Podes entrar numa casa antiga a milhares de quilómetros de casa e, logo à entrada, sentir a estranha certeza de que sabes o que está atrás da porta seguinte. Podes conhecer alguém pela primeira vez e, depois de dez minutos de conversa, ter dificuldade em acreditar que foram mesmo só dez. Ou passar a vida inteira a sentir-te atraído(a) por uma certa cidade, um mar, uma montanha, a música de outra época, um ofício antigo ou uma língua que te soa de algum modo familiar, embora mal percebas três palavras. Gosto muito destes pequenos momentos inexplicáveis. A vida já está cheia que chegue de palavras-passe, contas, prazos e pessoas que querem uma explicação razoável para tudo. É bom que nos fique também algum mistério.
E se alguns destes mistérios fossem memórias? E se de uma vida passada trouxéssemos aquilo que foi mais forte no seu fim, enquanto os nomes, os anos e a morada se perderam há muito? Um sentimento, uma pessoa, uma promessa, um lugar para onde queríamos voltar, um caminho que nunca seguimos, ou algo para o qual tínhamos a certeza absoluta de que amanhã ainda haveria tempo. Talvez o arquivo da alma seja bastante desarrumado. Pode ter perdido a pasta com a biografia e guardado exactamente aquilo que o coração não conseguiu terminar.
Foi desta pergunta que nasceu o teste «Que rasto do teu último dia ainda trazes hoje?». À tua frente estão oito imagens, e por trás de cada uma esconde-se uma vida possível inteira. Olha para elas e escolhe a imagem para onde os teus olhos voltam sozinhos. Não procures a mais bonita e não tentes adivinhar de antemão o que significa. A mente adora espreitar a última página, e desta vez vamos deixá-la esperar um pouco.
Depois da escolha, entrarás na história de uma pessoa que tinha uma casa, um trabalho, pessoas queridas, hábitos, sonhos, pequenos episódios engraçados e planos para a semana seguinte, como todos nós. Chegarás também ao seu último dia, porque é precisamente aí que ficou algo por terminar, por viver ou tão importante que o seu rasto parece ter atravessado o tempo. Depois voltaremos à tua vida de agora e procuraremos onde esta história ainda se pode fazer ouvir hoje — nas tuas relações, nas decisões que tomas, nos medos que tens dificuldade em explicar, nos lugares que te atraem ou nos desejos que voltam teimosamente, por mais vezes que os guardes na gaveta do «um dia».
Não é preciso levar cada palavra à letra para encontrares algo teu no resultado. Podes lê-lo como a história de uma vida passada, como um símbolo ou simplesmente como uma forma de olhar de outro ângulo para algo que trazes contigo há muito tempo. O mais interessante para mim é o momento em que alguém lê a história de outra pessoa e de repente pensa: «Espera aí, eu também faço isto.» É exactamente aí que começa a verdadeira parte do teste.
Se quiseres seguir primeiro o rasto da própria ideia, lê o artigo «O meu último dia numa vida passada». Nele falamos desses reconhecimentos estranhos, sensações que se repetem e rastos emocionais que levam uma pessoa a perguntar-se se tudo em nós começa mesmo nesta vida. Depois volta às imagens e faz a tua escolha. Pode acontecer que, depois do artigo, olhes de forma completamente diferente para aquilo que te atraiu primeiro.
Escolhe a imagem para onde os teus olhos voltam
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A carta por acabar
A pessoa com quem a história não terminou
O sino da pequena igreja bate as cinco quando sais da livraria e o vês do outro lado da rua. Chove desde manhã, as pedras debaixo dos teus pés brilham, as rodas das carruagens salpicam lama e a padaria da esquina cheira a pão e canela. Ele está debaixo do alpendre em frente, com o casaco escuro que reconhecerias ao longe, e olha para ti como se fossem as duas únicas pessoas na rua. Claro que não são. Nesta cidade há sempre pelo menos uma vizinha que não tem nada que fazer exactamente ali, mas que sabe espantosamente bem quem se cruzou com quem e quanto tempo se olharam.
Nesta vida és uma jovem mulher de vinte e oito anos e vives no início do século XIX numa cidade europeia não muito grande, à beira de um rio. A tua família é abastada, a casa é bonita, têm criados, livros, boa porcelana e uns pais que pensaram o teu futuro com bastante pormenor. A única coisa que esqueceram neste plano maravilhoso foi perguntar-te se gostavas dele. Espera-se que faças um bom casamento, que fiques perto da família e que, com o tempo, governes a tua própria casa com a mesma segurança com que a tua mãe governa esta. Durante muito tempo acreditaste que provavelmente seria mesmo assim, até que uma tarde estendes a mão para um livro na pequena livraria da praça e outra mão se estende para o mesmo.
Ele cede-te o livro e diz que o levará na semana seguinte, desde que prometas não sublinhar o final a lápis. Ris-te, porque é exactamente isso que fazes com os livros, embora não faças ideia de como ele poderia saber. Uma semana depois voltam a encontrar-se na livraria. À terceira vez, ambos já percebem que o acaso começou a esforçar-se demasiado.
É um pouco mais velho do que tu, instruído, e trabalha com o pai num escritório comercial. Não tem a fortuna nem o apelido que a tua família consideraria adequados, mas tem o hábito de ouvir quando falas, e isso revela-se muito mais perigoso. Fala-te das cidades que viu por causa do trabalho do pai, do mar que nunca viste e de uma casa com janelas grandes que um dia quer ter. Tu confessas-lhe que queres viajar, embora a tua mãe considere isso uma ocupação excelente para quem não tem uma casa decente onde ficar sentado.
Os vossos encontros tornam-se aos poucos mais frequentes. Passeiam pela mesma rua à mesma hora e, diante das pessoas, trocam umas poucas palavras perfeitamente inocentes. As conversas verdadeiras estão nas cartas. Uma pessoa de confiança leva-as de um para o outro, e à noite, quando a casa fica em silêncio, lês-las à luz da vela no teu quarto. Depressa reconheces o humor dele só pela letra. Quando está emocionado, as linhas sobem ligeiramente; quando está zangado, carrega tanto na pena que a tinta quase atravessa o papel. Tem também um hábito que ao princípio te faz rir — dobra sempre o canto superior direito da folha antes de a meter no envelope.
As tuas cartas são mais compridas. À noite escreves com coragem; de manhã relês o que escreveste e metade da tua coragem desapareceu misteriosamente. Riscas algumas linhas e depois voltas a copiá-las, porque são exactamente essas que queres que ele leia. Uma carta viaja dias entre vocês, e a resposta outros tantos, por isso o luxo de hoje de decidir, após meia hora de silêncio, que a outra pessoa perdeu claramente o interesse é-vos completamente desconhecido. Vocês sabem esperar. Só que, com o tempo, começam a esperar algo mais do que uma carta.
Ao fim de quase um ano, ele tem a possibilidade de trabalhar noutra cidade. Quer partir primeiro, instalar-se e depois encontrar maneira de ficarem juntos. Nas cartas já falam de uma vida absolutamente real: uma casa pequena, a tua viagem até lá, o dinheiro que será preciso, até os livros que tens mesmo de levar. O plano é ousado para a época e para a tua posição, mas aos vinte e oito anos tem-se a maravilhosa capacidade de acreditar que, se duas pessoas quiserem algo com força suficiente, o mundo acabará mais cedo ou mais tarde por ganhar juízo.
O mundo não ganha juízo.
Uma das cartas cai nas mãos da tua mãe. Ela não faz cenas. Quase seria mais fácil. No dia seguinte, o teu pai chama-te ao escritório e a conversa é curta. Explica-te que a relação acabou, que aquele homem não é para ti e que dentro de algumas semanas irás para casa de uns parentes. À noite encontras maneira de enviar uma última mensagem. Ele já partiu, mas deixa a morada e duas palavras de que te lembrarás durante muito mais tempo do que então imaginas: «Vou esperar.»
Escreves-lhe assim que chegas a casa dos teus parentes. Depois escreves outra vez. Passam semanas sem resposta. Tentas através do vosso amigo comum e ficas a saber que a primeira carta provavelmente nunca chegou. Envias uma segunda para a morada do escritório. Também fica sem resposta. Com o tempo chega-te o rumor de que ele partiu para ainda mais longe por causa do trabalho. Outra pessoa garante que adoeceu. Ninguém sabe o suficiente e toda a gente sabe um bocadinho, que é quase a pior maneira possível de esperar por alguém.
Os meses passam e aos poucos começas a perceber que o mais difícil já não é a separação em si. O mais difícil é a história não ter fim. Não sabes se ele recebeu pelo menos uma das tuas cartas. Não sabes se esperou e concluiu que tu tinhas desistido. Não sabes se escreveu e as cartas dele foram interceptadas. Não sabes se escolheu outra vida. Tens dezenas de versões e nem uma única verdade.
Pouco mais de dois anos depois da partida dele, voltas à tua cidade natal. A tua vida já é outra, mas a caixa com as cartas volta contigo. Guarda-la na gaveta de baixo da secretária e raramente a abres. Consegues passar pela livraria sem esperar vê-lo, mas continuas sem conseguir aceitar a ideia de que uma história tão importante tenha acabado sem que nenhum dos dois saiba exactamente como.
No Inverno adoeces gravemente. Ao princípio toda a gente está convencida de que vais recuperar, e passadas algumas semanas também tu começas a acreditar nisso. No último dia até te sentes melhor. A Primavera já se sente no ar e pedes que abram a janela. Ouves os cascos dos cavalos na rua, as vozes das pessoas lá em baixo e o sino que marca as mesmas horas pelas quais em tempos contavas os teus encontros com ele.
À tarde ficas sozinha e abres a gaveta de baixo. Tiras a caixa, desdobras a primeira carta dele e depois a última. O papel ficou macio de tanto ser relido, a tinta desbotou e o canto superior direito continua dobrado segundo o velho hábito dele. Tocas-lhe com o dedo e por um instante estás outra vez em frente à livraria, chove, ele está do outro lado e os dois têm todo o tempo do mundo.
Então pegas numa folha em branco.
Desta vez já não escreves para receber resposta. Queres simplesmente contar o fim do teu lado. Escreves que nunca deixaste de responder, que enviaste cartas, que esperaste e que nunca soubeste o que foi feito dele. Contas-lhe os anos que vieram depois e num ponto sorris, porque te lembras de como ele chegava sempre atrasado aos vossos encontros. Um dia disseste-lhe que ele ainda te ia fazer esperar por ele a vida inteira. Nessa altura, riram-se os dois.
Chegas ao último parágrafo e começas a frase que nunca escreveste nas cartas antigas. Sempre acreditaste que um dia lha dirias pessoalmente. Escreves as primeiras palavras, mas a mão já está cansada e pousas a pena junto ao tinteiro. Decides que acabarás a carta de manhã. Depois de tantos anos de espera, uma noite parece-te nada.
Na manhã seguinte, a mulher que cuida de ti entra no quarto e vê a janela aberta, a vela apagada e a folha em cima da secretária. Ao lado estão as cartas antigas, atadas com uma fita desbotada. Lê o nome da pessoa a quem a nova carta se destinava, mas não há morada para onde enviá-la. Dobra a folha e guarda-a junto das outras.
A última frase fica por acabar.
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste precisamente esta imagem, o rasto que procuramos está ligado a uma história sem última conversa. Na tua vida de hoje, o silêncio provavelmente pesa mais do que uma verdade desagradável. Consegues suportar um «não quero», um «acabou» ou um «escolhi outra coisa», por mais que doa, porque pelo menos sabes com o que contas. Muito mais difícil é o «logo se vê», o afastamento súbito e a pessoa que simplesmente deixa de falar.
É então que a tua mente se transforma facilmente numa pequena agência de investigação. Repassas a última conversa, verificas onde o tom mudou, perguntas-te porque é que na semana passada havia dois pontos de exclamação e agora nenhum, e és capaz de encontrar significado até num simples ponto depois de «boa noite». Por trás disto há, no entanto, algo mais profundo: para ti, as relações acabam com muito mais dificuldade quando falta clareza. Um final em aberto continua a ocupar parte da tua atenção, porque ainda estás à espera da última página.
Pode ser que reconheças também o outro lado deste rasto. Alguém entra na tua vida e a proximidade chega depressa demais para o tempo que se conhecem. Ainda não têm memórias suficientes em comum e já sentes a falta dessa pessoa. A conversa flui com a leveza de uma continuação, como se tivessem começado a meio e nenhum dos dois precisasse do primeiro capítulo. Se, enquanto lês este resultado, já te apareceu na mente um rosto concreto, guarda-o. É exactamente aí que a história se torna interessante.
Se quiseres fazer algo com este rasto já agora, pega numa folha e escreve a essa pessoa uma carta que não tens de enviar. Começa com: «Se eu soubesse que esta é a última carta que te posso escrever, dir-te-ia…» e continua até chegares àquilo que normalmente corriges, calas ou deixas para o momento certo. Depois lê o que escreveste e vê qual a frase que te custou mais pôr no papel. É exactamente essa que merece a tua atenção.
E se quiseres abrir mais esta velha história, segue para a tiragem de Tarô «O meu último dia numa vida passada». Aí procuraremos quem foste, quem era a pessoa das cartas, o que realmente vos separou, o que foi feito dele depois do vosso último encontro e como este fio participa na tua vida agora. E se um rosto não te sai do pensamento enquanto lês, guarda precisamente esse, porque a pergunta seguinte é muito mais curiosa: a vossa história começa com o primeiro encontro nesta vida, ou nessa altura simplesmente se reconheceram outra vez?
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As duas chávenas
A pessoa por quem esperaste
Antes mesmo de abrires os olhos, já sabes como está o mar. Nas manhãs calmas ouves as vozes soltas do porto, as rodas das carroças nas pedras e as gaivotas, que desde o nascer do sol têm alguma coisa a dizer à cidade inteira. Quando o vento vem do lado da água, os cabos batem nos mastros e esse som chega ao teu quarto no primeiro andar. Abres as portadas de madeira, sentes o cheiro do sal, da pedra molhada e do pão quente do forno da rua de baixo e olhas para o porto por entre os telhados. Isto faz parte da tua manhã, como o café, a voz da tua mãe no rés-do-chão e a campainha por cima da porta da loja.
Nesta vida és uma jovem mulher e vives em meados do século XIX numa pequena cidade portuária do Adriático. A casa da tua família fica numa rua íngreme sobre a água, onde de manhã os comerciantes põem a mercadoria à porta, à tarde as mulheres conversam de janela para janela e à noite o cheiro a café e a fumo de lenha se mistura com o ar do mar. Em baixo têm uma loja de tecidos, linhas, botões e fitas, e por cima ficam os quartos onde cresceste. Ao teu pai já custa passar um dia inteiro atrás do balcão, e aos poucos foste ficando com quase tudo, embora a tua mãe continue convencida de que qualquer decisão em casa, na loja e provavelmente em meia cidade seria mais sensata se primeiro fosse discutida com ela.
Gostas do trabalho e conheces tão bem os clientes que, logo à porta, sabes que mulher vai pedir o tecido mais caro e depois indignar-se com o preço, qual vai escolher a mesma cor da vizinha e depois jurar que nunca viu o vestido dela, e que homem vai entrar a dizer «preciso de uma coisa para a minha mulher», como se com isso já tivesse descrito a cor, o tecido, a quantidade e a ocasião. Um desses homens entra na loja pouco depois da chegada de um navio mercante e pede tecido para a mãe. Não faz ideia de que cor ela gosta, não sabe o que ela vai coser e, quando lhe perguntas pelo menos que idade ela tem, pensa tanto tempo que por pouco não lhe perguntas se os dois já se conheceram. No fim aponta para uma seda verde berrante, e tu dizes-lhe que é lindíssima, se a mãe dele sonha há muito ser notada do outro lado do porto. Ele desata a rir, o teu pai espreita da sala das traseiras e tu escolhes-lhe um tecido muito mais adequado.
