo de mostrar o seu próprio trabalho.
Nos seus pensamentos formou-se uma convicção:
«Se alguém encontrar um erro em mim, vai perceber que não mereço respeito.»
Anos mais tarde, regressou a Veneza e começou a trabalhar com tipógrafos e editores.
Revia textos científicos, corrigia tabelas e discutia questões matemáticas com outros estudiosos.
Sonhava criar um livro seu, com observações astronómicas, explicações e métodos úteis para os jovens que quisessem estudar o céu.
Aos poucos, reuniu uma enorme quantidade de notas.
Mas, sempre que se aproximava do fim, descobria uma nova questão que, na opinião dele, tinha forçosamente de ser resolvida.
O manuscrito ia crescendo.
Os capítulos tornavam-se cada vez mais pormenorizados, as tabelas eram corrigidas vezes sem conta e as últimas páginas continuavam em branco.
Na mesma casa vivia também a sua irmã Beatrice.
Depois da morte do marido, voltara para junto do irmão e começara a ajudar na livraria de um parente.
Tinha um espírito prático, adorava conversar e raramente sentia vontade de transformar cada pergunta simples numa investigação prolongada.
Quando um cliente perguntava por um livro, Beatrice preferia perceber o que ele queria ler, em vez de lhe contar toda a história da arte tipográfica.
Estava convencida de que o irmão seria capaz de fazer a segunda coisa com enorme prazer.
Uma noite, voltou a encontrá-lo debruçado sobre o manuscrito.
— Há quantos anos estás a escrever esse livro?
— O trabalho ainda exige mais algumas verificações.
Beatrice olhou para a pilha de folhas.
— Espero que as estrelas sejam pacientes. Senão, vão pôr-se antes de terminares o primeiro capítulo.
Lorenzo riu-se.
— Em breve vou preparar o texto definitivo.
— Ótimo. Essa resposta já começa a parecer-me o fenómeno astronómico mais constante de Veneza.
Mas Beatrice também tinha o seu sonho.
Na livraria, encontrava todos os dias mulheres com histórias interessantes — viúvas, professoras, comerciantes, artesãs e mães que cuidavam das suas famílias em circunstâncias difíceis.
Aos poucos, começou a registar os relatos delas.
Queria criar um pequeno livro que preservasse a sua experiência.
Um dia, decidiu mostrar as primeiras páginas a Lorenzo.
Ele pegou no manuscrito, sentou-se à mesa e, quase de imediato, começou a assinalar repetições, imprecisões e frases que, na sua opinião, precisavam de ser reescritas.
Beatrice observou-o durante algum tempo.
Depois tirou-lhe as páginas.
— Pedi-te que lesses as histórias porque queria perceber se eram interessantes. E tu, logo na primeira página, começaste a corrigir-me, como se eu tivesse confundido o movimento dos corpos celestes.
— Estou a tentar ajudar-te.
— Eu sei. Mas podias primeiro ler aquilo que quero contar.
Lorenzo sentiu-se ofendido.
A exatidão era importante para ele e acreditava sinceramente que a irmã devia corrigir os pontos fracos.
Mas, quando ela guardou as folhas, lembrou-se da expressão do professor em Pádua e do riso dos estudantes.
Por um instante, perguntou-se se ele próprio não teria agido de forma semelhante.
Pouco depois, na tipografia, conheceu um aprendiz de dezassete anos chamado Tommaso.
O rapaz era filho de um artesão pobre e não tinha possibilidade de ter uma formação universitária.
Mas adorava a matemática e a astronomia.
Depois do trabalho, folheava muitas vezes os livros que estavam a ser preparados para impressão e fazia imensas perguntas.
Aos poucos, Lorenzo começou a ensiná-lo.
Mostrava-lhe como se usavam os instrumentos, como se registavam as observações e como se verificavam os cálculos.
Tommaso era aplicado e não tinha vergonha de admitir quando não percebia alguma coisa.
Um dia, perguntou:
— Mestre, quanto tempo tem uma pessoa de estudar antes de ter o direito de fazer perguntas?
— As perguntas devem ser bem pensadas.
Tommaso ficou pensativo.
— E como é que uma pessoa que ainda não sabe o suficiente pode perceber de antemão quais são as perguntas certas?
Lorenzo esteve para lhe dar uma explicação severa.
Depois ficou a pensar.
Na verdade, o rapaz tinha razão.
Tommaso sonhava um dia criar um pequeno livro com explicações acessíveis para principiantes. Acreditava que as pessoas sem formação universitária também podiam aprender a observar o céu e a verificar alguns dados básicos.
Lorenzo gostava do entusiasmo dele.
Mas, quando o aluno pediu para ler o grande manuscrito, o mestre recusou.
— Vou mostrar-to quando estiver terminado.
No outono de 1577, surgiu sobre a Europa um cometa brilhante.
O fenómeno celeste despertou um interesse enorme. Nas praças, as pessoas discutiam se ele anunciava mudanças e desgraças, e os estudiosos tentavam determinar a sua posição e o seu movimento.
Lorenzo começou a fazer observações em todas as noites limpas.
Subia ao terraço com os seus instrumentos, registava a posição do cometa em relação às estrelas conhecidas e comparava os resultados.
Tommaso ajudava-o.
Levava a lanterna e as notas e fazia perguntas.
Às vezes, Beatrice aparecia com uma bebida quente.
— Espero que o cometa fique mais uns anos, porque provavelmente vais precisar pelo menos desse tempo para acabar as verificações.
— Um fenómeno destes exige atenção — respondia Lorenzo.
— Concordo plenamente. Só tenta partilhar as observações antes de o cometa se ir embora de vez.
Algumas semanas depois, Lorenzo recebeu uma carta de um estudioso de Pádua.
Este desejava comparar os dados de diferentes cidades e pedia para receber as tabelas e as notas dele.
Sublinhava expressamente que até as observações incompletas podiam ser úteis, se fossem acompanhadas de uma descrição clara dos métodos e das condições utilizados.
Lorenzo sentiu uma enorme emoção.
Finalmente tinha a oportunidade de participar numa discussão científica séria.
Preparou as tabelas e escreveu uma resposta.
Mas, quando reparou em diferenças entre as suas medições e os dados de outros estudiosos, começou a ficar preocupado.
Verificou os cálculos mais uma vez.
Depois outra vez.
Tommaso aconselhou-o a enviar a parte segura e a indicar que pontos ainda precisavam de ser verificados.
Beatrice lembrou-lhe que o homem de Pádua provavelmente queria os dados enquanto o cometa ainda podia ser observado.
Lorenzo, porém, continuava a adiar.
Sempre que se preparava para selar a carta, lembrava-se da humilhação da juventude.
Algumas semanas depois, chegou uma nova obra com observações do cometa, já apresentadas por outro estudioso.
Parte das conclusões coincidia com as de Lorenzo.
Noutros pontos, ele reparou em imprecisões que poderia ter ajudado a esclarecer.
Por um instante, sentiu satisfação com o seu próprio trabalho.
Depois percebeu que tinha perdido a oportunidade de participar na discussão a tempo.
Tommaso perguntou-lhe porque não enviava os seus dados pelo menos agora.
— O momento já passou — respondeu Lorenzo. — Vou preparar uma obra mais extensa.
Mas os anos continuaram a passar.
O grande manuscrito enchia-se de novos capítulos e correções.
Cada nova edição levava Lorenzo a verificar outra vez as suas velhas tabelas.
Quando um editor mostrava interesse, o estudioso prometia preparar o livro dentro de alguns meses.
Mas esse tempo nunca era suficiente.
Entretanto, Beatrice continuou a trabalhar nos seus relatos.
Encontrou ajuda junto de pessoas com experiência em tipografia e, aos poucos, preparou uma pequena edição.
Quando o livro saiu, tinha algumas gralhas de impressão e textos que podiam ter sido ainda mais desenvolvidos.
Mas em breve começaram a chegar cartas de leitores.
Uma mulher agradeceu a Beatrice por ter preservado a história da sua mãe.
Quando a irmã lhe mostrou a carta, Lorenzo sentiu uma estranha mistura de alegria e desconforto.
O trabalho dela já estava a chegar às pessoas.
E o dele continuava fechado no armário.
Tommaso também estava a progredir.
Depois de terminar a aprendizagem na tipografia, começou a trabalhar com edições científicas e a preparar cada vez mais a sério um livro seu para principiantes.
Um dia, voltou a pedir para ver as antigas observações do cometa.
— Algumas têm mais de dez anos — lembrou ele.
— É precisamente por isso que tenho de as verificar mais uma vez.
— Mas eu quero perceber também como trabalhava naquela altura. Até os pontos em que cometeu imprecisões podem ser úteis.
Lorenzo fechou o livro.
Teve medo de que o aluno encontrasse um erro e perdesse o respeito por ele.
Algum tempo depois, Tommaso recebeu uma proposta para trabalhar numa tipografia em Pádua.
Antes de partir, propôs a Lorenzo prepararem uma edição conjunta.
Queria combinar a experiência dele com explicações acessíveis para pessoas que estavam apenas a começar a estudar astronomia.
Lorenzo voltou a recusar.
— O manuscrito ainda precisa de trabalho.
Tommaso ficou muito tempo a olhar para ele.
— Estou-lhe grato por tudo o que aprendi. Mas não quero continuar à espera de autorização para usar os meus conhecimentos.
O mestre franziu o sobrolho.
— A exatidão é importante, Tommaso.
— Eu sei. O senhor ensinou-me a procurar a verdade. Mas nunca me deixou ver como é que uma pessoa a procura quando ela própria não tem a certeza.
Depois acrescentou:
— Aprendi tanto consigo, e o mais importante tive de descobrir sozinho — que uma pessoa pode continuar mesmo depois de ter errado.
As palavras feriram Lorenzo.
Tentou explicar como é perigoso uma pessoa precipitar-se a publicar.
Mas Tommaso já tinha tomado uma decisão.
Agradeceu-lhe e foi-se embora.
Nos meses seguintes, a biblioteca ficou invulgarmente silenciosa.
Lorenzo continuava a trabalhar, mas lembrava-se muitas vezes das perguntas do aluno.
Passado algum tempo, recebeu uma carta de Pádua.
Tommaso contava que estava a preparar a sua primeira edição.
Ficaria feliz se um dia recebesse as observações do seu mestre, mas não ia continuar a adiar o seu próprio trabalho.
Lorenzo leu a carta várias vezes e guardou-a sem responder.
Pouco depois, chegou à livraria de Beatrice o primeiro livro impresso de Tommaso.
Lorenzo pegou nele e começou a ler.
Logo no início, encontrou algumas imprecisões.
Escreveu uma carta pormenorizada em que apontava todos os erros.
Sem se aperceber, usou quase o mesmo tom severo com que, em tempos, o professor de Pádua o humilhara.
Esperava que Tommaso ficasse envergonhado ou começasse a justificar-se.
Mas a resposta surpreendeu-o.
O jovem autor agradecia a leitura atenta, reconhecia os erros reais e explicava como os ia corrigir.
