Acordas às 4:17 e, ainda antes de abrires os olhos, sabes onde estiveste. Outra vez naquela casa. Outra vez caminhas pelo mesmo corredor. Outra vez chegas à porta e, mesmo quando a tua mão vai para o puxador, acaba. Dois dias depois sonhas o mesmo. Uma semana depois, de novo. Entretanto, durante o dia trabalhas, falas com pessoas, pagas contas, pensas no que fazer para o jantar e, no geral, atravessas o dia como alguém que não tem relação nenhuma com uma porta misteriosa numa casa que não existe. Só que o turno da noite tem claramente outra opinião e é notavelmente constante.
Talvez em ti não haja casa nenhuma. Talvez percas sempre um comboio, procures alguém no meio de muita gente, apareças numa cidade que não existe, encontres um quarto desconhecido na tua própria casa, ou o telefone toque e ninguém fale. Talvez há anos sonhes com a mesma pessoa, ainda que durante o dia penses nela raramente. E a pergunta chega inevitavelmente: porque é que sonho o mesmo sonho e o que significa quando ele continua a voltar?
Os sonhos que se repetem são interessantes justamente porque a memória, as vivências e as emoções continuam a trabalhar enquanto dormimos. Porque volta o mesmo sonho e como se faz um diário dos sonhos está explicado em detalhe no artigo «O sonho recorrente». Algo que durante o dia passa com um breve «penso nisso depois» pode receber à noite todo um cenário, iluminação e um papel principal. A decisão sobre um trabalho transforma-se num comboio que espera na estação. A conversa calada toca como um telefone. A mudança parece uma ponte cuja outra ponta se perde no nevoeiro. E a sensação de que há ainda algo em mim que quero descobrir pode abrir um quarto numa casa que em sonhos conheço há anos.
É também por isso que os livros de sonhos já feitos me parecem um pouco estreitos. Se sonho com o mar, para mim pode ser a infância, para ti a liberdade e para uma terceira pessoa as férias em que perdeu a bagagem, e desde então o romantismo da beira-mar tem um tom bem diferente. Uma imagem ganha sentido através da pessoa que a sonha, através do sentimento dentro do sonho e através do que acontece na sua vida no mesmo período. Por isso a pergunta muito mais interessante é: «O que significa esta imagem para mim neste momento?»
Há sonhos que voltam quase iguais e outros que vão mudando aos poucos os seus pormenores. Primeiro a porta está fechada à chave, um mês depois está entreaberta, e um dia já estás do outro lado. O comboio que perdes sempre desta vez espera. A pessoa sem rosto vira-se de repente para ti. No labirinto aparece uma saída. O relógio parado volta a andar. São justamente estas mudanças que vale a pena anotar, porque podem andar a par de uma mudança na forma como vives o mesmo tema durante o dia.
Por isso criei «Que Mensageiro vem nos teus sonhos?» Diante de ti vão estar doze imagens. Não procures a mais bonita e não tentes adivinhar de antemão o que cada uma significa. Olha para elas e vê a qual voltam os teus olhos. Pode ser uma porta, água, um comboio, um espelho, um labirinto ou um relógio antigo. Escolhe aquela que, por alguma razão, te faz demorar mais um segundo.
Depois dela vais encontrar que tema traz o teu Mensageiro e onde ele pode estar a aparecer na tua vida real. Talvez há três meses estejas a pensar numa proposta e já tenhas uma colecção impressionante de argumentos «a favor», «contra» e «logo se vê». Talvez esperes uma conversa que duas pessoas contornam com cuidado, embora ambas saibam perfeitamente do que é preciso falar. Talvez tenhas ultrapassado um trabalho, um papel ou um modo de vida que por fora ainda parece bastante decente. Talvez saibas o que queres, mas o caminho até lá pareça um labirinto projectado numa sexta-feira à tarde. E talvez uma história antiga tenha terminado há muito pelo calendário e continue a participar nas decisões que tomas hoje.
Cada Mensageiro vai levar-te mais longe do que a primeira imagem. Vais ter perguntas para verificar como o tema está presente na tua vida, pormenores para observar nos sonhos, uma pequena experiência, uma prática de sete noites, um mandala, uma meditação sonora e um ritual. Assim o sonho continua também depois de acordares, como observação das tuas próprias reacções, escolhas e repetições. Caso contrário pode montar um magnífico espectáculo nocturno e, de manhã, agradecemos-lhe educadamente a participação e vamos fazer café.