No dia seguinte o marinheiro volta por causa de linha, um dia depois de repente precisa de uma fita, e no fim da semana já é evidente que, se o navio ficar mais um mês, ele vai ter de comprar meia loja para continuar a encontrar motivos decentes para entrar. É um pouco mais velho do que tu e navega num navio mercante entre vários portos do Mediterrâneo. Quando parte pela primeira vez, pensas que entre vocês houve uma semana bonita de que um dia te lembrarás com um sorriso. Uns meses mais tarde, porém, o navio volta a entrar no porto e nesse mesmo dia ele aparece na loja, queimado do sol, com laranjas debaixo do braço e com a naturalidade de quem tivesse saído na tarde anterior.
A partir daí a vossa vida começa a mover-se entre as partidas e os regressos dele. Das viagens traz pequenas coisas que aos poucos enchem o teu quarto — um pedaço de vidro azul, uma moeda estrangeira, fruta seca, uma caixinha de uma especiaria que a tua mãe primeiro declara horrível e uma semana depois já põe em quase tudo. Quando ele está na cidade, à noite sentam-se na mesinha junto à janela e bebem café. Ele fala de Alexandria, Corfu e Trieste, de mercados onde se falam ao mesmo tempo línguas que nunca ouviste e de tempestades no mar que invariavelmente descreve como «nada de especial», embora a cada nova narração as ondas fiquem mais altas. Tu contas-lhe quem casou, quem faliu, quem voltou a não falar com o próprio irmão e porque é que a vizinha da frente continua a mudar os vasos de lugar diante da tua casa quando julga que ninguém a vê.
Na mesa estão duas chávenas, e a dele esvazia-se sempre primeiro. Dizes-lhe muitas vezes que um homem capaz de atravessar meio Mediterrâneo podia bem arranjar dez minutos para beber um café como deve ser, e ele promete que aprenderá quando deixar de navegar. Aos poucos, esse «quando» começa a parecer um verdadeiro plano. Ele quer fazer mais umas viagens, poupar o suficiente e começar um pequeno comércio em terra. Vão casar, alargar a loja, ele tratará dos fornecimentos e tu dos clientes. Já discutem onde vai ficar a mesa maior, quantos quartos precisam e porque é que ele faz tanta questão de uma porta de entrada azul só porque viu uma assim numa ilha qualquer. O futuro ganha aos poucos tantos pormenores que começas a senti-lo como um lugar onde os dois simplesmente ainda não chegaram.
Uma das viagens seguintes deve ser a última ausência longa. O navio vai partir para sul, descarregar a mercadoria, receber nova carga e voltar dentro de três ou quatro meses. Na véspera da partida estão outra vez na mesinha, e ao lado da chávena dele está a velha bússola de latão que costuma trazer consigo. Quando se levanta, deixa-ta e pede-te que a guardes até ele voltar. Ris-te e dizes que um marinheiro sem bússola não é propriamente a pessoa mais convincente a quem confiar um navio, mas ele já decidiu que aquele objecto pertence à vossa futura casa. Na manhã seguinte acompanha-lo ao porto, no meio da confusão habitual de caixotes, cabos, marinheiros e cargas atrasadas, e antes de o navio se afastar do cais ele promete-te que da próxima vez volta para ti de vez. Acreditas nele com toda a naturalidade, porque até agora ele sempre partiu e sempre voltou.
O fim do Verão chega sem o navio. Ao princípio ninguém vê motivo para preocupação, porque as rotas mudam, as cargas atrasam e o tempo pode demorar um navio durante semanas. Ao fim de um mês começas a perguntar o que se espera do sul, e ao fim de dois já reconheces alguns navios pelos mastros. Então entra na loja um capitão que conheces e conta que em Corfu ouviu falar de uma forte tempestade na rota. O navio em que vai o teu homem terá provavelmente sofrido danos, mas segundo as notícias manteve-se à tona. Mais tarde, outro marinheiro ouviu dizer que parte da tripulação chegou a um porto estrangeiro, depois alguém conta que o navio foi reparado, e um terceiro tem a certeza de que alguns marinheiros de bordo passaram para outras embarcações. Nenhuma destas histórias te dá uma resposta, mas em cada uma há um pequeno pormenor que te faz continuar a acreditar que ele pode voltar.
Entretanto a tua vida continua. Abres a loja de manhã, estendes os tecidos no balcão, cortas, medes, fazes contas, discutes com fornecedores, tratas dos teus pais, fazes visitas e ris-te com as amigas. Quem te visse durante o dia dificilmente pensaria que estás à espera de um homem desaparecido algures entre dois portos. Só quando do lado da água se ouve o sino de um navio é que a tua mão pára por um instante sobre o tecido e o teu olhar encontra sozinho a janela. No primeiro ano desces ao cais quase a cada navio que vem do sul, no segundo só vais quando alguém traz notícias, e no terceiro já ficas na loja, porque sabes as horas de chegada sem precisar de olhar.
A segunda chávena também fica. Ao princípio só a pões nos dias em que esperas um navio, porque imaginas a porta a abrir-se, ele a largar a bagagem no chão e a começar a explicar porque é que uma viagem de quatro meses durou um ano. Aos poucos, a chávena torna-se parte da noite. Uma vez uma vizinha pergunta-te porque continuas a pô-la, e tu respondes que chávenas não vos faltam. Ela olha para ti, tu olhas para ela, e a conversa acaba com o acordo silencioso de que esta explicação é suficientemente má para não valer a pena discuti-la mais.
No quarto ano, um homem que conheces desde criança começa a passar mais vezes pela loja. A oficina dele fica duas ruas abaixo, e há anos que a tua família o chama quando um fecho se parte, uma prateleira empena ou um armário decide que não quer continuar a ser armário. Traz maçãs à tua mãe, joga às cartas com o teu pai e encontra sempre trabalho para as mãos. Se diz que vem à tarde, vem à tarde, e se promete arranjar alguma coisa, no dia seguinte está arranjada. Com o tempo começas a esperar as visitas dele de uma forma completamente diferente, porque com ele não há navio, tempestade nem boato que se meta entre as palavras dele e a sua chegada.
Um dia fecham a loja juntos e ele faz-te rir tanto que só à noite te apercebes de que durante a tarde inteira não olhaste uma única vez para o porto. Isso perturba-te mais do que esperavas. Uns meses depois ele pede-te em casamento e, pela primeira vez em anos, surge diante de ti um futuro que não precisa de chegar num navio. Consegues imaginar a casa, os filhos, as noites, o teu pai com as cartas e a tua mãe, que provavelmente começará a dar ordens também ao teu novo marido ainda antes do casamento. Gostas deste homem, com ele tudo é leve e sabes que podias ser feliz, por isso pedes uns dias para pensar.
Exactamente nesses dias aparece no porto um marinheiro que em tempos navegou na mesma rota. Ouviu dizer que depois da tempestade parte da tripulação sobreviveu e chegou a outra costa, mas não sabe os nomes e não consegue dizer o que aconteceu depois. Para qualquer outra pessoa isto seria quase nada, mas para ti basta para que volte aquele velho «talvez». Se o homem por quem esperas estiver vivo e um dia voltar para casa, como vais olhar para ele e dizer-lhe que deixaste de esperar pouco antes de ele regressar? Recusas o pedido. O homem da oficina ouve-te com calma e pergunta apenas se ainda estás à espera do marinheiro. Não lhe consegues responder com clareza, porque já nem tu sabes se esperas pelo próprio homem, pela promessa dele ou pela vida que os dois descreveram com tanto pormenor que, com os anos, começou a parecer-te quase algo que já tinhas tido.
Com o tempo, o homem da oficina casa com outra mulher. Continua a cumprimentar os teus pais, aparece quando o teu pai precisa de ajuda, e um dia vês-lo na praça com uma criança pequena ao colo. Sorriem um para o outro e, enquanto os vês seguir rua abaixo, compreendes uma coisa em que nunca tinhas pensado nos primeiros anos de espera: o tempo não esteve vazio. Enquanto esperavas que uma vida voltasse para ti, outras vidas possíveis passavam à tua porta e seguiam o seu caminho.
O quinto Inverno é invulgarmente frio e muita gente adoece na cidade. Contigo começa com tosse e febre alta, depois vêm semanas em que num dia parece que estás a recuperar e no seguinte não tens forças nem para descer à loja. Quando chega Abril, passas quase todo o tempo no quarto, e a tua mãe já não fala do dia em que voltarás para trás do balcão. Em vez disso, conta-te o que se passa lá em baixo, quem veio, que tecido chegou e o descaramento com que lhe subiram o preço, como se todos estes pormenores comuns pudessem segurar por mais um bocadinho à tua volta a vida que sempre conheceste.
Uma manhã acordas com o sol em cima do cobertor e pedes que abram a janela. O ar do mar entra no quarto com as vozes da rua e o barulho do porto, e enquanto a tua mãe te conta as novidades da loja, menciona que à tarde se espera um navio do sul que não vem à cidade há anos. Depois de tanto tempo, as duas sabem o que significa para ti uma notícia assim, e a conversa simplesmente continua. Na mesa junto à janela continua a velha bússola de latão. O metal escureceu, o vidro está riscado e, quando a pegas na mão, lembras-te de que em tempos pensaste que só a guardarias por uns meses.
À tarde ouves o sino do navio, depois as vozes na rua e os passos das pessoas que descem em direcção à água. Por entre os telhados vêem-se as pontas dos mastros, e a cidade vai-se enchendo daquela agitação especial que traz um navio a chegar. Pedes um café à tua mãe e, quando ela te põe a chávena à frente, pedes-lhe que traga também uma segunda. Ela volta sem fazer perguntas, e tu pões a bússola junto ao lugar vazio em frente, exactamente onde em tempos esteve a mão dele. Da rua chegam nomes, risos e cumprimentos, as pessoas voltam para casa com a bagagem, alguém sobe os degraus a correr, e sempre que uns passos se aproximam da casa, o teu olhar vai para a porta.
A luz desliza devagar pela parede, o café da outra chávena arrefece e tu continuas a escutar. Depois de tantos anos, o homem por quem esperaste volta a parecer-te muito perto. Imaginas que ele pergunta pela loja, que alguém lhe aponta a rua íngreme, que ele sobe os mesmos degraus de pedra e pára diante da porta, mais velho, mudado pelos anos, mas com o mesmo sorriso. Talvez olhe para a chávena e se ria de que, afinal, sabias quando fazer café. Talvez peça primeiro a bússola. Talvez finalmente te conte onde esteve este tempo todo e porque é que nenhuma daquelas notícias contraditórias conseguiu chegar à verdade.
Quando à noite a tua mãe entra no quarto, uma chávena está quase vazia, a outra ficou intacta e a velha bússola está ao lado dela. Na manhã seguinte a cidade já fala do navio que chegou, das pessoas que dele desembarcaram e das histórias que trouxeram depois da longa ausência, mas essa notícia já não chega até ti. O teu último dia acaba com a mesma sensação com que viveste os últimos anos — que aquele homem pode estar muito perto, que os próximos passos na rua podem ser os dele e que só falta esperar mais um bocadinho.
«Mais um bocadinho e chegas.»
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste as duas chávenas, talvez reconheças este rasto também na tua vida actual. Quando alguém te fez uma promessa e ainda existe uma razão para ela não ter sido cumprida, sabes dar tempo — à pessoa, às circunstâncias, à fase difícil, à decisão que ainda não foi tomada. Um mês passa a três, depois vem a data seguinte e a explicação seguinte, e cada uma, por si só, pode parecer perfeitamente razoável. É assim que a espera vai deixando de ter um fim definido e se torna parte do quotidiano, tal como a segunda chávena se tornou um dia parte daquela mesa junto ao mar.
Nesta história, as palavras foram ditas. Houve uma promessa de regresso, uma casa em comum e uma vida que duas pessoas já tinham começado a planear. O rasto fica na espera de que as palavras se tornem finalmente acção. Por isso pode aparecer no amor por alguém que ainda não está pronto para a relação que desejas, mas também o podes reconhecer num trabalho que está sempre prestes a começar, numa mudança de casa adiada há um ano para o ano seguinte ou num sonho teu para o qual esperas um momento mais oportuno. E precisamente porque há sempre uma razão para dar mais um pouco de tempo, pode ser difícil perceber quando a espera começou a tirar tempo à tua própria vida.
A capacidade de guardar lugar para alguém é valiosa. Fala de lealdade, paciência e do facto de não deitares fora relações importantes à primeira dificuldade. A velha vida junto ao mar deixa, porém, outra pergunta: o que te acontece a ti durante o tempo em que esperas? Naquela vida houve o homem da oficina, uma família que podia ter nascido e anos que continuaram a trazer as suas próprias possibilidades. Na tua vida actual, a história pode ser completamente diferente, mas a pergunta continua a ser útil: há alguma coisa que deixas constantemente para depois do regresso, depois da decisão, depois da mudança, depois daquele «em breve» que se desloca sempre um pouco mais para lá?
Se esta imagem te fez lembrar logo uma pessoa concreta ou algo por que esperas há muito tempo, põe duas chávenas à tua frente. Que uma seja a vida que já tens e a outra aquilo que esperas que chegue. Olha para elas durante um bocado e faz a ti mesmo(a) uma única pergunta: se daqui a um ano a segunda chávena ainda estiver vazia, o que não quero ter perdido durante esse ano? Não precisas de decidir nada já. Basta, por um momento, desviar o olhar do porto para a pessoa que esteve sentada à mesa o tempo todo — tu.
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O medalhão
A promessa que levaste contigo
Nesta casa ninguém acorda a perguntar-se o que lhe apetece fazer hoje. Ainda antes do pequeno-almoço há água para carregar, animais para alimentar, lenha para rachar e pelo menos uma criança que não encontra uma coisa que quase de certeza tem diante dos olhos. Vives no século XIX numa pequena aldeia de montanha, onde as casas de pedra se agarram à encosta, o Inverno cobre de neve o caminho para o vale e as pessoas sabem quem está doente, quem se casa e quem comprou uma vaca nova antes ainda de a família ter tido tempo de dar a notícia. A vossa casa tem duas divisões, tecto baixo e um pátio que no Verão está cheio de galinhas, lenha, roupa estendida e crianças. És o filho mais velho e cedo percebeste que, numa família grande, a palavra «mais velho» significa sobretudo «vai ver o que se passa».
O teu pai trabalha na floresta, e a tua mãe governa a casa e toda a gente que lá vive com aquela incrível capacidade de amassar o pão, acabar com uma briga entre duas crianças e perceber pelo barulho lá de fora qual das galinhas decidiu outra vez viver como uma pessoa livre, tudo ao mesmo tempo. Tens dois irmãos e duas irmãs, e a mais nova ainda dorme ao lado da vossa mãe quando começas a ir com o teu pai buscar lenha. Aos quinze anos já fazes trabalho de homem feito e não vês nisso nada de especial. À noite são tantos à volta da mesa que há sempre alguém sentado de lado, alguém que estica o braço por cima do prato de outro, e a tua mãe ameaça pelo menos uma vez que, se falarem todos ao mesmo tempo, começará a servir o jantar a cada um separadamente. Ninguém acredita que o vá fazer.