Contava também que já tinha recebido cartas de leitores que usavam o livro para começar as suas próprias observações.
Algumas das perguntas deles tinham-no ajudado a perceber que explicações precisava de desenvolver.
Lorenzo ficou muito tempo a olhar para a carta que tinha nas mãos.
Pela primeira vez, via com tanta clareza uma pessoa que cometera um erro, o reconhecera e continuava a trabalhar sem encarar a correção como uma humilhação.
Pouco depois, Beatrice voltou a pedir-lhe que lesse um dos seus relatos.
Desta vez, Lorenzo começou com outra pergunta:
— O que queres contar e a quem se destina a história?
Ela olhou para ele, surpreendida.
Explicou-lhe a sua ideia.
Lorenzo leu o texto todo antes de pegar na pena para as correções.
Quando sugeriu algumas alterações, Beatrice perguntou-lhe se, por acaso, não se estava a sentir mal.
— Há anos que não te via ler uma página inteira antes de começares a corrigir.
Ele riu-se.
Ambos se sentiram muito melhor depois da conversa.
Os anos continuaram a passar.
Lorenzo ia envelhecendo, a vista cansava-se-lhe mais depressa e o grande manuscrito continuava à espera no armário.
Uma noite, Beatrice voltou a encontrá-lo debruçado sobre o livro.
— Se continuas a guardá-lo com tanto zelo, em breve vais ter de deixar um testamento com instruções sobre qual dos bisnetos terá autorização para ler o primeiro capítulo.
Lorenzo riu-se.
Mas, desta vez, as palavras dela fizeram-no pensar.
Depois de ela sair, começou a folhear as velhas notas.
Chegou às observações de 1577.
Lembrou-se das noites no terraço, do cometa brilhante, das perguntas de Tommaso e das piadas da irmã.
Depois reviu os capítulos posteriores.
Descobriu que parte das observações continuava a ser valiosa, outras estavam ultrapassadas e algumas conclusões tinham de ser revistas.
O livro nunca ia ter todas as respostas.
Quanto mais conhecimento surgia, mais perguntas novas apareciam.
Enquanto folheava as páginas, a pequena flor azul caiu de entre as folhas.
Lorenzo apanhou-a com cuidado.
Lembrou-se do passeio de primavera com a mãe, quando era criança, e da maneira como ela se alegrava com as perguntas dele.
Nunca tinha vergonha de admitir que não sabia alguma coisa.
Em vez disso, propunha que procurassem a resposta juntos.
Lorenzo ficou muito tempo a olhar para a flor seca.
Ao longo dos anos, aprendera tanto sobre o céu, mas, aos poucos, começara a sentir mais medo das correções dos outros do que alegria com as novas descobertas.
Na manhã seguinte, escreveu uma carta a Tommaso.
Convidou-o a regressar a Veneza, porque queria que os dois revissem o velho manuscrito e decidissem que partes podiam ser usadas numa futura edição.
Desta vez, admitiu que precisava de ajuda.
Algumas semanas mais tarde, Tommaso chegou.
Encontrou Lorenzo na biblioteca e, em cima da mesa, estava o grande livro.
Aberto.
— Então finalmente vou ter autorização para o ler? — perguntou ele, a sorrir.
— Sim. Mas provavelmente vais encontrar erros.
— Assim espero. Senão, em que é que lhe vou ser útil?
Os dois riram-se.
O trabalho deles prolongou-se durante meses.
Reviam as velhas tabelas, comparavam as observações e separavam as partes que podiam ser publicadas com explicações claras.
Algumas hipóteses caíram.
Outras foram assinaladas como incertas.
Em determinados pontos, deixaram perguntas para investigações futuras.
No início, Lorenzo sentia desconforto sempre que Tommaso descobria uma imprecisão.
Mas, aos poucos, começou a gostar das conversas entre os dois.
Uma tarde, tirou a flor azul e falou ao aluno da sua mãe.
Explicou como ela o encorajara a observar a natureza e a fazer perguntas.
Tommaso ouviu com interesse.
— É precisamente por isso que quero criar livros para pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar na universidade — disse ele. — A curiosidade não pertence apenas aos estudiosos.
Lorenzo sorriu.
Com o tempo, os dois prepararam uma pequena edição impressa com observações, tabelas e explicações selecionadas.
No prefácio, Lorenzo descreveu as condições em que os materiais tinham sido recolhidos, indicou as limitações dos métodos utilizados e agradeceu a Tommaso as perguntas e as correções.
O livro não lhe trouxe grande fama.
Alguns estudiosos acolheram as conclusões com interesse, outros contestaram-nas e outros ainda usaram os dados nas suas próprias investigações.
Mas, quando recebeu uma carta de um jovem professor que lhe agradecia as explicações claras, Lorenzo sentiu uma alegria que há muito tempo não conhecia.
Os seus conhecimentos eram finalmente úteis a pessoas que ele nunca tinha conhecido.
Uma noite, abriu o velho manuscrito na última página escrita.
Pegou na pena e escreveu:
«Se alguém está a ler isto, é porque finalmente tive coragem.»
Por baixo das palavras, pôs o seu nome.
Mais tarde, permitiu que Tommaso acrescentasse uma nota com a correção de uma das velhas tabelas.
Guardou a flor azul entre as folhas e fechou o livro.
Mas, desta vez, não o fechou à chave no armário.
Deixou-o em cima da mesa, onde qualquer uma das pessoas com quem trabalhava o podia ler.
O voto simbólico de Lorenzo nasce depois da humilhação em Pádua.
O professor descobre um erro real, mas a forma como o aponta leva o jovem estudante a começar a associar cada imprecisão ao seu próprio valor.
«Se alguém encontrar um erro em mim, vai perceber que não mereço respeito.»
Aos poucos, o desejo de exatidão transforma-se em medo de ser avaliado.
Lorenzo verifica, corrige e completa, mas permite cada vez menos que os outros vejam o seu trabalho.
Um padrão semelhante pode surgir depois de uma crítica dolorosa, de uma humilhação pública ou de uma educação familiar em que os erros eram recebidos com uma atitude demasiado severa.
Talvez também tu te esforces por estar tão bem preparado(a) que ninguém encontre motivo para te corrigir. Ou sintas desconforto em admitir que ainda não sabes a resposta a uma determinada pergunta.
A exatidão e a responsabilidade profissional continuam a ser importantes, sobretudo quando o trabalho afeta a saúde, a segurança, as finanças ou os direitos de outras pessoas.
Mas, nos projetos criativos e pessoais, muitas vezes podes começar com um passo pequeno e bem preparado e continuar a desenvolver as tuas capacidades através da experiência e do feedback.
A nova promessa pode ser:
«Vou aprender, verificar e corrigir os meus erros, sem medir o meu próprio valor através deles.»
Imagina uma mulher que, durante anos, ajuda os amigos a organizar eventos, a preparar documentos ou a criar objetos bonitos.
Toda a gente lhe diz que é muito boa.
Mas, quando alguém sugere que transforme essa capacidade numa atividade profissional, ela começa logo a enumerar os motivos pelos quais ainda não está suficientemente preparada.
Outra pessoa pode pintar, escrever ou tocar, mas comparar as suas primeiras tentativas com as obras de pessoas que trabalham na área há décadas.
Aos poucos, vai juntando pastas com materiais que ninguém viu alguma vez.
Se isto te é familiar, pergunta a ti mesmo(a) que pequena parte do teu trabalho poderias mostrar a uma pessoa de confiança. Talvez seja precisamente o olhar dos outros que te vai ajudar a reparar num valor que tu próprio(a) subestimas.
Imagina uma pessoa que quer candidatar-se a um emprego melhor.
Tem experiência e cumpre a maioria dos requisitos, mas, quando lê o anúncio, só vê as competências que ainda não domina por completo.
Decide primeiro terminar uma nova formação.
Depois dela, encontra mais um motivo para esperar.
Outra pessoa está a preparar um negócio próprio, mas está sempre a mudar o site, o logótipo, as descrições e os preços. Tem medo de que, se mostrar o projeto demasiado cedo, os clientes reparem nas falhas.
Aos poucos, a preparação começa a consumir dinheiro e tempo.
Em algumas profissões são realmente necessárias qualificações, licenças e verificações cuidadosas. Mas, em muitos projetos, existe a possibilidade de apresentares uma parte limitada e bem verificada do teu trabalho e de a desenvolveres de acordo com o feedback real.
A história de Lorenzo mostra também o preço do adiamento — as suas úteis observações sobre o cometa ficam na gaveta enquanto o tempo da investigação conjunta passa.
Talvez desejes uma relação séria, mas acredites que primeiro tens de alcançar determinados objetivos.
Queres melhorar a tua situação financeira, desenvolver a tua carreira, mudar a tua aparência ou tornar-te muito mais confiante.
Parte destes desejos pode ser importante.
Mas, se surge constantemente uma nova condição, o amor transforma-se aos poucos numa recompensa que achas que tens de merecer.
Noutra pessoa, o medo manifesta-se no silêncio sobre os sentimentos.
Prepara mentalmente uma conversa, procura as palavras perfeitas e está sempre a adiar a declaração, porque tem receio da possível resposta.
E, quando já tem um parceiro, pode sentir desconforto em dizer «Não sei», em pedir um conselho ou em admitir que errou.
A história de Lorenzo lembra que a intimidade se desenvolve também através da capacidade de sermos vistos nos momentos de hesitação.
Imagina uma criança que costuma ter notas excelentes.
Um dia corre-lhe pior e o pai repreende-a diante dos outros.
O rapaz sente vergonha e, aos poucos, começa a preocupar-se mais com os possíveis erros do que a sentir alegria em aprender.
Já adulto, pode continuar a preparar-se em excesso, a evitar novos projetos e a encarar cada crítica como prova de que não é suficientemente capaz.
Outra pessoa pode ter crescido numa família em que os adultos raramente admitiam não saber alguma coisa. Cada conversa transformava-se rapidamente numa discussão sobre quem tinha razão.
A mãe de Lorenzo mostra um exemplo diferente.
Encoraja os filhos a observar o mundo e, quando não sabe a resposta, propõe que a procurem juntos.
Pensa no que aprendeste sobre os erros com a tua família e quais dessas ideias queres manter.
Imagina uma pessoa que há anos estuda um determinado tema e sabe muito sobre ele, mas que, quando os amigos começam a conversar, prefere ficar calada.
Tem receio de que, se cometer uma imprecisão, os outros comecem a duvidar das suas capacidades.
Outra pode escrever, pintar ou tocar em segredo, sem que nenhum dos seus próximos saiba dessa ocupação.
Aos poucos, começa a ter a sensação de que as pessoas à sua volta só conhecem uma pequena parte de quem ela é.
Se reconheceste aqui algo teu, pensa com quem poderias partilhar um interesse que até agora guardaste para ti.
Talvez não recebas só elogios. É possível que alguém faça uma pergunta ou sugira uma alteração.
Mas isso pode ser o início de uma boa conversa, em vez de um pretexto para voltares a guardar tudo na gaveta.