Começa de forma muito simples. Ao acordar, anota a data, a imagem principal, o sentimento ao acordar, o pormenor mais estranho e o que aconteceu nas 48 horas seguintes. Não é preciso transformar a mesa-de-cabeceira num instituto de investigação. Cinco linhas chegam. Ao fim de algumas semanas já podes reparar que certa imagem aparece à volta do mesmo tipo de situações de vida, ou que o sonho muda juntamente com elas.
Os pequenos pormenores são especialmente curiosos. No teu sonho há água: como é? Sobes umas escadas: para cima ou para baixo? Alguém te liga: atendes? Vês uma porta: abres? O relógio parou: a que horas? Encontras uma pessoa: aproximas-te ou afastas-te? É justamente de pormenores assim que nasce aos poucos o teu próprio dicionário dos sonhos.
E se uma imagem continua a voltar, anota os teus sonhos no diário de Lua & Tarô e leva o mais interessante à Interpretação dos sonhos no FatedWays. Ao fim de sete noites vais ter mais do que um fragmento da história e vais poder comparar o que se repete, o que muda e que parte da tua vida diurna parece estar a falar com o sonho.
Olha agora para as doze imagens e escolhe o teu Mensageiro pela sensação. Não precisas de saber porquê justamente esse. A razão pode aparecer um pouco mais tarde — esta noite, daqui a três dias ou no sonho seguinte. E talvez já tenhas encontrado o teu Mensageiro muitas vezes e simplesmente não soubesses como perguntar-lhe o que traz consigo.
Toca na imagem. Abre-se apenas a tua variante, com o seu mandala e o seu som.

Escolheste a porta. Está aberta, a luz já entra por ela e tu continuas deste lado. É o pormenor mais importante da tua escolha, porque o Mensageiro do não escolhido vem quando na minha vida já existe uma possibilidade, uma decisão ou uma conversa que há algum tempo esperam a minha resposta. Pode ser uma proposta de trabalho que me atrai mas que vai mudar todo o meu ritmo; uma pessoa com quem a relação chegou àquele momento maravilhoso em que duas pessoas sabem há semanas que conversa precisam de ter e mostram uma inventividade notável para falar de tudo o resto; uma mudança de casa, um curso, um projecto meu, uma compra, uma separação, uma viagem ou uma ideia que já passou de «um dia» para «talvez consiga mesmo fazê-lo».
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Escolheste a água. De todas as doze imagens, o teu olhar ficou naquela que não tem uma só forma. Num momento o mar está liso e a luz desliza sobre ele, no seguinte chega uma onda e todo o quadro muda. Com os sentimentos acontece-me algo parecido. Posso explicar-me lindamente que uma história acabou, que as palavras de alguém já não me tocam ou que aceitei o que aconteceu, e depois oiço uma canção, sinto um cheiro conhecido ou alguém menciona com toda a inocência um nome, e o meu mundo interior decide apresentar a sua própria opinião. Faltou claramente à reunião em que a razão deu o assunto por encerrado.
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Escolheste o comboio. Na estação há um relógio, os carris seguem em frente, o comboio chegou e toda a cena coloca uma pergunta: já chegou o momento? O Mensageiro do tempo aparece quando na minha vida há algo de que continuo a falar no futuro, embora o futuro já se pareça suspeitosamente com o presente. «Vou candidatar-me.» «Vou ligar-lhe.» «Vou começar.» «Vou pedir.» «Vou lá.» Esse «vou» pode ser um lugar extremamente cómodo para viver: sem prazo, sem risco e sempre com mais uma segunda-feira para finalmente começar.
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Escolheste a casa. Conheces a entrada, o corredor, as janelas, talvez até aquele degrau que range, e de repente descobres um quarto de cuja existência não suspeitavas. Os sonhos gostam destas surpresas arquitectónicas: o subconsciente tem claramente pouco respeito pela planta original do edifício. O Mensageiro do eu escondido vem quando dentro de mim já existe algo que ainda não conheci o suficiente: uma capacidade, um desejo, um interesse, um talento, uma necessidade, um lado criativo, uma sensualidade, uma coragem por usar ou um sonho que de repente começa a parecer muito mais possível do que eu pensava.
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Escolheste a escada. Continua para cima, e o mais interessante é que já subiste uma parte dela. Tens experiência, conhecimentos, capacidades ou uma base de vida sobre a qual podes construir, e provavelmente sentes que aquilo que até há pouco te bastava começa a ficar apertado. O degrau seguinte, porém, tem o desagradável hábito de ser um pouco mais alto do que o anterior. O Mensageiro do nível seguinte vem quando já posso mais do que aquilo que uso e começo a perceber que é tempo de a minha vida alcançar a pessoa em que me tornei.