Num Outono, o teu pai não volta da floresta. Ao fim da tarde, outros homens trazem-no para casa depois de um acidente, e nos dias seguintes a casa enche-se de gente, comida, conversas em voz baixa e vizinhas que parecem saber o que é preciso fazer quando a família ainda não sabe o que fazer com o seu desgosto. Depois do funeral, toda a gente se vai embora aos poucos, a loiça é arrumada, as cadeiras voltam aos seus lugares, e uma noite olhas para a mesa onde estão sentados a tua mãe e os teus quatro irmãos mais novos e percebes que, a partir da manhã seguinte, a vida deles vai depender também de ti.
Começas a trabalhar onde quer que paguem. Vais à floresta, ajudas um carpinteiro, no Verão trabalhas em campos alheios e, quando os comerciantes descem para a cidade, vais com eles por umas moedas pela carga e pelo caminho. A tua mãe cose, trata dos animais e vende o que conseguem dispensar. Vivem com dificuldade, mas naqueles anos há muito mais do que trabalho. Riem-se, discutem, fazem festa; o teu irmão mais novo consegue rasgar as únicas calças decentes mesmo antes de uma festa da igreja, e a tua irmã recorta às escondidas um pedaço da tua camisa para fazer um vestido à boneca e depois fica sinceramente espantada por teres reparado. Voltas do mercado com bolos de mel para as crianças, e a mais nova começa a receber-te logo no pátio com tanta devoção que, segundo a tua mãe, é evidente o quanto gosta do irmão, enquanto, segundo tu, o amor dela cheira suspeitamente muitas vezes a mel.
Os anos passam e aos poucos começas a ganhar mais. Um comerciante de madeira da cidade vizinha dá-te trabalho fixo, porque sabes fazer contas, não perdes mercadoria e, se prometes uma entrega para quarta-feira, ninguém precisa de perguntar se por acaso estavas a pensar noutra quarta-feira. Pela primeira vez há alturas em que o dinheiro chega. Um irmão começa a aprender um ofício, a tua irmã mais velha já pensa em casar, os mais pequenos andam na escola e tu sentes um verdadeiro orgulho quando olhas para eles. São a tua gente. Gostas deles, e tudo o que fazes por eles tem sentido.
É então que o comerciante te propõe ir com ele para uma cidade maior na planície, onde vai abrir um novo armazém. Ganharias quase o dobro, terias um quarto só teu e, se o negócio correr bem, com o tempo poderias tornar-te sócio. Voltas para casa com esta notícia e passas a noite inteira a pensar nela. Pela primeira vez surge diante de ti uma oportunidade que é só tua. Uns dias depois, a tua mãe adoece.
Ao princípio toda a gente espera que ela melhore, e ela mais do que ninguém. Continua a dar instruções da cama e uma vez zanga-se tanto por causa de farinha mal arrumada que decides que uma pessoa com tanta energia para os erros dos outros não tem a mínima intenção de morrer. Mas o Inverno avança, ela vai ficando mais fraca, e uma noite chama-te para junto de si quando os outros já estão a dormir. Tira do pescoço um pequeno medalhão preso a uma corrente fina, que lhe vês desde criança. Lá dentro há uma minúscula imagem de um santo e um pedacinho de papel desbotado que vinha da mãe dela. Põe-to na mão, olha para o outro quarto e pede-te que não deixes os pequenos enquanto não se souberem governar sozinhos. Fechas os dedos à volta do medalhão e prometes: «Eu cuido deles.»
A tua mãe morre antes do fim do Inverno, e tu ficas.
Nos primeiros anos não há nada para escolher. Os teus irmãos precisam mesmo de ti, e tu fazes o que prometeste. Um irmão acaba de aprender o ofício, ajudas a tua irmã com o casamento, o outro continua na escola. Trabalhas mais, negocias um salário melhor, arranjas a casa e à noite verificas se há farinha suficiente para a semana seguinte. O medalhão está debaixo da tua camisa e com o tempo quase deixas de o sentir. Está simplesmente ali, como a promessa.
No mercado da aldeia vizinha conheces uma mulher que vende ervas, fruta seca e unguentos caseiros com a tia. As vossas primeiras conversas são sobre preços e mercadoria, depois começam a prolongar-se mesmo quando já não há nada de razoável para comprar. Ela percebe-o depressa e um dia pergunta-te quanta hortelã seca pode uma pessoa gastar antes de ela própria se transformar em chá. Depois disso já não faz grande sentido fingir que vens por causa da hortelã.
Com ela começas a imaginar uma casa tua. Nem grande nem rica — duas divisões, um pequeno pátio, uma mesa que não te ficou dos teus pais e noites em que voltas para alguém que escolheu viver contigo. Vão ver uma casa nos arredores da cidade. No pátio há uma macieira velha tão inclinada que, segundo a mulher, cairá com a primeira neve, e segundo tu, com um pouco de cuidado pode aguentar ainda muitos anos. Ela olha para ti e diz que és exactamente o tipo de homem que compraria uma casa por causa de uma árvore que precisa de ser salva. Ris-te, porque desconfias que ela te conhece melhor do que gostarias.
É precisamente nessa altura que o teu irmão mais novo perde o trabalho e volta para casa. A tua irmã também está a passar por um ano difícil, e o telhado da casa da família tem de ser mudado antes do Inverno. O dinheiro que andavas a pôr de lado para a tua casa vai-se aos poucos em tudo isto. Ninguém to tira e ninguém insiste para que desistas dos teus planos. És tu que decides que a casa pode esperar um ano. Depois mais um.
A mulher do mercado vê com mais clareza do que tu o que está a acontecer. Um dia diz-te que a pobreza não a assusta e que não espera que a leves para uma casa já feita. Só quer saber se algum dia chegará o dia em que também a vossa vida terá o seu lugar, em vez de começar sempre depois da última preocupação dos outros. Não lhe consegues dar uma resposta em que tu próprio acredites.
Algum tempo depois ficas a saber que ela casou. À noite sentas-te diante da casa da família e olhas durante muito tempo para as luzes na encosta em frente. Não estás zangado com ela. Sabes que tinha todo o direito de seguir em frente. A tua mão encontra sem dares por isso o medalhão debaixo da camisa, e pela primeira vez perguntas-te quando exactamente é que a promessa de cuidar dos teus deixou de ser uma tarefa para os anos difíceis e se tornou a tua forma de viver.
Passa mais tempo, e todos aqueles por quem te preocupavas vão encontrando o seu caminho. Um irmão tem a sua própria oficina, o outro vive na cidade e ganha bem, as tuas irmãs têm família. A mais nova, que em tempos te esperava por causa dos bolos de mel, agora traz os filhos à velha casa, e eles correm atrás de ti com a mesma convicção de que quem volta do mercado tem a obrigação moral de trazer alguma coisa doce. Nos dias de festa a mesa volta a estar cheia, só que agora é outra pessoa que traz a comida, outra pessoa que racha a lenha e outra pessoa que paga antes de conseguires tirar a bolsa.
Acontece que é precisamente a isto que te custa mais habituares-te. Se alguém já acendeu o lume, procuras o que mais há para fazer. Se o teu irmão diz que paga o arranjo, começas a discutir. Quando a tua irmã traz comida, a tua primeira reacção é explicar-lhe que não era preciso. Durante anos soubeste quem eras pelo facto de os outros contarem contigo, e agora que já conseguem cuidar de si próprios, continuas a procurar o que ainda lhes deves.
O teu último Inverno chega cedo. Já és um homem velho, e a casa da família ficou grande demais para uma só pessoa, embora nunca o admitisses diante dos teus parentes. Eles vêm muitas vezes, mas tu continuas a juntar lenha para semanas, a verificar o telhado antes de cada nevão e a guardar numa arca dinheiro, documentos e notas sobre quem deve receber o quê se te acontecer alguma coisa. O teu irmão brinca dizendo que provavelmente vais continuar a dar-lhes instruções mesmo depois de morto, e tu respondes que, se for a única maneira de finalmente começarem a ouvir, assim terá de ser.
Uma manhã a neve cobre o pátio e não tens forças para te levantares da cama. Ao meio-dia chega a tua irmã mais nova, já uma mulher de cabelos prateados, com um cesto de comida e um molho de lenha, embora a tua chegue quase ao tecto do telheiro. Ralha contigo por teres ficado sozinho na noite anterior, compõe-te o cobertor, põe a sopa a aquecer e começa a falar-te dos filhos, dos vossos irmãos, dos sobrinhos e da última zanga na família, que segundo ela é enorme e segundo tu estará esquecida no domingo.
Enquanto fala, repara no medalhão no teu peito. Há anos que não o vê de perto e, quando lhe pega, reconhece-o logo. Perguntas-lhe se se lembra de que era da vossa mãe. Ela acena que sim, e pela primeira vez contas-lhe aquela noite de Inverno em que a vossa mãe to pôs na mão e te pediu que cuidasses deles até conseguirem governar-se sozinhos.
A tua irmã olha para ti durante alguns segundos. Depois olha para o pátio, para a lenha cortada que acabou de te trazer, para a sopa no fogão, e de novo para ti.
«Mas nós já crescemos há muito tempo.»
Ris-te e de repente vês a família inteira de outra maneira. O irmão na sua própria oficina, as irmãs nas suas casas, as crianças que já têm filhos, a mesa de festa onde outra pessoa insiste em pagar, e todas aquelas vezes, nos últimos anos, em que recusaste ajuda das mesmas pessoas que em tempos prometeste proteger. Cresceram mesmo. Há muito tempo.
Depois de a tua irmã sair, ficas junto à janela com o medalhão na mão. Lembras-te da tua mãe, do teu pai, da mesa barulhenta, dos pezinhos pelo pátio, da mulher do mercado e da casa com a macieira velha. Pela primeira vez vês a tua promessa inteira — os anos em que ela manteve a família unida, e os anos depois, em que a família já podia amparar também a ti. Cumpriste o que prometeste. Talvez há muitíssimo tempo.
À noite a neve continua a cair, e as luzes das outras casas cintilam ao longo da encosta. Nelas vivem as pessoas que em tempos levaste pela mão, alimentaste, protegeste e encaminhaste para a sua própria vida. Agora têm as suas casas, os seus filhos, as suas preocupações e mãos suficientemente fortes para carregar o que é seu. O medalhão repousa na palma da tua mão e, pela primeira vez em décadas, não pensas no que ainda tens de fazer por alguém. Pensas em como é estranho só teres percebido agora: a promessa tinha um fim.
Na manhã seguinte, a tua irmã encontra-te na cama. O medalhão ainda está na tua mão, mas os teus dedos já não estão fechados à volta dele. A palma da tua mão está aberta.
«Ainda não cumpri o meu dever.» É o sentimento que carregaste durante tanto tempo que ficou contigo mesmo depois de a sua razão ter desaparecido.
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste o medalhão, talvez reconheças este fio também na tua vida actual. Muitas vezes vês o que é preciso fazer antes de alguém te pedir. Se alguém próximo tem um problema, começas a pensar em como o resolver; se alguém não tem forças, assumes mais; se a família precisa de tempo, dinheiro, organização ou de alguém que junte o que está disperso, facilmente acabas por ser tu. Podes ser muito bom(boa) a dar e bastante desajeitado(a) quando os papéis se invertem e alguém quer cuidar de ti.
Este velho rasto sente-se com mais força quando o teu desejo e as necessidades das pessoas próximas seguem em direcções diferentes. Podes querer uma mudança, uma relação, uma viagem, um projecto teu, uma casa nova ou simplesmente mais tempo para ti, e encontrar logo outra coisa que tem de ser resolvida primeiro. Depois dela vem a seguinte. As pessoas à tua volta podem há muito ser capazes de tomar as suas decisões, assumir as consequências e até ajudar-te, e tu continuas a sentir que, se largares, alguma coisa importante ficará por cuidar.
No medalhão há também uma bonita herança. É feita de lealdade, resistência e da capacidade de ficar junto dos teus quando a vida se torna difícil. A pergunta é se cuidar ainda é uma escolha livre tua, ou se algures lá no fundo acreditas que primeiro têm de estar bem todos os outros e só depois chega a tua vez. Porque essa vez pode ser adiada durante muito tempo, sobretudo quando haverá sempre alguém de quem gostas e a quem poderias ajudar.
Se esta imagem é tua, pega num medalhão, num anel, numa moeda, numa pedrinha ou noutro pequeno objecto e fecha-o na palma da mão. Pensa nas pessoas por quem mais vezes assumes responsabilidade e naquilo que acreditas que ainda tens de fazer antes de te permitires o que é teu. Depois abre a mão e pergunta a ti mesmo(a): «Será possível que a promessa já esteja cumprida e eu ainda viva segundo ela?» Se a resposta for «sim», o teu amor pelos teus continua exactamente igual. Talvez eles simplesmente já caminhem sozinhos, e seja tempo de veres para onde queres ir tu.
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O brinquedo de criança
Alguém que deixaste para trás
Todas as manhãs começam com a mesma discussão por causa do cabelo. A tua filha tem seis anos e está absolutamente convencida de que pentear é uma invenção humana desnecessária, criada apenas para estragar o humor das crianças antes do pequeno-almoço. Sentas-la no banquinho junto à janela, ela promete solenemente não se mexer e dez segundos depois já se está a virar, porque viu alguma coisa interessante na rua. Depois vêm as meias, o sapato que invariavelmente desaparece precisamente quando é preciso sair, e o pequeno coelho de pano sem o qual ela se recusa a sair de casa. O coelho tem uma orelha um pouco mais curta, porque um dia ela própria tentou «cortar-lhe o cabelo», e uma das patas foi cosida tantas vezes que já é difícil perceber como era ao princípio. Para toda a gente é um brinquedo velho; para ela é um membro da família com personalidade, opiniões e todo o direito de estar presente ao jantar.
Vivem no início do século XX numa grande cidade europeia, num bairro onde de manhã os eléctricos chiam nos carris, os comerciantes levantam as portas das lojas e a padaria da esquina cheira a pão quente antes de a rua se encher de gente. O vosso apartamento é pequeno, com dois quartos e uma cozinha com janela para um pátio interior, onde os vizinhos sabem mais uns sobre os outros do que alguém lhes contaria de livre vontade. Há alguns anos que são só as duas. O pai dela morreu quando ela era tão pequena que as memórias que tem dele são feitas sobretudo das tuas histórias e de uma fotografia em cima do armário, e a tua vida foi encontrando o seu ritmo à volta do trabalho, da criança e de todas as pequenas tarefas de que é feito um dia comum.
Trabalhas numa oficina de costura a algumas ruas de casa, e foi lá que fizeste o coelho quando a tua filha tinha dois anos. De um vestido sobrou um pedaço de tecido macio e claro, de outro um pequeno retalho azul para o casaquinho, e os olhos bordaste-os com linha preta numa noite, depois de a criança adormecer. Não imaginavas que quatro anos depois continuarias a remendar o mesmo coelho, porque a dona o arrasta pelas escadas, lhe dá papa verdadeira, o põe à janela a olhar lá para fora e uma vez lhe deu banho num alguidar para descobrir se ele sabia nadar. Descobriu-se que não sabia, mas segundo a tua filha a culpa foi da técnica errada, por isso a questão, pelos vistos, continua em aberto.
De manhã deixas a criança com a senhora idosa do apartamento ao lado, que toma conta de mais duas crianças e anuncia regularmente que as três a vão mandar mais cedo para a cova, embora as alimente como se o seu principal objectivo fosse duplicar-lhes o tamanho. Depois do trabalho vais buscar a tua filha e voltam para casa a pé, e ela fala quase o caminho todo — quem se zangou com quem, o que desenhou, porque é que, na opinião dela, os pombos nunca vão trabalhar e como um dia vai ter um cão, um gato e um cavalo. Quando lhe perguntas onde exactamente vão ter o cavalo, se vivem num primeiro andar, ela olha para ti com a pena de quem claramente está a lidar com uma adulta sem imaginação nenhuma, e percebes que esse problema terá de ficar por resolver por agora.