O momento mais doloroso da história de Lorenzo é o dia em que Tommaso decide partir, porque já não quer esperar por autorização para usar o que aprendeu.
O mestre tem conhecimentos que podem ser úteis a muitas pessoas, mas o seu medo começa, aos poucos, a limitar também o desenvolvimento do aluno.
Só quando Tommaso publica uma obra sua, aceita as correções e continua a trabalhar é que Lorenzo vê uma maneira diferente de lidar com os erros.
E a flor azul lembra-lhe o primeiro motivo por que amava o conhecimento — a alegria de descobrir o mundo.
Pensa nas tuas próprias capacidades.
O que desejas há muito tempo desenvolver? Que preparação te é realmente necessária? E que condição continuas a impor apenas porque tens medo de ser avaliado(a)?
Às vezes, o passo seguinte mais valioso é permitires que outra pessoa leia a primeira página.
Proponho-te uma prática de sete dias dedicada aos conhecimentos, aos talentos e à forma como aceitas os erros. Escolhe um caderno que, aos poucos, se vai transformar no teu livro pessoal de crescimento.
Primeira página — a primeira curiosidade. Escreve cinco atividades de que gostavas em criança. Quais delas ainda te trazem alegria? Escolhe uma à qual gostarias de voltar.
Segunda página — o olhar dos outros. Recorda uma crítica dolorosa. Que erro cometeste realmente, como foi apontado e o que começaste a acreditar sobre ti depois disso?
Terceira página — a linha riscada. Escolhe um erro antigo com o qual aprendeste algo útil. O que farias de forma diferente hoje? Se afetou outras pessoas, há alguma maneira de corrigires parte das consequências?
Quarta página — o manuscrito escondido. Descreve um projeto ou uma capacidade que ainda não te atreves a mostrar. O que já está pronto e o que precisa realmente de ser melhorado?
Quinta página — o primeiro leitor. Mostra uma pequena parte do teu trabalho a uma pessoa de confiança. Pergunta-lhe o que lhe parece claro, o que é mais interessante e o que poderia ser melhorado.
Sexta página — o livro aberto. Analisa os comentários que recebeste. Quais são úteis? Com quais não concordas? Corrige uma fragilidade real e escreve o que aprendeste.
Sétima página — o capítulo seguinte. Escolhe uma ação concreta para os próximos trinta dias — publicar um texto curto, apresentar um projeto, candidatar-te a um emprego ou começar uma nova atividade. Define que verificações são necessárias e quando vais dar o passo.
Termina a prática com a tua promessa pessoal:
«Vou aprender, verificar e corrigir os meus erros, sem medir o meu próprio valor através deles.»
Escolhe um caderno pequeno.
Na primeira página, escreve o nome de um projeto, talento ou desejo que queiras desenvolver.
Por baixo, acrescenta três coisas que já sabes, um erro com o qual aprendeste algo útil e uma pergunta para a qual ainda procuras resposta.
Deixa as páginas seguintes livres.
Se quiseres, coloca entre elas uma pequena flor seca, como recordação da curiosidade com que um dia começaste a conhecer o mundo.
Que o caderno te lembre que cada novo conhecimento pode levar à pergunta seguinte e que algumas das descobertas mais valiosas começam precisamente quando admitimos que ainda não sabemos tudo.
Imagina o velho Lorenzo na sua biblioteca em Veneza. Sobre a secretária estão o velho manuscrito e a pequena edição impressa que preparou com Tommaso.
Ao lado deles está a flor azul seca.
Lorenzo pega numa folha de papel e começa uma carta para a pessoa que, em tempos, ensinou, mas com quem ele próprio aprendeu algo muito importante.
«Querido Tommaso,
Lembras-te do dia em que pediste para ler o meu grande livro e eu o fechei à tua frente?
Nessa altura expliquei-te que o trabalho ainda não estava pronto.
A verdade é que eu tinha medo.
Tinha passado tantos anos a tentar evitar os erros que comecei a acreditar que qualquer correção alheia podia desvalorizar tudo o que eu tinha alcançado.
Nunca te contei com pormenor suficiente o dia em Pádua em que o professor descobriu uma imprecisão nos meus cálculos e me humilhou diante dos outros estudantes.
Lembro-me do riso deles.
Depois, durante anos, tentei trabalhar de maneira que ninguém voltasse a ter a oportunidade de se rir à minha custa.
Verificava as tabelas, reescrevia os capítulos e adiava constantemente a publicação.
Quando, em 1577, observámos o cometa, tive a oportunidade de enviar os meus dados para Pádua.
Tu encorajaste-me a partilhar a parte verificada e a assinalar as restantes questões.
Mas eu voltei a ter medo.
Enquanto ganhava coragem para selar a carta, outros estudiosos já tinham apresentado as suas observações.
Lembro-me da desilusão.
Mas lembro-me ainda mais do dia em que me propuseste prepararmos uma edição conjunta e eu recusei.
Já eras então um jovem capaz, com uma enorme vontade de aprender e de ajudar outras pessoas a compreender o mundo.
Eu, porém, continuava a ver em ti o possível leitor que um dia ia descobrir os meus erros.
Quando partiste para Pádua, a minha biblioteca ficou invulgarmente silenciosa.
Sentia falta das tuas perguntas.
Sentia também falta da maneira como sabias encontrar um exemplo simples para algo que eu explicava com uma página inteira de cálculos.
Depois recebi o teu primeiro livro.
Confesso que comecei a lê-lo com a intenção de descobrir as suas falhas.
E encontrei algumas.
Escrevi-te uma carta pormenorizada com as correções e esperava que te sentisses envergonhado.
Mas tu agradeceste-me.
Admitiste os erros, explicaste como os ias corrigir e falaste-me dos jovens que já estavam a usar o teu trabalho.
Foi então que percebi como podemos encarar o mesmo acontecimento de formas tão diferentes.
Eu via no erro uma ameaça ao respeito que tinha conquistado.
Tu vias uma questão que precisava de ser esclarecida.
Com o tempo, descobri entre as velhas notas a pequena flor azul que a minha mãe um dia guardara.
Lembrei-me de como ela me levava para fora da cidade e me mostrava as plantas e as estrelas.
Quando não sabia a resposta, propunha que a procurássemos juntos.
Naqueles anos, aprender era uma alegria.
E eu, aos poucos, tinha-o transformado numa competição em que o que eu mais temia era perder.
Foi por isso que te escrevi e te convidei a voltar.
Foi-me difícil admitir que precisava da tua ajuda.
Mas, quando chegaste e começámos a trabalhar nas velhas observações, descobri quanta falta me faziam as nossas conversas.
Lembro-me de como apontaste para uma tabela e perguntaste se podíamos verificar outra vez os cálculos.
Por um instante, senti a irritação de sempre.
Depois peguei na pena e começámos a calcular juntos.
No fim, encontrámos o erro.
E, para minha própria surpresa, fiquei contente.
Passámos a ter um resultado mais exato.
Durante tantos anos tentei evitar precisamente esse momento e, quando finalmente aconteceu, revelou-se uma das nossas melhores conversas.
Agora o nosso livro está impresso.
Algumas pessoas gostam dele, outras contestam-no e outras ainda fazem perguntas para as quais ainda não temos resposta.
Há anos, uma situação destas ter-me-ia parecido insuportável.
Hoje alegra-me.
Sei que vais continuar a aprender e que provavelmente vais descobrir mais imprecisões nas minhas velhas notas.
Espero que as verifiques com cuidado e que continues o teu trabalho.
E, quando algum jovem vier ter contigo com uma pergunta, que ele tenha a oportunidade que eu durante tanto tempo me recusei a dar-te.
Deixa-o ver como pensas, como verificas e como corriges os teus próprios erros.
Porque é precisamente assim que ele pode aprender muito mais do que com um livro que pretende saber todas as respostas.
Obrigado pela tua paciência, pela tua persistência e pela coragem de começares o teu próprio trabalho antes de receberes a minha aprovação.
Se um dia os teus alunos encontrarem um erro no teu livro, ouve-os e verifiquem juntos.
É possível que, dessa vez, sejam eles a ter razão.
E garanto-te que o mundo não vai acabar por causa disso.
Com carinho e gratidão,
Lorenzo.»
Se o livro antigo te fez lembrar um talento que ainda não te atreves a mostrar ou uma oportunidade profissional que estás a adiar, podes continuar no FatedWays — o Jogo da Alma.
Na sala Dons podes perguntar: «Que capacidade minha continuo a subestimar e como a posso desenvolver?» Em Karma podes explorar a convicção de que tens de ser impecável para mereceres reconhecimento e, em Deixar ir, a recordação dolorosa de uma crítica ou de uma humilhação que ainda influencia as tuas decisões.
Se estás a pensar num novo emprego ou numa atividade própria, em A Encruzilhada podes analisar as possibilidades e, em Dinheiro, os medos financeiros que te levam a adiar.
Na sala A Linhagem podes procurar as ideias da família sobre o sucesso e os erros e, em Amor, Compatibilidade e Amigo, as relações em que tens medo de mostrar insegurança ou de exprimir a tua própria opinião.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica «A porta para uma vida esquecida».
Veneza, início do século XVII.
A luz da tarde entrava pela janela da pequena biblioteca e iluminava a secretária de madeira, sobre a qual estavam livros, instrumentos astronómicos e velhos cadernos de notas.
Lorenzo já era um homem idoso.
O cabelo tinha-lhe embranquecido, os movimentos tinham-se tornado mais lentos e os olhos cansavam-se mais depressa com os cálculos miúdos.
Mas continuava interessado nos novos livros e nas observações astronómicas.
Tommaso também já era um homem maduro, com alunos seus.
Uma tarde, chegou à biblioteca com um rapazinho que mostrava grande interesse pela matemática e pelos fenómenos celestes.
Antes mesmo de se sentar, o aluno começou a observar os instrumentos e a fazer perguntas.
Lorenzo observava-o a sorrir.
O rapaz fazia-o lembrar Tommaso nos anos em que os dois se tinham conhecido na tipografia.
Passado algum tempo, o aluno reparou no grande manuscrito com a encadernação de couro e as sete estrelas.
— Posso vê-lo?
Tommaso riu-se.
— Este é um livro especial. Em tempos, era guardado com tanto cuidado que até eu tinha dificuldade em obter autorização para o abrir.
Lorenzo abanou a cabeça.
— Confesso que tinha ideias bastante estranhas sobre os leitores.
Depois pegou no volume e pô-lo à frente do rapaz.
— Vê-o. Tem observações, cálculos antigos, correções e perguntas para as quais ainda procuramos respostas.
O rapaz começou a folhear as páginas.
Em breve chegou às tabelas do grande cometa de 1577.
Observou os desenhos e as datas e depois perguntou porque é que, nalguns sítios, havia pontos de interrogação e notas com caligrafias diferentes.
Lorenzo explicou-lhe como as observações tinham sido feitas e que conclusões tinham sido precisadas mais tarde.
O rapaz ouvia com atenção.
Depois apontou para uma tabela.
— Mestre, acho que este número devia ser diferente.