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Escolheste a ponte. Atrás de ti há uma margem que conheces, à frente outra que ainda não vês bem, e tu estás algures no meio. É um lugar particular na vida: o antigo já não te pertence da mesma maneira e o novo ainda não se tornou conhecido o suficiente para lhe chamares teu. O Mensageiro da passagem vem em períodos em que a mudança já aconteceu ou começou, mas por dentro ainda estás a aprender a viver nela. Uma ponte não tem sofá, nem cozinha, nem armário com roupa para quatro estações, porque ninguém previu que nos fôssemos instalar no meio. O ser humano, porém, tem um talento notável para tentar.
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Escolheste o espelho. Olhas para o teu próprio reflexo, reconheces o teu rosto e mesmo assim há algo diferente. Podes parecer mais novo(a), mais velho(a), mais forte, mais cansado(a), mais bonito(a), mais corajoso(a) ou simplesmente uma versão de ti a que ainda não estás habituado(a). O Mensageiro da imagem vem quando a ideia que tenho de mim começa a mudar e o antigo «eu sou assim» já não descreve por completo a pessoa que sou hoje. Pode acontecer depois de uma mudança no aspecto, na idade, na profissão, na posição social ou na forma como estou presente entre as pessoas. Às vezes a mudança é visível para todos e eu sou a última pessoa a reparar nela.
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Escolheste o telefone. Toca, o ecrã acende-se, estendes a mão e esperas ouvir algo, mas do outro lado há silêncio. Ou vês um nome cuja aparição esperas há muito. Ou tentas ligar e o número nunca sai bem. Os sonhos são bastante inventivos quando querem transformar uma conversa vulgar numa central telefónica inteira. O Mensageiro do não dito vem quando entre mim e alguém há palavras que ainda não chegaram ao seu lugar: uma pergunta, uma explicação, uma confissão, uma informação, um pedido de desculpa, um esclarecimento, um pedido, uma verdade ou aquela frase que há três dias ando a editar na cabeça e que já tem mais versões do que um documento oficial.
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Escolheste a pessoa sem rosto claro. Sabes que está alguém à tua frente, sentes a sua presença, podes até sentir proximidade, atracção, confiança, inquietação ou a estranha sensação de a conheceres, mas o rosto continua indefinido. O Mensageiro da ligação vem quando a minha atenção está virada para a outra pessoa e para a forma como estou com ela. Pode ser um parceiro actual, um amor passado, um amigo, um familiar, alguém que estou apenas a começar a conhecer, ou alguém que o sonho cria sem identidade concreta. O importante é o que acontece entre nós. Nos sonhos, pelos vistos, também as relações têm direito a perfis anónimos.
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Escolheste o labirinto. Vês os caminhos, sabes que algures há uma saída e provavelmente já experimentaste várias direcções. Uma acabou num beco sem saída, a segunda levou-te quase de volta ao ponto de partida, a terceira parece promissora até que de repente vira para um lugar suspeitosamente parecido com o primeiro. O Mensageiro da procura vem quando sei mais ou menos o que quero, mas ainda não encontrei a maneira de lá chegar. O objectivo pode estar completamente claro: um trabalho novo, mais rendimentos, a solução de um problema complicado, o desenvolvimento de um projecto, uma saída de uma situação embrulhada ou uma forma de mudar algo na minha vida. A parte difícil é aquele pequeno e incómodo «como».
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Escolheste a floresta. À tua volta há muitas árvores, sombras, direcções possíveis e desconhecido suficiente para a razão pedir um mapa, uma bússola e provavelmente alguém da câmara que confirme o percurso. E, no entanto, há um trilho iluminado e o teu olhar volta a ele. O Mensageiro da intuição vem quando ainda não tenho todos os factos, mas já tenho uma sensação que se repete com teimosia. Não consigo explicá-la por completo, não tenho provas para uma conclusão definitiva, mas algo em mim reage da mesma maneira sempre que volto a certa pessoa, a um lugar, a uma ideia ou a uma situação.
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Escolheste o relógio parado. Os ponteiros ficaram numa hora, como se o tempo tivesse continuado em todo o lado enquanto uma parte da tua história ainda guarda a sua própria data. O Mensageiro do passado vem quando algo que aconteceu antes continua a participar na forma como vivo hoje. Pode ser uma separação, uma decisão, uma possibilidade perdida, uma promessa, uma história de família, um erro, um sucesso, uma perda ou um período que terminou há muito pelo calendário, mas que deixou atrás de si uma regra, uma expectativa ou uma conclusão. O relógio parou, eu continuei, e o momento antigo continua claramente a ter um passe de serviço para o presente.
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