Aos domingos vão ao parque, compras-lhe um pãozinho doce se a semana correu bem, e ela corre atrás dos pombos e insiste em passar junto às tipóias para ver os cavalos. Um dia, ao atravessarem a grande avenida, ela tira a mão da tua e declara que já é crescida e pode andar sozinha. Deixas-lhe dar exactamente três passos, depois aproxima-se um eléctrico e voltas a agarrá-la. Ela protesta, tu prometes-lhe que um dia vai atravessar sem ti, e pela expressão dela percebes que, na opinião dela, esse dia bem podia ser amanhã. À noite a discussão continua de outra forma — depois do banho e da inevitável batalha com o cabelo vem a história, que nunca é só uma. Quando dizes que já é tarde, começam as negociações: meia história, uma bem curtinha, só o princípio, só para saber quem está na floresta. No fim lês quase sempre mais do que tencionavas, enquanto o coelho está deitado junto à almofada e, segundo a tua filha, também está a ouvir.
Esta é a tua vida, e gostas dela exactamente assim. Há contas, cansaço, vestidos que têm de estar prontos até sexta-feira e sapatos de criança que parecem encolher sozinhos durante a noite, mas há também aquela mãozinha que encontra a tua na rua sem pensar. Há uma pessoazinha que todas as noites adormece com a certeza de que, enquanto estiveres no quarto ao lado, tudo o que é importante no mundo está mais ou menos no seu lugar, e tu nem sequer pensas na quantidade de confiança que há nessa sensação tão simples.
Depois a cidade começa a mudar. Ao princípio a mudança chega pelas conversas dos adultos — os homens demoram-se junto aos quiosques de jornais, as pessoas falam mais baixo no eléctrico, surgem boatos sobre confrontos, estradas fechadas e soldados que avançam em direcção à cidade. Na oficina, as mulheres discutem se tudo acabará em poucos dias ou se está na altura de as famílias mandarem as crianças para casa de parentes fora da cidade. Tu continuas a trabalhar, compras o pão, vais buscar a criança, penteia-la e lês a história, porque o dia-a-dia tem a espantosa capacidade de continuar mesmo quando toda a gente sente que alguma coisa à sua volta está a começar a rachar.
Ao fim de algumas semanas as escolas fecham, há mais soldados nas ruas, à noite as janelas têm de ser escurecidas e na estação começam a juntar-se famílias com malas. A tua irmã mais velha vive com o marido e os filhos numa pequena vila longe das estradas principais e escreve-te a pedir que lhe mandes a tua filha. Têm espaço, as crianças ficarão juntas e lá é mais seguro, mas a tua primeira reacção é recusar, porque durante seis anos foste a pessoa que sabe onde está a filha, o que comeu, porque chora e se está tapada durante a noite, e agora todos os argumentos razoáveis levam a uma e a mesma decisão — mandá-la para longe de ti.
Uma noite acordam com um estrondo a algumas ruas de distância. Os vidros estremecem, a tua filha salta da cama e vem ter contigo com o coelho apertado contra o peito. Sentam-se no chão junto à parede interior enquanto lá fora se ouvem gritos e pessoas a correr, e ela pergunta-te se tens medo. Dizes que não, depois ela declara que também não tem medo nenhum, e pela forma como os dedos dela se cravam no teu braço percebes que estão as duas a mentir pela mesma razão. Na manhã seguinte escreves à tua irmã a dizer que vais mandar a criança.
Tu ficas mais um pouco. Na oficina já se cosem roupas, lençóis e roupa branca para o hospital, há muitíssimo trabalho, e a vizinha idosa não tem família e recusa-se terminantemente a sair do apartamento. Além disso, acreditas que a separação vai durar só algumas semanas. Vais pôr a tua filha em segurança, acabar o trabalho, tratar do apartamento e ir ter com ela. Repetes este plano tantas vezes que aos poucos começas a encará-lo quase como um encontro marcado com o futuro.
A tua filha vê a viagem como uma aventura, porque ainda não percebe o que significam as janelas escurecidas, os soldados e as conversas que os adultos interrompem quando ela entra no quarto. Começam a preparar a malinha dela, e ela insiste em levar três livros, duas pedrinhas, um lápis partido, uma colher cuja necessidade não sabe explicar e um chapéu de Verão, embora lá fora esteja frio. Tu tiras metade das coisas, ela volta a pô-las lá dentro mal te viras, e no fim a mala está quase tão pesada como a própria criança. A vossa última noite passa quase como todas as outras — jantam, dás-lhe banho, ela insiste em lavar também o coelho, porque ele também vai e seria falta de educação chegar sujo, e depois lês a história um pouco mais tempo do que o costume e ficas ao lado dela quando ela já adormeceu.
De manhã vestes-la devagar, abotoas-lhe o casaco, compões-lhe a gola, atas-lhe os sapatos e sentas-la no banquinho de sempre junto à janela para lhe pentear o cabelo. Pela primeira vez em anos, ela quase não se mexe. Olha para ti no espelho e pergunta quando vais. Dizes que em breve, ela quer saber quanto tempo é exactamente «em breve», e tu respondes-lhe que ela nem vai ter tempo de ter saudades tuas como deve ser. Isso deixa-a satisfeita, e pouco depois já vão de mão dada para a estação.
A plataforma está cheia de crianças, pais, malas, trouxas e pessoas que repetem as mesmas recomendações várias vezes, como se cada novo «tem cuidado» pudesse esticar o tempo mais um minuto. Dizes à tua filha que obedeça à tia, que não saia sozinha, que ponha o cachecol, que escreva e que não se zangue com os primos, até que ela finalmente te interrompe e, com alguma impaciência, te lembra que já disseste tudo isso. Quando o comboio chega, levantas a criança para o degrau e por um instante a mão dela fica na tua — a mesma mãozinha que seguraste tantas vezes na avenida. Depois tens de a largar. Da janela ela acena-te, sorri e faz uma careta engraçada, porque vê que estás a chorar, e tu também sorris enquanto o comboio arranca e a última carruagem desaparece.
Quando voltas a casa, o apartamento parece-te estranhamente grande e silencioso. Entras no quarto da criança e é então que vês o coelho em cima da cama, encostado à almofada. Depois de todas as discussões por causa dos livros, das pedrinhas, da colher e do chapéu de Verão completamente inútil, a tua filha esqueceu-se da única coisa que arrastou para todo o lado durante anos. Pegas nele e por um momento até te ris, porque imaginas a cara dela quando à noite der pela falta dele. Decides enviá-lo logo no dia seguinte e pousa-lo em cima da tua própria mala para não te esqueceres.
O dia seguinte, porém, traz a notícia de que a linha de comboio está temporariamente cortada. Escreves uma carta, depois outra, e passados alguns dias recebes uma mensagem curta a dizer que a criança chegou bem. A tua irmã conta que na primeira noite ela chorou, mas depois adormeceu ao lado da prima, já encontrou um gato no quintal e, pelos vistos, começou negociações para o adoptar. No fim há algumas linhas tortas escritas pela própria criança, a perguntar se o coelho está contigo e quando vais. Respondes logo que o coelho está bem, que o estás a guardar e que em breve lho levarás tu mesma.
Nos dias seguintes a situação na cidade piora. Parte das lojas fecha, os eléctricos circulam de forma irregular, à noite voltam a ouvir-se explosões e na oficina quase já não se fala de vestidos, porque estão a coser lençóis, ligaduras e roupa para o hospital. Várias vezes decides partir para outra estação de onde ainda saem comboios, mas de cada vez surge uma nova restrição, uma estrada fechada ou um aviso para esperar. A tua malinha continua pronta junto à porta, com o coelho em cima, porque a promessa de lho levares tu mesma se vai transformando também numa promessa a ti própria — de que vais chegar até à tua filha.
Uma manhã a cidade está invulgarmente calma, e é precisamente esse silêncio que te acorda mais cedo. Fazes café, vestes-te, pões na mala os documentos, um pouco de comida e a última carta da tua filha e decides que desta vez vais partir, por mais difícil que seja a viagem. A vizinha idosa encontra-te na escada e pergunta se pensas mesmo chegar sozinha à outra estação, e tu dizes-lhe que primeiro vais até ao fim da rua e depois decides o resto. Já estás quase em baixo quando percebes que o coelho ficou em cima da mala no quarto.
Nesse mesmo instante começa o bombardeamento. A primeira explosão é longe, a segunda mais perto, e as pessoas do prédio começam a descer para a cave. A vizinha puxa-te com ela, mas tu olhas para cima pelas escadas e vês a tua filha na estação, a mãozinha dela no vidro, e depois as letras tortas na carta em que pergunta se o coelho está contigo. Sabes que é só um pedaço de pano com uma orelha mais curta e uma pata cosida vezes sem conta, mas sabes também que o fizeste com as tuas próprias mãos, que durante seis anos dormiu ao lado da tua filha e que prometeste levá-lo tu mesma. Voltas a subir, tira-lo de cima da mala e aperta-lo contra ti precisamente quando a explosão seguinte abana o prédio.
Quando voltas a ouvir vozes, estás deitada no meio de pó, pedaços de estuque e vidros partidos, e alguém tenta chegar até ti através do quarto destruído. O coelho ainda está na tua mão e, enquanto o apertas, o teu pensamento já está longe desta cidade. Vês a tua filha em casa da tua irmã, vês como de manhã outra pessoa lhe vai abotoar o casaco, como ela vai para a escola com os primos, faz novos amigos, cresce e um dia atravessa mesmo a rua sem a tua mão. Sabes que a tua irmã gosta dela, que a criança está em segurança e que, quando a puseste naquele comboio, fizeste a coisa mais difícil e mais acertada que podias fazer por ela.
Só que o amor não se acalma assim tão facilmente com argumentos razoáveis. Pensas em quem vai perceber quando a tua filha se cala porque está ofendida e quando se cala porque tem medo, em quem se vai lembrar de que, nas trovoadas, ela quer a porta um bocadinho aberta, em quem vai contar a história com as vozes de todas as personagens e com aquele final extra que inventaram juntas, e em quem lhe vai dar a mão quando ela se distrair e se esquecer de ver se vem o eléctrico. E enquanto o mundo à tua volta se vai afastando, o teu pensamento fica com a criança que largaste da mão precisamente para a salvar, e a pergunta que levas contigo é simples e profundamente humana: «Quem vai cuidar de ti?»
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste o brinquedo de criança, talvez reconheças este rasto na forma como amas hoje. «Manda mensagem quando chegares», «Liga-me quando estiveres em casa», «Tomaste os medicamentos?», «Tens a certeza de que é boa ideia?» podem ser as palavras de cuidado mais comuns, mas por trás delas pode viver também a velha sensação de que, se não verificares, não avisares ou não estiveres por perto, é precisamente aí que alguma coisa vai acontecer. A pessoa à tua frente pode ser perfeitamente capaz de tomar decisões, de viver com as consequências delas e de lidar com as suas dificuldades, enquanto uma parte de ti ainda vê a mãozinha que um dia precisou de ser segura ao atravessar a rua.
Este rasto pode aparecer na relação com um filho, um companheiro, um pai ou uma mãe, um amigo ou qualquer outra pessoa de quem gostes muito. A independência do outro pode alegrar-te e preocupar-te ao mesmo tempo, porque por trás da vontade de ajudar infiltra-se o medo de que o teu amor de alguma forma o protege e de que, se largares, o deixas sem defesa. Então começas a prever perigos, a lembrar, a verificar, a oferecer soluções antes de te pedirem, e custa-te ver alguém próximo fazer uma escolha que tu não farias.
Só que a pessoa de quem gostas talvez já tenha crescido. Pode já conhecer as suas ruas, saber quando parar e quando seguir, errar e depois encontrar sozinha a saída. O teu cuidado não fica mais pequeno quando lhe deixas espaço para isso, tal como o amor não desaparece quando deixas de vigiar cada passo seu. Talvez a continuação mais difícil desta velha história seja descobrir que ficar ao lado de alguém e deixá-lo caminhar sozinho podem fazer parte de um mesmo amor.
Se esta imagem é tua, pensa na pessoa que mais te custa deixar desenvencilhar-se sozinha e completa duas frases, sem procurar uma resposta bonita: «Tenho medo de que, se eu não te proteger…» e «Acredito que já consegues sozinho(a)…» Lê-as uma a seguir à outra e vê o que existe entre elas. Talvez seja precisamente aí que está a diferença entre a mão que aperta por medo de perder e a mão que fica perto, mas já acredita que a pessoa amada consegue dar sozinha os próximos passos.
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A porta aberta
A casa para onde nunca voltaste
Antes mesmo de abrires os olhos, já sabes de onde sopra o vento. Quando vem do mar, as portadas de madeira do andar de cima batem levemente e entra no quarto o cheiro a sal, e nos dias quentes as cigarras começam de madrugada e só se calam ao fim da tarde, como se tivessem assumido a responsabilidade pessoal de ninguém na cidade se esquecer de que é Verão. Vives no fim do século XIX numa pequena cidade do Sul da Europa, não muito longe do mar. As casas são de pedra clara, as ruas descem a colina e toda a gente se conhece bem o suficiente para saber quem trabalha em quê, quem casou com quem e porque é que no domingo passado dois primos deixaram de se falar. Até ao domingo seguinte já costumam ter feito as pazes, mas a cidade consegue mesmo assim discutir o assunto ao pormenor.
A casa está na família há tanto tempo que ninguém sabe dizer quem lá viveu primeiro. Junto à entrada cresce uma figueira, sobre a mesa do pátio pende uma videira velha e no terceiro degrau para o andar de cima há uma pedra que abana. O teu pai anda a arranjá-la há anos, pelo menos segundo as suas próprias afirmações. A tua mãe tem outra versão e lembra-lhe regularmente que daria para construir uma casa inteira no tempo que ele leva a reparar um degrau. Todos os outros aprenderam simplesmente a saltá-lo. A porta do pátio também tem a sua particularidade — no Verão a madeira incha e é preciso levantá-la um pouco com o joelho para fechar. Se chegares tarde, consegues atravessar a casa toda às escuras e saber mesmo assim onde pôr os pés, onde o chão range e em que sítio o gato decidiu muito provavelmente deitar-se mesmo no teu caminho.
Cresceste nesta casa com dois irmãos e uma irmã e nunca a consideraste nada de especial. É simplesmente o lugar onde o teu dia começa e para onde voltas à noite. De manhã a tua mãe coze o pão, e o cheiro chega ao andar de cima antes de alguém te chamar para o pequeno-almoço. Nos meses quentes comem debaixo da videira, e à volta da mesa há quase sempre pelo menos uma pessoa a mais. O vizinho vem devolver uma ferramenta e fica para o café, um primo passa para dizer duas palavras e meia hora depois ainda está sentado convosco, e a mulher do pátio ao lado conversa com a tua mãe por cima do muro baixo, porque depois de quarenta anos de conhecimento dar a volta e bater à porta pareceria quase suspeito. Quando falam todos ao mesmo tempo, o teu pai insiste que em sua própria casa um homem devia conseguir ouvir os seus pensamentos, e a tua mãe responde-lhe que, se faz tanta questão de os ouvir, pode ir para junto das cabras, que ao menos sabem estar caladas enquanto comem.