Lorenzo olhou para a página.
Por um instante, sentiu a velha irritação de sempre.
Depois pegou numa folha de papel.
— Mostra-me como chegaste ao teu resultado.
O rapaz começou a fazer as contas.
Tommaso aproximou-se e os três compararam os cálculos.
Passado algum tempo, descobriram que, na velha tabela, havia realmente uma imprecisão que tinha passado despercebida nas verificações anteriores.
O rapaz olhou para o velho estudioso, apreensivo.
— Podemos assinalar a correção?
Lorenzo sorriu.
— Claro. Só escreve também como chegaste ao resultado, para que a pessoa seguinte o possa verificar.
Estendeu-lhe a pena.
Tommaso observava a cena a sorrir.
Da sala ao lado apareceu Beatrice com uma bandeja.
Quando viu o rapaz debruçado sobre o livro, com uma pena na mão, ergueu as sobrancelhas.
— Lorenzo, espero que tenhas reparado que alguém está a corrigir a tua grande obra.
— Reparei. E, desta vez, tenciono ouvi-lo.
— Isto merece ficar registado como um acontecimento histórico. É só pena não haver um cometa sobre Veneza para o assinalar como deve ser.
Todos se riram.
Pouco depois, o aluno chegou à última página escrita.
Leu as palavras:
«Se alguém está a ler isto, é porque finalmente tive coragem.»
Depois reparou na flor azul seca.
— Porque guarda uma flor num livro sobre as estrelas?
Lorenzo pegou nela com cuidado.
Falou-lhe da mãe, que em tempos o levava para a natureza e o encorajava a fazer perguntas.
— Ela não era uma estudiosa — explicou. — Mas tinha uma curiosidade enorme. E, quando não sabia a resposta, propunha que a procurássemos juntos.
O rapaz sorriu.
— E foi por isso que se tornou astrónomo?
— Talvez em parte por isso. Ela ensinou-me a amar a própria procura.
A seguir, o aluno chegou às páginas em branco no fim do livro.
— E porque é que não as preencheu?
Lorenzo ficou a pensar.
Em tempos, acreditara que tinha de escrever tudo sozinho antes de o manuscrito merecer ser lido.
Agora, as páginas já não lhe pareciam uma prova de trabalho inacabado.
— Porque depois de mim vão existir pessoas que vão saber mais — respondeu. — E algumas delas provavelmente vão encontrar respostas que eu não consegui descobrir.
O rapaz olhou para a folha em branco.
— Posso escrever uma observação minha?
Lorenzo acenou com a cabeça.
— Claro. Indica a data, o método utilizado e tudo o que possa ajudar outra pessoa a verificar o que escreveste.
O aluno começou a escrever com cuidado.
Beatrice sentou-se junto à janela e falou das novas histórias que estava a preparar.
Tommaso discutia com Lorenzo as últimas edições científicas e o rapazinho, de vez em quando, interrompia a conversa deles com uma nova pergunta.
O velho estudioso sorria.
A biblioteca, que em tempos fora tão silenciosa, enchia-se agora de vozes, perguntas e risos.
Por fim, o rapaz pousou a pena.
— Pronto.
Lorenzo aproximou-se e leu o que tinha sido escrito.
Depois perguntou:
— E qual vai ser a tua próxima pergunta?
O rapaz pensou por um instante e começou a explicar o que gostaria de observar na próxima noite limpa.
Lorenzo ouviu-o com interesse.
Em cima da mesa, o velho livro ficou aberto.
Depois da última linha escrita, havia ainda muitas páginas em branco.
E, pela primeira vez, isso parecia maravilhoso.
Se escolheste o livro antigo, desejo-te uma curiosidade que te guie para novas descobertas, pessoas com quem partilhar ideias e a confiança para usares os teus conhecimentos quando estiveres preparado(a) para o próximo passo sensato. Que encontres mestres que encorajem as tuas perguntas e pessoas a quem, um dia, tu próprio(a) possas transmitir o que aprendeste. Desejo-te coragem suficiente para começares novos capítulos, mesmo quando ainda não sabes exatamente como vão terminar. E, se alguém encontrar um erro no teu grande livro, oferece-lhe a pena e verifiquem juntos. Desconfio que assim vais poupar bastante tempo e ainda vais ter com quem tomar um café enquanto discutem sobre as estrelas.
Se um dia descobrires que a tua vida mudou, mas continuas a viver segundo as velhas regras, o que vais fazer? Vais abrir a janela para aquilo que ainda desejas viver ou vais voltar a prometer a ti mesmo(a) que vais começar quando terminares todas as outras obrigações?
Durante a recuperação de uma casa antiga no Porto, os mestres de obras descobrem uma janela alta, escondida atrás de um revestimento de madeira. As suas dobradiças de ferro estão escurecidas pelo tempo, os vidros refratam a luz e as portadas interiores estão pintadas de um azul desbotado. Numa das portadas está pintado um pequeno barco à vela, pronto a deixar a margem. Por baixo dele distingue-se uma data antiga e, na outra portada, escondido sob várias camadas de tinta, descobrem um segundo barco. Este já está em mar aberto, entre ondas largas, e por baixo da imagem há outra data e umas iniciais femininas. Entre os dois desenhos passaram mais de trinta anos.
No quarto encontram também um caderno de esboços em couro, quase totalmente em branco. Na primeira página está escrito: «Para a viagem que vamos fazer sem falta.» Entre os poucos desenhos há portos, plantas e ornamentos decorativos e, entre as folhas, está guardado um raminho de alfazema. Quem pintou os dois barcos? O que aconteceu durante todos estes anos? Porque é que a viagem prometida foi adiada durante tanto tempo e quem é que finalmente encontrou coragem para zarpar?
As janelas são invenções admiráveis. Através delas podemos observar o mundo, sonhar com lugares distantes e, entretanto, ficar a saber uma quantidade admirável de pormenores sobre os vizinhos. Sobretudo se do outro lado da rua morar alguém que acha que a rua inteira tem de ser informada dos últimos acontecimentos. Mas a janela do Porto foi testemunha de outra história. Através dela, uma mulher passou anos a ver os barcos no Douro, enquanto ela própria encontrava sempre motivos para ficar em casa.
O teu processo kármico simbólico está ligado ao fim de uma etapa importante da vida, aos papéis que desempenhaste durante tanto tempo que, aos poucos, começaste a vê-los como a totalidade de quem és, e aos desejos que continuam à espera da sua vez. Talvez os teus filhos já tenham crescido, tenhas passado por uma separação ou por uma perda, tenhas deixado um trabalho ao qual dedicaste décadas ou sintas que o teu dia a dia já não te traz a satisfação de antes. É possível que até tenhas mais tempo livre, mas não saibas o que fazer com ele, porque há anos que estás habituado(a) a cuidar primeiro de todos os outros.
A história vai levar-nos ao Porto do século XVIII. Vamos encontrar Teresa, que gere uma oficina familiar de encadernação e guarda as memórias do marido falecido, Manuel. Vamos conhecer a sobrinha dela, Leonor, que sonha com Lisboa, a filha, Maria, que tem dificuldade em aceitar as mudanças na mãe, e o prático Miguel, que lhe vai lembrar que nem as recordações mais bonitas conseguem, sozinhas, consertar um telhado com infiltrações. E, quando voltarmos aos dois barcos, vamos perceber porque é que o segundo desenho tem tanta importância.
Antes de leres a história, convido-te para uma viagem imaginária, inspirada nas práticas simbólicas de regressão. Através das imagens da casa antiga e das três janelas, podes observar a tua relação com o passado, os papéis que desempenhas e os desejos que, aos poucos, começam a procurar lugar na tua vida atual. As imagens que surgirem são associações pessoais e, por si só, não provam memórias de uma vida passada real. Podes acompanhar as cenas de olhos fechados ou simplesmente lê-las como um relato e, se alguma experiência te for desagradável, podes alterá-la ou terminar o exercício.
Imagina uma casa antiga com degraus de pedra, uma pesada porta de madeira e um pequeno pátio onde crescem plantas aromáticas. Ao entrares, sentes o cheiro a madeira, a cera e a livros antigos. Sobes uma escada e chegas a uma sala espaçosa, de tetos altos. Junto à parede há uma estante com livros, sobre a mesa está um caderno de esboços e, à tua frente, surgem três janelas altas com as portadas de madeira fechadas.
A primeira janela — a vida que construíste. Abre as portadas e olha para o passado. À tua frente surge uma pessoa no meio da família, do trabalho ou das ocupações que outrora enchiam os seus dias. O que gostava de fazer e com quem partilhava as suas alegrias? O que criou ao longo dos anos e que relações fizeram dela a pessoa em que se tornou? Repara também nas decisões que tomou por vontade própria, porque nessa vida houve muito mais do que obrigações.
A segunda janela — a vida que continua por hábito. Os anos passaram. Algumas pessoas já não estão presentes, outras cresceram e seguiram o seu caminho, e certas circunstâncias mudaram. Apesar disso, a pessoa continua a cumprir as mesmas obrigações e a viver segundo as regras conhecidas. Que objetos e hábitos guarda? O que faz apenas porque há muito se habituou? Talvez prepare o jantar para mais pessoas do que as que realmente se vão sentar à mesa, ou continue a recusar convites por causa de obrigações que já poderia partilhar com outros.
A terceira janela — a possibilidade que te atrai hoje. A última janela está fechada com um pequeno trinco do lado de dentro. Pela fresta vê-se uma paisagem desconhecida — mar, montanha, jardim ou uma cidade que te desperta a curiosidade. O que atrai a pessoa para lá da janela? O que gostaria de aprender ou de viver? Talvez deseje pintar, viajar, estudar ou criar novas relações. Deixa-a decidir sozinha se entreabre as portadas, se as abre de par em par ou se observa a possibilidade durante mais algum tempo.
A sala antiga — aquilo que desejas guardar. Volta-te para os objetos que estão sobre a mesa. Escolhe um que traga uma recordação querida e outro que já não tenha a mesma função. Pensa no que a pessoa gostaria de fazer com eles e que objetos, relações e tradições continuam a ter lugar na sua vida. Pode guardar o objeto, oferecê-lo ou dar-lhe uma nova função. O importante é que a decisão seja dela.
O caderno de esboços — a pessoa que és hoje. Abre o caderno de esboços quase vazio. Na primeira página vês a pessoa da juventude e, na seguinte, a mesma pessoa depois de todos os anos vividos. O que aprendeu? Que capacidades adquiriu e que sonhos ainda a atraem? Imagina que ela pega num lápis e começa um novo desenho, à medida da vida que gostaria de criar com as possibilidades que tem agora.
Antes de terminares, volta à terceira janela e observa o trinco. Pensa que pequeno passo te ajudaria a saber mais sobre a possibilidade que está para lá dela. Depois traz a tua atenção para o presente e anota as imagens mais importantes.
A pergunta que fica: «Se eu deixar de desempenhar o papel em que todos se habituaram a ver-me, que parte de mim gostaria de voltar a conhecer?»