Trabalhas com o teu pai e o teu irmão mais velho numa pequena carpintaria perto da praça. Fazem portas, mesas, arcas, reparam barcos e aceitam quase tudo o que alguém conseguiu partir e que, na sua opinião, ainda merece uma segunda vida. À noite voltas para casa pela mesma rua e, antes de chegares ao portão, já sabes quem está lá em casa pelas vozes do pátio. Aos vinte e poucos anos imaginas o teu futuro com toda a clareza: vais casar, acrescentar mais um quarto, pôr uma mesa nova debaixo da videira, e um dia os teus filhos também vão saltar o terceiro degrau enquanto o avô continua a garantir que o arranja na semana seguinte. Quando pensas na vida daqui a dez ou vinte anos, as pessoas à volta da mesa mudam, mas a mesa continua a mesma.
Depois as encomendas começam a escassear. Um mês é fraco, o seguinte ainda mais, e a dívida da casa cresce. Primeiro partem dois homens da rua ao lado, depois um primo, e por fim chega uma carta de um conhecido que trabalha numa grande cidade industrial muito a norte. Escreve que numa fábrica e em várias oficinas procuram gente e pagam o suficiente para se poder mandar dinheiro à família. O teu irmão mais novo quer partir logo. O teu pai declara que ninguém vai deixar a casa por causa de uma fábrica qualquer, e uns meses depois é ele próprio que se senta uma noite com um lápis e uma folha e começa a calcular em quanto tempo pagariam a dívida se trabalhassem todos.
Três anos. É o que decidem. Vão por três anos, ganham o suficiente, pagam a casa e voltam com dinheiro para recomeçar. Três anos não vos parecem deixar a casa, porque na vossa cabeça já vêem o regresso. Um primo vai tomar conta da casa, o vizinho vai verificar o telhado depois das tempestades, os móveis ficam, a loiça também, e a tua mãe recusa-se terminantemente a levar a panela grande, porque vai precisar dela quando voltarem. O teu pai promete que então vai finalmente arranjar o terceiro degrau, e a tua mãe responde-lhe que, se para essa reparação é preciso a família atravessar meio continente e voltar, pelo menos agora percebe porque esperou tantos anos.
Na última semana, a casa está cheia de malas e de pessoas que vieram despedir-se. Levas umas quantas roupas, as tuas ferramentas e uma fotografia de família, e deixas o resto, porque daqui a três anos vais precisar dele exactamente no mesmo sítio. Na última manhã acordas antes de todos e sais para o pátio. A videira faz sombra sobre a mesa, as pedras ainda têm a humidade da noite, da cozinha começa a chegar o cheiro a pão e algures por trás das casas ouve-se a primeira carroça. Sentas-te um pouco e o teu olhar passa pela figueira, pelo balde junto à parede, pela vassoura velha atrás da porta e pelo pedaço de madeira calçado debaixo de um pé da mesa. Pela primeira vez olhas para eles com tanta atenção, e até achas graça teres decidido de repente decorar uma vassoura, quando daqui a três anos a vais encontrar no mesmo sítio.
Quando partem, quase a rua inteira está cá fora. Alguém traz pão para a viagem, outro dá-vos uma garrafa de vinho, um terceiro explica exactamente como devem viajar, embora nunca tenha saído da cidade. A tua mãe chora, a tua irmã também, e o teu pai repete que não há razão para despedidas destas, porque daqui a três anos estarão todos outra vez à mesma mesa. Sais em último lugar e estendes a mão para fechar a pesada porta de madeira, mas o primo que vai tomar conta da casa diz-te para a deixares, porque daqui a pouco vai entrar para arrumar o que resta. Segues a tua família e, na curva, voltas-te pela última vez. A porta está aberta, por trás dela vê-se uma parte do pátio e a ponta da mesa debaixo da videira, e tu segues para a estação com a certeza absoluta de que daqui a três anos voltarás pela mesma rua e passarás outra vez por ela.
A nova cidade recebe-te com chaminés de fábricas, pó de carvão, barulho e tantas caras desconhecidas que nas primeiras semanas te parece estranho sair à rua e ninguém saber de quem és filho. Arranjas trabalho numa grande carpintaria, partilhas um quarto com o teu irmão e contas os meses pelo dinheiro que mandam para casa. Ao fim do primeiro ano a dívida já diminuiu bastante e todos falam dos dois anos que faltam. No segundo, o teu pai adoece e parte das poupanças vai para o tratamento. A tua irmã começa a trabalhar, o teu irmão consegue um lugar melhor, tu também começas a ganhar mais, e a vida à vossa volta vai-se enchendo de pessoas que ontem eram desconhecidas e hoje já sabem como bebes o café.
O terceiro ano passa e ninguém faz as malas. Decidem ficar mais um ano para voltar com mais dinheiro, depois mais outro, porque o trabalho corre bem. Entretanto a tua irmã casa, tu conheces uma mulher com quem primeiro conversas depois do trabalho, depois começas a esperar por ela, e com o tempo alugam os dois uma casa vossa. Escreves para casa, recebes cartas e continuas a dizer que vais voltar, porque acreditas mesmo nisso. Só a data começa a mudar.
Da velha cidade chegam notícias. O primo arranjou o telhado, a mulher da casa ao lado morreu, a família do pescador foi-se embora, e durante algum tempo viveram na vossa casa uns parentes para que não ficasse vazia. Perguntas se a videira ainda lá está e se do patamar de cima ainda se vê o mar. Respondem-te que a casa está bem e que está quase tudo igual. Essa palavra — «quase» — fica contigo, porque pela primeira vez admites que o lugar que espera o teu regresso também está a viver os anos em que tu não estás.
A tua vida também continua. Casas, nascem-te filhos, compras casa e aos poucos percebes que tens vizinhos que conheces há quinze anos, amigos com quem festejas e um trabalho onde agora são os mais novos que te vêm perguntar como se fazem as coisas. Uma tarde ouves o teu filho dizer a um amigo «anda lá a casa», e percebes que, para os teus filhos, «casa» é o lugar que construíste com eles. A casa de pedra junto ao mar pertence às histórias que contas ao jantar — sobre o avô deles, a videira, a vizinha do muro e o terceiro degrau, que provavelmente ainda está à espera de que o teu pai arranje tempo para o reparar.
Isso não torna a tua nova vida menos tua. Gostas da tua mulher, dos teus filhos, da tua casa e das pessoas que se foram juntando à tua volta ao longo dos anos. Tens festas, fases difíceis, zangas de família, casamentos, nascimentos e aqueles domingos comuns em que quase não se repara, até ao dia em que se percebe que era precisamente disso que a vida era feita. A casa de pedra junto ao mar continua em ti de outra maneira. Quando sentes o cheiro a pão acabado de cozer, por um momento vês a cozinha da tua mãe. Quando alguém fala da tua terra, queres logo saber como está agora. Quando alguém volta de lá, fazes perguntas sobre o tempo, as ruas e o mar, como se tudo isso te pudesse dizer se a casa ainda se lembra de ti.
Passam muitos anos até receberes uma fotografia da casa. Olhas para ela durante muito tempo. A figueira ficou enorme, o muro de pedra parece mais baixo, nas janelas há outras cortinas e diante da entrada estão pessoas que nunca viste. De repente percebes de que maneira estranha guardaste aquele lugar — nas tuas memórias a tua mãe ainda tira o pão do forno, o teu pai ainda entra pelo pátio com as ferramentas, a tua irmã ainda é nova e vão todos sentar-se à mesa assim que voltares. A casa verdadeira continuou sem vocês. Outras pessoas abriram a porta, outras crianças subiram as escadas a correr, as árvores cresceram, alguns rostos da rua desapareceram e chegaram outros novos.
É então que decides pela primeira vez que tens de lá ir em breve. Queres levar a tua mulher, depois os filhos, anos mais tarde os netos. Há sempre um «depois» adequado — depois do trabalho, depois do Inverno, depois da festa de família, depois de alguém recuperar, depois de a viagem se tornar mais fácil. Não dás pelo momento em que «vou voltar» se transforma em «devia ter voltado», porque entre as duas coisas não há um grande momento único. Há muitos dias pequenos em que simplesmente tinhas outras coisas para fazer.
Quando já és velho, uma das tuas netas encontra a fotografia numa caixa de fotografias de família. Senta-se ao teu lado e começa a perguntar quem está nela, onde fica a casa e porque é que nas fotografias antigas toda a gente parece ter acabado de receber uma má notícia do fotógrafo. Falas-lhe do pátio, da videira e do mar por entre os telhados, do pão da tua mãe, do teu pai e da sua interminável reparação do terceiro degrau. Contas-lhe que no Verão a porta prendia e era preciso levantá-la um pouco com o joelho. Ela ri-se e pergunta como é possível lembrares-te exactamente disso depois de tantos anos, e tu também te ris, porque esqueceste datas importantes, nomes de pessoas e conversas inteiras, mas ainda sabes como soa uma velha porta de madeira quando se abre de manhã.
A tua neta olha para a fotografia mais um pouco e acaba por perguntar porque é que nunca voltaste. A pergunta é tão simples que primeiro começas a procurar uma grande resposta — o trabalho, o dinheiro, a família, a distância, todas aquelas razões sensatas que foram verdadeiras ao longo dos anos. Depois percebes que a resposta mais exacta é muito mais curta e dizes-lhe: «Pensei sempre que havia tempo.»
Este é o teu último dia. À tarde cansas-te e a fotografia fica em cima do cobertor, junto à tua mão. Da cozinha vem o cheiro a café, no quarto ao lado a família conversa, uma das crianças ri-se e tu fechas os olhos só por um bocadinho. Na tua memória, porém, já estás a andar por outra rua. As pedras debaixo dos pés estão aquecidas pelo sol, o ar cheira a mar e do fundo da travessa vês a parede clara da casa. Viras para o pátio, sobes os degraus e o teu pé salta sozinho o terceiro, como se entre aquele dia e este não tivessem passado décadas. Da cozinha vem o cheiro a pão, debaixo da videira ouvem-se vozes e a velha porta de madeira está aberta exactamente como a deixaste na manhã em que partiste por três anos.
Caminhas na sua direcção e tudo te é familiar. Não precisas de te lembrar onde pôr os pés ou como se abre o portão, porque o teu corpo sabe. Por um instante voltas a ser o homem que regressa à noite da carpintaria e que, ainda na rua, ouve a família no pátio. A vida que construíste longe deste lugar foi verdadeira e cheia de pessoas de quem gostas, e esta casa continuou a ser o primeiro lugar onde nunca te perguntaste se pertencias. Saíste de lá a pensar que a separação duraria três anos, e por isso nunca chegaste a despedir-te dela.
Enquanto as vozes da tua família à tua volta se vão afastando, a porta na tua memória continua aberta, e desta vez chegas até ela. O teu último pensamento é simples: «Quero ir para casa.»
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste a porta aberta, talvez conheças aquela sensação difícil de explicar de que existe algures um lugar onde te seria mais fácil ser tu mesmo(a). Podes ter uma casa bonita e pessoas de quem gostas, e mesmo assim o teu olhar prende-se em certas cidades, casas, costas ou montanhas. Podes viajar muito ou ser alguém que raramente sai da sua cidade, mas algum país, língua, clima ou tipo de casas atrai-te há anos sem uma razão especial. Quando chegas a um lugar assim, o teu interesse não acaba numa fotografia e num passeio. Começas a imaginar como seria lá uma manhã qualquer, onde comprarias o pão, que luz entraria pela janela e o que seria ter a chave daquela porta.
Ou talvez já tenhas vivido aquele momento estranho em que chegas a algum lado pela primeira vez e, em lugar de deslumbramento, sentes reconhecimento. A rua parece-te próxima, o ar agrada-te de uma forma que tens dificuldade em explicar e apetece-te ficar tempo suficiente para ver o lugar depois de os turistas partirem e começar a vida de todos os dias. Então pode surgir-te na cabeça uma palavra que nada tem a ver com a beleza do sítio: «finalmente».
Se esta imagem é tua, pensa nos lugares para onde o teu olhar voltou ao longo dos anos. Imagina um deles de manhã cedo, quando não há nada para visitar e o dia está só a começar. Onde beberias o teu café, o que ouvirias pela janela, que ar entraria no quarto, e gostarias de voltar à noite à mesma morada? Depois pergunta a ti mesmo(a): «O que é que reconheço exactamente neste lugar, e o que é que dele me falta agora na vida?» A resposta pode ser o mar, um pátio, a luz, a proximidade das pessoas, mais espaço ou um ritmo completamente diferente. E se um dia chegares a um sítio onde o teu primeiro pensamento seja «finalmente», talvez valha a pena não teres pressa de partir.
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A chave
Aquilo que continuou a ser teu
A chave é pesada, de ferro e suficientemente grande para a sentires através do tecido do casaco, mas há anos que quase não olhas para ela. Os teus dedos encontram-na sozinhos todas as manhãs, ainda quando vais a caminhar pela rua, e quando chegas à loja enfias-la na fechadura, dás duas voltas e empurras a porta com o ombro, porque a madeira empenou e nos dias húmidos gosta de pôr a tua paciência à prova. Depois levantas as portas de ferro, levas a pequena tabuleta para a entrada, acendes o candeeiro lá ao fundo e verificas o que deixaste na prensa na noite anterior. Vives em meados do século XIX numa grande cidade europeia, num bairro de artesãos, pequenos comerciantes e pessoas que passam tempo suficiente à porta das suas lojas para saberem quem abriu cedo, quem chegou atrasado e a quem ontem saiu um cliente tão zangado que ao fim do dia a rua inteira já tinha ouvido a versão dele.
O teu lugar é uma pequena oficina de encadernação com uma lojinha à frente. Nas prateleiras há livros, cadernos, papel, tinta e alguns volumes caros que estão lá há tanto tempo que já os consideras quase parte da mobília. Ao fundo está a bancada com as linhas, as facas, o cabedal, a cola e a prensa, e junto à janela há uma cadeira para os clientes que entram «só por um minuto» e meia hora depois ainda estão a contar o que aconteceu ao primo. Por cima da entrada está pendurada uma tabuleta com o teu nome e as palavras «Encadernador e livreiro». Pintaste-a tu próprio há muitos anos e todas as Primaveras retocas as letras, porque a chuva teima em apagar a tua profissão da fachada. Há alguns anos que prometes encomendar uma tabuleta nova, e depois aparece uma despesa mais importante e a velha ganha mais uma estação de vida.
Quando começaste, a loja era bem diferente. Tinhas uma bancada, uma prensa velha, duas prateleiras e um empréstimo que te parecia tão grande que nos primeiros meses o sentias quase como mais uma pessoa na sala. Aprendeste o ofício com um velho encadernador que tinha um olho magnífico para os erros e quase nenhum talento para os apontar com simpatia. Com ele aprendeste como se restaura um livro que se desfaz, como se trabalha o cabedal, como se juntam os cadernos e porque é que a expressão «assim também serve» costuma significar que daqui a pouco vais fazer tudo de novo. Quando finalmente juntaste dinheiro suficiente para alugar o teu próprio espaço, no primeiro dia ficaste sentado atrás do balcão vazio a ouvir os passos na rua, convencido de que cada pessoa seguinte ia entrar. Quase ninguém entrou.
O primeiro trabalho a sério trouxe-o um velho professor. O livro dele tinha-se desfeito em várias partes, e ele pousou-o à tua frente com aquela confiança que é maravilhosa quando se sabe o que se está a fazer e um pouco assustadora quando ainda se espera descobri-lo a tempo. Trabalhaste nele dois dias, devolveste-lho com uma lombada nova e as folhas firmes, e uma semana depois o professor trouxe um conhecido. Depois veio mais uma pessoa, e mais outra. Ano após ano, as prateleiras começaram a encher-se, a prensa velha ganhou companhia e deixaste de contar quantas vezes por dia toca a campainha por cima da porta.
Agora tens pessoas que te procuram há anos. O professor continua a garantir que não tem dinheiro nenhum, e depois quase sempre sai com um livro debaixo do braço. Um advogado da rua ao lado traz documentos para encadernar e quere-os sempre para a manhã seguinte, porque, na opinião dele, a urgência é o estado natural de todos os seus papéis. Uma viúva compra cadernos para o filho, vê pelo menos dez e no fim escolhe os mesmos da última vez. Os estudantes vêm buscar papel barato, os funcionários tinta, as famílias trazem bíblias antigas, álbuns e diários que sobreviveram muitos anos aos seus donos. Reconheces os clientes habituais pelos passos, pela maneira de bater à porta e até pela forma como pousam o livro no balcão.
À noite fechas as portas e sentas-te a fazer contas. Pagas a renda, o papel, o cabedal, a tinta e os outros materiais, pões de lado o que tens de devolver do empréstimo, e o resto começa aos poucos a parecer um verdadeiro lucro. Compras uma prensa melhor, acrescentas armários, alargas a escolha de livros e um dia contratas um jovem aprendiz. Ao princípio ele varre, leva encomendas e faz tantas perguntas que várias vezes te perguntas se não seria mais rápido fazeres tudo sozinho. Depois reparas que ele tem mãos jeitosas. Começas a ensinar-lhe o ofício, primeiro com os trabalhos fáceis, depois com os mais complicados. Ele tem pressa, tu obriga-lo a começar de novo, ele resmunga, tu fazes de conta que não ouves, e assim passam os anos.
O rapaz cresce na oficina e aos poucos começa a fazer quase tudo o que tu fazes. Os clientes continuam a chamar-lhe «o rapaz», embora ele já tenha barba e idade suficiente para se indignar com isso. Quando lhe dizes que deixou a faca no sítio errado, ele lembra-te que a faca está no mesmo sítio há três dias e o mundo continua a existir. Tu explicas-lhe que o mundo, pelos vistos, tem mais paciência do que tu. Aos poucos começas a confiar-lhe livros mais caros e encontras cada vez menos motivos para corrigir o trabalho dele, embora, por orgulho profissional, não tenhas pressa nenhuma em lho dizer.
A oficina é obra tua, e sentes isso com mais força de manhã, quando levantas as portas e a rua ainda não acordou por completo. Lembras-te das prateleiras vazias, do primeiro empréstimo, da primeira encomenda e das noites em que contavas as moedas duas vezes na esperança de que, à segunda contagem, fossem mais. Agora o teu nome é conhecido no bairro. Se alguém tem um livro antigo que quer salvar, mandam-no ter contigo. Se um aluno procura um caderno, se o advogado voltou a atrasar-se com os documentos ou se alguém quer um livro difícil de encontrar, vem à tua rua. Não há monumento, nem grande fortuna, e ninguém escreve sobre ti no jornal, mas quando de manhã abres a porta, sabes porque passaste tantos anos atrás desta bancada.
Há algum tempo que pensas em alargar o negócio. O espaço ao lado vai ficar livre e vês a possibilidade de criar finalmente a livraria com que sonhas há anos. Queres uma grande montra para a rua, mais prateleiras, uma mesa comprida para os livros novos e um espaço à parte para a oficina, onde a cola e o cabedal não partilhem o ar com os clientes. À noite rabiscas planos em papel, medes as paredes e calculas quanto vai custar tudo. O teu aprendiz vê-te mudar pela terceira vez o mesmo armário de sítio no desenho e diz que, se continuares assim, em breve vais ter de comprar também a rua ao lado. Respondes-lhe que, para já, ficarás contente se conseguires pagar uma parede.
É precisamente nessa altura que ele recebe uma carta do irmão, de outra cidade. Numa grande tipografia procuram alguém com as suas capacidades e oferecem um ordenado que tu dificilmente consegues igualar. O teu aprendiz traz-te a carta e passa a tarde inteira às voltas com o assunto, até que por fim confessa que quer ir, mas sente que te está a abandonar a meio das obras. Também tu preferias que ele ficasse. Habituaste-te a trabalharem juntos e algures no teu pensamento tinhas começado a vê-lo, daqui a uns anos, a abrir a loja de manhã no teu lugar. Só que nunca falaram disso. Pensaste sempre que primeiro acabarias as obras, porias as contas em ordem, comprarias a prensa nova e depois se sentariam como dois homens adultos a falar do futuro.
Dizes-lhe que aceite o trabalho. Lembras-te bem demais do que é ser novo, trabalhar na bancada de outro e esperar a oportunidade de dar o passo seguinte. Ele parte no início do Outono, e no último dia fecham a loja juntos. Deixa-te a chave de reserva que andou a trazer nos últimos anos e brinca dizendo que finalmente vais voltar a saber onde estão todas as facas. Dizes-lhe que escreva e que não pense que a grande tipografia vai tolerar o hábito dele de deixar as ferramentas onde calha. Depois fechas a porta e guardas as duas chaves no bolso.
As primeiras semanas depois da partida dele são mais difíceis do que esperavas. Contratas um miúdo para os trabalhos pequenos, mas ele ainda não conhece o ofício. De manhã abres mais cedo, à noite ficas até mais tarde e, entre encomendas, continuas as obras do espaço ao lado. Já encomendaste uma montra nova e prateleiras, e a velha tabuleta por cima da entrada foi retirada para ser substituída por uma maior. Encostas-la à parede lá atrás e, sempre que passas por ela, vês as letras desbotadas do teu nome. Decides guardá-la. Depois de tantos anos juntos, seria um pouco indelicado deitá-la fora só porque encomendaste uma mais bonita.
Pensas também em alguém que um dia possa ficar com o negócio. Tens sobrinhos, mas um estuda medicina, outro quer ir-se embora e o terceiro só se interessa por livros quando alguém se esqueceu de dinheiro entre as páginas. O miúdo novo da oficina pode aprender, mas isso vai levar anos. O teu antigo aprendiz talvez volte um dia, mas já tem o seu próprio caminho. Dizes a ti próprio que não há razão para pressas. Tens cinquenta e poucos anos, trabalhas todos os dias, tens planos para o ano seguinte e uma lista inteira de coisas que têm de estar prontas até à Primavera. No futuro pensarás quando acabares as obras.
O teu último dia começa quase como qualquer outro. Abres cedo, levantas as portas e ficas um instante no passeio a olhar para a montra nova que instalaram na véspera. Gostas dela. Lá dentro ainda há pó das obras, duas prateleiras esperam para ser fixadas e no meio da sala há um caixote de livros que chegou tarde na noite anterior. Tiras o casaco, guardas a chave no bolso do colete e começas a trabalhar.
O primeiro a chegar é o fornecedor de papel, e passam dez minutos a discutir o preço, uma discussão que já tiveram pelo menos três vezes. Ele garante que tudo aumentou, tu perguntas-lhe se por acaso o ar à volta do papel agora também se vende à parte, e no fim chegam a acordo algures a meio. Depois chega o velho professor com um livro debaixo do braço e anuncia logo da porta que este mês não tem dinheiro nenhum. Quando se vai embora, já deixou um livro para arranjar e comprou outro. A seguir vem o advogado com mais uma encomenda urgente, uma mulher leva dois cadernos para os filhos, um estudante pergunta se lhe consegues arranjar um certo manual, e o miúdo troca duas encomendas e recebe a sua primeira verdadeira lição sobre porque é que os nomes nos embrulhos não são um elemento decorativo.
Por volta do meio-dia sentas-te um pouco na cadeira junto à janela e olhas para a loja. O sol entra pela montra nova exactamente como tinhas imaginado. Pensas onde vais pôr a mesa dos livros novos, decides que uma das prateleiras tem de ir um pouco mais para a esquerda e tomas nota para encomendar mais candeeiros. Em cima da secretária está uma carta do teu antigo aprendiz. Escreve que o trabalho na tipografia é bom, que a cidade é enorme e que pela primeira vez na vida ninguém lhe pergunta onde deixou as facas. Sorris e decides responder-lhe à noite.
À tarde trabalhas num velho livro de família cuja encadernação de cabedal quase se desfez. São precisamente os trabalhos de que mais gostas, porque exigem tempo e paciência. O miúdo está ao teu lado a ver como preparas a lombada. Explicas-lhe porque não deve ter pressa, como sentir a tensão da linha e quando é que a cola está suficientemente seca. Pela primeira vez reparas que ele está mesmo a ouvir, sem se limitar a esperar que lhe dês a tarefa seguinte. Pensas que talvez, afinal, ainda venha a ser um bom artesão, desde que daqui a seis meses não decida que prefere vender sapatos.
Ao fim do dia os clientes rareiam. O miúdo vai para casa, e tu ficas mais um bocado para arrumar a bancada. Apontas duas encomendas para a semana seguinte, deixas um bilhete para o fornecedor, passas alguns livros para a prateleira nova e voltas a abrir a carta do teu aprendiz. Começas a resposta, mas depois de algumas linhas olhas para o relógio e decides acabá-la amanhã. Antes de saíres, atravessas o espaço novo, medes com o olhar a parede vazia e por um instante imaginas como estará tudo daqui a um mês. Mais uma mesa, mais duas prateleiras, a tabuleta nova por cima da entrada e talvez alguém que fique com mais trabalho, para não passares todas as noites na loja até tarde.
Fechas as portas, apagas os candeeiros e verificas a prensa. Depois sais para a rua, levantas a porta com o ombro e fechas à chave com duas voltas. A chave entra no bolso da mesma maneira que todas as noites nas últimas décadas. No caminho para casa compras pão e passas por casa da tua irmã, porque ela te prometeu um frasco de doce. Ela insiste para que fiques para jantar, e tu recusas explicando que estás cansado e amanhã tens de abrir cedo. Conversam mais uns minutos à porta dela e ela volta a dizer-te que trabalhas demais. Respondes que, quando acabarem as obras, vais abrandar. Ela ri-se, porque já ouviu essa promessa antes.
Não chegas a casa.
A algumas ruas da loja, de repente sentes-te mal. As pessoas que estão perto tentam ajudar e mandam alguém chamar um médico, mas tudo acontece depressa demais. No teu bolso encontram uma carteira, alguns papéis, um lápis e a pesada chave de ferro. A tua irmã chega mais tarde e reconhece-a logo. Segurou-a muitas vezes, quando lhe pedias para ir buscar alguma coisa à loja, mas nunca pensou no que ela significa sem o homem que todas as manhãs abre a porta com ela.
Enquanto a tua vida se apaga, o teu pensamento regressa à oficina. Vês o livro de família em cima da bancada, a carta que deixaste a meio, o caixote de livros novos e a parede vazia onde amanhã ias decidir onde ficaria a última prateleira. Lembras-te do miúdo que está só a começar a aprender o ofício, do aprendiz que já está a construir a sua vida longe da cidade e de todas as conversas sobre o futuro que deixaste para depois das obras. E então percebes quantas coisas estavas a preparar para um amanhã que durante o dia inteiro te pareceu absolutamente certo.
O pensamento mais pesado é sobre o próprio lugar. Começaste com uma prensa velha e duas prateleiras vazias e chegaste a uma loja que as pessoas conhecem pelo teu nome. Sabes como se fazem as contas, em quem se pode confiar, que fornecedor baixa o preço depois de dez minutos de discussão e que cliente paga depois de três lembretes. Conheces o ofício que foste juntando nas tuas mãos a vida inteira, e a pessoa que formaste suficientemente bem para o continuar já seguiu o seu caminho. O miúdo está só a começar. Nos últimos minutos sentes o quanto construíste e o pouco tempo que dedicaste a pensar em como tudo continuaria no dia em que tu já cá não estivesses. Esse dia simplesmente chegou muito mais cedo do que esperavas, e o pensamento que fica contigo é: «Deixo uma coisa por acabar.»
Na manhã seguinte, o velho professor chega pouco depois das nove com o livro que prometeu trazer. A porta está fechada. Depois dele chega o advogado e olha para o relógio, porque pela primeira vez o homem a quem está sempre a apressar o faz esperar. O fornecedor deixa a carroça do outro lado da rua e pergunta aos vizinhos se estás doente. Aos poucos junta-se gente à frente da loja, até que alguém traz a notícia. Por trás das portas fechadas estão a montra nova, as ferramentas velhas, os livros da semana seguinte, a encadernação por acabar e a carta que tencionavas terminar à noite. Por cima de tudo isto há um lugar para a tabuleta nova, que ainda não chegou, e a chave da porta ficou com o homem que a vida inteira acreditou que na manhã seguinte voltaria para abrir.
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste a chave, talvez conheças aquela inquietação interior que aparece quando durante demasiado tempo pões as tuas forças só nos planos dos outros. Podes gostar do teu trabalho, ser bom(boa) nele e receber reconhecimento, e mesmo assim à noite voltar a uma ideia que há anos espera pela sua vez. Para uma pessoa é um pequeno negócio, para outra um livro, um atelier, um jardim, uma casa, um projecto, um consultório próprio ou algo que ainda não tem nome. O que têm em comum é o desejo de que uma parte do teu trabalho continue ligada a ti, e de um dia olhares para algo real e dizeres a ti mesmo(a): «Isto fui eu que fiz.»
Este rasto também se reconhece pela forma como tratas aquilo que criaste. Quando uma coisa é tua, custa-te deixá-la em mãos alheias. Verificas, corriges, voltas aos pormenores e dizes muitas vezes a ti próprio(a) que explicarás aos outros mais tarde, porque agora é mais rápido fazeres tu. Assim podes construir muito, mas aos poucos acontece que és tu a pessoa que tem todas as chaves — no sentido literal ou figurado — e sem ti ninguém sabe bem como funciona aquilo que criaste. Então o desejo de deixar marca encontra outra pergunta importante: estás preparado(a) para um dia passar adiante aquilo que sabes, para que a tua obra possa viver para além das tuas próprias mãos?
Se esta imagem é tua, põe de lado por um momento os grandes planos e imagina uma coisa muito mais simples: amanhã tens um dia inteiro livre, ninguém espera nada de ti, não há nenhuma tarefa de outra pessoa para acabar e podes trabalhar só naquilo que escolheres. Por onde vais começar de manhã? Depois faz a ti mesmo(a) outra pergunta: «De que é que estou à espera para começar, e porque é que acredito que mais tarde vou ter mais tempo?» Talvez a resposta te sugira o que realmente gostarias que ficasse de ti um dia, e que porta vale a pena abrir enquanto a chave ainda está na tua mão.
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A mala
O caminho que nunca seguiste
A mala está junto ao teu pé, o bilhete está no bolso do casaco e o grande relógio por cima da plataforma mostra que faltam dezoito minutos para a partida. Verificas o bilhete mais uma vez, embora saibas perfeitamente o que lá está escrito. Há dois meses que sabes o número do comboio, a hora, a estação onde mudas e o nome da cidade para onde vais, mas agora, com a locomotiva à tua frente e o vapor a sair dela, a coisa toda parece de repente muito mais séria do que as cartas, os mapas e as conversas em casa. À tua volta os carregadores metem bagagem, as famílias abraçam-se, um ardina grita as manchetes, uma criança chora porque, pelos vistos, também tem uma opinião sobre a questão da viagem, e a tua irmã, ao lado da mala, pergunta-te pela terceira vez se guardaste os documentos num sítio seguro.