Porto, Portugal, 1784. A cidade desenvolvia-se junto ao rio Douro, pelo qual os navios mercantes partiam rumo ao oceano Atlântico. Do porto ouviam-se as vozes de marinheiros e mercadores, pelas ruas estreitas passavam carroças e as fachadas das casas estavam decoradas com azulejos, varandas e bonitas janelas de madeira. Numa casa antiga com vista para o rio vivia uma viúva de quarenta e nove anos chamada Teresa de Almeida, que geria a oficina familiar de encadernação. Os mercadores conheciam-na como uma mulher sensata e trabalhadora, capaz de escolher os materiais certos, de calcular os custos e de organizar as encomendas de tal forma que até os clientes mais impacientes raramente conseguiam surpreendê-la. Quando alguém insistia num prazo impossível, Teresa sugeria-lhe amavelmente que encontrasse um mestre capaz de fazer a cola secar mais depressa só pela força da persuasão. Depois explicava quando é que a encomenda podia realmente estar pronta.
Poucos sabiam, porém, que na juventude Teresa sonhara ser pintora. Em rapariga, adorava desenhar os barcos no Douro, os rostos dos mercadores, as plantas dos pequenos pátios e os azulejos decorativos das fachadas. Tinha sensibilidade para as cores e os pormenores e passava muitas vezes horas com carvão, tinta e pigmentos. O que mais desejava era viajar, visitar portos desconhecidos e encher os seus cadernos de esboços com imagens dos lugares que via pela primeira vez.
Quando se casou com Manuel de Almeida, os dois começaram a desenvolver a pequena oficina familiar de encadernação. Manuel era um homem trabalhador, sensato e prático, que amava Teresa e valorizava o talento dela. Pedia-lhe muitas vezes que desenhasse motivos decorativos para as encadernações — flores, pássaros, paisagens e ornamentos geométricos. Os dois complementavam-se bem e alegravam-se com os seus êxitos, mas Manuel tinha um hábito que, aos poucos, começou a definir o dia a dia de ambos. Encontrava sempre mais um motivo para adiarem os seus desejos pessoais. Quando Teresa falava em viajar, ele prometia que partiriam depois de terminadas as encomendas da época, e quando ela sugeria criar um pequeno ateliê seu, explicava que primeiro tinham de melhorar a situação financeira da oficina. Os motivos eram muitas vezes fundados, mas os anos passavam e o tempo livre prometido nunca chegava.
Um dia, Manuel ofereceu-lhe um bonito caderno de esboços com uma encadernação de couro que ele próprio tinha feito. Na primeira página escreveu: «Para a viagem que vamos fazer sem falta.» Teresa ficou comovida e começou a folhear as páginas em branco, imaginando todas as paisagens marítimas que ia pintar. Manuel prometeu que, quando terminassem as encomendas de outono, iriam até ao oceano, e ela riu-se e avisou-o de que era melhor despacharem-se, antes que todos os barcos do Douro partissem sem eles. Nessa mesma tarde, sentou-se junto à janela do pequeno quarto onde gostava de pintar e, na portada interior de madeira, pintou um barco de vela alta, pronto a deixar a margem. Quando o marido lhe perguntou porque pintava diretamente na janela, respondeu que, enquanto não arranjassem tempo para viajar, ao menos teria um navio só seu. Depois guardou o caderno de esboços no armário, convencida de que em breve ia começar a encher as suas páginas.
Mas, depois das encomendas de outono, vieram as de inverno, apareceram novos clientes e, pouco depois, nasceu a filha deles, Maria. A casa encheu-se de vozes de criança, de livros e de trabalho. Teresa adorava a maternidade e a vida em comum com Manuel, orgulhava-se da oficina e sentia satisfação com tudo o que criavam juntos. Aos poucos, porém, começou a dedicar cada vez menos tempo à pintura. Dizia a si mesma que voltaria a ela quando Maria crescesse, o trabalho diminuísse e houvesse mais dias livres. Quando a filha começou a ir à escola, Teresa às vezes ensinava-a a pintar flores e pássaros. As duas sentavam-se junto à janela e observavam os barcos no rio, mas a menina foi, aos poucos, passando a conhecer a mãe sobretudo como a pessoa que organizava a casa, a oficina e todas as obrigações da família.
Com os anos, o trabalho aumentou e a saúde de Manuel foi-se deteriorando. Teresa assumiu ainda mais responsabilidades e quase deixou de pensar em viagens. Quando o marido já estava gravemente doente, os dois conversavam muitas vezes sobre os anos vividos. Um dia, Manuel perguntou-lhe se ainda guardava o caderno de esboços que lhe tinha oferecido, e ela admitiu que as suas páginas estavam quase vazias. Ele ficou triste e disse-lhe que lamentava terem adiado sempre a viagem. Teresa pegou-lhe na mão e lembrou-lhe a vida bonita que tinham tido, como tinham criado um lar, educado Maria e feito tantas coisas juntos. Pouco depois, Manuel pediu-lhe que cuidasse da casa e da oficina, nas quais os dois tinham investido anos de trabalho, e ela prometeu-lhe que sim.
Depois da morte dele, Teresa tinha quarenta e dois anos. Nos primeiros meses, quase não permitiu que nada em casa fosse mudado. A poltrona de Manuel continuava no lugar habitual, as ferramentas dele estavam cuidadosamente arrumadas, os livros guardados, e algumas divisões foram, aos poucos, sendo cada vez menos usadas. No início, isso ajudava-a a sentir-se perto das recordações, mas, com o tempo, começou a encarar cada mudança como uma ameaça àquilo que os dois tinham criado. Nos seus pensamentos foi-se formando a convicção: «Se eu mudar a vida que construímos, vou perder também a última coisa que me resta de ti.»
Maria cresceu, casou-se e formou a sua própria família. Teresa alegrava-se por ela, ajudava a cuidar dos netos e continuava a gerir a oficina, mas, quando os seus se iam embora, a velha casa parecia-lhe invulgarmente silenciosa. Uma noite, depois de se despedir da filha e das crianças, ficou sozinha junto à grande mesa da família. As encomendas estavam terminadas, os ajudantes podiam tratar do resto na manhã seguinte e Maria já tinha ido para casa. Pela primeira vez em muitos anos, Teresa percebeu que aquela noite lhe pertencia só a ela e que, na verdade, não sabia o que fazer com esse tempo.
O seu olhar pousou no velho armário. Tirou o caderno de esboços que recebera, abriu a primeira página e leu a dedicatória de Manuel. Depois pegou num lápis e tentou desenhar um barco. A mão estava insegura e as linhas eram completamente diferentes daquelas que outrora traçava com facilidade. Olhou para o desenho, sorriu com tristeza e voltou a guardar o caderno. Mas, nos dias seguintes, lembrava-se cada vez mais vezes do prazer que sentira ao voltar a desenhar.
Algumas semanas depois, chegou à casa a sobrinha dela, Leonor, de dezoito anos. A família da rapariga estava a passar por dificuldades financeiras e os pais esperavam que o trabalho na oficina de encadernação a ajudasse a aprender um ofício. Leonor era curiosa, teimosa e, às vezes, bastante impaciente. Adorava desenhar e sonhava um dia partir para Lisboa, para estudar técnicas decorativas. Logo na primeira semana começou a fazer perguntas sobre as cores, os ornamentos e as ferramentas, mas tinha também um hábito que punha regularmente à prova a paciência de Teresa. Quando lhe pediam que arrumasse os materiais, era capaz de passar meia hora a ver desenhos e depois explicar que estivera a fazer uma preparação extremamente importante. Só as ferramentas em cima da mesa, pelos vistos, não tinham sido informadas disso.
Uma tarde, Leonor reparou nas portadas fechadas da janela do antigo quarto de pintura e perguntou à tia porque é que nunca a abria. Teresa explicou que a divisão quase não era usada e que o rio também se via das outras janelas, mas a rapariga já se tinha aproximado das portadas. Quando abriu uma delas, as dobradiças rangeram, a luz entrou no quarto e no chão surgiu uma larga faixa luminosa. Leonor reparou no desenho desbotado do barco e perguntou quem o tinha feito. Teresa olhou para a portada de madeira e, por um instante, voltou à juventude, ao caderno de esboços que recebera e à viagem prometida. Quando admitiu que o desenho era seu, a sobrinha olhou para ela tão surpreendida como se tivesse acabado de descobrir que a tia dera a volta ao mundo às escondidas.
Teresa riu-se e falou-lhe de Manuel, das bonitas encadernações que criavam juntos e do sonho de ver o oceano. Leonor ouviu-a com atenção e depois perguntou-lhe se ainda queria pintar. Teresa esteve para responder que não tinha tempo, mas de repente parou. Pela primeira vez, percebeu que algumas das circunstâncias que durante tantos anos tinham limitado o seu tempo livre já eram diferentes. Maria tinha a sua própria família, a oficina tinha ajudantes e parte das obrigações podia ser partilhada. Admitiu que não sabia se ainda queria pintar, e Leonor propôs logo que experimentassem juntas.
Nos dias seguintes, as duas limparam o antigo quarto e encontraram pincéis, tintas e desenhos amarelecidos. Teresa começou a mostrar à sobrinha como se criavam motivos decorativos e, aos poucos, ela própria foi recordando os movimentos e o prazer do trabalho. Um dia pintou uma pequena flor azul, observou-a com atenção e suspirou, dizendo que noutros tempos a teria feito muito melhor. Leonor respondeu-lhe, com toda a seriedade, que então era evidente que tinha de praticar mais. Teresa ergueu as sobrancelhas e perguntou se a rapariga tencionava realmente dar-lhe lições na sua própria oficina, e a sobrinha respondeu que ia ser necessário, se a tia continuasse a descurar os trabalhos de casa. As duas riram-se e, aos poucos, o antigo quarto voltou a encher-se de desenhos e de conversas.
Uma noite, Leonor confessou que sonhava partir para Lisboa, mas que a mãe esperava que ela arranjasse um emprego seguro e, com o tempo, se casasse. Teresa aconselhou-a a não ter pressa, porque podia sempre arranjar tempo para pintar mais tarde. A rapariga olhou para ela com seriedade e disse-lhe que era precisamente disso que tinha medo. «A tia também disse a si mesma que ia pintar mais tarde. E eu não quero, daqui a trinta anos, estar a explicar a alguém porque é que nunca arranjei tempo.» As palavras tocaram Teresa, porque, pela primeira vez, percebeu que as suas próprias decisões podiam transformar-se num exemplo que a jovem iria repetir. Tivera, de facto, muitas obrigações e dificuldades, mas também tinha, não poucas vezes, escolhido ela própria deixar os seus desejos em último lugar.
Foi precisamente nessa altura que surgiu um problema sério. Miguel, primo do falecido Manuel, chegou com notícias preocupantes sobre o estado da casa. O telhado precisava de uma reparação cara, parte das vigas estava danificada pela humidade e o dinheiro da oficina dificilmente ia chegar. Miguel sugeriu que Teresa ponderasse vender a propriedade e ir viver para uma casa mais pequena. A simples ideia de pessoas desconhecidas entrarem na casa da família encheu-a de horror. Ela lembrou-lhe que aquela era a casa de Manuel, e Miguel respondeu que sabia isso perfeitamente, mas que as recordações não iam consertar as vigas danificadas.