Tens vinte e sete anos, e a tua vida até agora pode ser descrita com meia dúzia de ruas conhecidas. Vives com a tua mãe e a tua irmã mais nova numa grande cidade de província no início do século XX e trabalhas no escritório de um comerciante, onde os dias passam entre facturas, contas, cartas e um patrão que acredita que cada minuto em que um empregado olha pela janela é um prejuízo pessoal para a firma. À noite voltas para casa pelo mesmo caminho, compras o pão na mesma padaria, ao domingo almoçam com os parentes e, se nada mudar, consegues imaginar com bastante exactidão onde estarás daqui a dez anos. Provavelmente terás uma secretária maior, um ordenado um pouco mais alto e o mesmo patrão, que nessa altura estará convencido de que olhar pela janela é a causa do declínio de todo o comércio.
Há um ano, um amigo teu partiu para uma grande cidade do outro lado da fronteira. As primeiras cartas dele estão cheias de queixas sobre o quarto minúsculo, a comida estranha, a senhoria e o café, que na opinião dele é um insulto ao grão de café. Depois começa a escrever sobre outras coisas — as avenidas largas, os teatros, as livrarias, as pessoas de vários países e a casa comercial onde arranjou trabalho. O dono procura alguém que saiba fazer contas e fale línguas, e o teu amigo falou-lhe de ti. Umas semanas depois chega uma proposta oficial com um ordenado decente e a promessa de que o lugar é teu se chegares até ao início do Outono.
Ao princípio deixas a carta numa gaveta. Uns dias depois voltas a lê-la, a seguir começas a ver o preço dos bilhetes e pouco depois compras um guia de conversação e à noite aprendes palavras da língua estrangeira. Gostas da sensação de que algures existe uma vida que ainda não tem hábitos. Imaginas um quarto onde nunca dormiste, uma rua por onde nunca andaste, pessoas que não sabem nada da tua família e não te podem contar o que fizeste aos doze anos. A ideia de poderes chegar a algum lado e decidir sozinho quem vais ser atrai-te cada vez mais.
Quando anuncias a decisão em casa, a tua mãe pergunta primeiro onde exactamente vais morar, depois quem é esse patrão, a seguir o que vais comer e por fim chega à pergunta mais importante — se tens meias quentes que cheguem. A tua irmã recebe a partida com muito mais entusiasmo e encomenda-te logo postais, cartas e uma descrição pormenorizada do teatro de que o teu amigo falou. Durante uns dias a tua mãe anda pela casa com uma expressão que deixa claro que os países estrangeiros foram inventados sobretudo para preocupar as mães, mas aos poucos começa a ajudar-te. Remenda-te o casaco, dobra as camisas e na véspera da viagem consegue enfiar tanta comida na mala que tens de tirar uma parte para que sobre espaço para as tuas próprias coisas.
No escritório apresentas a tua demissão. O patrão declara que daqui a meio ano vais voltar a pedir-lhe que te readmita. Respondes que, se isso acontecer, ele terá o prazer de dizer «eu bem te disse», o que visivelmente o consola. Compras uma mala de cabedal resistente, duas camisas novas e um casaco que custa mais do que planeaste, mas decides que, afinal, ninguém começa uma vida nova todas as semanas. A tua irmã oferece-te um caderninho e insiste para que escrevas o que vês pelo caminho, porque um dia vai querer ler tudo.
Na última manhã tomam o pequeno-almoço ainda às escuras. A tua mãe levantou-se antes de todos e anda ocupada com a comida para não ter de falar muito. Quando sais, abraça-te com força, compõe-te a gola e diz-te que escrevas assim que chegares. A tua irmã vai contigo até à estação. Pelo caminho fala quase sem parar, e tu sentes o bilhete no bolso a cada passo. Pela primeira vez o plano tem hora marcada. Às onze e vinte o comboio vai partir, e tudo o que até agora era futuro vai começar.
Agora o relógio mostra que faltam dezoito minutos. A tua irmã compra um jornal para a viagem, embora já tenhas um livro, e diz-te que guardes o bilhete, porque daqui a uns anos vais gostar de o ver. Faltam dez minutos quando reparas num rapaz da vossa rua que vem a correr na vossa direcção. Mal consegue recuperar o fôlego e ao princípio as palavras saem-lhe aos solavancos. A tua mãe desmaiou pouco depois de saírem, a vizinha chamou o médico e mandaram o rapaz procurar-te antes de o comboio partir.
A tua irmã empalidece e agarra-te a mão. O revisor já chama os passageiros para embarcar, as pessoas à vossa volta pegam nas últimas malas e algures mais à frente bate a porta de uma carruagem. Tens um trabalho, um quarto e alguém que te espera noutra cidade. A algumas ruas da estação, a tua mãe está deitada em casa e ainda ninguém sabe o que ela tem. A tua irmã diz que volta sozinha e que tu tens de partir, mas vês o medo na cara dela. Pegas na mala e segues com ela para a saída.
Quando chegam às escadas, a locomotiva apita. Voltas-te e vês o comboio começar lentamente a andar. Durante mais uns segundos ainda podias correr de volta, embora já saibas que não o vais fazer. Vês as janelas passarem umas atrás das outras e por um instante vês o lugar vazio na carruagem que devia ser teu. Depois a última carruagem afasta-se, os carris ficam vazios e tu segues para casa com a mala na mão e o bilhete no bolso.
O médico ainda está com a tua mãe quando chegam. Ela recuperou os sentidos, mas o seu estado é grave. Passa as semanas seguintes quase sempre de cama e, quando começa a levantar-se, um dos braços fica fraco e custa-lhe andar. A tua irmã é nova e ganha pouco, e agora a família precisa do teu ordenado. Escreves ao teu amigo e explicas o que aconteceu. Ele responde logo que vai falar com o patrão e tentar guardar-te o lugar. Um mês depois chega uma segunda carta. Podem esperar mais umas semanas.
A tua mãe fica a saber da carta e insiste para que partas. Diz que se vai arranjar, que a tua irmã está com ela e que um comboio perdido não deve decidir a tua vida inteira. Prometes-lhe que partirás assim que ela estiver um pouco mais independente. Entretanto o teu antigo patrão sabe do que aconteceu e propõe-te voltares para o escritório. Aceitas, porque é preciso dinheiro, e dizes a ti mesmo que será por uns meses. Depois a tua mãe estará melhor, comprarás outro bilhete e a história continuará simplesmente onde ficou.
Só que a vida raramente guarda o lugar na página enquanto uma pessoa acaba as suas outras tarefas. A tua mãe recupera aos poucos o suficiente para andar pela casa, mas agora precisa de ajuda. A tua irmã começa a trabalhar mais, e no escritório dão-te um lugar mais alto e um ordenado que permite à família viver com dignidade. Quando uns meses depois chega nova carta do teu amigo, o lugar já está ocupado. Ele promete procurar outra oportunidade. Tu voltas a poupar e continuas a estudar a língua à noite, mas agora com menos frequência. Há sempre uma conta para pagar, um remédio para comprar, um trabalho para acabar ou simplesmente o cansaço depois de um dia comprido.
Um ano depois o teu amigo escreve sobre outro trabalho. O ordenado é mais baixo e as condições mais incertas. Olhas para a tua mãe, que já consegue ir sozinha até ao quintal, para a tua irmã, que vai casar em breve, e pela primeira vez a decisão já não parece tão clara como naquela plataforma. Dizes a ti mesmo que vais esperar mais um pouco e que há de surgir uma oportunidade melhor. A carta vai para a gaveta junto do bilhete velho, e o guia de conversação acaba aos poucos debaixo de outros livros.
Passam os anos e a tua vida enche-se de coisas que nunca estiveram nos teus planos aos vinte e sete. Conheces uma mulher com quem primeiro discutes por causa de uma conta mal feita e uns anos depois por causa de quem devia ter comprado o pão. Casas, nascem-vos filhos, mudam-se para uma casa maior e aos poucos tornas-te a pessoa do escritório a quem os mais novos vêm perguntar como se resolvem os casos difíceis. A tua mãe vive o suficiente para pegar ao colo o teu primeiro filho, e a tua irmã forma a sua própria família. Há jantares com amigos, viagens de Verão, festas de família, preocupações, risos e aquelas pequenas discussões do dia-a-dia que no momento parecem aborrecidas e anos depois se revelam entre as coisas que uma pessoa mais gostaria de voltar a ouvir.
Às vezes o nome daquela cidade aparece no jornal ou algum cliente menciona que lá esteve. Então, durante uns minutos, imaginas a rua onde devias ter vivido, o trabalho que devias ter começado e a língua que provavelmente já falarias sem traduzir as palavras na cabeça. Perguntas-te que pessoas conhecerias e se terias ficado lá a vida inteira. Nunca consegues decidir se essa outra vida teria sido melhor. Talvez ao fim de um ano voltasses desiludido. Talvez tivesses feito carreira. Talvez tivesses conhecido outra pessoa e tido outros filhos. É precisamente isso que torna a pergunta tão teimosa — não tens com que comparar a tua vida, porque a outra nunca começou.
A mala velha deixa aos poucos de viajar. Compram uma mais leve e prática, e a de cabedal vai para cima do guarda-fatos, onde começa a juntar pó e coisas da família que ninguém sabe onde mais pôr. O bilhete fica no pequeno bolso interior, junto com o caderno da tua irmã. Na primeira página escreveste a data da viagem e o nome da cidade. As restantes páginas estão em branco.
Quando, anos mais tarde, um dos teus netos tem a oportunidade de estudar no estrangeiro, a família começa uma longa conversa sobre o dinheiro, a distância, o alojamento e todas as desgraças possíveis que podem acontecer a um jovem assim que atravessa a fronteira. Ouves durante algum tempo e vês o quanto tudo se parece com as noites antes da tua própria viagem. Por fim o teu neto vira-se para ti e pergunta-te o que farias no lugar dele. Dizes-lhe que, se quer ir, deve experimentar, e que, se não gostar, os comboios também andam no sentido contrário. A tua filha olha para ti como se tivesses acabado de trair o conselho de família, e tu limitas-te a sorrir. Nessa idade já sabes como o medo pode soar convincente quando se veste de argumentos razoáveis.
Nos últimos anos pensas raramente naquele bilhete. Tens memórias verdadeiras suficientes para passar o tempo no meio delas — os primeiros passos dos filhos, o casamento da tua irmã, os Verões em família, a tua mulher, que garante sempre que tens os documentos mais bem arrumados do que as tuas próprias coisas. A tua vida foi cheia, e quando olhas para trás vês pessoas sem as quais não consegues imaginar-te. O outro caminho ficou como uma rua antiga por onde nunca passaste, mas que sabes que existiu algures.
No teu último dia, uma das tuas netas ajuda a esvaziar alguns armários e tira lá de cima a velha mala de cabedal. Abre-a em cima da cama e começa a tirar lenços esquecidos, fotografias e documentos, até que do bolso interior cai o caderninho. Entre as suas páginas está o bilhete amarelecido. Ela olha para ele, lê o nome da cidade e pergunta quando lá foste. Olhas para o bilhete e por um instante voltas a ter vinte e sete anos, com um casaco que custou mais do que devia, a mala junto ao pé e dezoito minutos à tua frente.
Dizes-lhe que nunca lá chegaste, e ela quer logo saber porque guardaste o bilhete tantos anos. Sorris, porque não tens uma resposta especial. Provavelmente primeiro guardaste-o porque tencionavas usar a história como início da viagem seguinte, depois porque ficou na mala, e mais tarde já fazia parte da tua vida, como uma fotografia antiga. A tua neta abre o caderno e vê a data, o nome da cidade e todas as páginas em branco que se seguem. Pergunta o que ias escrever. Respondes que pensavas registar a tua nova vida.
Depois de ela sair do quarto, pousas o caderno ao teu lado e ficas com o bilhete na mão. Lembras-te da tua mãe à porta, da tua irmã na estação, do rapaz a correr pela plataforma, do apito da locomotiva e daquele breve momento em que ainda podias ter-te virado e subido. Sabes o que veio depois — a família que formaste, os filhos, os netos, o trabalho, os amigos e todos os anos que se tornaram a tua vida. Não tens vontade nenhuma de os trocar pelo desconhecido. Simplesmente, pela primeira vez em muito tempo, sentes quão perto estiveste um dia de uma versão completamente diferente de ti.
Fechas os olhos e a estação volta com uma nitidez incrível. Ouves as vozes, os passos, as portas das carruagens e a locomotiva. Vês a mala junto ao teu pé e o relógio por cima da plataforma. Naqueles dezoito minutos, as duas vidas ainda eram possíveis. Uma viveste-a até ao fim, e nela há pessoas de quem gostas. A outra partiu com o comboio e ficou para sempre sem memórias, sem rostos e sem resposta. É precisamente para ela que volta a última pergunta que te passa pela cabeça: «Se eu tivesse partido…»
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste a mala, talvez também na tua vida actual as decisões que não tomaste fiquem contigo durante muito tempo. Podes lembrar-te de um emprego a que querias concorrer, de uma mudança de casa que foste adiando, de uma pessoa em direcção a quem podias ter dado um passo, de um curso, de uma viagem ou de uma ideia para a qual era sempre preciso mais um pouco de tempo. A tua vida pode ser boa e cheia, e mesmo assim alguma oportunidade perdida volta a aparecer nos teus pensamentos com a pergunta de que pessoa terias sido se nessa altura tivesses escolhido o outro caminho. Esta curiosidade não tira valor àquilo que tens. Apenas lembra quantas vidas possíveis cabem numa só decisão.
Talvez seja por isso que o movimento te atrai tanto. Uma cidade nova, outro país, uma mudança de emprego, um projecto teu ou uma mudança no modo de vida podem despertar em ti ao mesmo tempo desejo e inquietação. Quando a oportunidade é real, começas a ver todas as razões para ficar e todas as razões para partir, e o mais difícil é perceber quais pertencem à realidade e quais vêm do medo. Às vezes ficar é a escolha que protege algo importante para ti, e outras vezes a espera vai-se transformando numa decisão que nunca disseste em voz alta.
Se esta imagem é tua, pensa numa decisão que estás a adiar agora e pergunta a ti mesmo(a): «Ainda estou à espera do momento certo, ou já escolhi ficar sem o admitir?» Depois imagina-te daqui a dez anos e vê que pergunta não gostarias de continuar a carregar até lá. A resposta não te vai dizer necessariamente para fazeres a mala. Pode ajudar-te a perceber porque é que ela ainda está junto à porta e se o caminho por que esperas continua a ser o teu.
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A obra por acabar
O dom para o qual a vida não chegou
Durante o dia arranjas móveis. Cadeiras com pernas bambas, mesas que sobreviveram a dezenas de jantares de família, armários com portas que se recusam a fechar e arcas velhas cujos donos estão convencidos de que, se aguentaram cinquenta anos, podem aguentar pelo menos outros tantos. A oficina é pequena, cheira a madeira, óleo de linhaça e pó, e por cima da bancada estão penduradas as ferramentas do teu pai. Foi com ele que aprendeste o ofício e, depois da morte dele, ficaste com o trabalho. No fim do século XIX, as pessoas da pequena cidade já sabem que, se um móvel merece ser salvo, é a ti que o devem trazer, e que, se não merece, trazem-no na mesma e passam meia hora a tentar convencer-te do contrário.