As palavras dele eram duras, mas Teresa sabia que os avisos tinham fundamento. Depois da conversa, andou muito tempo pelas divisões, olhou para os objetos que guardava havia anos e, aos poucos, começou a perceber quanto dinheiro e esforço exigia cuidar de espaços que quase ninguém usava. O mais difícil para ela era pensar nas coisas de Manuel. Um comerciante ofereceu um bom preço pela velha poltrona dele, mas ela recusou. Alguns dias depois, sentou-se nela e lembrou-se das conversas de ambos depois do trabalho, das piadas e das noites em que ele lia junto à janela. Decidiu ficar com ela, mas vendeu outras coisas que já há muito não usava. Arrendou um dos quartos e começou a organizar as obras por etapas. Pela primeira vez em muitos anos, permitiu que a casa mudasse de acordo com as suas necessidades atuais.
Foi então que Leonor sugeriu que um dos quartos libertados se transformasse num pequeno ateliê de desenhos decorativos e ornamentação de livros. Teresa hesitou ao princípio, porque a situação financeira delas era incerta, mas as duas reviram os materiais e calcularam os custos. Descobriram que podiam começar com pequenas encomendas, usando as ferramentas que já tinham. Prepararam algumas amostras e mostraram-nas aos clientes da oficina de encadernação.
O primeiro cliente recusou, porque preferia uma decoração mais sóbria e os desenhos de Teresa pareciam-lhe demasiado vivos e coloridos. Ela ficou tão abalada que, durante alguns dias, quase não tocou nos pincéis. Começou a perguntar-se se seria sequer sensato uma mulher da sua idade começar uma nova ocupação. Mas pouco depois outro cliente reparou nas imagens. Estava a preparar uma edição sobre viagens comerciais e procurava desenhos de navios, portos e cidades costeiras. Gostou precisamente do estilo de Teresa e encomendou várias imagens. Ela aceitou, entusiasmada, e voltou a observar os barcos no Douro, a conversar com marinheiros e a fazer esboços do porto. Aos poucos, foram surgindo mais encomendas.
O novo ateliê, porém, criou tensão em casa. Maria contava havia anos com a mãe para cuidar dos seus dois filhos alguns dias por semana e, quando lhe pediu que ficasse com os netos durante vários dias seguidos, ficou surpreendida com a recusa. Teresa explicou que tinha uma encomenda para terminar e a filha, ofendida, perguntou porque é que tudo tinha mudado de repente, se a mãe sempre estivera ao lado deles. Teresa olhou para ela durante muito tempo antes de responder: «Porque eu também mudei, Maria. E gostava que alguém reparasse nisso.»
A conversa foi difícil para as duas. Maria precisava realmente de ajuda e Teresa sentia-se culpada, porque adorava os netos e não queria desiludir a família. Alguns dias depois, porém, começaram a discutir de forma concreta como podiam organizar o seu tempo. Combinaram os dias em que Teresa ia ajudar com as crianças e outros destinados ao trabalho no ateliê, e Maria começou, aos poucos, a procurar também ajuda adicional. Mais tarde, levou os netos ao ateliê, onde a avó lhes deu lápis e papel, e Leonor ensinou-os a desenhar pequenos barcos. Maria observou a mãe no meio dos desenhos, dos pincéis e dos alunos e, pela primeira vez, percebeu o pouco que sabia sobre os sonhos dela. Aos poucos, começou a aceitar que Teresa podia continuar a ser uma mãe e uma avó carinhosa e, ao mesmo tempo, ter as suas próprias ocupações.
Miguel também continuava a acompanhar a situação financeira da casa. No início, mostrou-se cético em relação ao ateliê, mas Teresa revia cuidadosamente as contas, limitava as despesas e distribuía as obras de acordo com as receitas. Os primeiros meses foram difíceis — algumas encomendas atrasavam-se, outras davam menos lucro do que o esperado e as novas obrigações exigiam uma boa organização. Mas, aos poucos, o trabalho começou a desenvolver-se. Uma noite, Miguel chegou para discutirem mais uma obra, olhou para o ateliê cheio de vida e admitiu que não tinha acreditado numa evolução destas. Teresa sorriu e respondeu-lhe que ela própria também tivera dúvidas, mas que, desta vez, decidira experimentar a possibilidade antes de desistir dela.
Um dia, uma vizinha parou-a à porta de casa e perguntou-lhe se era verdade que voltara a pintar. Quando Teresa confirmou, a mulher observou que, na idade dela, uma pessoa devia normalmente pensar em coisas mais sérias. Teresa sorriu e respondeu que pintar navios era uma ocupação bastante séria, sobretudo quando se tenciona um dia subir a bordo de um deles. A vizinha ficou surpreendida e Teresa continuou rua abaixo a sorrir.
Com o tempo, pegou num dos seus desenhos terminados e virou-o. No verso escreveu o seu próprio nome — Teresa de Almeida. Ao longo da vida, assinara centenas de contas, encomendas e documentos, mas há muito tempo que não punha o seu nome em algo que tivesse criado por vontade própria. Lembrou-se de como Manuel, em tempos, a encorajava a assinar os motivos decorativos que pintava para os livros, e sorriu. Mais tarde, nessa mesma noite, abriu o velho caderno de esboços, leu outra vez a promessa da viagem e começou a analisar as possibilidades reais de ver o oceano.
Nos meses seguintes, conversou com mercadores, estudou mapas e foi juntando dinheiro aos poucos. Leonor acompanhava os preparativos com interesse e perguntava-lhe muitas vezes quando é que tencionava finalmente partir. Teresa costumava responder que estava à espera do momento certo, e a rapariga ria-se, porque já conhecia perfeitamente aquela resposta. Mas, desta vez, Teresa estava realmente a estudar as possibilidades e, aos poucos, começava a perceber como podia organizar a viagem.
Cerca de um ano depois, chegou uma encomenda de um mercador que estava a preparar uma edição com descrições de viagens e queria uma série de desenhos de paisagens costeiras e de portos. O trabalho incluía a visita a vários lugares da costa portuguesa. Quando leu a proposta, Teresa sentiu uma emoção enorme, mas quase de imediato começou a escrever os motivos pelos quais provavelmente seria mais sensato recusar. O telhado ainda precisava de reparações, havia encomendas por terminar e o ateliê dependia dela.
Leonor entrou no quarto e reparou na folha cheia de objeções. Leu-a com atenção e observou que a preparação parecia impressionantemente pormenorizada, e depois perguntou se a tia também tinha escrito os motivos pelos quais queria partir. Teresa ficou calada, porque estava tão habituada a pensar em todas as dificuldades possíveis que quase nem lhe ocorrera escrever o seu próprio desejo. Leonor pôs-lhe à frente uma folha em branco e sugeriu-lhe que começasse por ali.
Teresa pegou na pena e escreveu que queria ver o oceano, pintar lugares desconhecidos, conversar com as pessoas nos portos e finalmente realizar o sonho que trazia desde a juventude. Depois olhou para as duas folhas e, com Leonor, começou a discutir as dificuldades. Combinaram os prazos das encomendas, falaram com os ajudantes e prepararam o dinheiro necessário. Maria ficou preocupada ao princípio, mas, quando percebeu com que cuidado a viagem tinha sido organizada, começou a alegrar-se pela mãe, e os netos pediram desenhos de todos os navios que a avó ia ver.
No dia da partida, Teresa levantou-se cedo, arrumou roupa, pincéis, lápis e o seu caderno de esboços preferido e depois voltou ao antigo quarto de pintura. As duas portadas da janela estavam abertas de par em par e lá fora viam-se os telhados do Porto e os barcos que se moviam no Douro. Teresa tocou no desenho desbotado do pequeno barco e lembrou-se do dia em que Manuel lhe oferecera o caderno de esboços, das conversas de ambos sobre a viagem e de todos os anos que tinham passado juntos. Entristeceu-a não poderem ver o oceano os dois, mas lembrou-se também do riso dele, das bonitas encadernações que criavam e da maneira como, às vezes, ele insistia para que ela pusesse o nome nos seus próprios desenhos.
Quando Leonor apareceu à porta e perguntou se estava pronta, Teresa sorriu e admitiu que achava ter levado tudo o que era necessário. A sobrinha observou que, depois de preparar aquela viagem durante quase trinta anos, pelo menos a bagagem devia estar pronta. As duas riram-se, e Teresa pegou na mala e saiu.
No cais, o ar cheirava a água e a madeira, e pelo rio passavam barcos com as velas cheias de vento. Quando subiu para a embarcação, Teresa olhou para a cidade, cujos telhados começavam, aos poucos, a afastar-se. Depois abriu o velho caderno de esboços na primeira página livre e começou a desenhar. As linhas eram cuidadosas, mas seguras, e à sua frente estendiam-se as águas do Douro, que conduziam ao oceano Atlântico. Desta vez não precisava de imaginar como era a viagem. Já fazia parte dela.
Nos últimos dias de Manuel, Teresa promete cuidar da casa da família e da oficina. Depois da morte dele, começa aos poucos a encarar essa promessa como uma obrigação de manter tudo inalterado. É assim que se forma o seu voto kármico simbólico: «Se eu mudar a vida que construímos, vou perder também a última coisa que me resta de ti.»
Uma convicção semelhante pode surgir depois de uma perda, de uma separação, da reforma ou do fim de uma longa etapa da vida. Talvez continues a manter os velhos hábitos porque te ligam a recordações queridas, ou cumpras obrigações que um dia foram importantes, mas que já não correspondem à tua vida atual. É possível que tenhas medo de que, se começares algo novo, desvalorizes tudo o que construíste nos anos anteriores.
Durante muito tempo, Teresa acredita que as mudanças na casa vão apagar parte da vida que partilhou com Manuel. Mas, aos poucos, descobre que pode guardar a poltrona dele, os livros antigos e as boas recordações e, ao mesmo tempo, dar uma nova função a parte da casa. Continua a amar o seu passado e a valorizar os anos que viveu, mas já toma decisões de acordo com as necessidades e as possibilidades que tem hoje.
A nova promessa pode ser: «Vou guardar o meu amor e as minhas recordações, permitindo que a minha vida mude comigo.»
Imagina uma mulher que, depois de um longo casamento, passou por um divórcio. Continua a viver na casa da família e a manter hábitos que outrora faziam parte do dia a dia do casal. Quando conhece uma pessoa interessante, começa a preocupar-se com a possibilidade de a nova relação mudar demasiado a sua vida. Noutra pessoa, o tema pode estar ligado à perda de um parceiro. Mesmo anos depois, ela sente culpa só de pensar que poderia ter novos interesses, amizades ou relações, como se isso diminuísse a importância do amor vivido.
A história de Teresa lembra que cada um decide por si o que deseja guardar e o que está disposto a mudar. Para algumas pessoas, um novo amor pode fazer parte da etapa seguinte da vida, e outras podem escolher uma forma completamente diferente de encher a sua vida de alegria. O mais importante é que a decisão corresponda aos sentimentos e desejos atuais, em vez de ser determinada unicamente pelo medo do julgamento dos outros.
Talvez sejas há anos a pessoa que organiza as festas, ajuda os filhos, cuida dos pais e resolve as dificuldades da família. Quando pedes tempo para os teus próprios interesses, os teus podem ficar surpreendidos, porque o dia a dia deles há muito está ligado à tua ajuda. Imagina uma mãe cujos filhos já cresceram, mas continuam a contar com ela para quase tudo. Ela ama-os e quer ajudá-los, mas começa a sentir que os seus próprios dias voltam a encher-se por completo com as obrigações dos outros.
A conversa entre Teresa e Maria mostra que uma mudança destas pode ser difícil para ambas as partes. Maria precisa realmente de ajuda e Teresa quer fazer parte da vida dos netos. Mas agora tem também um trabalho seu, ao qual precisa de dedicar tempo. Aos poucos, as duas conseguem falar de forma mais concreta sobre as suas necessidades e encontrar uma maneira de partilhar as responsabilidades de acordo com as suas possibilidades reais.
Imagina uma pessoa que gere um negócio de família herdado. Investe muito esforço e dinheiro para manter a velha forma de trabalhar, embora há anos seja claro que são necessárias mudanças. Tem medo de que, se mudar a atividade, desvalorize o trabalho das gerações anteriores. Outra pessoa pode trabalhar décadas no mesmo sítio e desejar uma nova direção profissional, mas não se atrever a considerá-la por causa da segurança que o trabalho conhecido lhe traz.
Teresa também tem de tomar decisões financeiras reais. Os avisos de Miguel têm fundamento, porque o telhado precisa realmente de obras e o dinheiro é limitado. Por isso, ela revê as contas, arrenda uma divisão, vende alguns objetos e começa a nova atividade com meios limitados. Se estás a pensar numa mudança, pensa em que custos, conhecimentos e obrigações têm de ser tidos em conta e em como podes reduzir o risco antes de dares o passo seguinte.
Depois de uma separação, de uma perda ou do fim de uma longa etapa profissional, uma pessoa pode descobrir que a sua vida social foi ficando, aos poucos, mais limitada. Talvez os amigos se tenham habituado a convidá-la menos vezes, porque durante muito tempo recusou encontros, ou ela própria já deseje outras ocupações. Imagina uma mulher que, depois de anos dedicados à família, decide frequentar aulas de pintura. Parte dos seus velhos amigos não compreende esse interesse, mas, entre os outros participantes, ela vai fazendo novas amizades.
Teresa vive uma mudança semelhante através do ateliê. O antigo quarto volta a encher-se de pessoas, conversas e ideias, e ela encontra a possibilidade de conviver também fora das obrigações familiares. Talvez também na tua vida exista uma ocupação que te permita encontrar pessoas com interesses semelhantes e criar novas amizades.
Teresa tem quase cinquenta anos quando volta a pintar. Uma vizinha lembra-lhe que, na idade dela, devia ocupar-se de coisas mais sérias, mas Teresa já sabe o que quer. Talvez também tu andes há muito a pensar em aprender uma língua, viajar, dedicar-te à música, criar um projeto teu ou experimentar uma nova direção profissional, mas tenhas medo de que os outros fiquem surpreendidos ou de que o teu progresso não seja tão rápido como o dos mais novos.
Teresa não tenta voltar a ser a rapariga que foi há trinta anos. Usa a experiência que ganhou a gerir a oficina, a lidar com os clientes e a tomar decisões financeiras para desenvolver um novo ateliê. São precisamente os conhecimentos acumulados ao longo dos anos que a ajudam a realizar o velho sonho de uma nova forma.
A mudança mais importante na história de Teresa começa quando ela percebe que já tem possibilidades que antes não tinha. Maria formou a sua própria família, a oficina tem ajudantes e parte das obrigações pode ser partilhada. Apesar disso, Teresa continua durante muito tempo a viver segundo as velhas limitações, porque está tão habituada a elas que tem dificuldade em reparar no quanto as circunstâncias mudaram.
Só quando Leonor abre a janela e descobre o desenho é que Teresa volta a prestar atenção aos seus próprios desejos. Mas a mudança exige muito mais do que uma decisão. Ela tem de conversar com a filha, tratar da casa, aceitar recusas de clientes e encontrar uma forma realista de viajar. É precisamente por isso que a história é tão humana. Teresa guarda o amor pela vida que teve e, aos poucos, cria espaço para os seus novos sonhos.
Talvez também na tua vida já tenham acontecido mudanças que te dão a possibilidade de fazer algo diferente. A questão é se reparaste nelas e o que gostarias de fazer com elas.
Proponho-te uma prática de sete dias que te vai ajudar a observar os papéis do passado, os teus desejos atuais e as possibilidades reais de mudança. Podes usar um caderno ou um diário e dedicar-lhe tempo de acordo com as tuas possibilidades.
Primeira janela — a sala antiga. Recorda três períodos importantes da tua vida. O que criaste neles, que pessoas estavam ao teu lado e que capacidades desenvolveste? Escreve o que valorizas desses anos e que experiências te ajudaram a tornar-te a pessoa que és hoje.
Segunda janela — a cadeira vazia. Pensa numa pessoa, num papel ou numa ocupação que já não está presente na tua vida da mesma forma. Do que sentes mais falta? Que recordação queres guardar e que velho hábito já não tem o mesmo significado?
Terceira janela — o caderno de esboços esquecido. Recorda um desejo que em tempos foi importante para ti. Continua a atrair-te? Se sim, de que forma gostarias de o desenvolver agora, usando os conhecimentos e as possibilidades que tens hoje?
Quarta janela — as expectativas dos outros. Escreve três coisas que acreditas que as pessoas esperam de ti. Quais delas foram realmente expressas pelos teus próximos e quais foste tu próprio(a) que transformaste em obrigação? Pensa com quem poderias falar sobre a mudança que desejas.
Quinta janela — o preço da mudança. Escolhe um desejo e escreve o dinheiro, o tempo, a preparação e a ajuda necessários. Que riscos são reais e como os podes limitar? Se estás a pensar numa mudança profissional, analisa a tua segurança financeira e, se sonhas com uma viagem, pensa em como a organizar de acordo com as tuas possibilidades.
Sexta janela — a janela entreaberta. Faz uma pequena ação nos próximos dias — tem uma conversa, visita um sítio novo, inscreve-te num curso, investiga uma possibilidade de trabalho ou retoma uma ocupação criativa. Depois anota o que aprendeste e se o desejo continua a atrair-te.
Sétima janela — os dois barcos. Desenha dois barcos. Que o primeiro esteja perto da margem e o segundo em mar aberto. Por baixo do primeiro, escreve o que continuas a guardar do período anterior e, por baixo do segundo, como gostarias que fosse o próximo capítulo da tua vida. Entre eles, acrescenta três passos concretos rumo à mudança que desejas.
Quando terminares a prática, observa os dois barcos e pensa qual dos passos escolhidos já está ao teu alcance.
Guarda o desenho do sétimo dia e coloca-o junto a uma janela ou no teu diário. A cada passo importante rumo à mudança que desejas, podes acrescentar um pequeno pormenor — uma data, uma palavra ou um símbolo do que viveste. Com o tempo, os dois barcos vão lembrar-te de onde começaste, o que escolheste guardar e o que conseguiste realmente concretizar.
Imagina Teresa sentada junto à janela aberta de par em par do seu ateliê. Na mesa está o caderno de esboços que Manuel lhe ofereceu e, ao lado, alguns desenhos novos. Ela olha para a primeira página, com a caligrafia familiar do marido, depois pega numa folha de papel e começa uma carta.
«Querido Manuel,
Hoje voltei a sentar-me junto à velha janela. Lá fora veem-se os barcos no Douro e, em cima da mesa, tenho tantos desenhos que mal encontro lugar para a minha chávena. Provavelmente ias rir-te se visses como está o nosso antigo quarto sossegado. Lembras-te de como me tentavas convencer a assinar as flores e os pássaros que eu pintava para as encadernações? Eu respondia-te sempre que não importava quem tinha feito cada ornamento, porque o nosso trabalho era comum. Há pouco tempo, escrevi o meu próprio nome num desenho e fiquei um pouco comovida. Imagina — depois de tantos anos a assinar contas e encomendas, um nome num desenho conseguiu pôr-me a sorrir a noite inteira.
Quero falar-te também da casa. Durante muito tempo mantive-a quase inalterada, porque tinha medo de que, se mexesse nas tuas coisas, começasse a esquecer as nossas conversas, o riso e todos os anos bonitos que vivemos juntos. Depois o telhado começou a precisar de obras sérias. O Miguel explicou-me que o apego às recordações não ia reforçar as vigas danificadas. Confesso que estive quase a zangar-me com ele, mas desta vez tinha razão. Tive de tomar decisões que adiara durante muito tempo. Vendi parte das coisas velhas, arrendei um quarto e comecei a organizar as obras, mas fiquei com a tua poltrona. Ainda gosto de me sentar nela e de recordar as noites em que conversávamos depois do trabalho.
Descobri que posso guardar o meu amor por ti, mesmo quando a casa começa, aos poucos, a ficar diferente. E sabes quem me ajudou a perceber isso? A Leonor. A rapariga chegou para aprender o ofício de encadernadora, mas logo nos primeiros dias começou a mostrar interesse pela pintura. Uma tarde, abriu a velha janela e descobriu o barco que pintei quando me ofereceste o caderno de esboços. Perguntou-me se eu ainda queria pintar. Consegues imaginar? Depois de tantos anos, ninguém me tinha feito essa pergunta.
Começámos a trabalhar juntas e, aos poucos, recuperei as minhas antigas capacidades. O primeiro cliente a quem mostrei os desenhos recusou-os e eu fiquei mais abalada do que gostaria de admitir. Depois outra pessoa encomendou imagens de portos e de barcos, surgiram mais encomendas e, com a Leonor, criámos um pequeno ateliê. Já temos alunas. Quando as raparigas começam todas a fazer perguntas ao mesmo tempo, lembro-me de como era silencioso antes e acho graça a, em tempos, me ter queixado de que a casa era grande demais.
A Maria também se foi habituando às mudanças. No início, ficou ofendida quando recusei ficar com as crianças durante alguns dias. Durante tantos anos estive sempre disponível que as duas tivemos dificuldade em aceitar a necessidade de organizar o nosso tempo de outra maneira. Mas agora encontramos espaço tanto para a família como para o trabalho. Há pouco tempo, a Maria trouxe as crianças ao ateliê. Dei-lhes papel e lápis e a Leonor ensinou-as a desenhar pequenos barcos. Foi uma tarde maravilhosa. Ias gostar de as ver.