És bom no teu trabalho e gostas dele. As tuas mãos conhecem a madeira, distinguem-na pelo peso e pelo cheiro e muitas vezes percebem o que ela tem antes de pegares nas ferramentas. Consegues fazer uma perna nova para uma mesa de maneira que o dono não descubra qual foi substituída, restaurar uma talha partida e devolver à vida um armário que outra pessoa já tinha proposto transformar em lenha. Com este trabalho sustentas a tua mulher e os vossos dois filhos. Têm uma casinha atrás da oficina, um pátio com uma latada e uma mesa onde jantam no Verão. A tua mulher faz as contas, porque percebeu muito cedo que o teu «ele paga-me na próxima semana» pode ser uma bela esperança humana, mas é uma maneira bastante má de governar uma casa.
Depois do jantar, as crianças contam o que fizeram durante o dia, a tua mulher arruma a loiça e tu costumas anunciar que estás cansado e que hoje vais deitar-te cedo. Já ninguém na família leva essa informação muito a sério. Quando a casa fica em silêncio, voltas para a oficina, acendes o candeeiro e começa então aquela parte do dia pela qual nenhum cliente te paga. Tiras as goivas pequenas, escolhes um pedaço de madeira e começas a entalhar.
Fazes isto desde miúdo. Foi o teu pai o primeiro a reparar que, em vez de deitares fora os restos das tábuas, os guardavas e entalhavas neles folhas, pássaros, rostos e pequenas figuras humanas. Ele gostava do teu trabalho, embora fizesse sempre questão de sublinhar que, antes de uma pessoa se meter nas coisas bonitas, convém aprender a fazer uma cadeira onde um cliente se possa sentar sem pôr a vida em risco. Aprendeste as duas coisas. Só que durante o dia há encomendas, prazos e uma família que precisa de comer, por isso aquilo que inventas sozinho fica para as horas que vêm depois de tudo o resto.
A tua mulher acorda muitas vezes durante a noite e vê a luz da oficina. Nos primeiros anos vinha dizer-te que horas eram. Depois percebeu que sabes perfeitamente que horas são e que essa informação não tem qualquer influência no teu comportamento. Às vezes um dos filhos acorda para beber água e encontra-te debruçado sobre a madeira. De manhã, ao pequeno-almoço, tens aparas na manga ou pó no cabelo, e a tua mulher olha para ti e pergunta se por acaso não te deitaste exactamente cinco minutos antes de todos os outros se levantarem. Prometes que esta noite vais ter juízo. Ela está casada contigo há tempo suficiente para não estragar a manhã com expectativas desnecessárias.
Entre a madeira que guardas para ti há uma tábua larga de nogueira. Compraste-a a um homem que estava a esvaziar uma casa antiga e, assim que a viste, soubeste que querias fazer dela algo especial. Durante quatro anos mudas-la de um lado para o outro e recusas-te a usá-la numa encomenda. Um dia a tua mulher pergunta-te quanto tempo mais a vais guardar, e tu respondes que ainda não sabes o que há dentro dela. Ela examina a tábua e diz que, seja o que for, pelos vistos não tem pressa nenhuma de sair.
A ideia chega numa noite de Inverno. Começas por uma árvore — um grande tronco, raízes e ramos que se abrem por toda a tábua. Ao princípio não tens um plano exacto. Entalhas um ramo, depois outro, acrescentas um pássaro, a janela de uma casinha e uma figura humana debaixo da árvore. Com o tempo aparece uma menina de tranças sentada num dos ramos. A tua filha vê-a e declara logo que é ela. Respondes que não se parece nada com ela, e ela aponta para as tranças, o vestido e o joelho esfolado e quer saber de quantas mais provas precisas. Uns dias depois acrescentas um rapazinho que segura um pau como se fosse uma espada. O teu filho não faz pergunta nenhuma e aceita simplesmente que finalmente começaste a trabalhar nos temas importantes.
O painel cresce devagar, e com ele começa a entrar a tua vida inteira. Aparece um homem debruçado sobre uma bancada, que se parece desconfiadamente com o teu pai. Junto a uma janela entalhas uma mulher, e quando a tua mulher a vê repara que o vestido é igual ao dela. Tentas explicar que é coincidência, e ela aceita gentilmente deixar ao artista a sua dignidade. Acrescentas o cão do pátio vizinho, porque passa tempo suficiente convosco para merecer um lugar na história da família, uma mesinha debaixo da árvore, um cesto de maçãs e mais rostos que começam como desconhecidos e aos poucos ganham os traços de pessoas que viste ao longo da vida.
Trabalhas no painel quando podes. Há semanas em que quase não lhe tocas, porque alguém encomendou uma mobília inteira, um filho adoeceu ou o telhado decidiu que precisamente este Inverno é a altura certa para começar a deixar entrar água. Depois chega uma noite sossegada, toda a gente adormece e tu voltas a sentar-te em frente à tábua de nogueira. Não precisas de tempo para te lembrares onde ficaste. A tua mão sabe.
Os filhos crescem e cada vez mais vezes se põem ao teu lado enquanto trabalhas. O teu filho quer experimentar a goiva, e as primeiras folhas dele parecem-se mais com algo que a natureza preferia não reconhecer como seu, mas aos poucos vão melhorando. A tua filha desenha e às vezes deixa esboços na tua bancada para saber o que achas. Um dia pergunta-te porque fazes tantas coisas para os outros e deixas o teu painel para o fim. Respondes que os clientes têm prazos e o painel não tem. Ela aceita a explicação, mas anos mais tarde vais lembrar-te precisamente desta conversa.
A tua mulher também vê a diferença. Depois de um dia difícil, podes entrar na oficina cansado e irritado com um cliente que mudou a encomenda três vezes, e duas horas depois sair com aparas na camisa e vontade de contar como resolveste o rosto de uma das figuras. Ela começa a perguntar-te porque não dedicas mais tempo aos teus entalhes. Respondes que a família não pode jantar pássaros de madeira, e ela lembra-te que ninguém propôs substituir o pão por eles. Na opinião dela, podes continuar a arranjar móveis e mesmo assim guardar algumas horas para o trabalho a que voltas sozinho todas as noites.
Começas a mostrar alguns dos teus entalhes mais pequenos. Um cliente vê uma caixa que fizeste para a tua mulher e encomenda uma parecida. Outro quer uma moldura para um espelho, depois chega a encomenda de uma porta decorada, e um dia um homem entra de propósito por causa de uma tabuleta que viu à porta de outra casa. Gostas de que as pessoas queiram coisas que primeiro nasceram na tua cabeça. Começas a pensar que podes aos poucos dedicar-lhes mais tempo. Quando os filhos forem um pouco maiores, terás mais tempo. Quando acabarem de pagar o empréstimo, terás mais tempo. Quando arranjarem o telhado, quando formares um ajudante, quando passar o Inverno cheio de trabalho — há sempre alguma coisa depois da qual o dia, supostamente, vai ficar mais comprido.
Os filhos crescem mesmo. O empréstimo acaba de ser pago. O telhado está arranjado. Na oficina já há um rapaz novo que consegue tratar sozinho de grande parte das reparações. Um dia a tua mulher lembra-te que há pelo menos dez anos falas da altura em que vais ter mais tempo, e pergunta-te se tencionas esperar por ela sentado ou se vais fazer alguma coisa. Desta vez ouve-la. Começas a fechar a oficina um pouco mais cedo dois dias por semana e reservas essas horas para o teu próprio trabalho. Ao princípio sentes uma culpa estranha, como se estivesses a fazer algo proibido em pleno dia, mas a sensação passa bastante depressa.
O painel avança mais num ano do que nos três anteriores. A copa da árvore está pronta, os rostos já são dezenas, à volta das raízes há pequenas cenas e só o canto inferior direito ainda espera. Aí desenhaste um caminho que sai da moldura e um homem com um pequeno saco ao ombro. Uma das mãos dele está pronta, a outra ainda é só uma linha a lápis. Ao lado dele há de estar um cão, e atrás dele marcaste o lugar para uma árvore nova. Na mesa ao lado já há outros esboços — quatro painéis separados para as estações do ano, uma caixa para a tua filha e várias ideias rabiscadas no primeiro pedaço de papel que te apareceu.
É precisamente nessa altura que começas a cansar-te mais. Ao princípio não ligas muito. Trabalhaste muito a vida toda e nunca foste homem de passar com gosto a tarde na cama. Depois vem a tosse, as forças diminuem e o médico insiste para que descanses. Nos meses seguintes o teu ajudante fica com o trabalho e tu desces à oficina cada vez menos. Nos dias bons trabalhas um pouco no painel. Nos maus olhas para ele da porta e dizes a ti mesmo que daqui a uns dias continuas.
Numa manhã de Primavera acordas mais fraco do que o costume, mas lá fora está calor e a janela está aberta. Da oficina chegam os sons conhecidos — a campainha da entrada, os passos do teu ajudante, o bater de uma ferramenta na madeira, a voz de um cliente. Por volta do meio-dia dizes à tua mulher que queres descer um bocado. Ela olha para ti e percebe que pode passar a meia hora seguinte a discutir ou ajudar-te logo a levantar, por isso escolhe a opção mais curta.
Na oficina está tudo como conheces e ao mesmo tempo parece um pouco diferente, porque pela primeira vez em muitos anos és tu quem está simplesmente sentado a olhar. No chão há aparas, em cima de uma mesa espera uma cadeira para arranjar, junto à janela estão as ferramentas e na parede está o painel. A luz da tarde cai sobre a madeira e por um instante vês tudo de uma vez — o teu pai à bancada, a tua mulher junto à janela, a tua filha de tranças, o teu filho com o pau, o cão dos vizinhos, os pássaros, a casa e todas as pequenas cenas que foste acrescentando ao longo dos anos. A tua filha chega um pouco mais tarde, põe-se ao teu lado e volta a apontar para a menina no ramo. Pergunta-te se vais finalmente admitir que é ela. Dizes que a semelhança é pura coincidência, e ela ri-se, porque há vinte anos que têm esta conversa.
O teu olhar desce para o canto de baixo, onde o viajante ainda só tem uma mão acabada. O teu ajudante repara para onde estás a olhar e pergunta-te se queres que ele acabe o resto. Conheces as mãos dele e sabes que já é artesão suficientemente bom para o fazer bem. Dizes-lhe que deixe assim. Quando ele pergunta porquê, respondes simplesmente: «Porque não sabes o que eu tinha pensado.» Ele acena com a cabeça e guarda a goiva sem discutir.
Ao lado do painel estão arrumados os pedaços de madeira para os trabalhos seguintes. Na gaveta estão os esboços das estações, e em cima da mesa espera a caixa por acabar para a tua filha. Olhas para eles e por um instante gostavas de ter mais um ano, depois mais outro, e a seguir provavelmente pedirias mais cinco, porque entretanto te iriam ocorrer coisas novas. Percebes que, se uma pessoa gosta de criar, dificilmente chega alguma vez a um dia em que se senta satisfeita e anuncia que já fez tudo o que lhe interessava. Fica sempre mais um pedaço de madeira, mais uma ideia e mais alguma coisa que queres ver ganhar forma quando passa pelas tuas próprias mãos.
À noite estás em casa com a tua mulher e os filhos. Falam de coisas comuns, a tua filha conta coisas dos filhos dela, o teu filho fala de um trabalho que tem de fazer no dia seguinte, e a tua mulher olha para ti de vez em quando para ver se não estás demasiado cansado. Pela janela aberta entram o cheiro da Primavera e um leve aroma a madeira vindo da oficina. Pensas no painel e no homem que vai ficar para sempre só com uma mão, e esse pensamento até te faz sorrir um pouco. Alguém, daqui a muitos anos, provavelmente vai perguntar-se como tencionavas acabá-lo, e a resposta continuará a ser só tua.
Quando fechas os olhos, passam diante de ti também todas as outras coisas que fizeste — as primeiras folhas desajeitadas nos restos das tábuas, as caixas, as molduras, os pássaros, os rostos, os desenhos das crianças na tua bancada e a grande nogueira onde foste juntando aos poucos as pessoas de quem gostas. Depois vêm as ideias da gaveta, as quatro estações, as figuras novas e aquilo que ainda nem tiveste tempo de desenhar. A tristeza está lá, porque gostavas de ver como iam ficar, mas junto com ela há também algo bonito — até ao fim, o mundo continuou a dar-te ideias. O último pensamento chega com toda a naturalidade: «Ainda tinha tanto para criar.»
O rasto na tua vida hoje
Se escolheste a obra por acabar, talvez também na tua vida actual haja uma ocupação a que voltas sem que ninguém te obrigue. Podes pintar, escrever, tocar, fotografar, costurar, fazer jóias, móveis, jardins, cerâmica, inventar histórias ou arranjar coisas velhas e perder a noção do tempo. Podes ter estudado durante anos, ou a primeira sensação pode ter chegado muito antes de qualquer formação. O rasto mais importante é a naturalidade com que voltas a isso mesmo depois de uma longa pausa. Pões de lado por causa do trabalho, da família e de tudo o resto, depois passam meses ou anos, e um dia voltas a pegar no lápis, no instrumento, na máquina fotográfica ou naquilo com que crias, e as tuas mãos parecem lembrar-se.
São precisamente coisas assim que facilmente ficam para quando fores mais livre. Depois do mês cheio, depois das obras, quando os filhos crescerem, quando houver menos trabalho, quando acabares tudo o resto. Entretanto os anos passam e o desejo continua a voltar, porque pelos vistos nunca foi um capricho passageiro. Pode nunca vir a ser uma profissão e ninguém te oferecer dinheiro por isso. Isso não muda o facto de que, quando o fazes, reconheces uma parte de ti que tem dificuldade em encontrar lugar no resto do dia.
Se esta imagem é tua, pensa naquela ocupação de que dizes há muito tempo: «Hei de voltar a isso quando tiver tempo.» Lembra-te de quando o disseste pela primeira vez e vê quantos anos passaram desde então. Depois, em vez de esperares por um mês livre, um ano livre ou algum maravilhoso período futuro em que todas as obrigações terão acabado por magia, arranja agora tempo para uma pequena parte dela. Pode ser uma folha, uma página, uma fotografia, meia hora com as tuas ferramentas ou o primeiro esboço de uma ideia que trazes contigo há muito tempo. Na gaveta podem sempre ficar mais planos, porque uma pessoa que gosta de criar provavelmente nunca esgotará tudo o que tem vontade de fazer. É melhor que entre eles haja também algumas histórias começadas, onde ainda se vejam as marcas das tuas próprias mãos.
Para onde leva o rasto
E quando chegares ao teu resultado, podes continuar no «Jogo da Alma». Aí já não precisas de procurar a tua vida passada pelo nome e pela morada — basta seguir o tema que reconheceste. Se a tua história está ligada a uma pessoa, uma promessa, um fio de família, uma separação, uma escolha ou uma sensação que se repete, no Jogo podes segui-la através do Karma, da Linhagem, do Deixar ir, dos Sinais ou da Encruzilhada. Um teste pode abrir a porta, mas depois és tu quem decide até onde tens vontade de entrar.
✦ Troca de energia ✦
O universo ouve o que dás
Acredito que aquilo que damos de coração encontra maneira de seguir caminho. Uma palavra chega à pessoa certa, uma história abre uma pergunta esquecida, um apoio ajuda a nascer a história seguinte. O universo provavelmente faz a sua contabilidade de uma forma muito mais interessante do que nós e, felizmente, não envia extractos mensais.
Se este teste tocou em algo teu, se te reconheceste na tua história ou se simplesmente passaste um bom bocado comigo entre estas oito vidas, podes deixar a tua parte desta troca com um donativo no valor que tu escolheres. Recebo-o com gratidão e devolvo-o em novas histórias, testes, tiragens e caminhos em que nos voltaremos a encontrar. É assim que o círculo continua — alguém dá, alguém recebe, e depois os papéis trocam-se com toda a naturalidade.