E agora vou dizer-te uma coisa que de certeza te vai surpreender. Finalmente vou partir para ver o oceano. Recebi uma encomenda de desenhos de paisagens costeiras e tenho de visitar vários portos. Preparei o dinheiro, combinei o trabalho no ateliê e até o Miguel admitiu que, desta vez, fiz um plano sensato. Vou levar o caderno de esboços que me ofereceste. Durante muito tempo, as suas páginas em branco lembraram-me tudo o que não conseguimos fazer juntos, mas agora quero enchê-las com os lugares que vou ver.
Continuo a sentir a tua falta, Manuel. Ainda me lembro das nossas conversas na oficina, da maneira como escolhias o couro para as encadernações e do cuidado com que verificavas cada encomenda. Gostava de te poder contar tudo o que está a acontecer. Mas tenho a sensação de que uma parte de ti continua presente em cada livro que faço. Nem o meu novo ateliê seria o mesmo sem os conhecimentos que adquiri ao longo dos anos contigo.
Quando vir o oceano, vou lembrar-me do dia em que me ofereceste o caderno de esboços e prometeste que um dia viajaríamos juntos. Talvez nessa altura pinte o primeiro barco que vir no mar, especialmente para ti. Desta vez vou partir e levar todos os meus pincéis. E, quando voltar, vou contar-te o que vi, como um dia te prometi.
Com amor,
Teresa.»
Se a velha janela te fez lembrar uma etapa da vida que está a terminar, um desejo esquecido ou um papel na família que já não corresponde à tua vida, podes continuar a tua exploração no FatedWays — o Jogo da Alma. Na sala Deixar ir podes perguntar: «Que papel antigo continuo a desempenhar, apesar de as circunstâncias já serem diferentes?» Em Karma podes analisar a promessa simbólica que te leva a ter medo da mudança e, em A Encruzilhada, as possibilidades para a próxima etapa da tua vida.
Se desejas desenvolver um velho talento ou interesse, visita a sala Dons. Na sala A Linhagem podes explorar as expectativas da família e, em Dinheiro, as questões financeiras que convém avaliares antes de dares um novo passo. As salas Amor, Compatibilidade, Amigo e A minha gente podem ajudar-te a observar as relações que desejas manter ou desenvolver de outra forma.
Podes continuar com a grande tiragem de Tarot «O processo kármico — desclassificado», e agora também com a viagem simbólica «A porta para uma vida esquecida».
Porto, alguns meses depois da viagem de Teresa. Pelas janelas abertas de par em par do ateliê entrava a luz da tarde. Pela mesa estavam espalhados desenhos de portos, barcos e ruas costeiras e, nas prateleiras, havia bonitas encadernações e material de pintura. Teresa tinha regressado com o caderno de esboços cheio. Pela primeira vez em tantos anos, o presente de Manuel tinha mais desenhos do que páginas em branco.
Durante a viagem, visitara portos desconhecidos, conversara com pescadores e marinheiros e pintara o mar a diferentes horas do dia. Nalgumas páginas anotava as cores dos edifícios, noutras registava episódios engraçados ou conversas com as pessoas que encontrava. Leonor via os desenhos com uma curiosidade enorme e fazia constantemente perguntas sobre os lugares que a tia visitara. Quando exclamou que ela tinha conseguido ver imensa coisa, Teresa sorriu e admitiu que já havia mais lugares que queria visitar. A sobrinha sugeriu logo que comprassem um caderno de esboços novo, mas Teresa respondeu que primeiro ia usar todas as folhas daquele, porque já as tinha guardado em branco tempo suficiente.
Passado algum tempo, chegaram Maria e as crianças. Os netos começaram logo a observar os navios dos desenhos e a perguntar se o mar era mesmo tão grande como parecia. Teresa riu-se e garantiu-lhes que era ainda maior e que provavelmente ia precisar de muitos mais cadernos de esboços se decidisse pintá-lo todo. As crianças insistiram para que ela lhes falasse dos barcos, dos portos e das pessoas que tinha conhecido, e Maria observava a mãe a sorrir. Nos últimos anos, começara a descobrir tantas coisas sobre ela em que antes quase nem pensava. Admitiu que nunca imaginara o quanto Teresa gostava de viajar, e a mãe respondeu que ela própria se tinha esquecido disso durante muito tempo.
A tarde passou entre conversas e risos. Quando as visitas se foram embora, Teresa ficou algum tempo sozinha no ateliê. Abriu o velho caderno de esboços e olhou para a primeira página, onde a caligrafia de Manuel ainda estava nítida. Passou os dedos pelas letras, sorriu e depois aproximou-se da velha janela. As duas portadas de madeira estavam abertas de par em par e lá fora viam-se os telhados do Porto, as águas do Douro e os barcos que continuavam a passar pelo rio.
Numa das portadas ainda se distinguia o seu primeiro desenho — um pequeno barco perto da margem, com a vela pronta a apanhar o vento. Teresa tocou com cuidado nas linhas desbotadas e lembrou-se do dia em que o pintara. Nessa altura era uma jovem cheia de sonhos de portos distantes e de viagens com Manuel. Desde então tinham passado mais de trinta anos, durante os quais vivera o amor, a maternidade, muito trabalho, a perda, decisões difíceis e novos encontros. Fora feliz em muitos desses anos, e outros tinham trazido uma dor que nunca desejaria voltar a viver. Mas todos faziam parte da sua história e ela não queria perder as recordações das pessoas que amara.
Teresa voltou-se para a mesa, pegou num pincel pequeno e em algumas cores e depois pôs-se diante da outra portada de madeira. Começou a pintar diretamente na madeira. Primeiro surgiu a linha do horizonte, depois um pequeno barco de mastro alto e, à volta dele, largas ondas do mar, como as que observara durante a viagem. Leonor entrou no quarto, viu-a a trabalhar e perguntou o que estava a pintar. Teresa sorriu e respondeu que era o barco que finalmente zarpava.
A rapariga aproximou-se e ficou a ver a nova imagem a surgir aos poucos. Quando Teresa terminou, escreveu a data do seu regresso e pôs as suas iniciais. Depois pousou o pincel e as duas ficaram muito tempo a olhar para os desenhos. O primeiro barco estava perto da margem e o segundo já navegava entre as ondas do mar. Leonor perguntou porque é que a tia decidira pintar mais um, e Teresa sorriu e respondeu: «Para me lembrar de que já parti uma vez. E, da próxima vez, não vou precisar de trinta anos para decidir.»
As duas riram-se, e Leonor voltou à mesa e tirou uma carta que queria precisamente mostrar. Era de um mestre de Lisboa, junto de quem podia ter a oportunidade de fazer uma breve formação em técnicas decorativas. Teresa leu com atenção o que estava escrito e perguntou se a sobrinha queria experimentar. A rapariga admitiu que queria muito, mas que estava preocupada com o dinheiro, com o trabalho no ateliê e com a reação da mãe. Teresa ouviu-a e depois pegou em duas folhas de papel e pô-las à frente dela. Sugeriu que escrevessem todas as dificuldades reais que tinham de resolver, bem como os motivos pelos quais a formação era importante para Leonor. A rapariga riu-se, porque reconheceu de imediato a mesma abordagem com que, em tempos, ajudara a tia a preparar a viagem até ao oceano.
Sentaram-se à grande mesa e começaram a conversar. Numa das folhas escreveram o dinheiro necessário, os prazos e as possíveis dificuldades e, na outra, o que Leonor queria aprender, porque é que a formação era importante para ela e como poderia usar os conhecimentos adquiridos. Teresa falava da sua própria experiência, a sobrinha partilhava as suas preocupações e, aos poucos, entre as duas começou a ganhar forma um plano. Nenhuma delas podia saber de antemão como iam correr as coisas, mas já tinham informação suficiente para considerar a possibilidade a sério.
Passado algum tempo, Leonor levantou-se e aproximou-se da janela. Observou os dois barcos, depois olhou para o rio e sorriu. «Talvez um dia eu também pinte o meu», disse ela. Teresa riu-se e respondeu que claro que podia, mas que primeiro teriam de decidir por onde iam navegar todos aqueles barcos, porque, se continuassem a acrescentar novos, em breve iam precisar de mais uma janela. Leonor sugeriu que talvez precisassem de uma parede inteira, e as duas voltaram a rir-se.
Lá fora, no Douro, passava um barco de vela alta. Teresa seguiu-o com o olhar e lembrou-se de como, muitos anos antes, observava a mesma paisagem, imaginando os portos desconhecidos para onde o rio levava. Agora já conhecia alguns deles. Tinha partido, visto o mar, voltado para casa e descoberto que ainda tinha desejos que gostaria de realizar. E, na janela, os dois barcos ficavam lado a lado — um guardava o sonho da jovem, o outro contava a viagem da mulher que finalmente o realizara.
Se escolheste a velha janela, desejo-te que guardes com amor tudo o que há de valioso na vida que viveste e que descubras alegria naquilo que ainda te espera. Que tenhas pessoas que compreendam as tuas mudanças, oportunidades para desenvolver as tuas capacidades e coragem para dar atenção aos teus próprios desejos. Desejo-te que abras as janelas para as quais há muito olhas com desconfiança e que encontres a tua maneira de chegar aos lugares com que sonhas. E, se um dia te perguntares se já não é tarde demais, lembra-te de Teresa. Entre os seus dois barcos havia mais de trinta anos, mas, quando finalmente zarpou, descobriu que o mundo ainda tinha muito para lhe mostrar. E que, para a próxima viagem, já pode fazer as malas um pouco mais cedo.
Se quiseres ver onde começou esta investigação, no artigo «O processo kármico — as sete pastas da alma» vais encontrar as sete pastas: os lugares que conheces sem te lembrares deles, as pessoas do velho processo, os votos, os dons esquecidos e a última página que espera pelo seu autor.
Tudo o que fazes de coração — uma palavra, um gesto, um donativo — regressa. Não amanhã, não na próxima semana, mas no momento em que se tiver acumulado o suficiente. Se estas palavras chegaram até ti, se algo nelas reconheceu algo em ti, não é por acaso. E se te apetecer devolver um pouco desta energia, qualquer quantia é recebida com gratidão e transforma-se em novos conteúdos, novas tiragens, novas palavras que vão chegar a alguém que precisa delas mesmo a tempo. É assim que o ciclo continua.
Escrito por
taróloga e quiromante, criadora do FatedWays
O processo kármico: sete pastas de vidas passadasUm lugar familiar, uma pessoa de um velho processo, um juramento, um dom e a culpa: sete pastas de vidas passadas e o que dizem sobre ti hoje.
Tiragem de tarô «O lugar de que a minha alma se lembra»Chave, bússola, carta ou arco: cinco posições sobre o lugar que te atrai, o que lá deixaste e o que quer voltar à tua vida hoje.
Para onde quer voltar a tua alma? Lugares e vidas passadasPorque é que um lugar te parece estranhamente próximo, mesmo que nunca lá tenhas estado? Que mundo reconhece a tua alma e o que te falta hoje.
Teste: que lugar te reconhece? Vidas passadas e lugaresDoze lugares da Grécia Antiga ao Novo Mundo. Escolhe a imagem a que o teu olhar regressa e descobre o que a tua alma procura hoje.